sexta-feira, março 05, 2004

Desculpa-me dizer-te assim, pois sei que vais achar um pouco rude e a responsabilidade de ser pai, não te faz desejar ser de outros, de ânimo leve. Os filhos só existem porque eu sou teu filho e tu és filho de uns outros entes queridos que nos quiseram e que já se foram, alguns sem mesmo nunca nos terem conhecido, e contudo se me puser a escutar baixinho, posso senti-los dentro de mim.

Meu filho, teu neto, é teu filho, é filho de mim, dos avós e se olhar lá bem no fundo da curva, cada vez mais vejo graus de parentesco afastados a tornarem-se próximos, cruzados e cruzamentos, até chegar ao primeiro homem e primeira mulher, será? Seremos assim todos, tão verdadeiramente irmãos?

O meu filho é igual ao teu filho, os filhos são todos iguais aos filhos e os pais sempre pais. A carne é toda a mesma, o sangue que corre nas veias da mesma cor, vermelho rubro e a lei e o motor do universo, Um mesmo, o Amor.

A dor que sentes em teu próprio peito quanto teu filho está em dor, é igual a que eu sinto no meu quando é meu filho a sofrer.

Oh perdoa-me por te dizer que a dor irmana, pois sei que isto é feito para o paraíso, um sorrir, um riso e um alegrar, como quando as crianças correm felizes.

Depois abro as janelas do meu olhar, devagarinho para não tentar enlouquecer, à crueza da fria luz do real que de rompante me atordoa, num mundo que de repente vejo de pernas para o ar. Serei eu ou será ele, que assim se encontra, ponho-me a pensar…

São milhões as crianças que não viverão mais de cinco anos, ténues flores ainda quase sem hastes e fico-me a pensar, não temos nós o saber e os meios para resolver uma questão como esta?

Ah se eu fosse tremendamente rico em euros, oferecia aviões, um sistema de produção alimentar integrado e digitalizado, um ininterrupto carrossel aéreo, onde certamente, até os aviões gostariam de voar. Depois pegava nisto tudo e ia ter com o banco contra a fome de forma a apetrechá-lo a Banco Mundial Contra a Fome. Depois, voava ao Brasil, pois lá decorre algode intenção similar, a ver de que forma poderíamos colaborar.

Ah, agora perdoa-me de misturar tão belo desejo do espírito com coisas tão aparentemente vis como as moedas, que o espírito e as moedas andam sempre de mão dadas, são ambos humanos. O dinheiro não é o diabo em si, nem só causador dos males entre os homens, como tudo, depende da forma como se usa. Então ponho-me a imaginar que o sistema que Portugal e o Brasil juntos inventassem, poderia até vir a ser fonte de receitas para os países, pois o problema está em toda a parte e de repente ouço-te já ao fundo de uma qualquer rua, a clamar, pecado, mas então, não é que ele quer fazer dinheiro com a erradicação da fome.

Não, não fiques nesse absurdo discurso de velho amigo meu do velho Restelo, que no fundo de todas essas dúvidas reside uma certeza, que para acabar com a fome e a miséria no mundo, o dinheiro será sempre necessário, pois todos o iremos pagar, mas não esqueçamos que pagar não é necessariamente não ter receitas, ficar mais pobre, com menos dinheiro, haja a habilidade de as receitas se tornarem sempre maiores do que as despesas. E depois, no dia em que as moedas, se transformarem em hóstias de câmbio ou noutra coisa qualquer, lá falaremos deste assunto, de novo, outra vez.

Poderia um desidério como este, tornar-se como o europeu de futebol, nacional, ou mesmo europeu ou mundial?

Depois fico a imaginar um bocadinho o que tal desidério erguido como vontade individual e colectiva, Portugal, poderia ter de impacto em nós mesmos e na forma como o mundo nos vê.

Recordo, que energia, que vontade percorreu Portugal e então se expressou, quando milhares de aparentes estranhos por todo o país se derem as mãos num mesmo clamor, Oh como vibrou então a Alma de Todo Portugal.

Auto estima. O que nos faz andar bem dispostos, que é o que acontece quando nos sentimos bem na nossa própria pele? Viver de acordo com a consciência, de acordo com aquilo que sentimos ser o belo e o bem, para quando te olhar, ter de mim, a imagem alegre e contente?

Talvez viver de acordo com a Lei ajudasse, tê-la como vontade, e sair correndo pratica-la, sabendo como vão meus passos, talvez se começasse-mos a endireitar as coisas básicas do mundo, nos começássemos a sentir mais bem dispostos, felizes, mais alegres, numa só palavra, motivados, que vos parece? Talvez a vida se tornasse menos complicada e não se tomassem tantos calmantes.

Ás vezes, parece-me que confundimos a árvore com a floresta, são tantas as dores, as complicações que não conseguimos mais ver as árvores centrais, dividimos assim o nosso mal-estar, por cada uma das pequeninas árvores da floresta, mas se calhar o assunto resolve-se mais facilmente se se pensar que basta talvez, mudar as árvores nucleares.

Aquelas que parecem mais improváveis de se mudarem e contudo, ao pensar em profundidade nelas, cada vez mais me parece, que se alteradas, seu efeito seria, como luzinhas que decidiram um dia acenderem-se todas, num mesmo momento, numa mesma vontade.

Cala-te rapaz, o mundo sempre foi assim e será, cresce, qual endireitar as coisas, já tantos o tentaram antes de ti, e o que deles resta? Um punhado de pó, um outrora de boas intenções esbroadas sem apelo nem agravo pelo passar das horas. E Ensina quanto antes, teu filho assim, prepara-o para o mundo tal qual ele é. Sempre as crianças morreram antes de tempo, sempre se matou.

Chama-me rapaz ou mesmo criança que meus ouvidos se alegrarão. Delas sou amigo, contudo, quero ousar das horas que passam, serem minhas, ser eu a avaliar o que delas faço, pois antes de mais tenho de viver comigo mesmo e olha que a vida não é um punhado de pó, quando acontece, pode ser muito mais que isso.

Perdoa-me meu filho por viveres num mundo que gira ao contrário dos valores do amor e insiste em que eu continue a educar-te para a esquizofrenia, para a cisão pois a Lei do Amor não é Regra de um Único Real.

Perdoa-me a rudeza de mostrar o sagrado e o profano como duas faces de uma mesma moeda humana, mas um anda sempre enredado no outro e vice-versa, é tipo caso de amor fulminante e fulminado. Não desgruda mais. O Sagrado não é coisa distante de um qualquer céu inacessível ao olhar ou ao tocar, o Sagrado é o Humano. Sagrada é toda a vida e que toda a vida tem o mesmo valor.


Perdoa-me baixar a conversa do céu para a terra, pois rude sou ao dizer-te que a vida é assim mesmo, que o céu e a terra se encontram como que misturados num mesmo plano. Existem céus mais claros e aconchegantes e outros mais escuros e ameaçadores da mesma forma que acontece na terra, e o que se faz num afecta o outro, como quem escreve, repercute-se no outro nível de realidade do mesmo único e múltiplo plano.

Uns pais sem vontade, num mundo também sem grande vontade, uma desmotivação, uma constante e desde muito apontada fractura na nossa própria imagem, que afecta a auto estima e portanto tende a complicar a vida e os negócios de todos nós. Poderá ser assim, mas penso no madrileno que antes de sair de casa para trabalhar lê no jornal que nessa manhã uma carrinha de explosivos preparava-se para explodir no centro da cidade e arrebentar com todos e tudo que estivesse à sua volta nos primeiros 600 metros.

Uma guerra, um novo tipo de guerra que se repete todos os dias um pouco por todo o planeta. A guerra não local, pronta sem eu o tu o saber a arrebentar sobre a minha e a tua cabeça no momento inocente em que criamos ir. O medo a residir no coração dos homens, os muros da mútua desconfiança a crescerem e os anúncios do ardor da contenda, para ser suave na forma de escrever, que o que geralmente se vê, são corpos decepados.

Ponho-me a escutar os meu próprios botões se é lá fora ou cá dentro que reside o medo. Como está meu coração, se inquieto e agitado a tudo em sua volta agitar, ou um outro agitar, aquele que sentimos quando nos move o desejo e a vontade do que já sabemos querer. Um antípoda do outro, um que quando treme põem todas as coisas em volta agitadas, fora de ritmo, pois então, é ele, o arritmado. O outro batendo no próprio ritmo, rápido, também, mas em uníssono com as coisas à volta.

O coração do outro embora sendo um mesmo é sempre do outro. Dou conta que dentro de mim pode residir ora um ora o outro e que a minha vontade é a porta que que ao escolher um, afasta o outro

O amor move-se porque é curioso, amor abre-se ao outro, entrega-se e recebe em pura inocência. Amor é achar que o Outro nos amplia, nos torna melhores, que com ele se pode aprender, que nos tornamos mais completos, é compaixão, tolerância, compreensão, integração

Repara então, que o céu e o inferno estão, residem também dentro de nós, é aquilo que decido sentir face a algo, a escolha é sempre minha.

Oh, meu filho, que o céu não se pode decretar por decreto, nem por voto democrático, para que o céu se revele inteiro como me parece que é, parece-me necessário que, primeiro ele, se revele dentro de cada um de nós e que cada um por ele opte. Sendo aqui o revelar, coisa concreta, Querer e Andar com o Céu cá dentro.

E depois ainda é preciso saber se falamos do mesmo céu. Para mim o céu é como viver nos braços do amor, Amar muito e Muito ser Amado, toda a antítese da miséria e da violência.

Perdoa-me meu filho que eu não sei explicar-te isto, não sei porque os homens o fazem, nem mesmo sei se é o mundo ou eu mesmo, que está de pernas para o ar. Não percebo como estas coisas acontecem em nome do Amor. São trevas, nuvens escuras num mesmo único céu azul que escurece quando assim acontece.


Então puxando a conversa para as entranhas da terra no sítio onde se produz a riqueza, imagino que o sistema que os países inventassem se traduziriam num arranjar das nossas terras produtivas, de uma forma ordenada, criadora de emprego, fora de limitações de quotas de produção pois esse pensar mais não teria razão de ser. Produzíamos para a Vida para o Mundo, não para a Europa, que talvez quem sabe, se comovesse e alinhasse nessa batalha.

Depois fico-me a pensar Portugal como uma marca, o que não lhe retira rigorosamente nada do que ele é, independentemente do plano em que o olhar, não sendo portanto nenhum sacrilégio ou heresia.

Hoje as grandes marcas sabem que são as ideias e os valores que a elas estão associados, e a forma como se vivem, ou de outra forma, como se tornam reais, que fazem a diferença, isto perante um consumidor cada vez mais informado e exigente e com preocupação de toda a natureza. As marcas grandes são assim confrontadas com a necessidade de desenvolver posturas face a questões que cada vez mais se tornam a agenda dos dias, questões éticas, morais e abrangentes.

Qual será o valor de uma tal ideia no mundo?
Qual é o valor do propósito de acabar com a miséria e a violência?
Qual seria o impacto deste pensar e agir na nossa balança externa.

Muitas das empresas portuguesas e brasileiras embarcariam nesta caravela de luz na mais bela cruzada de sempre naquela que seria recordado muito tempo depois como a última das cruzadas, no tempo em que os homens ainda não se sabiam entender. Traziam também ao voltar, novos negócios e receitas para Portugal.

Perdoa-me de te mostrar assim a realidade, toda misturada, mas é assim que ela aparece a meu olhar. Desço agora os degraus da cave onde me encontro a escrever e então um desejo me interrompe, quando isto for concretizado, por favor, enviem-me alguns euros pois eu tenho uma renda a pagar, e um filho para cuidar. Sou só um pequenino homem para aqui a escrever, não um Santo.

E já se infiltra um novo pensamento, será possível um sonho deste concretizar-se na realidade e organização politica em que hoje vivemos? O que se teria de mudar?

Cala-te rapaz, deixa de dizer baboseiras, que idade tens? Não pareces, pareces mais ter 4 anos de idade, vê se cresces e rapidinho, se não teu futuro…..

Pois calado estou, estive foi a escrever e está escrito.