quarta-feira, novembro 19, 2003

Hoje neste belo dia de sol ao almoço, chegou-me ao ouvido na mesa ao lado a seguinte história.

Como se sabe qual é a nossa alma gémea
Hum, que pergunta difícil e fácil
Deixa pensar um bocadinho
Está bem
Olha, vês aquele relvado ali em frente, ao pé do Rio?
Sim
Então, vai até lá e caminhando sempre para a frente, nunca voltando atrás, apanha um caule belo, mas um só, e vem cá traze-lo, enquanto eu penso na resposta.
Alrigte
geste a minate ( praivete jooke)
Então, vens de mão a abanar, que é como quem diz, não trazes nenhum
Pois, a medida que ia avançando ia descobrindo alguns belos, mas sempre esperei encontrar outro ainda mais belo e assim quando cheguei ao fim do relvado não tinha nenhum.
É isso que acontece na vida real.

A relva são as pessoas bonitas
Os caules bonitos são as pessoas que te atraem
E o relvado é o tempo
Quando procurares a alma gémea, não compares e não esperes que exista uma melhor, pois se assim o fizeres desperdiçarás o tempo da tua vida, porque o tempo não volta atrás. O mesmo se aplica na procura do companheiro ideal, a carreira ou os negócios.
Ama, Agarra e mantêm a oportunidade que tens na mão, não desperdices o tempo.

Paguei o café, bebi a conta e atirei-me ao rio.
deixa deitar a cabeça
por cima do teu colo

deixa descansar
da longa viagem
entre teu peito

deixa a tristeza escoar
deixa a lágrima secar
deixa ser criança
outra vez
sem consciência
Do tédio
na ilusão branca
do tempo

deixa ai ficar
quieto
à espera de ver
nascer
primeiro as raízes
de seguida
folhas verdes
por fim
os pêssegos
Esquerda, Direita?

Deixem-me rir
A consciência espacial não se resume à esquerda e à direita
E então as outras direcções que estruturam, a dita!
A frente, ou atrás, o cimo ou o baixo, ou todas as diagonais infinitas e intermédias
Que interseccionam todos os planos?
Ou será que a esquerda pela lógica psicológica corresponde à consciência e a direita à inconsciência?
Não me parece ser disto que falam, quando falam de esquerda e direita.
O tempo dos falsos dualismos já acabou.
A realidade não é dual, é múltipla.
A realidade não discrimina, integra.
Mesmo que a operação para tal seja separar para melhor unir
Mas separar não é rotular
É só identificar as parecenças e as diferenças
Ver o uno e o múltiplo em todas as coisas.
Eu sou isto, aquilo, que às vezes é mesmo o seu contrário e ainda outra coisa qualquer ou se preferirem tudo o resto
Mesmo aquilo que não sei que sou.
Ou se quiser eu sou mesmo tudo
De esquerda, de direita, de trás, de frente, de cima de baixo e de sudoeste!
Heresias gritam eles, há toda uma grande diferença!
Qual, perguntamos?
Serve-nos de alguma coisa saber que fulano de tal é de esquerda ou direita?
Alguma garantia de quê?
Alguma Sanidade
Alguma serenidade
Alguma verdade
E embora deva existir alguém que se chame esquerda ou direita, como eu me chamo pim pam pum, não os conheço.
Falamos então de abstracções
Pequenas ideias mentais
Aproximativas ao real
Mas que não são o real
O real é excepção
E as excepções não são passíveis de serem abstractizadas.
Serve-nos de alguma coisa rotular?
Obtemos alguma mais valia de conhecimento com tal facto?
Obtemos algum saber com tal operação?
É a esquerda boazinha e a direita mazinha?
São os operários bonzinhos e os patrões mauzinhos?
Consciência é uma coisa que se casa com o espaço e tempo
Eles próprios mutáveis.
E a pessoa
Eu não sou bom nem mau, oscilo, assim escreveu um músico
E quem melhor de um músico para escrevê-lo
Pois não trata ele do tempo e do espaço?

O que importa mesmo
É ter o coração certeiro
O pensamento livre
Andar feliz
A fazer felizes
Como quem faz bebés
A leveza no pé
A cabeça no ar ao andar
O querer bem
O bem-fazer
O Gostar
A Alegria a Espalhar
E Ajudar
Hoje acordei louco. De repente estava num país que não era o meu, um país onde uma critica, um ponto de vista diferente, não correspondia a um gesto de utilidade e de ajuda, mas sim de despeito. Abri a boca e pum, lá fui parar a mais uma lista de inventados inimigos. Que burros, pensei e voltei para a cama dormir a ver se quando de novo acordar, já estou de volta ao meu país.
Telefonou-me o presidente do mundo. Disse-me, naquelas bandas do mundo há gente que não se entende, andam a matar-se uns aos outros. Pegue um jacto e vá lá resolver a questão. Está bem, convide-os para a mesma casa, eles que deixem os canivetes à porta e dê-me a chave.

Quando lá cheguei, um já tinha a orelha do outro na boca. Pedi ao que lhe mordeu, a camisa e improvisei um penso. Comecei por dizer que não sabia nada das causas das suas guerras, nem falava as suas línguas, portanto deveríamos tentar entendermo-nos como se crianças de quatro anos fossemos. Peguei na chave e frente a todos, engoli-a dizendo-lhes, a porta só se abre quando existir acordo. Quem quiser começar a expor as suas razões que o faça.

Começou um a dizer que os outros matavam indiscriminadamente os seus próprios filhos civis. Depois outro da parte oposta disse o mesmo, que eles matavam as suas crianças. Um outro disse que o local Santo estava em território alheio e que não os deixavam frequentá-lo. Outro acrescentou que não lhes davam espaço para viver, que lhes roubavam a terra, que não os deixavam trabalhar, que os outros eram ricos e eles pobres.

Para nós a terra é quadrada e o céu roxo. Outro respondia, a verdade é o céu ser vermelho e a terra triangular e aquilo era um emaranhado tão velho e tão grande, que às tantas parecia a história do ovo e da galinha. Quem começou primeiro, perguntei, mas ninguém mantinha a memória de tal facto. As mágoas acumuladas de parte a parte eram já uma dor imensa que tudo e todos cegava.

Estávamos há três dias naquilo quando decidi fechar hermeticamente as janelas e dizer-lhes que deveriam entender-se enquanto havia ar. Decidiram-se todos pelo sacrifício e preparavam-se para morrer lado a lado, que ironia. A solução não me agradava, pois se lá estavam os cabecilhas de cada um dos lados, outros haviam do lado de fora, e assim mesmo que estes decidissem morrer outros lá fora continuariam a dança macabra, ainda por cima com mais estes mártires do entendimento não alcançado.

Chamei os filhos e entes queridos deles para dentro de casa e disse-lhe que se não se entendiam, levava-os para sempre, iam viver num local distante e que nunca mais deles saberiam. Mais uma vez alguns disponham-se a sacrificar os seus próprios filhos para justificar a continuação da memória da matança.

Só me parecia haver uma solução, mandei reunir todas as crianças e troquei-os de pais e assim ninguém mais matou ninguém com receio de estar a matar o seu próprio filho.