segunda-feira, setembro 01, 2003

Beleza exterior, beleza interior, forma e conteúdo, duas coisas distintas?
Como pode a estrutura existir sem o conteúdo
E como pode um conteúdo existir sem estrutura
Um coração sem pé
Uma cabeça sem mão
Ou a cabeça na mão
Que grande confusão
Donde irradia a beleza?
Da coisa ou do suporte
Ou do coração que a vê?
Como me chega a beleza?
Na profundidade da estrutura externa?
Na superfície da coisa interna?
Na superfície da estrutura interna?
Na profundidade da coisa externa?
Pirata do olho de vidro?
A metade de quê?

Encontro-te por fora ou por dentro
Abro a porta para entrar?
Ou para sair?
Ou não é a Porta
O sair e o entrar
E então ficar
Trás, pás, ca tra pás
Quem começou?
Foi ele, foi ele
Não, não, foi ele
Eu chamei-lhe batata
E eu um murro lhe dei
Batata ou murro
Qual a diferença
Nesta grande batatada
Mas eu tenho dói dói
No olho a queixar
O sangue a espichar
A pele a comprovar
E tu?
Eu, não sou batata
Eu sou barata
Mas tenho dói dói
Na alma a arranhar
Redonda a ferida
A sangrar.
É mentira, É mentira
É uma ferida de brincar
Não se vê
É de imaginar
Não é, não
Vê no meu olho
A ferida no coração
A chorar
A lágrima a rolar

Não tem o sangue
A água
Não é água
O sangue também

Não te chamo batata
E eu murro
Não te vou dar

Como numa salada
A água e o sangue
Se juntaram
Os arranhões
Sararam
E em Amigos
Se tornaram
O teste.

Chegaste a mim, dizendo algo na forma de uma pergunta com anzol de ponta retorcida ao que eu te respondi, como um peixe à nora no emaranhado do porquê da pergunta. Emaranhado, o certo é que te respondi, sem perceber a razão da pergunta e é por isso creio que o especifico anzol e a boca que o mordeu mergulharam nas águas profundas do esquecimento. Contudo lembro-me do que me disseste a seguir, afinal não és um cínico, e era tão grande o espanto na minha cara, que acrescentaste de forma doce, eu nada sei, apalpo para saber. Correcto, apalpa-se para saber, e no sorriso quente que então os dois nos tornámos, abraçamo-nos. Contudo não me recordo de nas poucas vezes que nos falamos do que em mim te terá dado essa ideia, se calhar não dei, mas tu achaste-la e se assim era, pois então assim é.

O contudo dois, foi a lembrança da forma de chegar ao outro quando éramos pequeninos, como aliás agora somos embora há quem nos faça pensar que somos maiores, ou se não há alguém, somos nós mesmos, ou o nosso cão.

A regra era simples, a regra é simples. Quando conhecia alguém, não levava um anzol na mão, provavelmente porque nem pescador me sentia, mas contudo 3, a coisa assentava numa outra consciência sabida. Era uma falta de respeito ao outro desconfiar à partida, era uma impossibilidade, porque o chegar do outro era a possibilidade da alegria e da amizade, mesmo que emergente baseava-se num dar e receber, não num acto de pesca de um qualquer pesca-dor avisado. Era mais, como vamos brincar, ou a que vamos, ou vamos. A questão resolvia-se com o apêndice de outra sabedoria, amigos até prova do contrário.

Se hoje estivesse amargo ou cínico se preferires, dir-te-ia, que os anzóis não pescam sempre os peixes, que esse pensamento é pequeno e parte de um princípio perigoso, de que o outro não dá pelo anzol, melhor dizendo que não vê o anzol no anzol. Como uma segurança falsa, que por sê-lo nada segura, um anzol que eu posso morder se quiser morder, ou um anzol que eu viro ao contrário para te fazer mordê-lo.

Bem sei que aqueles que se consideram crescidos, o fazem muitas vezes, mas eu prefiro os peixes au naturél . Bem sei que o fazem e é fazendo que nos tornamos cínicos. Depois percebemos que os anzóis têm acção limitada pelas razões apresentadas e esquecemo-nos de novo do que é sê-lo, voltamos de novo aquilo que os crescidos chamam assustados, quando pensam que a perderam, a idade da inocência.
Intróito deste Domingo

Dizia-me noutro dia, a Paula que desliza no sonho, apetece-me fazer qualquer coisa com as tuas palavras, ampliá-las e eu a responder-lhe que depois de escritas e reveladas já não eram minhas e que ela fizesse com elas o que desejasse, o que era meia verdade da coisa, pois nem reveladas precisam de ser para já deixarem de ser só minhas.

Eu disto sei, porque já vi as palavras a literalmente viajarem nos espaços físicos, reverberando em tudo o que estava à volta e depois é como perguntar, para onde vai o som quando a música acaba. Não me parece que ele acabe também. Mas isto tudo é uma outra estória para contar.

O que queria neste intróito dizer, é que a questão da Paula desde então ficou a viver dentro de mim. Não é para isto que se cruzam os nossos passos com os alheios. Só quando estou distraído, é que não vejo as óbvias razões do processo, porque se foi com estes passos que me cruzei, e não uns outros, está lá sempre uma razão. A bailar com a razão, que é como dizer, com a questão, ao apertá-la com o coração, pois no outro dia dei por mim a começar a conversar aqui, neste altar do mundo as conversas que até agora se mantinham em correspondências, na aparência individuais.

Aliás isto, vocês já o sabiam, eu é que não e tento explicar porquê. O pensamento, geralmente ocorre-me depois da acção. Melhor dizendo, a compreensão racional é como que retroactiva, pois o pensamento na acção é de uma outra natureza, não só o raciocínio está presente, ele tem por companhia outras “formas” e outros “órgãos” que em mim pensam, todos eles com linguagens distintas.

São eles a intuição, a emoção e o sentimento, funções tão certeiras se as soubermos compreender como o pensar. Não digo que uma, umas, devam excluir as outras, porque isso seria como tirar um braço de mim, e a mim todos os braços me fazem falta, para compreender o que encontro ou o que me encontra. E isto é só válido para mim e para muitos outros, pois a forma como utilizamos estas funções, varia de pessoa para pessoa a cada momento, (os Homens que escrevem este assunto nos propõem actualmente 16 diferentes tipos de personalidades, pelas diferentes combinações na forma de usar estas funções). A mim o que me parece mesmo importante, é diferenciá-las para o meu uso pessoal.

Diferenciá-las é como chamar o nome certo a cada gato, saber quais são os que a cada momento estão presentes e quais se encontram a dormir. A outra coisa que sei para mim importante é que nenhum dos meus braços é maior de que o outro, melhor dizendo, mesmo que num momento me pareça ser, saber também do que os outros braços me dizem, mesmo aqueles que por estarem a dormir, só me dizem, não me chateies que estou a sonhar. Da limitação da função do pensamento, ou dos seus limites, encontra-se na Espada e na Pedra um belo texto que cerca esta questão e que dá pelo nome, o dilema do prisioneiro. Diferenciar as funções é dar espaço ou presença a todas elas, usar todos os meus braços diferentes e iguais para conhecer, entendendo igual como não pensar um mais importante ou certeiro que o outro.

Contudo neste momento em que escrevo, um limite se me afigura. Quando converso neste altar do mundo com outro alguém, não devo expor aquilo que não sei se o outro quererá ou não expor. Se tiver dúvidas, que as pense antes antecipando as possíveis reacções alheias ou que me lembre sempre de lhe perguntar primeiro. Ou então que escreva em cifra, daquelas que só eu, a cumplicidade e outro perceberá. Pois cada vez que me aparece um limite é para ultrapassá-lo, o que não quer dizer magoar alguém, pois o limite que me aparece é diferente do que te aparece. E depois podes-me sempre dizer que te magoei e eu posso sempre emendá-lo.

Numa carta que hoje recebi, cuidado que a forma de ver o teu mundo pode ser só mais uma camada da cebola da ilusão. Obrigado por me lembrares a não me ver maior do que sou.
Sejamos gentis uns com os outros.