terça-feira, novembro 25, 2003

Mais um fragmento de menino e menina a passear nas cidades antigas.

E de repente vêm-me à memória, uma outra história face da mesma moeda no tempo antigo em finais de setenta do século passado em Beja. A partir das 21h, as mulheres nativas não saiam mais à rua, estranha cidade que as parecia engolir.
No café central a bica depois do jantar, era quase uma ausência feminina, que nenhum açúcar adocicava. Frequentado por meia dúzia de homens e mulheres que eram todos os estrangeiros que lá se encontravam, menos os aviadores, coisa que nunca percebi o porquê. Professoras, empregados bancários aí deslocados e eu, na altura também funcionário embora de outra natureza. Belas amizades aí se fizeram, numa cidade que dormia enquanto nós voávamos por de cima de todos os sonhos, a vive-los. Esta era a fotografia em plano geral da cidade desse tempo. Em plano aproximado, eu a ela tinha chegado como meio espião escondido com rabo de fora. O pretexto era a invenção de Cardia, do chamado propedêutico, eu a pretextar como a enganar, sabe tive que sair de Lisboa, e decidi para aqui vir durante este tempo, pois lá, um ano inteiro sem aulas, no meio daquela imensa confusão, sabe como é, não conseguiria estudar, e aqui estou eu, mais a minha mota e os livros de estudos, para estudar à séria neste ano, e sim Senhora Doce viúva que me acolheu, me dê para mim o quarto de cima, que eu gosto de ficar perto do céu, uma cama e uma mesa para eu por todo este papel, e que sim, menino, tenho todo o gosto e precisão em recebê-lo eu e meu filho. Mas tudo isto, o escrito para trás que é como quem diz para cima é introdução de telenovela, não a render o peixe, mas perdida, como quem diz encontrada, na multiplicidade da memória, fio que puxa fio num infinito desenrolar.
Ali conheci uma menina que era mais ou menos como eu, era esta a história do meu contar. Ela a menina, tinha também sido desterrada do sul, para casa do tio, pois pai e sua mãe a achar que a escola perto do mar estava cheia de más companhias, como tubarões prontos a morder a sua pupila, enfim coisa de marés agitadas, mas eram outros os mares, quando naquele jardim de Beja pela primeira vez nos beijámos. Só uma vez subimos ao céu do meu quarto que de seguida a querida senhora viúva, me veio dizer, para nunca mais e se o céu já fora o meu e o teu, a casa continuava a ser dela e que importa, só importa mesmo é o respeitar da vontade alheia. Espanto e revolta, vieram depois, na reunião semanal da direcção local do partido, ao ver quer o nosso beijo público constava já da ordem dos trabalhos. Trabalho? Aquilo parecia-me mais calvário ou mesmo uma carga de trabalhos, pois os camaradas a perguntar, que alguém lhes tinha ido dizer, então o menino e a menina a beijar, qual são as suas intenções e por ai fora, o filme negro a discorrer e eu a alucinar. Sei que ninguém vai acreditar, mas era assim que alguns rimavam amar com liberdade, naquele par-tido tempo, de esquerda, os valores que afirmavam. Menino e menina que se beijam, é só beijo o tratar e é entre eles com eles, mesmo no altar de todo o mundo, o seu único passar.
quanto mais contigo me deito, mais hoteis me aparecem em linha...hihihi
Hoje recebi uma carta que rezava assim

Querido pimpampum

Se determinarmos por exemplo o peso de cada seixo no fundo do rio Tejo e obtivermos um valor médio de 145g, isto pouco ou nada diria da verdadeira natureza dos seixos. Quem, baseando-se nessa conclusão acreditasse poder encontrar, numa primeira amostra, um seixo de 145g certamente sofreria uma grande decepção, podia mesmo acontecer não encontrar uma só pedra com esse valor, por mais que a procurasse.

Os métodos estatísticos proporcionam um termo ideal de uma conjuntura de factos e não o quadro de sua realidade empírica. Embora possam fornecer um aspecto incontestável da realidade, podem também falsear a verdade factual.

Os factos reais porém evidenciam-se em sua individualidade; de certo modo, pode-se dizer que o quadro real se baseia nas excepções da regra, e a realidade absoluta, por sua vez, caracteriza-se predominantemente pela
irregularidade.

Uma média ideal obtida pela estatística elimina todas as excepções, em cada extremidade da escala, em cima e em baixo, substituindo-as por uma valor médio abstracto. Este valor adquire na teoria o lugar de um facto fundamental e incontestável, mesmo quando não ocorre sequer uma vez na realidade. As excepções numa ou noutra direcção, embora reais, não constam absolutamente dos resultados finais, uma vez que se anulam
reciprocamente.

Sob o peso das estatísticas, o homem individual sofre um processo de nivelamento e deformação que distorce a imagem da realidade e a transforma em média ideal. As estatísticas reprimem o factor individual em favor de realidades anónimas que se acumulam em formações de massa.

Em lugar da essência singular concreta, surgem números, características e conceitos que cumulativamente ditam as formas do viver.

Em lugar da diferenciação moral e espiritual do indivíduo, o sentido e a finalidade da vida individual, a única vida real, não assenta mais no desenvolvimento do indivíduo, mas numa razão imposta de fora para dentro do homem, ou seja na objectivação de um conceito abstracto cuja tendência é colocar-se como única instância de vida.

A decisão moral e a conduta de vida são progressivamente retiradas do indivíduo que, encarado como unidade (número) social passa a ser administrado, nutrido, vestido, formado, alojado e divertido por conceitos e acções baseados numa abstracção irreal.

Assim, o indivíduo torna-se uma espécie em vias de extinção. Quem ousa afirmar o contrário sofrerá imensos embaraços na sua argumentação. O facto de o indivíduo atribuir importância à sua própria pessoa, aos membros da sua família e aos amigos e conhecidos que compõem o seu meio somente comprova a estranha subjectividade do seu sentimento.

Na verdade o que significam esses poucos em comparação com os dez mil ou milhões que o rodeiam? E quanto maior for a multidão mais
“ indigno” se torna o indivíduo.

Quando o indivíduo esmagado pela sensação da sua insignificância e impotência, vê que a vida perdeu sentido, que afinal não é a mesma coisa que bem estar social e alto padrão de vida, encontra-se a caminho da servidão da
qual, sem saber nem querer, se tornou prosélito, deixando-se fascinar e subjugar pelas verdades estatísticas, doutrinado acerca da unidade e impotência da personalidade singular e da sua incapacidade de representar e personificar uma organização de massa.

Assim, se compreende que o juízo individual seja cada vez mais inseguro de si mesmo e que a responsabilidade seja colectivizada ao máximo. O indivíduo renuncia a julgar, confiando o julgamento a uma entidade externa a si.

Com isso o indivíduo torna-se cada vez mais uma função da sociedade que, por sua vez, reivindica para si a função de único portador real da vida, mesmo que no fundo não seja mais do que uma ideia.

O estado de direito resvala para uma forma primitiva de sociedade, isto é de comunismo das tribos primitivas sujeitas à autocracia de um chefe ou de uma oligarquia.

Com os meus cumprimentos

C.G.Jung
Quase glosa

Sim querido porque as outras, isso dizem de ti, não querida que não importa o que os outros dizem, estão eles porventura, aqui entre nós? Não querido não estão, mas sempre o disseram, deve por isso existir um fundo de verdade, não querida, como podes ter a certeza que sempre o disseram e que dizem a mesma coisa? Acompanhas-me desde sempre? Se a mesma coisa dissessem teriam que ser tu, coisa que tu não és, pois não, tens nome próprio Mas já reparaste querida, que acabam mesmo por estar, quando os invocas, sim querido é verdade, é um estar sem estar, como nós minha querida? Não querido, na realidade só estamos aqui os dois, então querida que importa o que os outros dizem para nós aqui os dois sozinhos a falar e a sentir. Já te olhaste ao espelho, minha querida, sim já o fiz, viste que a tua face é de um lado clara e do outro escura, como o sol e a lua, sim querido, percebo o que dizes, pois há dias que me levanto com a lua e outros que me deito com o sol, e já reparaste querida a intima relação entre esse teu sentir e aquilo que te faço sentir? Sim querido, já o reparei e não pensas que assim o é também de mim para ti? Pois é, somos relacionalmente, não é, podemos um ao outro apaguizar os fantasmas ou criar o mais terrível inferno, pois é querido está tudo nas nossas mãos, como quem diz no nosso coração a sentir. E então querida, quantos corações estão aqui, agora a sentir? Dois, querido que às vezes parecem ser só um. E não será, oh querida, a invocação do alheio que não somos nós, uma forma de a mim e de ti fugirmos? Sim querido, que eu quero saber de mim como sabendo de ti, vou deixar a paisagem no sítio dela, lá fora. Sim querida que a tua paisagem é para mim única, não é outra, seria cego se visse em ti a paisagem alheia mesmo quando crês ser-te igual, e depois querida, estás em local e situação de privilégio para chegar às tuas próprias conclusões, não é, estás aqui intima de mim. Foca a tua própria lente que não necessitas de armações alheias, cegas colectivamente num aparente mesmo sentir. Oh querido que são muitos os que estão fora e torna-se cada vez mais difícil saber de mim própria, afirmar aquilo que sou e que sei, ponho-me a perguntar às vezes se a louca serei eu. Não querida, que não estás louca, estás só a ser aquilo que és, mas não te confundas com os números alheios, porque se não perdes-te de ti mesma e eu perco-te a ti, já não sei mais quem és. Já viste quanto mais fácil e tentador, parece ser acreditar numa qualquer maioria qualificada em vez de te acreditares sozinha. Sim querido, vou tentar só, auscultar o meu único coração.