segunda-feira, abril 26, 2004

Sim, amiga chega até mim despida de qualquer máscara, nua e bela como tu és, não, não te assustes já, não é no sentido literal e se fosse também não seria para assustar, mas sim para deleitar, bem sei que não são os corpos que se procuram, mas sim as almas e quando elas se encontram trazem em si os corpos, como então furtá-los ao encontro, coisa impossível dizes, sim, meu amor, mas contudo são encontros distintos e complementares que podemos viver em diversos planos, oh como fazemos amor num mesmo olhar, isso, sim, um só breve olhar e todo o amor e desejo lá dentro de um tamanho infinito, uma clareza cristalina que nos envolve, uma certeza, sim amor, como quando te digo amar-te, oh, eu sei querido, sei o mesmo que tu, sei da nudez do ser que é, do amoroso sentir da mesma compaixão, não mais a mascara, sim o doce ser no doce acontecer.

Saudade, amiga minha que sofres pelo que já passou, é só uma forma de viajar no tempo e quem viaja no tempo, viaja nas suas direcções, tanto vai para trás como para a frente ou para uma outra direcção qualquer, há mesmo quem diga que a forma de viajar para a frente, onde residem as nossas mais secretas esperanças é sempre indo para trás, sofres amiga em permanente construção, quem te disse que a hora de te entregares chegou e contudo é esse sofrer que te faz, o encontrar, no futuro que então, já de novo pode ser.


Sim, amiga, que as coisas deveriam ser de outra maneira, para quê a pedagogia do sofrer, mas o que parece ser real é que uma não se alcança sem a outra, tudo aponta para serem um mesmo par, houve mesmo quem já as visse a passar de mão dada numa rua da cidade

E contudo Saudade não é sofrer, é mais o local onde acontece o sofrer, é o mecanismo do sofrer, agora olha bem meu amor, pois é aí que reside o futuro, todos os futuros possíveis e impossíveis, é esse sofrer, que não é mais do que outra forma de dizer, como construir-mos as pontes entre o que seremos, que é o que já fomos, neste presente onde não estamos quando embalados em seus braços.

Baralhada, amor, tambem eu e contudo amor, o que te faz doer hoje, se atenderes bem, é o mesmo que te fez doer ontem, a falta da verdade, lembras-te aquela da infância, certeira no seu saber, por isso o que seremos é o que já fomos, o que sempre somos, únicos á procura daquilo que nos é único, não fiques agora ainda mais baralhada, pois ser único não é limitação ao amor ou a amar-te e eu amo-te pelo único que és

A Saudade leva-nos para longe, um longe perto, leva-nos daqui, deste instante e diz-me sempre baixinho ao ouvido, há qualquer coisa que não vai bem no agora dentro de ti, olha escuta, repara no que é e compõem. Assim em seus braços, me embala a Saudade, muito de mansinho me cura e como que me torna o presente difuso.

A Saudade é um ir para trás para ir para a frente e habita dentro de cada um de nós e muito em particular no povo deste país, é uma imensa Saudade construída num perfume do paraíso na terra, casamento de todos os desejos dos que assim o desejaram, e meu amor, foram muitos certamente, pois a presença da Senhora dentro dos nossos corações é grande, muito grande nesta terra ao pé do mar quo o mundo une

Oh, meu amor, agora abre as asas do teu imenso voar, viaja no tempo onde queres chegar e recorda-te que as direcções são simétricas no teu apontar

Ah, Saudade, Saudade do Futuro como cantou um Poeta
Naquela tarde límpida de infância no norte do seu país, local dos cheiros da terra, do cinzento e dos azulejos dos locais mais ricos e de um azul do céu, imenso, do tamanho inteiro da aprazível inocência do mundo, soaram naquela tarde os sinos em seu coração.


Todo o instante cristalizara nas mais vivas e espessas cores, o próprio ar se tornara Inteiro, Cristal da Puríssima Luz, qual Luz da Aurora que Antecede a chegada do Silêncio que então Se Torna o Próprio Espaço e o Amor Se Expande Inteiro.

As cores ganharam doces relevos em suas formas vivas da Luz Todo Feita Ternura, Toda Feita Perdão

Harmonia desceu então de uma nuvem e elevou pela mão a mão daquele menino, a quem lhe foi mostrado o que não se pode descrever por fora de alguém.

Ao ser de novo deposto na terra reparou que as suas duas meninas companheiras do passeio de sua infância tinham sumido. Num longe perto, uma grande casa, para onde seus passos se dirigiram, no meio uma passadeira vermelha, um homem ao fundo vestido de branco, a quem ele se dirigiu, peço-lhe desculpa por o interromper mas estou perdido, por acaso o Senhor não viu a Anita e a Fatinha?

E naquele preciso momento, logo elas lhe aparecerem, que afinal tinham decidido esconder-se dele como um jogo, pois sabiam elas do valor de coisas que ele não sabia.