sábado, novembro 15, 2003

Saudade, inversão espácio-temporal, coisa familiar de nós. Quando ando entretido a recordar o que já passou não estou, nem vivo no tempo presente pois nele apenas se projecta uma Sombra de mim, como um estar sem estar, como se ele, o tempo do momento presente tivesse deixado de existir.

Quando recordo o que passou e porque já passou estou então noutro tempo que não é o tempo do que passou. Ora assim sendo, se o tempo onde me encontro não é o tempo nem passado nem presente, em que tempo estou? Estou de repente no futuro que é uma só outra forma de dizer que assim crio o futuro. Parece ser a meu ver que assim se funda o acto de ver prospectivo, a visão da profecia, que permite ver os espaços do tempo que há de vir. Um ir para trás para ir para a frente, como uma inversão daquele velho lema dois passos à frente, um atrás(hihihi), se bem que basta um atrás para dois à frente, considerando o presente no meio.

Então, quando não vivo no tempo presente, o passado que já não é passado, mas sim o presente onde também não estou nesse momento e assim experimento o futuro, em que tempo existo?
Porventura terá sido para mim, Agostinho da Silva, quem nos últimos tempos terá traduzido em palavras acessíveis o que é o Espírito Santo, dizia ele, Espírito igual a Sopro, Santo igual a reconhecido. Como se vê, não é de questão esotérica que se trata. Sopro é vento, Sopro são palavras ou o conhecer sem elas, Sopro é a visão, Sopro é saber, Sopro faz mexer as coisas onde actua como vento nas folhas quando se expande no espaço. Santo como reconhecido quer dizer aquilo que se sabe igual, entendendo aqui igual, como a premissa do Saber, sou essa coisa, essa coisa sou eu, ou pondo a coisa em termos concretos, um homem para conhecer a pedra, terá que ter tido a capacidade de a experimentar sobre um ponto de vista “petromórfico”.

Espírito é o Irmão invisível que está em toda a parte, que desce sobre as vozes das pessoas, que alumia as ideias, que nos faz ouvir no sítio certo e na hora certa a coisa certa, sendo que o sítio e a hora são sempre certos, infinitamente presente.


Na Praça de Espanha, no carro, com o meu filho atrás, ao volante o Espírito Santo a conduzir. Dei pela sua descida, que é como quem diz, visita, como quase sempre dou. Um bom arrepio, os pêlos em pé, uma vaga de calor que invade o corpo, uma alteração na frequência emocional, como quando nos rimos, um sentido que se torna sentido, como se as coisas externas deixassem de ser externas tornando-se participadas em mim e por mim.

Quando ele desce nas tábuas mais rasas, aquelas que Dele são mais Irmãs, sinto-o às vezes, numa ligeira alteração do tom da fala do Outro, como que uma sequência alterada quase impossível de Palavras na boca e nos Gestos familiares, uma pequena dissonância em que Ele se Revela, e ele ai está, certeiro na sua sabedoria como sempre, como a peça que falta no puzzle, a resposta certa e certeira, na hora que então se torna ela própria, certa.
Às vezes vale a pena mentir, dizias, e eu a responder, não creio e a perguntar, às vezes quando? E tu a dizeres, quando dessa forma se evita a dor no outro, e eu, como sabemos o que é melhor para o outro, como fundar tal certeza, e se não o for, o mal que fazemos, como posso eu substituir-me a outro e a Deus, que direito me assite a mentir-te. Sim bem sei, que muitas vezes não sei, que me engano, que te engano, mas sempre a tentar não ser de propósito, fruto de uma intenção de ocultar ou mesmo mentir, porque se te o faço, tenho de o fazer a mim primeiro e depois se o fizer não sei mais de mim, não sei mais quem sou, se uma mentira, meia mentira, ou meia verdade e assim perco o meu coração. Prefiro a verdade mesmo que brutal como tu dizes que ela às vezes pode ser, porque brutal para mim, minha querida, é não saber mais quem sou emaranhado numa qualquer não realidade, uma coisa assim e assado, zona de sombra na qual embaciado me espelho. Mentir-te é mentir a mim mesmo, coisa que não gosto de me fazer.
Sou como a sombra que caminha à minha frente
Um farrapo a andar
Uma ténue lembrança
A recordar
Um eterno apagar
Um Fogo-fátuo
Que queima sem queimar
Uma Quimera a passar

Oh meu Amor
Diz-me aquilo que não sei de mim
Oh meu Amor
Diz-me aquilo que eu
Ainda não sei Querer de Mim

Ao descer a calçada
Húmida pelo
Amor da Chuva
Depois de Ele se ter esquecido de Mim
Os meus pés iam pensando

Mentira

Não se esqueceu de mim
Esteve em todos os rostos
Em todas as falas
Que cruzaram
Meus Olhos
Em todos os Olhares Ouvidos
O Eterno Diálogo
Da Atenção Amorosa
Um Eterno Dizer
Um Súbito Contar
Um Persistente Entender

Oh como tudo isto é belo
Oh como é bom andar Alegre
Em seus braços
Uma Infinita Doçura
Clarividente
A Ousar
A Quimera
A Eterna
Aventura

No meio da noite
Poeta e seus Amigos
A Soprar
No meio da vida
Na Ilha Grande
Dos Amores
De Todo
O Sempre

Vejo-o de Espada
No tempo
Em que ela era
O acrescento do Braço
Como a unha
No fim
Do dedo
Anel
Anelar

Espada
Dos Corações Altivos
Num Encontro Cego
Ao Olhar
Como um vento
Um Sopro a Passar