sexta-feira, dezembro 26, 2003

Oh minha Amiga, devia ir morar mais vezes naquele lugar onde se perde, onde se gosta de perder, onde, disse, se pode perder, que felicidade Amiga ter um sítio onde se pode perder, já eu, ando sempre perdido, qualquer sítio é um sítio perdido, não desta terra, deste lugar, mas de um outro tempo, um outro sentir. Há contudo sítios mágicos, que já o eram ou que nós outrora os tornámos mágicos, sendo aqui a magia, os enlaces emocionais com que enlaçamos esses sítios, tipo fina teia invisível que os envolve, lhes dá uma outra qualidade, um outro sentir, os aura com espaços de harmonias atemporais. As emoções que lá criamos como puras formas de desejo evoluem no ar, ai passam a residir, outras expandem-se infinitamente a partir desse mesmo centro e que bem nos acolhem em cada novo chegar. È o mesmo ao contrário, há sítios que nós sujamos, há casas que são frias ao viver, mesmo quando lá estamos todos os dias, casas como que impessoais, onde não estamos estando e mesmo que se mudasse todos os móveis, ficaria sempre ausente o recheio.

Eu sei
Pezinhos para chupar
Dedinho a dedinho
À Beira Mar
Eu água do mar
Em Remoinho
A Te Apanhar

Remoinho em Mim
De Ti para Mim
De Mim para Ti
No Eterno Lá
Sem cá

Agua Santa
Riso Santo
Na Espuma
Do Mar





sabe o que eu gosto muito em si? você gosta de mulher, do corpo de uma mulher
gosto sim
é redondinho
Porque é que é que gosta muito?
Parece-me coisa normal
Porque há homens que não gostam do corpo da mulher
corpo é para se gostar
usam o corpo dela, mas não saboreiam, não usufruem
creio que todos lá no fundo gostam
todos lá viveram um dia
andam alguns disso esquecidos
ou algo os assustou
há mulheres também que não gostam dos corpos..
É geralmente isso que os assustou
pois há
percebo-te
mas sabes importante mesmo
é que saborear e usufruir
é acto a dois ou três ou seja lá como for, mas é sempre acto partilhado
não se pode fazer sozinho
tem que ser uma comum vontade
é gostar do cheiro, do toque, do sabor, da textura, é gostar de dar prazer
um mesmo desejo
isso
de resto não vale mesmo a pena, acho eu para mim mesmo


Como agua te cheiro
Entre rios das tuas pernas
Vejo seu grau de maresia
E o mel
Que das
Montanha irá escorrer
Oh como é bom
Fazê-lo escorrer




Oh, queridíssima, se temos corpos se não para amá-los, para tocá-los, para usá-los como instrumento de prazer, oh queridíssima, como é bom criar prazer contigo e comigo, com os dois corpos num só enorme pateo de brincar, quente enlaçar, doce sorrir, belo gargalhar, que corpo é sentir, só sentir, não é para usar, corpos não se usam, brincam-se. Corpos inventam as mais belas paisagens, são dínamos de amor, expelem ondas emocionais por sobe o tecido da terra, alegram e encantam quem vai a passar, são exilir de vida, o mais doce remédio da juventude eterna Oh queridíssima que no corpo reside o espírito, o meu e o teu a se encantarem no seu encontro, fazem florir como reflectir a mesma alma una e nua do mundo, aquela que sofre muito, muito, pelos desencontros de todos os seus irmãos. Aqueles que assustam ou assustaram alguns, ao ver que a aparente regra, que é aparente no sentido em que não é a verdadeira regra, mas mesmo assim, parece ser no mundo aos olhos de alguns, a regra, não é a do encontro, mas do ter, não do todo da coisa que se casa no amor, mas de uma só pequenina parte, como uma auto amputação por mim pré definida e eu burrinho a definhar, as rosas a não florir, o seu cheiro a não passear.

Oh queridíssima, a harmonia do todo, do todo inteiro, de um todo inteiro que já nos transcendeu, nos fez ultrapassar o limite dos nossos próprios corpos, aquele que pertençe a cada um, eu , tu, eutu, todos inteiros, nus um perante o outro, sem nada a esconder, sem nada a querer esquecer, todos presentes a inventar, a inventar o Amor. Encontro de verdades verdadeiras, verdadinha, puro imenso templo, a mais fecunda terra, a mais forte semente que se gera do confi ar, como um leve ar, não ter nada a perder nem a ganhar, só mesmo a encontrar, um com Ar em que se pode voar, hélice súbita, imensa que todo o mundo no instante faz voltear, novas paisagens de silêncios harmonias, setas felizes em alvos ausentes, quente quentinho como belo colo de mãe, um céu imenso para pintar.

Oh queridíssima, que a única regra no amor dos corpos dos espíritos e da Alma é não fazer mal a ninguém e depois é tão bom brincar com o corpo

quinta-feira, dezembro 25, 2003

Chegou-me como quem não quer a coisa e perguntou-me, não existe feminino de Ídolo, pois não. Pausei um instante na pergunta e respondi-lhe, sim, e sabes porquê? Porque só existe um sexo e depois, um Ídolo para ser Ídolo reúne em si, sempre mais do que uma das suas múltiplas expressões
Oh doce encontro do não querer projectado, só o encontro de encontrar, de deparar num mesmo momento todo um só mesmo coração, num breve olhar, num pestanejar, eu sei lá…
Que o Fogo do Espírito Santo
Venha sobre a Terra
A Entorne e Abrace

Que o Fogo Santo
Tudo purifique
Todo o Roubo e o Crime
E os que Julgam

Etsen osicerp otnemom
me euq sêl otsi

terça-feira, dezembro 23, 2003

Querida, há uma lógica interna que não ó é, é simultaneamente externa, pois não há diferença entre os dois, essa lógica é passível de ser encontrada, quebrando os múltiplos pensamentos que nos fazem, quase a cada segundo, cada pulsar, bailar a nossa cabeça, assim parece-me ser necessário quebrar os caleidoscópios, para encontrar aquilo a que chamas lógica, e encontrar o pensamento parado, que se esconde por detrás da múltipla reflexão, imagem pura no meio dos três glaciares imóveis. Como se quebram os pensamentos, isolando-Os, pensando-Os, compreendendo-Os e integrando-Os para depois deles nos "livramo-mo-Nús" e encontrar o único que afinal é um mesmo


A imagem pura dos três casais, dos seis corpos
Enrolados em si, contra contra o mi de uma parede escura, que desenhava o corredor
Diálogos intermitentes

Procurando energia?
A energia não se procura
Simplesmente está
Em todo o lado
Por toda a parte
Existe em todas as formas
Feitios e cores
A energia não se preocupa
Que a gente a Busque
A energia Dá-se

Nas Horas
Em que se Sabe
Encontrá-la
Já reparaste quantos pensamentos se pensam dentro da cabeça a cada instante?

Já sentiste a enorme dificuldade em parar aquilo que parece um infinito carrossel, do qual muitas vezes suspeitamos que não haja um condutor, tal é a sua errância?

Já reparaste como o próprio corpo, os encadeia, quando sentados a olhar-mo-nos, o joelho cansado, ou o que for, nós surge no pensamento a reclamar sobre a dor da quietude em que o pusemos e dessa forma se torna ele próprio pensamento que interrompe o que na tela estava projectado?

Já reparaste quando sentado olho para dentro de mim, que o filme que projecto na minha tela é feito de múltiplos e consecutivos curtíssimos planos montados, que pela sua breve duração só restam como impressão quase subliminar?

Já reparaste com os aparentes sons externos, os movimentos, nos atraem os pensamentos, os fazem bailar nas sequências em que eles próprios se encadeiam

Já reparas-te que muitas dessas imagens, fragmentos, esparsos instantes, vieram de fora de ti, como quando caminhas entre odores, entre homens ou nas flores?

segunda-feira, dezembro 22, 2003

Eu venho de uma escolinha, onde a educação recebida estruturava-se em princípios básicos, como o descobrir qual a nossa vontade e aprender a sua concretização, num processo de auto responsabilização. Bem sei que isto pode parecer estranho aos olhos dos que pensam que as crianças não estão aptas para “carregar” as responsabilidades das suas escolhas, ou então que as suas vontades, não são ainda bem, como costumo ouvir, vontades, e que elas devem ser conduzidas pelas vontades alheias, ou que uma escolha é sempre um fardo e que tal fardo será pesado demais para seus pequenos ombros. Eu prefiro pensar que as crianças devem ser envolvidas no Amor, e que o Amor é sempre um Encontro de Vontades, não uma baixa ou alta manipulação ou cerceamento da vontade alheia, do outro, e depois a criança, na sua vontade não sente as escolhas como fardo, que geralmente quem assim o sente são os adultos, ao caminharem todos os dias para aquilo que entretanto decidiram ser as suas rotinas, de que sempre se queixam, mas que na maior parte das vezes não alteram, preferindo ficar numa eterna brincadeira de mau gosto, que acaba por ser muito parecida a um colinho aparentemente quentinho de vontade apodrecida. Um atitude adulta profundamente infantil, no mau sentido, aquele de que é bom poder sempre queixar-me que a vida não presta, ou o trabalho também não, pondo no alheio, como quem diz, no externo a mim, a causa dos nossos próprios males sentidos, irra, caramba que esta vida é feia, é triste, mas eu não sou culpado por assim ela ser, o que não deixa de ser meia verdade, porque as coisas já estão escangalhadas há muito tempo, mesmo antes de eu começar a trabalhar. Contudo a minha Vontade é infinita, o Mundo também, o espaço e o tempo e as minhas mãos, o meu coração e os meus pés, são as minhas ferramentas, o Mar da Vida é imenso, e as minhas rotas desejadas, que eu invento para me aquecer, alternativas ao que eu sinto como frio, expandem-se nos trópicos infinitos das suas possíveis concretizações.

domingo, dezembro 21, 2003

Bem-vindo Amado Sol
Que a Tua Luz
Se Faça Toda A Luz
Que A Tua Luz
Seja A Nossa Luz
Que Aquece O frio
Que Irradia o Quente
formulas mágicas para viajar à distância

Quatro palavras cristalizam o espírito no espaço da força

No sexto mês repentinamente se vê voar a neve branca

Á terceira vigília vê-se, ofuscante brilhar o disco do Sol

Sopra na água o vento suave

Peregrinando no céu, come-se a força-espírito do receptivo

E o segredo mais profundo ainda do segredo

O país que não fica em parte alguma é a pátria verdadeira

LU DSU

sexta-feira, dezembro 19, 2003

alguém me pode ajudar?
questão
tenho um ficheiro audio em wma
armazendo no meu pc
como fazer link dele para o blog, se é que isto é possivel

Obrigados antecipados
De onde vem os meus bebés?

Como nasce a vida
Qual é seu ponto zero
Quando minha mãe e meu pai me fez
Quando te dou o primeiro beijo
Quando faço amor contigo pela primeira vez
Quando faço amor contigo sem já contar
Quando frequentamos um programa de fertilidade
Quando decidimos os dois fazê-los
Quando não decidimos fazê-los
Com os corpos
Mas in vitrio
Quando um acidente é feito
Quando um engano acontece
Quando o espermatozóide penetra o óvulo
Quando a primeira divisão da célula acontece
Aos 14 meses de um feto
Contido no Universo do Corpo
Da sua mãe
Contida no Uni Verso
O Amor

E da sobrevivência
Ou da vivência
É o curso superior
É o ordenado certo
Para toda a vida
A falta do quarto a mais
Uma carreira a ascender
A falta de Tempo
As doenças
um invisível vírus a passar
A fome
A indiferença
O Sol
O Amor

E da morte

Quem decide sobre o acto de morrer
Eu próprio
Eu pai e tu mãe
Só tu mãe
Que não o queres ser
E hoje não serás
Ou não queres e serás
Outro alguém
Que de carro se estampou
Na minha barriga Cheia
Em Cheio
Um conselho de médicos
Num tribunal de morte cerebral
O destino
Um julgamento e uma cadeira eléctrica
Ou o bebé que decide morrer
Nos primeiros 7 únicos segundos da sua
Vida cá fora

Quem decide do meu corpo
Quem manda nele
Eu
Tu
Outro
A Luz
A Vida
A Morte
O Amor

de quem é o novo corpo
que nasce ou não nasce
meu
teu
dele
Do Amor

de quem é a Alma
que o imagina
de quem é o espirito
que nele se senta

quinta-feira, dezembro 18, 2003

Isto vem de baixo (tipo continuação da Mafaldinha)

Contudo a questão, uma pergunta que chega ou um beijo ao passar é sempre relacional e parece-me que a Mafaldinha tinha uma certa razão em se afastar aborrecida, que era afinal o único gesto possível, no contexto de dois adultos seus pais que ao discutirem entre eles a pergunta inicial, se esqueceram dela.

Parece-me a mim que é sempre possível dar uma resposta no momento da pergunta, mesmo quando não a sabemos, é como começar a desenhar o pensamento no altar do mundo, sem qualquer tipo de quadro à vista, ou mesmo sem giz, e depois se há coragem para isso, que é só outra forma de dizer, se não pretender ter uma posição de falsa sabedoria a manter, então posso abrir as asas e voar na procura da pergunta, e curioso mesmo, é que se contigo voar na pergunta que me fazes, é meio caminho andado comigo e contigo para a encontrar.

Eu faço um risco, e depois tu acrescentas um rabisco e no final temos um desenho todo inteiro.


E o que importa mesmo é partilhar aquilo que se sabe e aquilo que não se sabe e depois quando uma pergunta me chega há sempre uma razão para ser essa mesma, mesmo quando não percebo logo, a sua razão. Dito de outra maneira, se me chega esta, é porque não me chegou outra e se assim simples o é, alguma razão comigo, terá que lá estar, na pergunta que o alheio de mim me põe e com um trato gentil, um bocadinho de paciência, muito sentir e pensar, até a consigo na maior parte das vezes a in teligir contigo.

Recordo na minha infância algo que sempre me intrigava e que foi ao princípio, como que uma sensação de que os adultos de repente, no meio de uma conversa qualquer na qual eu estava presente, como por passe de mágica, geralmente despoletado por um evidente a meus olhos, olhar triangular, mudavam o tom, como quem diz o desciam, ou as palavras que passavam a utilizar eram mais esdrúxulas aos meu limitados ouvidos, como se pensassem ao chegar a determinados assuntos, que falando de outra maneira, era como de repente eu deixasse de lá estar, a conversa passasse a ser tipo uma cifra cifrada ao meu entender.

E assim era, cada vez que via tal acontecer, logo se arredondavam mais as minhas orelhas para melhor ouvir numa escuta ainda mais atenta do que a habitual.

Mas as conversas não são só palavras, aliás se me limitar a ouvi-las estarei a cegar-me a todo um conjunto de informação que é na maior parte das vezes mais importante, certeiro e clarificador que as próprias palavras e mesmo que eu não saiba ainda reconhecer algumas, o que resta relativamente a elas é uma curiosidade reforçada e nascente, um bocadinho como na história do fruto proibido, quando mais se o proíbe, maior é a tentação que se gera para o alcançar. E depois, mesmo que eu criança, não consiga descodificar algumas das palavras que oiço, coisa aliás que me acontece quase todos os dias em adulto, tinha uma vantagem relativamente aos adultos, como todas as crianças que ainda não o esqueceram. É que as conversas têm corpo e pele, cheiro, temperatura e paladar e sentimentos. Os olhares, os ombros, as mãos, o movimento do rosto conversam mil palavras numa mesma palavra. As próprias palavras são aquáticas, aéreas, gasosas ou sólidas, secas, às vezes pegam mesmo fogo, outras fazem chover no molhado.

Eupeu espestoupou muipuitopo conpentenpentepe
Lembro-me da Mafaldinha a perguntar às páginas tantas a seus pais se eles tinham ou não decidido e planeado o seu nascimento. Na vinheta seguinte, seus pais embrenhavam-se numa daquelas discussões que parecem sem fim e a Mafaldinha aborrecida no esquecimento deles por ela, retirava-se de cena, sem que o seu pedido de resposta tivesse aparente eco.

Será? Será que uma discussão em que outros dois se envolvem deixando-nos de fora não é por si só uma resposta. Se pensar bem é até uma grande resposta, que me permitiu em primeira instância determinar para mim mesmo o peso específico da “minha própria” pergunta, ao ver que ele ressoa de forma irregular noutro, como quem diz estendida em seus ângulos quebrados, ainda não arredondados na mútua compreensão (fiat lux) entre as aparentes partes (eu e tu), a pergunta e a resposta, que é o que acontece quando se busca por uma resposta à volta de uma pergunta.

Depois estendendo o pensamento no seu varal, permite-me saber se os interlocutores praticam a des arte do diálogo ou a arte da conversação, pois entre estas duas palavras
que são também duas práticas está a diferença entre chegar ou não chegar às respostas.

É bom relembrar que o prefixo, dia, (no) logo quer dizer divisão e é o que geralmente acontece no diálogo onde as partes estão mais interessadas em ouvir o seu próprio eginho e suas opiniõeszinhas, mesmo que não saibam verdadeiramente quais são, por variadas razões, como por exemplo, há muito não reflectir sobre a questão que está em cima da mesa, ou ainda não ter a sua própria resposta e portanto recorrer a um qualquer manual alheio, comprado em alheio olhar. Diálogo costuma ser tipo marcar pontos num qualquer jogo imaginário, mostrar à audiência, que sou melhor ao mais inteligente do que o parceiro, que nem mais é parceiro, pois esse mecanismo costuma determinar o outro, mais como oponente adversário do que parceiro, algo a derrotar, algo a esmagar para eu me poder afirmar, como se esmagar algo ou alguém fosse algo que me torna mais vivo e maior. Bem pelo contrário, esmago-me sempre um pouco quando esmago outrem.

E que interesse tem tal mecânica dialogativa (palavra do meu dicionário privado, como muitas outras, senão mesmo todas)? Sai algum de nós, eu, ele ou os outros com algum conhecimento acrescido? Faz-se o Saber, partilhado? Geralmente não, pois é. Alias como tal seria possível, se aquilo que nos leva a conversar à volta de uma pergunta é por um lado, algo que naquele momento é comum aos dois, e por outro a necessidade de completar um puzzle que antes de mais é meu e depois nosso, pois se tivesse todas as pecinhas para que precisaria eu do diálogo externo?

E depois se eu não te escuto para que falar-te?
E depois se eu não me escuto, de que te posso falar?

Já conversar é outra conversa. Na minha gramática inventada por mim conversar é palavra filha de com versejar. Com de, Contigo conversar e trazer à mesa o Com, que é como quem diz, o meu ponto de vista , o teu e de preferência os outros também. Para quê? Para com por o verso único, versejar, aprender com o teu e com o meu, completar o puzzle, ver a coisa Una, ou seja harmonizar todos os seus contrários que sempre bailam no Grande Verso do Ser.

Com versejar de mãos dadas e dessa foram do dois fazer o um.

segunda-feira, dezembro 15, 2003

Vououuuu, vouuuuuu, vouuuuuu

A cada um o cada seu
A nenhum Seu
O não Seu Cada

Que os chapéus
Três vezes
Volteiam no Ar
Que Tudo Encanta

E Assim

Encontrem seus donos
E tornem direitos
Seu mútuo
Aconchegar

Vououuuu, vouuuuuu, vouuuuuu

domingo, dezembro 14, 2003

Os bichinhos de contar vieram ver-me ao jardim zoológico, Oh , antes de mais como gostei de vocês, como maravilhado me fizeram.O primeiro a chagar foi o zangão, depois o bichinho de conta by her self, a seu lado o besouro buzz e depois a libelinha de pertinho. Ah como os vossos nomes são transparentes, bem vindos à minha casa e já que são bichinhos de bons hábitos, amantes de coisas prazenteiras como chás e festas, pois convidem-me para um chá que eu irei com muito gosto e lá iremos trocar o que aprouver. Só tem uma condição, relembrar e fazer actuar aquela velha regra de meninice, que é basicamente, deixamos todos os canivetes , as fisgas e as pedrinhas na mesa ao entrar, está Bem?
Da física dos pássaros

A matriz do tempo é mesmo só a matriz de cada momento, sendo que os momentos se encadeiam uns nos outros e para a agravar a confusão ao nosso Olhar, podem e fazem-se deslocar eles próprios connosco, nas infinitas variações sobre o eixo central do tempo, aquele, onde o próprio tempo está parado, assim acedem a outros mundos, que geralmente não vemos ao nosso andar, mas tão reais como este nosso.

E depois irmãos pássaros, desculpem lá qualquer coisinha, por vos trazer até vós a realidade, que ela é verdadeiramente como só eu que a vejo, diria mesmo que a realidade é um assunto íntimo, múltiplo segredo de amores diversos, passantes e a passar. Esta complexidade com que Ela me Aparece, não foi eu que a inventei, já cá estava quando vi a este mundo no qual agora me encontro.

Se a palavra é um sistema energético como qualquer outro, então toda a mecânica do U Ni Verso terá que estar lá contida. Não precisarei portanto de nenhum outro instrumento que me faça maior do que Sou, extensível de Mim para uma qualquer absurda não-realidade, pois a realidade que vejo e tomo com garfo ou aos copos do olhar, é feita à minha medida.

Bastar-me-ão os meus próprios sentidos para sentir essa mecânica. Mas isto, sou eu só a pensar uma palavra, que ainda não sei qual é e portanto é mais correcto dizer sou só eu e uma palavra que me pensa, como num sonho ao luar, lua branca luminosa, reflexo de luar na água e aquele preciso marulhar, suave, suavíssimo de algumas noites do nosso eterno verão no eterno vai e vem.

E sentir não é pensar, sentir é, in telegir, Ver a ordem da coisa que ali está naquele preciso momento, a ordem como quem diz, a sua natureza e intenção, quantas das vezes ocultadas pelas suas vestes, múltiplas vestes, tanto tentar de tapar ao nosso olhar, aquilo que não pode ser tapado, para além da ilusão de todas as formas, a coisa Nua e não crua, como alguns dizem, mas Nua e Doce, como Qualquer Coisa Toda Nua, Foco de Luz que irradia, Luz a Faiscar e Tudo, mas, Tudo se torna Uno outra vez.

Chuuuuu, chuuu, chuuuuuu, chuuuuuuu, como baixinho sopro a embalar

sábado, dezembro 13, 2003

há alguma outra coisa para falar, a falar de importante do que não ser da imagem, afinal tudo aparenta ser uma imagem, num caos de múltiplas outras imagens, umas fugidias na sua rapidez como um carro a passar ao olhar mas cujo motor violentamente se me emprenhou em meu corpo e todo o meu sentir, às orelhas estridente. Outras lentas, quase que provavelmente paradas e quietas, feitas eterno momento, quando contigo me deito na almofada, a tua cara a não mais de um palmo do meu nariz, e doce surpresa, vejo em teus olhos todos o amor espelhado feito ternura toda inteira do mundo, a derreter o mundo, a espelhar no mundo o nosso céu quando assim me vejo reflectido em teu olhar, e tu em mim, no meu olhar, uma súbita calma, uma súbito acalmar somos súbito lago parado, onde as outras imagens não dançam mais, se aquietaram, desvaneceram-se e todas as imagens de cores feias se deslavam
no tempo eterno do eterno retorno

Ah perdão Bela Princesa
Por seu maço roubar
Se ao menos Seu coração fosse
Coisa que Eu não Sei Roubar
Coisa mesmo
a meu ver
impossível

Como eu estremeceria no Instante
Perante
Tal mútuo desejar
Assim Guardaríamos os Dois
Essa Bela
Única
Imagem
Doce
Do Instante
Puro
Puríssimo
Branco Jorrante
Todo Feito Deleite
No Instante
Desse Mesmo Olhar


quarta-feira, dezembro 10, 2003

Um coração debaixo das estrelas e eu sou como o caracol ao Beijar

E como beija o Caracol ?

Não te recordas?



Leento e prazenteeeeiro



Quatro imagens Que me falaram

A primeira era janela límpida entre o dentro e o fora
A Mesma Imagem via-se de um Lado ou de Outro
E quando Isso Acontece Está-se Num Mesmo Lado


A segunda foi quebrada pela Morte do Lá de Fora
Cristalizou o Olhar
De Dentro
No Fora
Só se Viam
Como Sombras
Ao Passar


Só se pode ver para dentro
É preciso ver para dentro
Para Re-Encontrar de Novo
No Dentro
O Fora



A terceira foi a Fenda a Aparecer
Perfeita Vesica Piscis central
A Olhar
Sexo Perfeito do Parto
Novo
Seio Anunciante do Novo
Quente Tempo

A quarta Foi a Alegria
A Estilhaçar
O grande Cristal Baço
Porque fragmentado
Numa infinita miríade
De pequenos cristais
Todos Imóveis
Por isso
Capazes de Reflectir



Tal foi a sua forma de rachar

Imóvel
Ao Fora
Numa Miríade
De pequenos cristais
Hoje espelhando
Reflexos do Amor
Do Riso Com que
Aconteceu
Em diversos Afortunados Bolsos
De quem Neles Viu
As Pombas a Passar
Vão Correr U Ni verso
O Uno Verso
Num Acto
De Amor

Pequenos Cristais
No Espaço
Lembranças de Amor
Poalhas de Luz
A Voar
E Tudo
Iluminar
E Que o Céu
Desça de Novo
À Terra
Donde Nunca
Saiu

Trús Trús Trús
A Luz
A Brilhar
A todos
Alu
Mi
Ar
Vê a Palavra Voar
E Ela
Voa
Vê Qual Dizes
Vê Sobretudo
Como a Dizes
O limite do corpo

O limite do Corpo
São Arredondados
Redondos Vocábulos

O limite do Corpo
Não são frias
Arestas
Nem são Esquinas
Para nos esquinar

segunda-feira, dezembro 08, 2003

Solve et coagula
(pensava eu de que não poderia pensar como acéfalo que sou, mas afinal aqui fica a segunda parte e respectivo epilogo)

Ni no ni , no ni ni, deixem passar os soldadinhos das belas penas de Pomba a correr, a voar, vão soprando o Fogo Sagrado que tudo irá dissolver

No largo do Poeta das Ilhas dos Amores, vi essas grandes cabeças às cabeçada umas contra as outras, como os carrinhos de choque da feira popular, pum, ca trá pum, ai, ai, dói, dói, (suavemente tipo turrinhas neste caso não amorosas mas sem verdadeiro dói-doi, que isso não se deseja a ninguém), que eu já não sei da minha cabeça, já não sei quem sou, onde estou e que faço aqui, para que servem socialmente as cabecinhas (banda sonora, A Desfolhada)

Desfiavam- se todos , como folhas de um final de Outono, e tentavam ler na escrita apagada, o que faziam neste mundo, justificando para fora o impossível, pois o único possível é mesmo para dentro de cada um.

Alguns, aportaram na bloglândia de todos nós, acompanhados de impressivas laudas sobre a sua função e desidério e com um nome muito curioso, entendendo aqui o curioso, como uma coisa que é muito transparente, como geralmente diga-se em passagem rápida, todos os nomes são. Não me recordo porém na exactidão se é nome de restaurante que serve cabeças Causa Nostra ou apendicite de causas nostras mais sinistras, que todos recordamos. Seria cosanostra, ou ainda que coisa é a nossa?

Segundo uma mosca me contou, reuniram-se todos num jantar a comer caviar e então dias a fios a discutirem, que aqui se recorda, que discutir não é o mesmo que Falar, suas cabeças maiores se tornaram, e seus corações sofreram de abuso de colesterol. Por fim concluíram, então vamos à causa, porque agora que existem estas tecnologias, onde cada acéfalo pode exprimir o que lhe vai no pé, arriscamos o nosso poder e os empregos. Imaginem lá, sem ré nem dó, se as pessoas deixam de comprar as nossas colunas de jornais e deixam de vir pedir as assinaturas nos nossos papéis. Uhhhhh, gritaram perante o susto que então apanharam, as gordas cabecinhas. Como fazemos, como começamos, bem, primeiro cada um faz um texto de apresentação e do que se propõem falar, que os acéfalos, no entender deles, não os conhecem.

Epilogo

Bem vindas Cabecinhas Intelectuais ao Mundo dos Acéfalos dos Grandes Corações, que a escrita vos seja o espelho próprio da Alma, como a mim. Vós são e sempre serão meus Irmãos e eu não gosto, nem vós desejo nenhum mal, como aliás a nada que exista, porque Toda a Vida é Sagrada, e não me tentem confundir a olhos eventualmente mais distraídos, que quer só dizer que andam a ver outras coisas, com Gobells, aquele que quando ouvia falar de cultura, dizia-se que puxava da pistola.
Todo o conhecimento é para aproveitar e explorar, mas mais que conhecer, é Saber, e tal acontece quando nosso próprio Coração sabe do nosso próprio Pé e do Sapato que o Calça.

Pois bem vindos como tudo e todos, que eu ninguém quero excluir, pois a casa que é a mesma tem que dar para todos e que o chapéu entre na cabeça de quem lhe serve, como alias sempre se diz. Bem vindos Irmãos e bons escritos com vossos corações nas grandes cabeças que tem.

Ni no ni , no ni ni, deixam passar os soldadinhos das belas penas de Pomba a voar, vão soprando o Fogo Sagrado na sua Irmã Agua que tudo dissolve

domingo, dezembro 07, 2003

Há um Bairro da Minha Cidade
Que é o Meu sem o Ser
Onde o Arquitecto
Invisível
Seduzido pela Luz
Do Rio- Mar
Que Se Estendia
A Seus Pés
No Alto daquela Colina
Onde o Rio do Oriente
Desagua no Mar Ocidental

Nesse
Instante
De Primavera
Outrora
A Fogo e Água
Imprimiu
Esse Eterno Vento
Do Eterno Passar
Em Todo o Futuro
Que Havia de Vir
Visão de Lisboa em princípios de Dezembro de 2003

Ni no ni, ni no ni, ni no ni, abram alas que nós os acéfalos, estamos vendo o fogo purificador que tudo dissolve a rastilhar toda a minha cidade que é do tamanho do Mundo Todo. Deixam passar os carros de bombeiros de brincar que estão a fingir que os vão apagar, pois é de brincar que se trata, eles a sério no seu brincar, acéfalos como nós deleitam-se na chegada do Novo Tempo.

Os primeiros bonecos de palha neste fingir a arder, são os que têm cabeças e que pomposamente se chamam e são chamados de intelectuais, vêem-se ao longe porque se movem sempre de lentinho, não por possuírem a sensibilidade de não magoar as flores, como quando por exemplo se lhes espirra de perto ao por elas passar, mas pesados de referência e memorias alheias, mais outras alheias e ainda mais outras, tantas, que nem vêem o próprio pé, por isso caminham devagar, embora talvez seja mais correcto dizer, que não se movem, estão como parados mortos vivos no meio das suas vidas.

São pesados, ao que consta andam sempre cheios de livros alheios nos fundos dos bolos e a agravar seu peso levam os pequeninos que eles próprios escreveram, e este, eles próprios é toda uma outra a história a ser bem contada, mas que agora não vai aqui caber, e talvez seja desejada para outras núpcias. Dito isto e passando à frente, a ideia nuclear que aqui quero expressar é, quem têm muito peso não anda, não voa, não faz de vela que move o barco comum, etc e tal.

Mas contudo, o problema prático, no sentido em que nos afecta a todos os que aqui vivemos, é que esses meninos estiveram e estão instalados nas cadeiras comunicantes, que é outra forma de dizer, nalguns dos púlpitos de hoje e basicamente para reduzir caminho, que esta visão já se afigura de negritude neste ponto da sua narrativa, pois, quem não vive, comunica o quê? A morte, só pode, não é?

Mas é da Morte Séria, daquela que se Morre Mesmo, porque há alguns que Morrem Verdadeiramente, há para alguns, ainda, infelizmente, uma morte real, não aquela do doce morrer em vida, na própria vida, aquela que está casada com a própria vida e que por isso não existe, autonomamente dela, Quanto muito teria que lhe chamar vida e morte ou então pôr um travessão a ligar as duas que são uma mesma, Vida-Morte.

Contudo o pequeno grande pormenor, como lhe chamam os bichinhos, é que tal visão, não deixa como qualquer outra, de ter repercussões no chamado real quotidiano, por assim suavemente dizer, muito infecundas, e quando as coisas são infecundas, não fundem, não fazem nascer o novo, o almejado, estão a ver a correspondente imagem da sexualidade, coiso na coisa, ou coiso no coiso ou coisa na coisa, ou por debaixo das axilas, ou em cima de o dedo do pé, que segundo me consta e pelo que me é dado a perceber, acontece de infinitas maneiras, encaixe, pinote e Novo= pum, igual por exemplo a bebés cá fora no chamado real quotidiano que é o campo dos trabalhos humanos (esta parte e para ser interpretada a rir, se fazem favor).

Ni no ni , ni no, ni , deixem passar os soldadinhos da paz, alegres vão leves, a cantar e a rir, sempre a correr, o fogo na água a deitar, ni, non, ni, ni,no nó.

(continua no próximo episódio, espero eu de que)

sábado, dezembro 06, 2003

Imagens da Alma


Ah Queridíssima Marta
Eu ontem vi-te Emoldurada
No Teu silêncio Escutante
Parada no Silêncio
Atento Aberto
Na Ombreia da Porta
Como Centro
Entre Os Dois
Pilares

Ah Queridíssima Marta
Ontem Tuas Palavras
Saíam dos Lábios
Como Poalha Luminosa

Língames de Fogo
Linhas Arredondadas
Elipses que se Entrelaçavam
Como Serpentes
Como Chama de Fogo
A Dançar

Doce Magia




Tu Que Leste
O Anverso
Que afinal
É o Próprio Verso
Doce são meus olhos
Disses-te

Oh Queridíssima Marta
Não são Doces meus Olhos
O que é Doce
É o Próprio Olhar

Aquele que Reflecte o Teu
Aquilo que Ele vê
Meus Olhos
Parecem-te Doces
Porque Neles Conheces a Ternura
Porque Neles Te Vês Doce
E Nesta Troca Muito Doce
Mais Doces Tornamos
Num
Um
Mesmo Olhar



Dissolve-se O Dois
E Aparece o Três

Vemos a Mesma Coisa
Dois Pares de Olhos
Que se Tornam Par
E O Mundo Uno
Pelo Mesmo Olhar

Oh Queridíssima Marta
Teus Olhos eram Todos
A Busca da Ternura
Teu Corpo Mexia-se
Todo Inteiro
Uma Suave Quente
Infinita Ternura
A Bailar
No Uno Mundo

Ai, ai, oé ,ohhhh, eaaa, eaaaa, eoooo

Só vim agora aqui
Agradecer
A Querida conspiração
De Toda a Luz
Só vim agora aqui
Agradecer todos os sinais
Só vim agora aqui
Agradecer
Todos os Abraços
Dos Braços
Que me têm
Abraçado
Oh queridos
Do mesmo Coração

Ai, ai, oé ,ohhhh, eaaa, eaaaa, eoooo
Clip, clip fez de repente o vidro da janela da minha casa, quem é, sou eu o pássaro negro, olá belo animal, a quanto tempo não me vinhas visitar, pois é, tenho andado muito ocupado no meu voar, mas não, que mesmo nessa ocupação, vejo o voar alheio, pois bem folgo em sabe-lo, o que queres, um café, um chá, algo de bicar, não, não te incomodes oh pim, só queria perguntar se foste tu que escreves-te aquele post da tarde de verão, pois convocaste-me e aqui estou eu com uma pergunta no bico, sim foi eu, explica lá então o que queres dizer com… tentando saber os sórdidos pormenores do amor de seu corpo com seu Amigo, olha esperto pássaro negro, também eu que estava a olhar para os espelhos das minhas palavras, já me estava a interrogar nessa mesma frase, queres ajuda para pensar, sim, então embora lá, começo eu disse ele
São sórdidos os pormenores dos amores dos corpos?
Não não são, são geralmente de todas as cores que os corpos os inventarem, na escrita secreta única das suas peles, do seu sangue, mesmo quando feito no meio de qualquer praça pública, com gente a passar, um cofre secreto desses mesmos corpos do qual só eles têm a chave, a tinta e a caneta
Quando falas de todas as cores, poderá então ser o sórdido ou a coisa sórdida, ou algo sórdido também uma das suas cores?
(espaço, onde se vê o pensamento que me pensa a pensar-me, como uma respiração)
NÃO
Pois não pimpampum, foste tu que os tornaste sórdidos, pois eles eram segredos alheios, sagrados daqueles únicos corpos, como quem diz , por eles consagrados, e mesmo sabendo que todos os corpos são como corpinhos de um mesmo corpo, fios de prata de um mesmo luar, recorda-te sempre pimpampum, que o medo tem muitas caras mas a raiz é sempre a dor, e foi a dor que sentiste que te fez vê-los como sórdidos, e recorda-te também…não digas mais que eu concluo,- que a realidade sou eu que a faço, pois é, disse o pássaro negro e agora asa que se faz tarde.
Obrigado meu Amigo, volta sempre mais, deixa-me agradecer, de certeza que não queres bicar nada, não pimpampum, que eu bico onde quero, fazes bem, mas deixa-me beijar-te o bico, isso sim, que eu gosto, até a próxima se a houver e depois deixa lá essa cara de espanto, que já ontem e anteontem me tinhas visto a voar perto de ti, pois é, eu sei.

sexta-feira, dezembro 05, 2003

Oh viste como se pôs o céu hoje belo ao seu deitar, ao fundo da ponte da minha cidade, nuvens de todas as cores, de todas as formas, volumes distintos embora idênticos, a espelhar-nos na mesma terra e no mesmo céu, oh como foi belo hoje o seu deitar e eu aqui, coração, muito pequenino e frágil como todos as corações, por isso te digo, chega sempre a mim como suave brisa, não faças tremer a assustar os juncos ao passar
Olho e escuto em volta, todos a falar de limites, chegas e dizes, há um ponto do qual se não pode passar, mas que história é esta que o menino de mim não a reconhece, quem me faria algum dia acreditar que os elefantes grandes e pesados rosas não voassem nos céus, tudo dependia, como depende da imaginação e do seu concretizar, oh deixa-me pintar um céu irmão, no qual eu e tu assim o sejamos, oh deixa-me explicar-te que com pistola não, mesmo sabendo que a fome é o álibi da matança, então deixa-me descer ao mundo da imaginação concreta deste mundo onde agora estamos vivos, porque amanhã já se foi, perguntavas-me se estávamos a brincar na idade que temos, zangada com quem sente que perdeu o tempo, não, não, estamos a brincar, porque não há nada mais sério que a própria brincadeira, mas não sabemos ainda pintar essa cor no céu, porque se soubesse, te garantia, oh como o fazia, súbito, tramava-o, estamos reagido demais as vontades negras, só pode ser, só pode ser assim, ainda não sabemos como as expurgar, sem perder o riso, chave do cofre da imaginação, não num sentido exclusivo, porque não há mesmo nada exclusivo, mas da família dos quentes afectos, das caras quentes que nos falam, versus a as caras zangadas, as vozes metálicas, agastadas, os corpos frios, e meus irmãos que estão assim, vocês estão morrendo por dentro e por fora e é o sofrimento que vossas caras, vossas mãos expressam, como um secreto não secreto pedido de amor.

Para que, então tamanha baixa manipulação, grau básico de qualquer magia ao alcance de qualquer um, um tentativa de reter o irretivel, somos só grãos de areia de uma mesma só praia, que passam no buraco de qualquer mão por muito que ela os tente agarrar, sempre, sempre, a passar como caminhar, caminha caminha, grão de areia, não há nada para agarrar, não há nada que te agarre, só um grão no meio de muitos outros, como leve brisa a passar, não há memória, não há presente, só futuro a inventar. De que cores queres que te pinte aquela árvore e depois vamos brincar aos piratas. Eu sou o pirata do olho de cão, e tu inimigo de brincar, que é a mesma forma de só dizer, tu com o querer diferente que por ser diferente, nos permite bailar, como quem diz brincar, porque se fosse igual estaríamos parados, e se parados estivéssemos, nada havia a que brincar, então por que os quereres são diferentes, únicos e irrepetíveis, eu estou aqui no barco com a espada, e tu tens que conquistá-lo e de pois e depois, trocamos de papeis, ou inventamos um novo.

Sempre, sempre a mesma coisa, uma agressão que não é mais de que é um querer para se preocupar por qualquer coisa, um pré, antes de o ser, e se eu estou pré, como sou, onde estou, em lado nenhum, porque o pré acontece antes da ocupação, do agora, e o agora, é a casa do ser, sempre, sempre um desejo de exclusão, qualquer exclusão, eu e tu numa qualquer impossível ilha deserta, exclusão? O que é que se exclui, de que é que se exclui? É só medo a falar, morte do imaginar, como se eu e tu numa qualquer impossível ilha deserta, mais protegidos estivéssemos, contra o quê? A morte, morte e vida é a mesma coisa, morro em cada respiro, estranhas, mas olha e vê se não é assim, nem o consegues dizer mas eu escuto-te, lembra-te de quando caminhávamos nus a faiscar sobre o sol, o som ainda não tinha sido ceifado, era filho de um quadrado e de uma foice e seu nome secreto, silêncio, todas as pradarias eram o nosso andar, todas as nuvens algodão doce, o teu sorriso, a tua mão na minha, ou o simples lado a lado caminhar, era a fonte de todas as harmonias, e o espanto, o enorme espanto espantado ao infinito do nosso desejar, mas um espanto completo, de quem funda a realidade, queres a nuvem azul, pois eu que gosto do azul e de ti, assim o faço, que contente fico e como gosto de te fazer contente porque depois quando andamos contentes, estamos felizes, o riso é o nosso irmão parecido ao andar, e o que vejo nas ruas, caras de zombie, fantasmas que caminham, abnegados nos seus trajectos, seus? Ou de alguém que os desenhou. Gritos surdos que submergem os meus ouvidos.


Numa tarde de verão, como em todas as outras, no tempo antigo, como quem, diz jovens nos seus corpos, nus caminhavam pela casa nos entretantos do amor deles. Assim recebiam os Amigos ao entrar na porta que albergava seus corpos e seus corações.

Numa página qualquer, a Amiga desaparecera de vista de seu Amado, sem que ele se desse conta primeiro, porque de seguida despreocupado a foi buscando, primeiro à cozinha, depois pelos quartos, abrindo suas portas, até dar com seu corpo por debaixo de um outro, o de seu Amigo. Que a tenha visto não, porque o enlace dos seus corpos, a ele, a cara da sua Amada, ocultara. As arrecuas, fechou a porta com seu coração aos pulos como saindo de sua garganta, uma dor crescente dentro de seu peito prestes a explodir. Nesse instante, imaginou-a, sua cara, a dela, com o mesmo reflexo do prazer que habitualmente lhe via no enlace de seus corpos, como no momento anterior dessa mesma tarde, antes de seus Amigos chegarem. Deixou a Amiga do outro Amigo sozinha na sala, saiu para a rua e caminhando pôs-se a pensar.

O pássaro negro que ouvira o bater de seu coração desordenado poisou em seu ombro e para ele disse, queres conversar, sim pode ser, obrigado, que está difícil de acalmar tamanha perturbação e assim sem necessidade, pois o pássaro negro tudo sabia, contou-lhe o que se passara.

De seguida falou o pássaro que lhe disse. Já reparas-te que o que mais te perturbou foi o facto de imaginares, visto que não o viste, as expressões de prazer da tua Amada, como sendo as mesmas que contigo partilhava, sim é verdade, essa parece-me ser a raiz da dor, mas é um erro, vê lá melhor, pois se teu Amigo não és tu, mesmo sendo ela a mesma, como poderia a expressão do prazer dela ser igual aquela que nasce entre vós, o que viste sem ver, foi só o reconhecimento de que, a tua agora Amada pode ter prazer sem ser por ti, coisa elementar, como a vida, não teve ela já outros Amantes, antes de a ti oferecer como uma flor, também seu corpo, e não terá outros amanhã?

Agora esquece por um momento os corpos, não tem ela a tua Amada, outros prazeres para além dos que partilha contigo, não a faz o sol correr feliz no jardim, não faz um belo piropo de um olhar a sentir feliz de desejada? Não se sente ela feliz quando vê um corpo viril prenhe de energia ao passar que nela repara, como tu?

Sim é verdade o que dizes, e depois o corpo dela é teu? não, é dela sim, um belo corpo quem eu gosto tanto, pois como nós pássaros, se tem corpo, tem vontade e quem decide dela, quem é? É ela, achas que mesmo que quando ela tem o seu prazer daquilo que quer contigo, que às vezes é também o teu, fica cega a todos os outros desejos?

Os corpos não se estragam em seus amores, crescem neles, queres porventura, tu que a dizes Amá-la, cercear a sua vontade, queres porventura prendê-la como que estrangulando seus desejos e tornar-lhe dessa forma seu Mundo pequenino? Para quê? Para melhor a veres definhar e se ela definhar, o que crês que te acontece por tabela, falta de desejo por mim como já vi me acontecer, certo, e olha não é o Amor, também sinónimo da liberdade da coisa Amada, não trata bem o Amor a coisa Amada, que é como quem diz, lhe sopra as asas para melhor ela voar e soprar não é cortar, e depois recorda-te como os corpos ou as formas são breves passares, em que queres ficar então, na zanga da destruição ou no feliz estar, sabes disse por fim o pássaro, a única coisa que nos preocupa, a nós os pássaros, é o engano deliberado de nós mesmos ou de outrem, mas também não é este o caso e agora asas, que me tenho de ir.

Já vais, oh não fica mais um instante, para eu te perguntar algumas coisa mais, e a fidelidade como se lida com esta questão, fidelidade, respondeu o pássaro já a voar, é cada um determinar a sua própria medida, cada qual que responda a essa questão, ao que quer ser fiel e como o irá ser e depois que disso dê noticia a quem ache que vale a pena dar, que eu o pássaro feliz tenho a minha própria resposta, só quero ser fiel a mim mesmo, que é só outra forma de dizer, à Luz que me ilumina, à vida por ela criada, a liberdade de a viver e ao Amor com que a vivo de acordo com a minha própria vontade.

O Amante e sua Amante mais tarde pela noite adentro se encontraram, seu coração disparara de novo na ausência do pássaro negro, reza assim que ele lhe perguntou tentando saber os sórdidos pormenores do amor de seu corpo com seu Amigo, na sua ilusão de comparar o incomparável, ao que ela, sentido o seu coração começar a morrer, face a toda aquele abrupta inquisição, acabou por se render ao desejo das perguntas dele, enquanto secretamente em seu coração, nesse preciso momento a rosa começou a definhar, ele cego pela sua dor fez então amor de corpo com ela, descobrindo em si um violência que nunca sentira. Passado pouco tempo cada um caminhou em direcção distinta, e muitos, anos depois encontraram-se em amizade os três, disse então o seu Amigo, mas o que estavam à espera, a gente chegava a vossa casa e ela estava nua, ele reza que se bem que continue dele Amigo nunca percebeu aquele dizer, como se para ele fosse impossível que o desejo nascesse a partir da visão da nudez do corpo alheio, consta que para ele o desejo nascia de tudo como do nada, um breve olhar, um dedo a mexer, um pestanejar, um tom de voz, uma nuvem a passar, um cão a saltar e sei lá mais o que.

quinta-feira, dezembro 04, 2003

(Poema, antigo, tramado, a ser refeito, versão original.)


Contos da Lua Cheia


Vagas perdulárias de desejo
No espaço restrito de nós mesmos
Afogo-me em teu corpo
Afago-o
Distante
Ficando a meio caminho de mim
Sem encontrar a brincadeira de uma criança
Corpos semi sisudos
Na orla dos oceanos
Tão perto
Tão longe

A ausência dos teus beijos molhados
Como doce mel
Como doce fel
Cicuta-me
Sem as cascatas de teu sexo
Orvalhado
A cada vez que o despertei

As pontes estão velhas
Já não lhe passam os passos
O vazio do medo
A aranha tece a sua teia
Lua cheia
Talvez no meio dia
No meio da vida

A tristeza reflectia-se
Nos olhos
Sempre húmidos
Contido

As vagas na rebentação
Nas horas vagas
Já não se estendem nas areias
Como se um vidro frio
De permeio
As afastasse
Como se os desenhos
Já não fossem os mesmos
Os corpos
De puzzles diferentes

Ele roubou-lhe o destino
Vagueia nos limbos
Encontrando fogos-fátuos
Em qualquer lugar
Em universos distantes
Penando
O regresso ao futuro
Embalando os prismas da ilusão
Caleidoscópica
Refractanto cores invisuais

De que cor se pinta a dor

Uma guitarra ficou sem o lá
Quebrou-se
Estridente e surda
Como uma pedra no charco
Desafina

O coração dele pulsa-lhe
Nos ouvidos
Sobre almofadas solitárias
Ecoando, ecoando
Reverberações de angústia
Tal tam tam da existência
A recordarmo-nos que
Estamos paridos
Vivos em
Terceira dimensão

Tempos mexidos
De águas paradas
Que não movem moinhos
Pela ausência das velas e dos sopros

Levem-no lindos duendes e elfos
Deixem-me
Jazido por cima de uma cripta
Lancem-me o sortilégio
Deixem-no na quietude
Da poalha dos raios de luz

Será primevera
Haverá folhas verdes
Juncando o húmus

Deixem-me à espera de ouvir
O galope do cavalo branco
Que me traga a princesa Lorenin
E me beije a paz
E eu morra docemente

Meigamente
Com a resignação calma
Do pássaro
Que fugiu da gaiola

Dancem pequenos elfos
De mãos dadas em roda
Descuidem-se
Deixem chegar a maçã rosa
Com a minhoca pérfida
Sem ideia de maldição
Pois ainda não se terão
Inventado os símbolos

Será rosa a cor da tentação

Pousem as espadas
Deixam as setas
Silibar pelo éter
Uma se cravará
No velho castanheiro
O sangue
A seiva se escoará
O leão rugirá ao fundo
Antecipando os trovões

De que cor é o céu

Cristalizaremos
Com o açúcar da resina
Parecendo doces
Guarda chuva
Caramelos
Cristais de cor
Cuja luz será
Chamariz

Virão então os pássaros
Pousar nos silêncios
Construindo lugares de inocência
A que talvez venham a chamar Amor
Não percebo bem isto, afinal parece-me que no meu país ninguém se anda a deitar, mas os hotéis continuam por cima a aparecer, agora é o botânico, que segundo reza tem vista para três estrelas na Avenida da Liberdade, será que o seu céu é assim tão pequenino como reservas em linha, cada vez gosto mais desta expressão, que é como eu me imagino ao ver-te correr-me na linha de uma mecha, e um extra, help on line, socorro, quero mais estrelas no céu que em vez de um colchão fiquei espetado num cacto.
Ao bocado, vi uma cara de Fada que me falou, seria?

quarta-feira, dezembro 03, 2003

Vê a onda do mar, estende-se sobre a areia ao seu chegar e depois de lambê-la, que é como quem diz, deslizando com ela, volta de novo a contrair-se num mesmo deslizar.
Uma por cima outra por baixo, que importa a ordem do cimo e do baixo, se o deslize é o mesmo seu enlace, poderia dizer-te que cada uma reverba na outra, ressoa e torna a ressoar num mesmo passar, e sim ressoar, não é propriamente ressonar em que um pode incomodar o outro. Fecha os olhos por um instante e imagina o som através do espaço, permeado e permeando por ele em todo o seu andar, Imagina por um momento chegar a um lugar, que é o mesmo, do qual afinal nunca se partiu, Imagina por um momento tua mão em concha, que encaixa na concha da minha mão, imagina minha mão em concha deitada sobre teu seio, imagina por um momento os dedos entrelaçados naquelas vezes em que já não se sabe mais se são meus ou teus ou de quem lá os pôs, imagina por um momento dois aparentes corações no mesmo compasso, a bater, recorda a estranheza de quando sentado sobre o mar, aparece por dentro da água,um pé ao olhar, que afinal era mesmo o teu, ressoar é o mesmo eterno marulhar
Oh meu Deus, como as palavras estão gastas. Ai sim, então toca lá a limpá-las, e como elas se limpam, pois falá-las é o sujo em si, pois não é pelo pensar, não é pelo racionalizar que a operação se faz, falava-te de compaixão e teus pelos a eriçarem-se como gato assanhado, a mim não rapariga, não me ponhas essas unhas, outras sim,que são as mesmas, com a Tua mesma mão, como por exemplo quando me coças, essas sim, não te falo da falsa compaixão, da caridadezinha e coisas mais ou menos equivalentes, tentava relembrar-te só do seu étimo, capacidade de sentir, que é o mesmo de dizer, de ressoar, da ressonância que se estabelece quando algo se reconhece idêntico a outra em Algo, um mesmo eixo, como que parado para além, àquem e aqui, de toda a ilusão de todas as formas. Olho-Te e Sou Eu, Olhas-me é Ès Eu, mesmo que vestindo eu de azul e tu de doirado, como quando nos parece o azul ser doirado e o doirado azul. Por aqui vou chorando e rindo ao mesmo tempo, não não te aflijas, que não estou triste, bem pelo contrário, cada vez mais um é o outro, como duas faces da mesma moeda, uma a avivar a outra, que é a mesma. Como o dia de hoje ao passar, Um imenso Sol e um imenso frio, a revelar uma mesma beleza, como no campo das nossas meninices. No teu rosto desfila ora uma coisa ora outra, todas as inseguranças, todos os desejos e um só esquecimento. Oh Mãe,Teu Secreto nome È Amor pelo Amor chego a ti e eu sei que Me Amas como Eu a Ti e mais não somos dois, pois não
Oh, hoje vi muitos irmãos que se estão como a transformar em pássaros, penas que lhe aparecem em seus cabelos,continhas de cor a rodipiar, céus estrelados em seus corpos que começam a brilhar, um cão no banco de trás a conduzir e a canção a cantar, para os meus braços, oh Senhor

terça-feira, dezembro 02, 2003

Fizeste-me uma pergunta, ah desculpa lá que não a ouvi, estava distraído, repete lá, como é isso de quando se obtêm aquilo que se quer, já não se quer mais?, Pois se calhar tens razão, pode não ser bem assim, depende, de quê , de se estás vivo ou morto, lá está ele a alucinar, e mais te alucinava se te dissesse que a morte não existe, mas que importa, que o comprimido azul foste tu que o escolheste e é esse que eu te vou desembrulhar. Olha, quando olhas o amanhã, que é outra forma de dizer, quando projectas o teu desejo, estabeleces uma meta para alcançar, estás aqui no hoje e as tuas unhas tem um centímetro e meio de comprimento, não é verdade, é, e amanhã quando alcançares o que ontem querias, que tamanho tem as tuas unhas? Por ai dois centímetros, que as minhas crescem muito depressa, estou a ver, e então amanhã, já não és igual ao que foste ontem, e se assim é, como e que o teu querer pode ser o mesmo?
Podem ficar com tudo o que é meu? Mas existe verdadeiramente algo que seja meu naquilo que vês como meu, sim, até de barato te dou que nalgumas coisas minhas que queres tuas, existe algo que é meu também, ou melhor, se o levares, era, o que de lá fica de mim é só uma sombra luminosa que um dia mais tarde irás encontrar. Mas as coisas não são minhas, são-me como te explicar, como que emprestadas, participo nelas, elas participam em mim e ponto, e eu estou lá mesmo quando não estou, recorda-te disso, quando as pretenderes para ti e depois que queres verdadeiramente de mim, suspeito que nada, uma breve aparência doirada no reino das aparências, aquele que não tem o doirado em si, que não faz luz, que não aquece os corações, e depois e depois, recorda-te que quando tens aquilo que querias já não o queres, assim leva o carro, a casa, e a mulher, dos dois primeiros pega lá a chave, que da mulher é ela própria que ta dá, dá? Olha é já agora, porque não levas o pacote inteiro, que está em saldos, os pneus gastos, a casa mete água e estou gasto e roto, leva-me a mim também, é-te mais fácil, para perceber o porquê do teu desejo enviusado de mim, ficarias mais completo nas minhas ausências de ti, ias ver o que custa ter, não coisas, porque ter é ser, como que te posso explicar de forma a entenderes, é um não ter, absurdo, dizes babando a boca ao novo carro, à nova prestação que te irá estrangular o tempo de viver, mas deixa lá, é bom frequentar com belas pernas restaurantes daqueles que servem os olhares alheios, aos quais tu te serves aos canibais mais as pernas que te acompanham, como um gostoso pitéu de ar ao léu, disseste léu, pois que eu não sou egípcio, não preciso de nada para ser enterrado, não quero um frio mausoléu, quero ficar bem de pertinho ao léu na mesma terra que me fez e depois recorda-te que isto é infinitamente grande, cabe-me na palma da mesma mão, há que chegue para todos, basta saberes o teu querer, pois não há dois iguais embora sejam iguais, paradoxos não sabes o que são, para que me queres então?
As coisas nunca estão quietas, mesmo que tal nos pareça, nos dias que andamos com óculos escuros de mais.

Meus amigos, quando me virem de novo a meditar de olhos fechados e quietinho no meio da esquina de um qualquer bar ou de uma qualquer rua pública ao andar, cheguem a mim o vosso corpo, não precisam de dizer nem de fazer nada, basta um ficar encostado como a roçar, mesmo como se não fosse assim, como um leve imaginar, porque só esse pequeno contacto e o calor que então me dás, torna certeiro e forte meu olhar. Aquieta-me meu coração junto ao teu. Nem mesmo as palavras entre nós são nesses momento necessárias, é só um estar acompanhado como fingimento verdadeiro.

segunda-feira, dezembro 01, 2003

Oh amiguinhos, não, que eu não sou um macaquinho e embora eles sejam meus irmãos também, isto não é nenhum jardim zoológico, nem eu um animal exótico de se olhar. Bem sei que vêem à cidade ver as vistas,tal e qual como eu, cheios de amendoins imaginados em vossos bolsinhos, como quem trás projecções de alimentar alheios, que mais não é do que fome própria, mas para alimentar algo, é necessário que outra fome alheia se Expresse, que eu macaquinho de mim, quando tenho fome, subo ao balcão, com quem sobe à Arvore e apanho os meus próprios amendoins, e amiguinhos há amendoins que cheguem para todos, de todas as formas e cores. Lembram-se do velho e grande gorila, nosso primo do Zoo de Lisboa, aquele que dentro das suas grades que nós lhe demos, enlouqueceu, fazia sempre um mesmo movimento circular, com um mesmo olhar, uma mania depressiva era o seu estar e seu olhar, era um pedido de ajuda como que intrigado, porque é que me meteram aqui, e eu a um dia a ver, jurei-me a mim mesmo nunca mais lá voltar, depois esqueci-me da jura e quando lá voltei fui de novo com ele falar, afinal ele continuava lá preso em seu pequeno aparente espaço e eu aqui com muito mais por onde andar, como macaquear.

domingo, novembro 30, 2003

Acreditar uma coisa é como entende-la e william Blake a recordar que uma imagem passivel de ser acreditada, é sempre uma imagem da Verdade
como cascatas epifânicas
Desculpem amiguinhos, mas não há nenhuma competição em curso, nenhum prémio a conquistar, ou a partilhar, não há um Mim em detrimento alheio, ou vice-versa imaginado, não me peçam para participar num jogo de damas que eu visualizo em três jogadas. O jogo é só meu e por mais estranho que te possa parecer, ele é o mesmo que o teu, mas jogado comigo mesmo
Tudo tem seu nome, tudo fala o seu dizer. Chegas-te dizendo, eu sou o melhor, sou muito bom, já toquei para dois Coliseus cheios e o meu pensar a acrescentar, de quê, de cristãos prontos a morrer na boca do Leão? Não, respondias-me a Mim-Mesmo, ou melhor eras só o meu pensamento falado, confrontando-me com uma já conhecida máscara de mim. Foste ou És, eis a minha questão, da qual tu como interprete me encenas.
Linda a história do julgamento alheio, estou farto dos homens disparas-te, perdão minha querida senhora, que errei na resposta que ouviste, mas queres ouvir o que se lhe segue, é que ainda não acabei, mas quem és tu para te pores assim jangada, por ventura nunca te enganaste no julgar alheio? Queres ouvir, aquilo que a consciência do errar me eleva? E antes só posso pedir-te desculpa pelo falho apresentar, e tu, que também tinhas que pedir desculpas e eu a insistir, primeiro as minhas, porque é, foi, essa a ordem das coisas, depois as tuas. Que belo começo de diálogo, cada um como cada qual a pedir desculpa ao outro, mano a mano no humano, num menos belo humano, sem convite ao novo recomeço.
Já há muito que os pássaros daquela praça ao lado da praça com rio ao fundo, não me relembravam o acordar. É aqui que a minha cidade acorda, pela segunda vez. Como um bailado estelar de todas as estrelas, um trinado sonoro , eu a olhar. Gemem ou gritam ou disparam os sons da harmonia, que importa se só eu e eles lhes damos o sentido. E eu em baixo, pequenino do tamanho de Mim a ver todo aquele rodopiar como um Mar. Todas as Arvores são nesse instante , seu ninho comum. Depois do acordar, depois da função feita, as pombas descem no arrulhar de um qualquer silêncio, como pontos infinitos do mesmo diálogo, meus irmãos. Depois combinam o chegar do silêncio, a partida e o NovoVoltar. Oh como é bom por vós ser beijado, espantado ao vosso entendimento do silêncio em seu tempo. Porquê não pousaram em mim como quem me encontrava, não fizemos ainda a secreta aliança.
Não têm ainda a curvatura retesada e única de um mesmo Arco, ou sou eu que não a tem?.
São andorinhas apardaladas que comigo se cruzam ao meu andar, Eu vejo, e cego-me a ver
Quando não vejo


Ama-me de olhos bem abertos, por todos os poros da pele de teu corpo, onde eu te escreverei o Desejo e seu Irmão Amor. Ama-me através de todos os cheiros, Lambuza-me de chantily e põe por cima a mais preciosa cereja, a tua casa, a casa da mesma Alma, Teu Nome. Penetra-me como que me rasga sem fim, de mim, dissolve-me pelo teu toque pesado, presente e possante, arranca-me o coração para eu o continuar ver, a bater, como cavalo branco em louco galope na tua mão e assim saber, que continuo a viver, depois com minhas unhas arrancarei à tua pele parada, as penas de tuas Asas, no mundo o silêncio da grande harmonia.

sábado, novembro 29, 2003

Que beijos fumo?

Todos os que se acendem ao meu passar
No maço infinito do mundo que os contém
Corpos que se tocam no eterno baforar
Beijos efémeros sem pesar
Como perfeito circulo a subir ao céu
No etéreo fumo de Todo o Amor
Me Torno e Torno a Tornar
Beijos lentos
Rápidos
Violentos
De Afundar

Que beijos Fumo?

Daqueles que dissolvem
Como cinza tornam
Silêncios de Encantar
Daqueles da Luz a dar
Daqueles que não se vêem
Ao Olhar


Beijo-te a Ti
As arvores
Os cães
Os pássaros
As Nuvens
O Riso e o Mar
E o que Mais
Encontrar

Tens fósforos?

sexta-feira, novembro 28, 2003

Á procura de um sorriso pela cidade saindo da rua do Paraíso.

Passáramos com a Lua a noite a rir, O Tejo a fazer-lhe cócegas e ela para cima e para baixo, numa terna brincadeira. De manhã cedinho saímos para a rua como a missão de encontrar o primeiro a rir. Descemos a rua do Paraíso, tal foi o nosso errar, a Santa Apolónia fomos dar. Está no comboio, disse um de nós, se calhar partiu com o maquinista a apitar e por isso não se deita ao nosso olhar. Depois rentinho ao rio, no Terreiro fomos espreitar, se calhar foi tomar banho e está debaixo das águas a navegar, grande deve ser seu pulmão que cá cima não, veio, não. Depois no Rossio já quase a chegar aos Restauradores, mesmo frente ao teatro, lá encontramos a primeira falta de siso. Na caixa aberta da carrinha que parecia ir à frente, uns Senhores de fartos bigodes num riso farfalhudo e eu que atrás ia conduzindo, com o dedo a apontar e nós todos a rir ao olhar, contentes de o ter encontrado. Nesse preciso momento os senhores que riam ao verem nosso riso, suas caras de novo petrificaram, num qualquer tipo de zanga expressado num olhar fixo e franzido sem bigode a dançar, como a quem de novo tinham posto o dente do siso, a pensar que está a ser gozado e os sorrisos deles e os nossos foram todos navegar para outras margens. Tiro pela culatra, a relembrar que só encontra quem procura sem procurar e depois seguindo, procurando como quem encontrou. Desde esse dia decidimos não mais procurar o riso alheio, só mesmo o nosso, a Soltar, que depois consta que ele é contagiante como vírus universal.
Ora hoje sexta-feira, vou-me outra vez casar, estão todos convidados para este copo de água a transbordar, não têm que comprar prendas para nos visitar, que cada um já tem a sua casa e por razões de economia amorosa a dois decido o meu casar. Aqui só há festas para quem as agarrar, é mesmo só namorar, oh que bela poligamia, neste espaço que não é espaço, pois é todo o espaço de encantar, sem distância outra que o Anel do querer linkar, um só click e já lá estou. Longa vida aos que se ligam, como casa bem o casar em vez do afastar

Assim foi o namoro pré nupcial

Quando no final da minha página vi vamos lixar tudo, escrito, tive uma
momentânea dissonância cognitiva, vamos lixar tudo? E só depois percebi que
era link e Blo e assim aqui vim, um pouco aos arrecuos, que vamos lixar
tudo, parece-me ser algo, como te o direi, estranho. Só se for para aplainar
as farpas das madeiras múltiplas, que nos ferem a todos. Mas afinal não me
piquei, hihihihi, mas está bem, vou linkar quem tudo lhe dá na Real Gana

Vamos lixar tudo?
E não tenhas crises ao casar, mesmo não sabendo se são tuas, minhas ou de quem as apanhar, que da crise tenha a tradução da breve paragem antes do novo andar

Do bichinho de conta a história assim o rezou na troca de folhas de amoreiras que os curiosos podem ler nos comentários de ontem

Só uma pergunta lhe faço, pois há muito tempo que não me punha a contar se o bichinho do belo contar, tem cem pezinhos no seu belo abraçar. O que importa mesmo é perguntar em qual deles o anel deve entrar.
o nada é o todo desordenado
Os corações nunca dão passos em falso, é como uma impossibilidade deles, congénita como seu eterno bombear, falsos como medo é o pensar, contudo às vezes é necessário pousar nos silêncios internos para ouvir de novo o sangue a correr e dessa unica forma encontrar a palavra que nos contem.
aquela que nos dá a luz que apaga a sombra do mundo inteiro no instante do seu falar
bombeia, coração bombeia pra melhor em silêncio eu te escutar
Reconhecer é como estremecer
Um leve corar
Um súbito Virar
Um Vivo Enrubes-Ser
Um Encantar
A Aquecer
Uma Onda
A Mexer
Um Sino a Cantar
Uma Fada a Voar
Um Doce
Ensandecer
Como Chocolate
A Derreter
Uma Pálpebra a Flutuar
Um Breve Enternecer
Como Só Coração
Sabe Tecer
hoje não me sai da cabeça um verso de Sebastião da Gama que reza assim e assim fica aqui rezado.
tens muito que fazer?
não, tenho muito que Amar

quinta-feira, novembro 27, 2003

As pessoas receiam tratar-se por queridas, dizerem umas às outras que lhes querem bem, receiam o toque dos corpos e das almas na mão que momentaneamente se tem entre a nossa, a festa nas costas, o franco abraço ou o beijo de dois homens que se beijam ao encontrar. Sabem amiguinhos, é que existem outras culturas, nas quais eu também já vivi onde esses são os costumes, sem passar pela cabeça de qualquer interveniente ter dessa forma a sua sexualidade a fracturar, a entrar em profunda divisão interrogativa, que isto, é o que verdadeiramente acontece a quem de fora se perturba, com a forma que outros com outros expressam os seus afectos ou reconhecimentos se quisermos por a coisa no seu mais básico. O Mundo é muito grande e a vida não é a preto e branco, pois entre o branco e o preto estendem-se as infinitas matizes do cinzento e de todas as cores.

Oh, Quantas vezes já receei tratar alguém por querido
Oh, Quantas vezes já receei o toque dos corpos
ou o franco abraço, ou o quente colo.
das Almas na Mão que por um momento
se têm entre a nossa.


As pessoas receiam porque têm medo da reacção alheia, medo do ridículo de serem mal tratadas pelo outro ao expressar, que é como quem diz, expor o desejo de lhe querer bem. Ou o medo que nasce daquelas vezes em que sentimos um outro, que como se escudando no gentil querer, aproveita essa abertura implícita no querer Bem a Algo ou Alguém para investir, cheio de violência e ódio. Ou então é como sentir que se se perdesse o pé e a compostura, como uma fronteira à qual se levanta a cancela com demasiada rapidez, nos expõem a uma qualquer manada de touros que lá vêm. Mas abrindo ou fechando a cancela, de forma rápida ou lenta, não obsta a que a investida aconteça, porque a vontade própria do touro a ela, é cega ao meu olhar.

Mas isto é só uma das possíveis projecções. Porquê imaginar os touros como violentos, porquê não pensá-los como carregados de enguias de paixão? Ou então em vez de imaginar que as cancelas quando se abrem depressa, naquilo que parece um só momento, terão por detrás os touros? Porque não projectar manadas de flores, ou doces chupa-chupa.

Ou o medo de sentir a iminência de perder o seu próprio pé como quem perde a compostura, oh, e se ele quer como eu estou a sentir querê-lo, se ele me quer tratar bem, mesmo muito bem, onde é que isto vai dar? Eu gosto dele, mas só azul, que é como quem diz, por exemplo como Amigo, nunca o Amor, não que não posso, estou ocupada, tenho uma relação, uma promoção, e o querer, se transforma num não querer, um querer que não quer nem deixa de querer, uma onda sem movimento, e depois a cancela já se fechou, os touros, as enguias e as flores, para outras paragens seguiram, aquelas que não tem cancelas nem a abrir nem a fechar e onde não moram os medos, só o encontro do querer.
já há muito tempo que não me cruzo com um frase que costuma estar grafada nas paredes da minha cidade, reza ela, sem verdade és um perde-dor
Hoje ao olhar as gotas de chuva que caíam na calçada, ouvi de repente psiu, psiu, passeei o olhar em redor e nada vi. Psiu, psiu olha lá tu aí, chega aqui, que eu vou te contar uma história. Foi esta a história que a gota me contou enquanto me molhou.

O galo de estimação da avó

Era uma vez um menino que tinha ido de férias grandes com sua irmã para a casa de campo de seus avós. Um dia o menino recebeu de seu avô, um espingarda de pressão de ar e partiu para a floresta ao lado da casa a experimentá-la. Disparava contra todos os alvos que elegia, mas pela sua falta de experiência nunca conseguia acertar e cansado e irritado voltava a casa quando de repente ali à mão de semear viu o galo de estimação de sua avó, que por o reconhecer também, prazenteiro se aproximou como sempre fazia, na esperança de uma guloseima para comer. O menino deixou-o aproximar-se e à queima cabeça disparou. O galo morreu instantaneamente numa grande poça de sangue. Assustado e em pânico, olhou em volta como em falta a ver se alguém teria visto o seu fazer. Pegou no ex- galo Jeremias, que mais não gemia e depressa o foi enterrar na curva da floresta. Quando nisso se encontrava, deu por sua irmã calada a observar.

Depois do jantar, sua avó disse a sua irmã, hoje é dia de tu lavares os pratos. A irmã aproximou-se do irmão e disse-lhe baixinho à orelha, olha amiguinho, lava tu os pratos se não queres que eu conte o que se passou e o menino, engolindo em seco, muito mansinho, lá foi lavar pratinho enquanto os avos e sua irmã foram ao cinema da sua aldeia. Aquilo repetiu-se nos dias seguintes, com a cama para fazer, com o arrumar da casa e por ai fora. Cada vez que calhava a tarefa a irmã, ele lhe sussurrava baixinho a lembrança do seu saber. Tantas foram as vezes que o menino não mais aguentou e um dia contou à sua avó o que tinha feito ao Jeremias.
Disse-lhe a avó, o meu querido menino, não faz mal, eu já o sabia, pois estava à janela, quando o vi, só estava a ver quanto tempo é que aguentarias ser escravo da tua irmã.

e assim parou de chover

(esta história que eu escrevi, foi-me contada há muito tempo por uma pessoa da minha familia)nota de 2 de abril de 2004

quarta-feira, novembro 26, 2003

Querido, fecha a porta que estou com frio, não faz mal, vem cá que eu te aconchego ao colo do meu quente desejo, não querido, que não é desse frio que se torna quente que eu falo, qual é então minha querida, é aquele que entra nas minhas portas, por debaixo das frinchas, quais portas minha querida, querido, aquelas que delimitam o meu castelo do ser, aquelas que eu fecho aos outros para melhor me proteger, ah querida, falas-me das portas impossíveis que por o serem deixam sempre passar o frio mesmo quando as crê-mos por nós fechadas, às sete chaves da mesma morada. Que falas, querido que me estás a ensandecer, falo-te, das portas que se erguem ou se fecham tanto faz, por causa da dor que os outros nos fazem às vezes sentir, sim querido são essas, as que me metem o frio, sim eu sei, querida, mas já reparas-te que mesmo com elas erguidas, o vento continua a soprar por todas as tuas alas, o frio a entrar por invisíveis frinchas, como a dizer-te querida, que porta erguida pela dor, não serve para fechar nada, não garante o calor, não apaga a própria dor, só serve para criar a ilusão que ela está fora quando ainda está dentro, e que o castelo é todo um mesmo, não há portas fechadas nem abertas, uma só imensa paisagem, por isso se dor sentes, para quê as portas, deixa sentir, chega-te a ela, muito de pertinho para a melhor convencer a tornar-se nova alegria e depois lembra-te daquele verso, do rio que corre tumultuoso dizem que ele é violento, mas ninguém parece lembrar-se da igual violência das margens que o comprimem, um zanga, uma dor, tem sempre dois lados a respingar para todo o lado.

terça-feira, novembro 25, 2003

Mais um fragmento de menino e menina a passear nas cidades antigas.

E de repente vêm-me à memória, uma outra história face da mesma moeda no tempo antigo em finais de setenta do século passado em Beja. A partir das 21h, as mulheres nativas não saiam mais à rua, estranha cidade que as parecia engolir.
No café central a bica depois do jantar, era quase uma ausência feminina, que nenhum açúcar adocicava. Frequentado por meia dúzia de homens e mulheres que eram todos os estrangeiros que lá se encontravam, menos os aviadores, coisa que nunca percebi o porquê. Professoras, empregados bancários aí deslocados e eu, na altura também funcionário embora de outra natureza. Belas amizades aí se fizeram, numa cidade que dormia enquanto nós voávamos por de cima de todos os sonhos, a vive-los. Esta era a fotografia em plano geral da cidade desse tempo. Em plano aproximado, eu a ela tinha chegado como meio espião escondido com rabo de fora. O pretexto era a invenção de Cardia, do chamado propedêutico, eu a pretextar como a enganar, sabe tive que sair de Lisboa, e decidi para aqui vir durante este tempo, pois lá, um ano inteiro sem aulas, no meio daquela imensa confusão, sabe como é, não conseguiria estudar, e aqui estou eu, mais a minha mota e os livros de estudos, para estudar à séria neste ano, e sim Senhora Doce viúva que me acolheu, me dê para mim o quarto de cima, que eu gosto de ficar perto do céu, uma cama e uma mesa para eu por todo este papel, e que sim, menino, tenho todo o gosto e precisão em recebê-lo eu e meu filho. Mas tudo isto, o escrito para trás que é como quem diz para cima é introdução de telenovela, não a render o peixe, mas perdida, como quem diz encontrada, na multiplicidade da memória, fio que puxa fio num infinito desenrolar.
Ali conheci uma menina que era mais ou menos como eu, era esta a história do meu contar. Ela a menina, tinha também sido desterrada do sul, para casa do tio, pois pai e sua mãe a achar que a escola perto do mar estava cheia de más companhias, como tubarões prontos a morder a sua pupila, enfim coisa de marés agitadas, mas eram outros os mares, quando naquele jardim de Beja pela primeira vez nos beijámos. Só uma vez subimos ao céu do meu quarto que de seguida a querida senhora viúva, me veio dizer, para nunca mais e se o céu já fora o meu e o teu, a casa continuava a ser dela e que importa, só importa mesmo é o respeitar da vontade alheia. Espanto e revolta, vieram depois, na reunião semanal da direcção local do partido, ao ver quer o nosso beijo público constava já da ordem dos trabalhos. Trabalho? Aquilo parecia-me mais calvário ou mesmo uma carga de trabalhos, pois os camaradas a perguntar, que alguém lhes tinha ido dizer, então o menino e a menina a beijar, qual são as suas intenções e por ai fora, o filme negro a discorrer e eu a alucinar. Sei que ninguém vai acreditar, mas era assim que alguns rimavam amar com liberdade, naquele par-tido tempo, de esquerda, os valores que afirmavam. Menino e menina que se beijam, é só beijo o tratar e é entre eles com eles, mesmo no altar de todo o mundo, o seu único passar.
quanto mais contigo me deito, mais hoteis me aparecem em linha...hihihi
Hoje recebi uma carta que rezava assim

Querido pimpampum

Se determinarmos por exemplo o peso de cada seixo no fundo do rio Tejo e obtivermos um valor médio de 145g, isto pouco ou nada diria da verdadeira natureza dos seixos. Quem, baseando-se nessa conclusão acreditasse poder encontrar, numa primeira amostra, um seixo de 145g certamente sofreria uma grande decepção, podia mesmo acontecer não encontrar uma só pedra com esse valor, por mais que a procurasse.

Os métodos estatísticos proporcionam um termo ideal de uma conjuntura de factos e não o quadro de sua realidade empírica. Embora possam fornecer um aspecto incontestável da realidade, podem também falsear a verdade factual.

Os factos reais porém evidenciam-se em sua individualidade; de certo modo, pode-se dizer que o quadro real se baseia nas excepções da regra, e a realidade absoluta, por sua vez, caracteriza-se predominantemente pela
irregularidade.

Uma média ideal obtida pela estatística elimina todas as excepções, em cada extremidade da escala, em cima e em baixo, substituindo-as por uma valor médio abstracto. Este valor adquire na teoria o lugar de um facto fundamental e incontestável, mesmo quando não ocorre sequer uma vez na realidade. As excepções numa ou noutra direcção, embora reais, não constam absolutamente dos resultados finais, uma vez que se anulam
reciprocamente.

Sob o peso das estatísticas, o homem individual sofre um processo de nivelamento e deformação que distorce a imagem da realidade e a transforma em média ideal. As estatísticas reprimem o factor individual em favor de realidades anónimas que se acumulam em formações de massa.

Em lugar da essência singular concreta, surgem números, características e conceitos que cumulativamente ditam as formas do viver.

Em lugar da diferenciação moral e espiritual do indivíduo, o sentido e a finalidade da vida individual, a única vida real, não assenta mais no desenvolvimento do indivíduo, mas numa razão imposta de fora para dentro do homem, ou seja na objectivação de um conceito abstracto cuja tendência é colocar-se como única instância de vida.

A decisão moral e a conduta de vida são progressivamente retiradas do indivíduo que, encarado como unidade (número) social passa a ser administrado, nutrido, vestido, formado, alojado e divertido por conceitos e acções baseados numa abstracção irreal.

Assim, o indivíduo torna-se uma espécie em vias de extinção. Quem ousa afirmar o contrário sofrerá imensos embaraços na sua argumentação. O facto de o indivíduo atribuir importância à sua própria pessoa, aos membros da sua família e aos amigos e conhecidos que compõem o seu meio somente comprova a estranha subjectividade do seu sentimento.

Na verdade o que significam esses poucos em comparação com os dez mil ou milhões que o rodeiam? E quanto maior for a multidão mais
“ indigno” se torna o indivíduo.

Quando o indivíduo esmagado pela sensação da sua insignificância e impotência, vê que a vida perdeu sentido, que afinal não é a mesma coisa que bem estar social e alto padrão de vida, encontra-se a caminho da servidão da
qual, sem saber nem querer, se tornou prosélito, deixando-se fascinar e subjugar pelas verdades estatísticas, doutrinado acerca da unidade e impotência da personalidade singular e da sua incapacidade de representar e personificar uma organização de massa.

Assim, se compreende que o juízo individual seja cada vez mais inseguro de si mesmo e que a responsabilidade seja colectivizada ao máximo. O indivíduo renuncia a julgar, confiando o julgamento a uma entidade externa a si.

Com isso o indivíduo torna-se cada vez mais uma função da sociedade que, por sua vez, reivindica para si a função de único portador real da vida, mesmo que no fundo não seja mais do que uma ideia.

O estado de direito resvala para uma forma primitiva de sociedade, isto é de comunismo das tribos primitivas sujeitas à autocracia de um chefe ou de uma oligarquia.

Com os meus cumprimentos

C.G.Jung
Quase glosa

Sim querido porque as outras, isso dizem de ti, não querida que não importa o que os outros dizem, estão eles porventura, aqui entre nós? Não querido não estão, mas sempre o disseram, deve por isso existir um fundo de verdade, não querida, como podes ter a certeza que sempre o disseram e que dizem a mesma coisa? Acompanhas-me desde sempre? Se a mesma coisa dissessem teriam que ser tu, coisa que tu não és, pois não, tens nome próprio Mas já reparaste querida, que acabam mesmo por estar, quando os invocas, sim querido é verdade, é um estar sem estar, como nós minha querida? Não querido, na realidade só estamos aqui os dois, então querida que importa o que os outros dizem para nós aqui os dois sozinhos a falar e a sentir. Já te olhaste ao espelho, minha querida, sim já o fiz, viste que a tua face é de um lado clara e do outro escura, como o sol e a lua, sim querido, percebo o que dizes, pois há dias que me levanto com a lua e outros que me deito com o sol, e já reparaste querida a intima relação entre esse teu sentir e aquilo que te faço sentir? Sim querido, já o reparei e não pensas que assim o é também de mim para ti? Pois é, somos relacionalmente, não é, podemos um ao outro apaguizar os fantasmas ou criar o mais terrível inferno, pois é querido está tudo nas nossas mãos, como quem diz no nosso coração a sentir. E então querida, quantos corações estão aqui, agora a sentir? Dois, querido que às vezes parecem ser só um. E não será, oh querida, a invocação do alheio que não somos nós, uma forma de a mim e de ti fugirmos? Sim querido, que eu quero saber de mim como sabendo de ti, vou deixar a paisagem no sítio dela, lá fora. Sim querida que a tua paisagem é para mim única, não é outra, seria cego se visse em ti a paisagem alheia mesmo quando crês ser-te igual, e depois querida, estás em local e situação de privilégio para chegar às tuas próprias conclusões, não é, estás aqui intima de mim. Foca a tua própria lente que não necessitas de armações alheias, cegas colectivamente num aparente mesmo sentir. Oh querido que são muitos os que estão fora e torna-se cada vez mais difícil saber de mim própria, afirmar aquilo que sou e que sei, ponho-me a perguntar às vezes se a louca serei eu. Não querida, que não estás louca, estás só a ser aquilo que és, mas não te confundas com os números alheios, porque se não perdes-te de ti mesma e eu perco-te a ti, já não sei mais quem és. Já viste quanto mais fácil e tentador, parece ser acreditar numa qualquer maioria qualificada em vez de te acreditares sozinha. Sim querido, vou tentar só, auscultar o meu único coração.

segunda-feira, novembro 24, 2003

Um homem que caminha sozinho de preferência ao sábado a noite pela madrugada da cidade, isto é não acompanhado por uma mulher é homossexual.

Uma mulher que caminha sozinha sem preferência de qualquer dia da semana é uma prostituta.

Oh amiguinhos, então não sabem que esse filme não existe mais e até o próprio cinema que o passava já fechou. Vejam lá com atenção o prazo de validade dos vossos bilhetinhos. E já me estou a rir do que a banana, perdão banner me vai trazer.
Claro está, aparece-me de seguida o detective do telefone espião, Mário Costa da Amadora, o que não sabe da coisa Amada.
Gosto, gosto muito destes algoritmos netianos a tudo tentar relacionar, como a vida e os seus ritmos. Escrevo a palavra deitar e lá em cima aparece 2000 hotéis de Portugal, páginas Amarelas, onde é mais fácil deitar, perdão, procurar. Depois a seu lado, Cascais, oito hotéis com reserva em linha, muito fácil, hotéis confortáveis, como sempre o deitar deve ser e económicos, como quando me deito contigo à borla. Belo país, de tanto deitar e fico a pensar como vou brincar no algoritmo do riso de mim e de ti. Reservei a linha inteira de Cascais e com ele, nela me vou deitar, cada quarto um conforto sempre em linha, como o meu vigésimo primeiro dedo se transforma.
A irmã dictómica é amiga do paradoxo, ou não?

Sim querida. Eu sei que em mim buscas a segurança, sim eu sei querida que em mim buscas a liberdade, sim querida eu sei que de mim buscas a liberdade, como pode ser, querida? Serão ambas irmãs ou inimigos profundos? Sim querido, que liberdade parece não rimar com segurança. Parece coisa disjuntiva, mas se em vez do ou colocares o e talvez tudo se resolva, não te parece? Sim querida liberdade com segurança, ou segurança livre, como casa bem o casar em vez do afastar. Sim querido que podemos inventar entre nós as duas como irmãs gémeas. sim querida, não deitemos uma fora pela janela, façamo-lhes um mesmo ninho para ambas deitar.
Oh deixa-me ser
Nem que por breve instante
A imagem de fora
De tua janela
Deixa-me ser
A breve nuvem
Que revela
A lua que ao cão
Uiva
No breve instante
Feito ternura
Por cima do Azul, Minha Senhora, em Círculo Doirado, na mesa ao lado a Senhora a fazer-me metáforas de mim e eu como que a almoçar-me.
O Amor é como nota endossada de elevados juros para quem em sua casa a recebe, e quem a tem, é o mais rico de todos. Mesmo quando o banco é falso e o ladrão a tenta roubar. Porque de tanto valor seu câmbio, não há mão que a leve, não há ladrão que a roube, nem o banco está, nunca fechado.
Oh meus queridos parvalhões, com a vossa ressaca de homens, na noite junta em magotes solitários, aspirando mulheres, que não vêem. No instante do primeiro a passar, é rabeta, aquele que ali vai a andar, dispara a dôr colectiva na espera de um pretexto que eu te não vou enterrar. Grandes homens, juntos como juncos secos, a murchar, belos a fenecer, que não há mais fazer, sempre aos molhos, sem fé em Deus, como dedos da mão que nada agarra, mas grandes nessa desunião, como grande ilusão.
Vagueava como um cão pelas alamedas da noite
Alçando a perna aqui e acolá
É como Sombra a passar
É um Amor de Dar
Cão batido
Por ele próprio
Escorraçado
Ao Sol

E Ele a Ladrar
Ao Vento
Do seu Pesar
Morde a própria perna
Ao Saltar

Já nada sabe de Si
Nem pernas têm
O Cão maneta
Cego à presença
Da mais bela Flor

Vive debaixo
Da cama alheia
Enroscado
A fugir do Pontapé

Até a Pulga
De Si foi passear
Aos saltos por aí
Pois seu sangue
Frio
Água Quente
Se Tornou
Sopra Vento em Flôr
Trás-me Novas do Meu Amor

domingo, novembro 23, 2003

Pã, filho de Hermes
Alado
Que tua flauta mágica
Tudo O Novo Encante
Como Encanta
Tua Canção

Que Homem e Deus
Se reúna de novo Num
Que a terra e o céu
Seja de novo Um

Já a Ninfa Pinheiro
Ressuscitou
O Eco assim o cantou

Sete são as
Notas do Universo
Com Cera do
Novo Tempo
Unidas Pela tua mão

sábado, novembro 22, 2003

Isso, sim isso, deixa o pensamento no estendal do Tejo, retira do corpo só o sentir, que os pensamentos são produtos de imaginações amargas, como fiel de balança desequilibrada, de feitor mal feitante. Que tudo isto é o mesmo redondo, sim eu sei que tu sabes que eu sei, sim que eu sei que tu sabes que eu o sei. Não há nódoa, não há pano, só Tecelão a tele – ser, como Amor sob Vontade, que as tágides me disseram que devem andar sempre juntos como cabelos de uma mesma Trança.
Lá vai o louco, dizem ao passar
Lá vai o louco a sofrer

Eu sei porque
Então diz, oh dó
Como quem canta o lá
Reza que ele a amava tanto
Que mesmo quando ela
Outro amava
Que não a amava
Por ela sofria
De a ver infeliz
No seu desamor
Era mais a dor
Que por ela sentia
Que a sua própria dor

Lá vai o louco a passar
Lá vai o louco a sofrer
Ouve-se ao seu passar
Morte
Vai a correr pela calçada
Vento sul de levante
A tudo ensandecer
Vai descalça e não segura
Formosa
Dar de beber a quem tem sede
Cara Serpente
Enrola em meu corpo
De sangue quente
Mata-me de Mim
Por de cima do ouro
Salvo o seja
Vade retro

Mário Costa
Detective da Amadora
Investiga
Infidelidades
Alheias
Que é muito feliz em família
Diz
Agradecendo à sua Mulher
Fiel

A relacionar o que não tem relação
Deve ser
Palavra Amor
Palavra Paixão
Palavra Outro
Verbo Namorar
Que o faz Aparecer
Como algoritmo da vida
Será?
Que eu só conheço
Da infidelidade
Uma tradução
Engano de mim mesmo
recomeça
como quem
nunca acabou
a chuva
a cidade
a namorar
e as mágoas
a lavar
e o Rio
a engrossar
Não sei nada
E tudo penso
O tempo a não passar
Nem eu a alegrar
E depois
Sempre as mesmas tretas
As mesmas projecções
As mesmas ilusões
Sobre os Outros
Como teia de aranha
Na mosca a tecer

A tentar prender
Aquilo que não se
Pode prender
Outro alguém
Como se eu fosse
Dono de ti
Eu que nem de mim
O sei ser

Riam-se sabichões
Até ao dia
O vaso desconhecido
Vos caia em cima
Da cabeça
A passar

Esperança de Amor
Estás a brincar
Qual amor
Sentimentalismo
De pinga amor

Necessidade de companhia
Por não saber estar só
Mas relativa
Que amanhã está a ressonar
É feio, sem interesse
E cheira mal da boca
Não dá mais
Para beijar

O quando o desejo
Contudo
Está lá
É para apagar
Súbito
Tem que ser
Já conhece
O pescador
A rede do Apanhar
E o sinal do Mar

Não poderemos só falar
Não poderemos só estar
Iguais ao que somos
Não poderemos só brincar
Que a brincadeira é sempre séria
E se não é de brincadeira que se trata
Porque ela é séria
Então é mesmo a brincar
Como o aldrabar
Que adultos fazem

Eu calculo que tu não calculas
Eu obtuso
Creio que tu não tusas
Esdrúxulo de mim?
Não pode ser
Redondo como a laranja
Do bom trincar
Isso sim
É que é brincar

Como dizer entendermo-nos
É necessário algum tipo de contrato
Clausulas de exclusão
A excluir
A possibilidade de Integração
Como ilha impossível
No mar do imenso mundo
E desculpem
Qualquer coisinha
Que não quero ser
Boazinha
blá, blá, blá,
Vá lá?

Até o dia
Em que te encontrar
Lado a lado
Como família
Debaixo da terra
Dentro do cemitério
A ficar
Blá, blá, blá?





sexta-feira, novembro 21, 2003

Ontem o bando de pardais voou
Por de cima da Estrela de cinco pontas
E os Homens assustados
Fez fugir

Pequenos e leves pardais
Um breve bater de asas
A relembrar ao voar
Que basta pouco
Para assustar

Até dos pássaros
Já temos medo
Até o pardal
Já parece o inimigo
E nós pequeninos
E assutadiços
Como eles
A ficar
Oh meu Deus para que nos deste Olhos?
Se as bombas são cegas
Não vêem onde caem
Caem simplesmente
Simplesmente
Arrebentam quem vai a passar
Arrebentar é sua função
Ceifam vidas
Não fazem o Pão

Oh meu Deus para que nos destes os ouvidos?
As bombas não têm telemóveis
Para nos avisarem
Foge
Chega para lá
Que não tens nada com isto

Oh meu Deus para que nos destes pernas?
Se a bala é mais rápida que o andar

Oh meu Deus porque me deste as mãos?
Se elas não servem para te desviar
Não existem guerras convencionais
Existem guerras totais
Não existem guerras limpas
Guerreiros a guerrear
Tudo o sangue
A sujar

Nunca as guerras se restringiram aos que guerreiam
E aos espaços do seu guerrear
Mesmo quando todo o seu espaço
Se definia num só olhar
Limite antigo
Do campo de batalha
De outrora
Nos campos de lavrar

Já nesse tempo
As Mães e Pais ausentes
Choravam os corpos
Que partiam a guerrear

Depois do último estampido
No meio dos fundos gritos
Daqueles que agonizam
Percorriam os campos
Revolvendo Restos de corpos
A Encontrar
Os Rostos Queridos
Dos filhos partidos
Para enterrar.

Já não são
Os cavaleiros
E suas espadas
O limite do sangue
Circunscrito
Ao alcance
De seus braços
A voltear

Gume a cortar
A respingar
Ao lado
Como as bombas
Na cidade a arrebentar
Sempre

Cegas as guerras
Ao perímetro da guerra
Que de repente
Em todo o lado está
As bombas a tombar
Dos céus sobre
As cidades
Do chão das cidades
A todos
Os que se pensam
Incautos
Apanhar
No balcão a meu lado
A velha Senhora
De cabelos de prata como o luar

Velha Senhora
De Bengala parada
Ferida na perna
Do seu Andar
A perguntar

Tem água da serra do cão
Não, não tenho não
Tenho de Cara de Muro
Que não consigo saltar

Pequenos círculos doirados
Sobre o balcão a depositar
Lentas como estranhas
Ao seu novo contar

Depois em mim
Parou o seu Olhar
Manso
E devagar
A falar

A gente tem que se divertir com
Alguma coisa
Não é?

Corpo Antigo
Ferido e gasto
Com Alma Sábia
A Contar
Que tristeza conhecida é esta
Que me vela o olhar
Que desce sobre mim
Imensa como eterna
Queixa de tudo
O que sofre neste mundo
Uma imensa compaixão
Um imenso sentir
O olho a marear
Neste imenso Mar
De dor
A dar
Quieta
A tudo inundar


Que leveza é esta
Que pluma
O corpo a andar
Então Se torna

Como um outro andar
Um Imenso Fluir
A Tudo Integrar
Um querer Ajudar

quinta-feira, novembro 20, 2003

Isto é a sério, é verdadeiramente a doer e calhará mais tarde ou mais cedo a cada um. Muita Atenção que isto é a sério e não haverá nenhum sistema de segurança, nenhum exército, nenhuma polícia, nenhum sistema de informação, que possa não deixar que a matança aconteça, seja ela pela forma de uma bomba um de um vírus, como aliás tem sido inequivocamente demonstrado, pois todos os países as têm e sempre continua a acontecer e a crescer. Violência respondida com violência trás e trará sempre mais violência. Não se pode pensar que se pode contê-la dessa maneira, tal Hidra que por cada cabeça cortada, faz nascer duas novas.
A única forma de acabar este carrossel macabro, que repito mais tarde ou mais cedo se abaterá sobre todos, que é o mesmo que dizer cada um, é abandonar as armas como resposta e ir à fala. É preciso ter a coragem de o Fazer, uma Coragem que é muito maior que a coragem da resposta à bomba ou ao tiro. Que se juntem as vontades dos homens necessárias, que é como quem diz suficientes, para ir falar com aqueles que vemos e que nos vê como inimigo. Falar e Acordar, resolver todas as pedras do sapato e então fundar o Tempo de PAZ.
Já me entrou a morte dos corpos pelos olhos e pelas mãos dentro diversas vezes, que é como quem diz demasiadas. As suaves e as violentas, as por Amor e as Cobardes e a carne viva ao céu de uma perna decepada pelo joelho ou por onde for, é sempre a mesma, um cheiro a queimar, e ela, a carne vermelha, aos borbotões, como que a querer saltar por todos os lados de dentro do Corpo, um silêncio que revela a partida súbita do espírito e a imensa dor, um incrédulo ver. O radical desperdício, Nada o justifica, é só dor, é só dor.
O sangue a correr, a correr, afluentes de um mesmo imenso rio, como as veias do meu corpo, a correr pela mesma casa, um rio Imenso, Triste, Vermelho a tudo e todos manchar .

Esta casa é a mesma casa, não existem quartos pendurados, contínuos ao redondo da Terra, assim o disseram os Argonautas, aqueles que do Céu viram o Templo e se assim é, aqui será o local e o tempo de todos. Temos que caber Todos cá dentro, sem exclusão, sem ninguém a empurrar um outro para fora.
E sempre a mesma pergunta a ressoar, Aquela que sempre me visita, Se o Amor é o Motor, porque não é ele a Lei? Que é como quem diz, porque não é o Amor Eterno e Imutável a guiar Constante como Eterno, os meus passos e os passos de meus Irmãos. Abro a TV, como janela para o Mundo, e vejo o sangue a correr, noutras partes do Mundo, que é o mesmo mundo, a mesma minha Casa, que é só outra tradução do mesmo Templo comum, o mesmo sangue no mesmo corpo que é o meu também. Que importa se falas chinês, se tem olhos amendoais, a dor é a mesma, uma só, e vejo o Irmão do Amor, O medo a ser, estampado com brutal estampido em todas as caras do mesmo rosto. O medo que se funda no mesmo desespero, daqueles irmãos a quem nós fazemos sentir, perdido por cem, perdido por mil e a actuar em conformidade com tal estado de espírito, porque o eixo do mal, não é coisa externa, atributo alheio, dos outros, que afinal não são Outro mas sim o Mesmo.
Oh meu Deus, como tudo está ligado, como tudo remete para tudo, mesmo as coisas mais aparentemente banais, um Eterno diálogo a entrar-me por todos os poros, todo os buracos do meu corpo, um mesmo corpo de todos os corpos, o mesmo único corpo. Penso, sinto, e todo isto simetricamente se repercute nos outros, que eu penso não saber quem são, que sentam na mesa do lado, as sua conversas, são de repente a minha conversa interior, os meus mais secretos pensamentos, ali a desfilaram nas bocas aparentemente alheias, e eu sempre a espantar-me, Um Enorme Espanto, Um Belo espanto que me ocorre a todas as vezes como se fosse a primeira. Um Eterno diálogo, sempre em Aberto, a correr, simetria da mesma Alma do Mundo.
Curvo-me perante a Tua consciência, Entrego-me a Ti, Quero a Tua Vontade como Minha e peço-te para quu Me guies os meus Passos, me faças de Ti o Teu sapato.