sexta-feira, dezembro 05, 2003

Oh viste como se pôs o céu hoje belo ao seu deitar, ao fundo da ponte da minha cidade, nuvens de todas as cores, de todas as formas, volumes distintos embora idênticos, a espelhar-nos na mesma terra e no mesmo céu, oh como foi belo hoje o seu deitar e eu aqui, coração, muito pequenino e frágil como todos as corações, por isso te digo, chega sempre a mim como suave brisa, não faças tremer a assustar os juncos ao passar
Olho e escuto em volta, todos a falar de limites, chegas e dizes, há um ponto do qual se não pode passar, mas que história é esta que o menino de mim não a reconhece, quem me faria algum dia acreditar que os elefantes grandes e pesados rosas não voassem nos céus, tudo dependia, como depende da imaginação e do seu concretizar, oh deixa-me pintar um céu irmão, no qual eu e tu assim o sejamos, oh deixa-me explicar-te que com pistola não, mesmo sabendo que a fome é o álibi da matança, então deixa-me descer ao mundo da imaginação concreta deste mundo onde agora estamos vivos, porque amanhã já se foi, perguntavas-me se estávamos a brincar na idade que temos, zangada com quem sente que perdeu o tempo, não, não, estamos a brincar, porque não há nada mais sério que a própria brincadeira, mas não sabemos ainda pintar essa cor no céu, porque se soubesse, te garantia, oh como o fazia, súbito, tramava-o, estamos reagido demais as vontades negras, só pode ser, só pode ser assim, ainda não sabemos como as expurgar, sem perder o riso, chave do cofre da imaginação, não num sentido exclusivo, porque não há mesmo nada exclusivo, mas da família dos quentes afectos, das caras quentes que nos falam, versus a as caras zangadas, as vozes metálicas, agastadas, os corpos frios, e meus irmãos que estão assim, vocês estão morrendo por dentro e por fora e é o sofrimento que vossas caras, vossas mãos expressam, como um secreto não secreto pedido de amor.

Para que, então tamanha baixa manipulação, grau básico de qualquer magia ao alcance de qualquer um, um tentativa de reter o irretivel, somos só grãos de areia de uma mesma só praia, que passam no buraco de qualquer mão por muito que ela os tente agarrar, sempre, sempre, a passar como caminhar, caminha caminha, grão de areia, não há nada para agarrar, não há nada que te agarre, só um grão no meio de muitos outros, como leve brisa a passar, não há memória, não há presente, só futuro a inventar. De que cores queres que te pinte aquela árvore e depois vamos brincar aos piratas. Eu sou o pirata do olho de cão, e tu inimigo de brincar, que é a mesma forma de só dizer, tu com o querer diferente que por ser diferente, nos permite bailar, como quem diz brincar, porque se fosse igual estaríamos parados, e se parados estivéssemos, nada havia a que brincar, então por que os quereres são diferentes, únicos e irrepetíveis, eu estou aqui no barco com a espada, e tu tens que conquistá-lo e de pois e depois, trocamos de papeis, ou inventamos um novo.

Sempre, sempre a mesma coisa, uma agressão que não é mais de que é um querer para se preocupar por qualquer coisa, um pré, antes de o ser, e se eu estou pré, como sou, onde estou, em lado nenhum, porque o pré acontece antes da ocupação, do agora, e o agora, é a casa do ser, sempre, sempre um desejo de exclusão, qualquer exclusão, eu e tu numa qualquer impossível ilha deserta, exclusão? O que é que se exclui, de que é que se exclui? É só medo a falar, morte do imaginar, como se eu e tu numa qualquer impossível ilha deserta, mais protegidos estivéssemos, contra o quê? A morte, morte e vida é a mesma coisa, morro em cada respiro, estranhas, mas olha e vê se não é assim, nem o consegues dizer mas eu escuto-te, lembra-te de quando caminhávamos nus a faiscar sobre o sol, o som ainda não tinha sido ceifado, era filho de um quadrado e de uma foice e seu nome secreto, silêncio, todas as pradarias eram o nosso andar, todas as nuvens algodão doce, o teu sorriso, a tua mão na minha, ou o simples lado a lado caminhar, era a fonte de todas as harmonias, e o espanto, o enorme espanto espantado ao infinito do nosso desejar, mas um espanto completo, de quem funda a realidade, queres a nuvem azul, pois eu que gosto do azul e de ti, assim o faço, que contente fico e como gosto de te fazer contente porque depois quando andamos contentes, estamos felizes, o riso é o nosso irmão parecido ao andar, e o que vejo nas ruas, caras de zombie, fantasmas que caminham, abnegados nos seus trajectos, seus? Ou de alguém que os desenhou. Gritos surdos que submergem os meus ouvidos.


Numa tarde de verão, como em todas as outras, no tempo antigo, como quem, diz jovens nos seus corpos, nus caminhavam pela casa nos entretantos do amor deles. Assim recebiam os Amigos ao entrar na porta que albergava seus corpos e seus corações.

Numa página qualquer, a Amiga desaparecera de vista de seu Amado, sem que ele se desse conta primeiro, porque de seguida despreocupado a foi buscando, primeiro à cozinha, depois pelos quartos, abrindo suas portas, até dar com seu corpo por debaixo de um outro, o de seu Amigo. Que a tenha visto não, porque o enlace dos seus corpos, a ele, a cara da sua Amada, ocultara. As arrecuas, fechou a porta com seu coração aos pulos como saindo de sua garganta, uma dor crescente dentro de seu peito prestes a explodir. Nesse instante, imaginou-a, sua cara, a dela, com o mesmo reflexo do prazer que habitualmente lhe via no enlace de seus corpos, como no momento anterior dessa mesma tarde, antes de seus Amigos chegarem. Deixou a Amiga do outro Amigo sozinha na sala, saiu para a rua e caminhando pôs-se a pensar.

O pássaro negro que ouvira o bater de seu coração desordenado poisou em seu ombro e para ele disse, queres conversar, sim pode ser, obrigado, que está difícil de acalmar tamanha perturbação e assim sem necessidade, pois o pássaro negro tudo sabia, contou-lhe o que se passara.

De seguida falou o pássaro que lhe disse. Já reparas-te que o que mais te perturbou foi o facto de imaginares, visto que não o viste, as expressões de prazer da tua Amada, como sendo as mesmas que contigo partilhava, sim é verdade, essa parece-me ser a raiz da dor, mas é um erro, vê lá melhor, pois se teu Amigo não és tu, mesmo sendo ela a mesma, como poderia a expressão do prazer dela ser igual aquela que nasce entre vós, o que viste sem ver, foi só o reconhecimento de que, a tua agora Amada pode ter prazer sem ser por ti, coisa elementar, como a vida, não teve ela já outros Amantes, antes de a ti oferecer como uma flor, também seu corpo, e não terá outros amanhã?

Agora esquece por um momento os corpos, não tem ela a tua Amada, outros prazeres para além dos que partilha contigo, não a faz o sol correr feliz no jardim, não faz um belo piropo de um olhar a sentir feliz de desejada? Não se sente ela feliz quando vê um corpo viril prenhe de energia ao passar que nela repara, como tu?

Sim é verdade o que dizes, e depois o corpo dela é teu? não, é dela sim, um belo corpo quem eu gosto tanto, pois como nós pássaros, se tem corpo, tem vontade e quem decide dela, quem é? É ela, achas que mesmo que quando ela tem o seu prazer daquilo que quer contigo, que às vezes é também o teu, fica cega a todos os outros desejos?

Os corpos não se estragam em seus amores, crescem neles, queres porventura, tu que a dizes Amá-la, cercear a sua vontade, queres porventura prendê-la como que estrangulando seus desejos e tornar-lhe dessa forma seu Mundo pequenino? Para quê? Para melhor a veres definhar e se ela definhar, o que crês que te acontece por tabela, falta de desejo por mim como já vi me acontecer, certo, e olha não é o Amor, também sinónimo da liberdade da coisa Amada, não trata bem o Amor a coisa Amada, que é como quem diz, lhe sopra as asas para melhor ela voar e soprar não é cortar, e depois recorda-te como os corpos ou as formas são breves passares, em que queres ficar então, na zanga da destruição ou no feliz estar, sabes disse por fim o pássaro, a única coisa que nos preocupa, a nós os pássaros, é o engano deliberado de nós mesmos ou de outrem, mas também não é este o caso e agora asas, que me tenho de ir.

Já vais, oh não fica mais um instante, para eu te perguntar algumas coisa mais, e a fidelidade como se lida com esta questão, fidelidade, respondeu o pássaro já a voar, é cada um determinar a sua própria medida, cada qual que responda a essa questão, ao que quer ser fiel e como o irá ser e depois que disso dê noticia a quem ache que vale a pena dar, que eu o pássaro feliz tenho a minha própria resposta, só quero ser fiel a mim mesmo, que é só outra forma de dizer, à Luz que me ilumina, à vida por ela criada, a liberdade de a viver e ao Amor com que a vivo de acordo com a minha própria vontade.

O Amante e sua Amante mais tarde pela noite adentro se encontraram, seu coração disparara de novo na ausência do pássaro negro, reza assim que ele lhe perguntou tentando saber os sórdidos pormenores do amor de seu corpo com seu Amigo, na sua ilusão de comparar o incomparável, ao que ela, sentido o seu coração começar a morrer, face a toda aquele abrupta inquisição, acabou por se render ao desejo das perguntas dele, enquanto secretamente em seu coração, nesse preciso momento a rosa começou a definhar, ele cego pela sua dor fez então amor de corpo com ela, descobrindo em si um violência que nunca sentira. Passado pouco tempo cada um caminhou em direcção distinta, e muitos, anos depois encontraram-se em amizade os três, disse então o seu Amigo, mas o que estavam à espera, a gente chegava a vossa casa e ela estava nua, ele reza que se bem que continue dele Amigo nunca percebeu aquele dizer, como se para ele fosse impossível que o desejo nascesse a partir da visão da nudez do corpo alheio, consta que para ele o desejo nascia de tudo como do nada, um breve olhar, um dedo a mexer, um pestanejar, um tom de voz, uma nuvem a passar, um cão a saltar e sei lá mais o que.