quarta-feira, julho 07, 2004

O mecanismo da arrogância, a arrogância de me pensar melhor que um outro, de me achar, de me ver, mais sabedor disto ou de aquilo, ou seja o que for que me leve superior ao que sou e a um outro, pois quando assim vou, geralmente faço asneira, as águas entornam-se, então nessas vezes, disse-me o Homem uma vez, enquanto Infante, fora diversas e repetidas vezes julgado por diversos dos seus pares, como arrogante, sobranceiro, sem maneiras ou mesmo de más maneiras.

E o medo por detrás, se eu não encaixo isto assim, como encaixarei, ai, ai, ai não sei, ai que se calhar me fará mal e contudo se quisermos o bem, o melhor, ele então acontece.

E o medo por detrás a dizer, tenho que me fazer grande, passar por forte, pois no fundo estou cheio de medo dele, que nem é por ser ele, eu tenho é medo dos outros porque os outros me fazem muitas vezes mal. Assim faço de peixe balão, incho muito para parecer maior do que sou

E contudo reparara o Infante que existia sempre, o factor, Vontade, de um lado e do outro, nele e no outro que estava a seu lado, o que grita sua revolta, sua dor, poderia ter-se decidido em vez de, pela inveja, o perguntar, o pedir ajuda, pedir apoio e indicação, pensar para si mesmo, se ele o consegue também eu o consigo sabendo também que o que ele conseguirá, será sempre distinto de si.

A Inveja diz, eu quero ter ou ser aquilo que outro é, e já está a mentir metade.

A Inveja diz verdadeiramente que eu quero ter, visto que ser outrem, é coisa impossível, que eu quero ter uma coisa que ele tem

A Inveja diz também, se eu não posso ter essa coisa, tu também não e segreda-lhe então baixinho ao coração desatento, a raiva que envenena o visado e também, o envenenador.

Mas não, a opção que infelizmente mais vez, parecia ser tomada, era a primária, aquela que menos aprende, que menos dá a aprender, pois não se firma na descoberta do valor e mérito de cada um, não se confirma com a prova e o provar interno, a si mesmo, a superação, o desejo de superar, sempre melhor, sempre mais longe, mesmo que as duas, sejam realidades estáticas de ser, mas numa comparação incomparável, pois não há dois seres iguais e contudo, o são.

Só a falta disto saber, poderia ser a causa do seu não acontecer, sempre o problema da ignorância, da imensa ignorância que vira desde sempre no mundo e que descobrira depois no passar de seus passos vir de muito, muito tempo atrás. E contudo sempre intuirá, que cada um trazia todo o saber dentro de si, ou pelo menos um mecanismo que a ele permitisse aceder e aí morar.

E naquele país o homem vira, não o mérito, o bem-fazer, o ousado Almejar e Almejado, Fazer o Bem e o Belo, reconhecidos, protegidos, acarinhados. O que parecia ser dominante na esfera pública, era a incompetência, a irresponsabilidade, o pensar-se a si que serve, mais importante e poderoso que o servido, e desinteligência no fazer das coisas que assim, muitas das vezes acabava, resultando em dano, em atraso no desenvolver, no melhorar para todos.

O que mais se via de ouvir dizer, era de arranjos e safas menores, individuais ou em grupo, correndo uma percepção em seu país, de que não havia justiça, que não se fazia justiça, o que tinha como primeira consequência o agravar das injustiças, pois a impunidade não deixava de funcionar como estimulante, este era o estado das coisas no seu pais 30 anos depois da revolução. Ele era um homem que nas suas questões com a justiça também assim o sentia.

E não foram poucas e contudo a percepção que corria no seu país era que não havia justiça. Primeiro porque a Justiça Humana tem um tempo útil para a reparação, visto que é isso que ela almeja, e a sensação de todos, era que esse tempo, era sempre demasiado e longo demais.

Processos que se arrastavam por dez anos, correspondiam a 10 anos a aguardar as eventuais reparações, e isso afectava muitos, pois dez anos na vida média de um homem, se contarmos a partir de adulto, é parte significativa, se questões desta natureza, se mantém em aberto por períodos largos de tempo, podem assim influenciar negativamente e de forma irreparável, o curso de uma vida.

A coisa, dizia ele, tende pois para um antigo e extremado enunciado. Se não há Justiça, há injustiça, que apela e convida ao desrespeito da justiça, das regras acordadas entre os homens que tendem ao são convívio, e então porque nelas não se acredita mais, se vê a impunidade de quem não as pratica, já nelas não se acredita mais, não se crê mais que os problemas possam ser resolvidos no quadro da justiça e das regras. E este parecia-lhe ser a mais perigosa das consequências, a perversão prática do suposto acordado, o sentimento de impunidade resultante, e a onde ele poderia levar.

Pensava também o homem que em tempos agitados, toda aquela fina renda que fora lentamente concretizada pelas mãos dos Homens e que construía assim a possibilidade de Ser no relacionamento com os outros Homens, se costumava desfazer pelos ventos do terror, a justificação da necessária precaução, que cerceava os limites da liberdade individual. Eram tempos onde o Paradoxo deixa de funcionar. Liberdade e Segurança, não mais se encontram em equilíbrio, mas a Irmã Segurança, para preservar as duas, diz então ela, encavalita-se no dorso de sua outra Irmã.

E contudo sabia o homem que os assuntos de justiça entre os homens já não se esgotavam, finalizavam no tempo de vida do queixoso e do ofendido, que quando assim se iam, mesmo nos casos não resolvidos, enterravam com eles o conflito.Agora os pedidos e os acertos de justiça faziam-se através de gerações, como alguns casos recentes em diferentes pontos da Terra o demonstraram, ou no caso recente do seu país, relativo ao abuso sexual de crianças, pois passara-se uma coisa que embora diferente era de outra forma semelhante, os meninos cresceram, fizeram-se Homens e foram e estão a pedir contas.

Recordava o homem um história que ouvira de que num bairro periférico de sua cidade, onde se alojaram em massa e separados seus Irmãos de cor, que nem talvez há vinte anos, nos dias de receber, aquilo lá se sabia, a policia aparecia, barrava-lhes o caminho, revistava-os, e confiscava o dinheiro, como sendo oriundo de fontes ilícitas, pois este tipo de trabalho, o que os empregava, não lhes dava na altura nenhum comprovativo.
Acabam de receber e antes de chegar a suas casas já não tinham dinheiro. Seus filhos a verem tudo aquilo e a crescerem, cresceram como todos os Infantes e hoje jovens adultos, alguns hoje chegam ao pé de outros de outra cor, dizendo, passa para cá o dinheiro, que dinheiro, esse que eu ouço tilintar no teu bolso, zás, corta a navalha a pele e corpo alheia.

Mais uma história de ignorância e das consequências no futuro, que se faz presente, dessa mesma ignorância e do custo a que a ela sempre se associa.

Os Homens sabiam cada vez mais coisas e isso era em seu entender bom, tornavam-se assim maiores conhecedores de seus direitos e passaram a recorrer mais à justiça, mas tal não foi previsto, pois ele achava que no seu País, a forma como se organizava o ciclo de governação e a forma de governação em si mesma não permitiam a visão de longo alcance.

Aquela que consegue com sucesso antecipar as necessidades do futuro que se constrói assim com sucesso no presente. Em termos práticos, mesquinhos e vis como diria um Poeta, aquilo entupira o sistema por completo e dava-se o caso de paradoxalmente existirem juízes, que trabalhavam 12 horas por dia a despachar processos e mesmo assim a demora se tornara ao comum dos homens inadmissível.

O País funcionava de uma forma atrasada, quando as soluções eram implementadas, aquilo, era já, um bocado obsoleto, recordava a última vez que estivera numa sala de tribunal e ficara a observar atentamente toda a parafrenália tecnológica que se tinha acabado de instalar nos tribunais, tentava decifrar a sua função, o seu desenho de funcionamento, da funcionalidade no suporte à acção requerida, e ficara logo com muitas dúvidas das opções técnicas tomadas, sentia isto muitas vezes, pensar curto, pensar pequeno, pensar mal.

Como ele fazia isso com uma certa naturalidade, muitas vezes se pôs na posição do inimigo que denuncia e embora não fosse isso que o motivava, apercebia-se dos problemas que isso lhe causara

O labirinto de leis, decretos leis, que remetiam uns para os outros e ainda para outros, tal novelo de lá emaranhado, todas as leis se tinham tornado um pouco uma Babel e eram os próprios Homens que com ela lidavam, os primeiros a afirmar que se tornava então difícil saber das próprias Leis.

E depois leis, que não ficavam regulamentadas, donde não passavam à prática, perdiam-se pelas gavetas, tudo aquilo era estranho, um desperdício de tempo, trabalho de que as pensara, quem as fizera, das imensas negociações.

Uma vez o homem precisara para um estudo que fez, de averiguar em determinado ponto, a história do financiamento do cinema no seu País e chegou, ou melhor teve que recuar até antes da existência dos decretos-leis da Republica, chegou de novo às leis, década de setenta.

E o que encontrara, pois por isso também lá tinha sido obrigado a ir, não só para compreender o mecanismo, mas porque aquilo era o próprio mecanismo e explicava perante o espanto dos que neste ponto o ouviam, que elas se encontravam ligadas, em pedacinhos, vinha uma nova, anulava partes da anterior, mantinha outras e criava novas. Dependências e inter-depências remissivas e labirínticas, um pouco como o País, às vezes, lhe parecia ser, muito peso no lastro, demais para uma boa e leve navegação nos ventos rápidos do hoje.

Ficara assim com a ideia que aquilo, aquele estado de coisa não seria o mais propício à boa navegação, sendo aqui a boa navegação, viver-se um normal curso da justiça.

Muitas vezes apetecera-lhe como que zerar o País, levá-lo a um qualquer zero novo e recomeçar tudo de novo, ou pelo menos partes, mas um dia descobriu que no tempo da Primeira Republica ao fim de três meses já o número de leis se aproximava das 2000, vinha de longe, aquele profícuo fazer e ânsia de Lei. Profícuo?

Recordava-se enquanto Infante um atropelamento que lhe acontecera, felizmente sem graves consequências mas mesmo assim com sangue e que lhe deu muito pesar em seu coração. Um dia entre carros, fora da passagem de peões, apareceu-lhe de repente em frente, um homem pobre e andrajoso que nada via em seu atravessar pois trazia em sua cabeça, caindo para os ombros como um manto, um conjunto de cartões e caixas de cartões, era um homem do cartão, como há muitos, como vira bem mais tarde, os meninos em Maputo ao pé do mercado, que viviam dele, do seu recolher e do seu vender, alguns mesmos, obrigados por adultos a vender e assim viver, se a tal se pode chamar viver.

Travara mas o guarda lamas apanhara a barriga da perna do Homem e cortara-a, fizera-lhe um lanho. Vira o Homem a perna, viu o sangue começar a correr, atravessou a rua a correr e entrou no primeiro café com telefone público, ainda não era o tempo dos móveis, onde chamou de imediato o 115. A polícia fez o respectivo auto, e ele lá foi, acompanhado de seu pai, visto ser ainda menor, prestar declarações, enquanto o Senhor ficava no Hospital durante um par de dias a recuperar, felizmente nada de grave acontecera.

Recorda a conversa com seu Pai, de lhe expressar a preocupação por ter percebido que o Senhor era pobre e sem ninguém que o protegesse e agora ficara sem rendimentos enquanto estava no hospital, pois aquilo era jorna diária, e perguntara ao Pai se não o podíamos de alguma forma ajudar economicamente, ao que seu Pai lhe respondera, que não, pois à face da lei dos homens, uma ajuda desta natureza podia ser interpretada como aceitação da culpabilidade, e aquilo não lhe fizera o mínimo sentido, como é que a lei humana não permitia antes de mais a ajuda, antes mesmo de averiguar os assuntos de responsabilidade. Como é que pela ajuda se podia tornar culpado.

Fora depois com seu Pai visitar o Senhor ao Hospital, falar com ele, apresentar-lhe as desculpas,e como sempre saira mais rico do que entrara.

E contudo o tempo alterara-se, contraíra-se, pela potenciação do saber e tudo o que era alvo de acordo entre os homens teria que se adaptar à alteração das coisas, que agora acontecia de forma mais rápida. Até a própria Terra, aumentara a frequência do bater de seu coração. O imenso patch work, babeliano, dificilmente poderia resistir à nova velocidade, a nova aceleração dos tempos que hoje se viviam.

Via mentalmente em sua cabeça, os diagramas do movimento das coisas e entre as coisas, os fluxos do que se comunicava entre as partes, a qualidade desse comunicar e ficava na mais das vezes estupefacto, tudo parecia às vezes, quase que desenhado para não funcionar, ou funcionar mal. Enquanto Infante ficou muitas vezes furioso, zangado ao ver o que lhe parecia ser o mau actuar e depois quando o apontava, carregado às vezes nessa mesma zanga, quando tentava aos outros explicar, era nas vezes, tido como inimigo ou louco, daqueles que vem as coisas ao contrário.

Mas aquilo era como uma primeira camada da cebola, apreendera mais tarde,que às vezes as coisas eram mesmo para funcionar mal, assim tinham sido feitas, mal feitas, pois alguém se aproveitava em proveito próprio,desse mal funcionar.

Ainda noutro dia os Homens que com ela de perto lidam, falaram e disseram, que as boas práticas se tinham perdido, aquelas, as únicas que devem perdurar, das que vem de trás e exemplificavam que se tinha perdido o método que existia de acompanhamento na carreira dos juízes. Que antes tinham no início de suas carreiras, quando começam a exercer o seu julgar, o apoio diário de seus Pares e que agora não, o início era solitário.

Também disseram de um pensar muito mais grave, talvez o mais grave que ouvi, que existia uma justiça para ricos e uma outra para pobres, pois se é assim que a coisa está, está mesmo muito mal, pois é sabido que a justiça só se apresenta de olhos vendados às diferenças de riquezas e poder entre os homens.

Conhecer os Homens, implica sempre contacto entre eles, cruzamento dos passos, disponibilidade e entrega. Pensava o Homem, quão difícil é julgar, o imenso Saber que é necessário para saber julgar, Saber esse que vem de um só lado, de Si Mesmo, o saber da experiência, da experimentação no real, na forma como as coisas chegam e se apresentam, que isso implica Tempo, tempo de experimentação, tempo de aprendizagem, que quando existe apoio de quem vai mais a frente, as coisas se facilitam e se progride mais rápido e se vai assim, mais longe, quem já tem essa experiência, que mesmo sendo individual e única em cada um, não deixa de ser comum, não deixa de ter uma mesma, múltipla e infinita cor e por isso Partilhável.

Sabia o homem quanto tempo e vagar é necessário para se entender a si mesmo, se é que alguma vez se entendesse definitivamente, repetia muitas vezes, adaptando a si, uma resposta de um filosofo, quando lhe perguntavam quem era, o que fazia, respondia amiúde, se eu o soubesse, certamente não estaria aqui

Mas pensava o Homem, no seu País de agora, era o contrário que se fazia, com agravante de se deitar fora o que vinha de trás bem pensado, e realiza no momento do seu pensar, que isto muito acontecia, em todas as áreas do Existir dos Homens de Seu País, parecia-lhe que seus Irmãos davam muita vezes, eles próprios, tiros a seus próprios pés, salvo estejamos de todos os tiros.

Da mesma forma sempre lhe parecera estranha, para pôr a questão de uma forma suave, o que o seu País reservava aos mais crescidos, pois quando os homens, mais sábios eram, eram também, como que encostados às boxes. Tudo aquilo lhe parecia um desperdício de experiência, de saber, que assim não se transmitia para a frente, para os que Ficam e os que Virão.

Aeiou

Fora fogoso Infante, da Estirpe dos Infantes Fogosos, Génio Grande Lhe Foi Fadado

Aeiou

Os Filhos, às vezes zangam-se muito com os pais, mas querem deles sempre o Amor, e se os problemas foram os Pais ou os Avós que os criaram, serão agora os Filhos com os Pais e os Avós a Resolvê-los. Agora, ele próprio Pai, Perdoava-se de todo o seu mal, perdoava todo o mal sofrido, muito dele, via agora, ter sido fruto do seu próprio mal, e apresentava desculpas a todos que ao longo da Vida magoara ou ferira.

Perdoava-se o mal sofrido, porque tornara claro dentro de si, o que de si e do jeito que se pusera com o Redor, as razões de tal sofrer.

O Homem era muito claro nessa matéria, amiúde o ouvi dizer que quando se faz mal, está feito, não se pode desfazê-lo contudo pode-se reconhecer tê-lo feito e dizer dessa consciência que trás, em si, a Si Mesmo, dizer-se, o que aprendo com isto, o que decido fazer com esta aprendizagem e inclusive dar conta dela, a quem ofendeu ou magoou.

Acrescentava que pela sua experiência se tinha apercebido que a Vida era verdadeiramente inteligente, que sabia sempre dos corações e das consciências dos homens, e uma das coisas que o podia provar, era aquela enorme pontaria que a Vida tinha em fazer os nossos passos cruzados com quem transportava-mos questões pendentes, abertas, mal esclarecidas ou mesmo feridas, mesmo que fizéssemos de conta que não as víamos.

Tinha em Si, Dentro de Si, transportava o Homem, a memória de um Certo Sonho Português, desde há muito Cantado por Muitos, um Sonho Que fala e Que Diz de um mundo sem necessidades de prisões, governado por um Menino, que representa o Espírito Santo, que por seus dotes da Imaginação é coroado Imperador. Este Sonho, o Sonho do Quinto Império, Um Império do Espírito trazia-o o Homem como muitos outros Homens do seu País desde sempre, entranhado em suas Almas, ainda hoje, o Culto do Espírito Santo se Encontra Vivo e Vivificante em Seu País.

Tinha o Homem em seu coração uma certeza. O problema não são os homens, os homens sabedores dos problemas geralmente já transportam em si a vontade e a visão da sua solução. O que se passa então para que tal não se concretize, se há às vontades e os saberes em muitos, os suficientes para assim o fazer.

E contudo no outro dia, relembravam os que com ela andam de mão junta, que não lhes competia a eles, resolver o problema. Porque, essa, era a função do poder legislativo. Mais uma vez, por assim dizer, um empate técnico que muitas vezes vira acontecer em seu país ao longo das décadas, já mais de metade da sua vida se esgotara.

Tinha reflectido o Homem sobre tal assunto, e observara diversas coisas ao longo do tempo.

Por um lado sabia O Homem que os Homens sabiam que quem lida com as situações concretas, do real, quem mete a mão na massa, como nosso Povo costuma dizer, é geralmente quem tem o Saber. Então, como depois se poderia dizer às páginas tantas, que afinal seriam uns outros, quaisquer que fossem, que competia a eles, os que estão de fora da massa, os que não tem lá a mão, a solução?

Sabia o Homem que os Homens sabiam, que quando assim procedem, pondo em mãos alheias as soluções para os problemas que afectam os próprios, é meio se não inteiro caminho para que as coisas não se resolvam ou se resolvam mal.

O que poderia estar então por detrás desta atitude?

Cansaço, cansaço de se defrontarem com uma realidade ao longo do tempo que se perpetuava igual, não que a realidade possa ser igual, pois ele própria se move, se altera em cada segundo, mas igual, na forma de ver as coisas, de funcionar, de resolver no sentido da não resolução, o mau resolver, o não resolver. Cansaço que as vezes se traduzia em zangas em morrinha, por vezes como vulcões a explodir ou não, e assim de cansaço, de não crer, se resignam, baixam os braços, deixam de ter a Fé que determina as vitórias.

Por um lado as pessoas que lidavam directamente com a realidade, que nela tinham quotidianamente a mão na massa e desde que aí, a tivessem por algum tempo, sabiam geralmente bem, quais os problemas e mesmo quais os caminhos de soluções para resolver o que estava mal.

Por outro lado a forma e o funcionamento da democracia, no plano político, legislativo e executivo, parecia não o integrar bem, pois são estas, as faces da democracia que lidam e expressam o Saber de Todos. Não que o Saber não fosse democrático, portanto residia em muitos Homens, que se encontravam nos três planos de actuação no Real, mencionados

O Homem, esclarecia, que politico, era tudo, qualquer acto Humano era sempre um acto político, politica, a organização da casa, o funcionar da casa, entendendo-se casa, desde o Homem em si mesmo, à casa em que com sua família habita, à sua cidade, ao seu País ou Mesmo o Mundo, porque como ele dizia repetidamente, era uma mesma casa onde todos habitavam, só variava o tamanho dos quartos, até chegar ao menor que era o maior, sem contudo o ser.

Os homens andavam cansados de uma guerra que já durava há 30 anos. Estavam cansados, fartos e muitos não queriam mais lutar, ou por puro cansaço, ou porque já sabiam que a lutar a coisa não ia, ou então, mesmo por não saberem mais, dos seus próprios sonhos, alguns deles esquecidos, num outro sonho aparentemente comum.

De vez em quanto um ténue farrapo de memória, que o presente lhe abria, um breve estremecimento, uma breve dissonante temporal, um quase reconhecimento de si, esta situação, este sentir, faz-me lembrar… algo ou alguém que era comigo parecido, ou, seria eu parecido com ele, mas mais não, a amnésia de si mesmo não o costumava deixar.

Os Jovens Homens que viveram o 25 de Abril, com vinte, quarenta anos, tem agora entre cinquenta e setenta anos, são agora Homens maduros, muitos deles Avós, têm dentro de si, outras forma de sentir de ver e valorizar a vida, decorrente das experiências que a Vida Lhes Brindou e Brinda e Com o Que Dela Fazem.

O homem pensava que tinha que ser feita uma nova separação de poderes por assim falar, como quando se fizera a separação entre secular e temporal. Mas para poder falar destas matérias em pormenor, sabe o homem que primeiro tem que falar do processo de união, de como se unem as coisas.

O paradoxo que tinha dentro de si, herdou-o de homens que viveram há muito tempo atrás, separar para melhor unir.

E paradoxos são como tensões nos extremos de uma coisa, de uma questão, tendem a circular, a desenhar os seus pólos mais opostos, o potencial, por assim escrever de uma coisa nas duas energias que se opõem, que tem cargas, sinais e sentidos distintos, potencial que permite a existência da própria coisa.

Que uma coisa é e simultaneamente não é, o que a afirma e o que se opõem a essa mesma afirmação.

E uma coisa, para ser coisa, não o pode ser somente através da auto noção dos seus pólos, para a coisa ser, necessita de um terceiro que opere a integração, pois noção de ser e não ser, é cambiável, ou seja há sempre a possibilidade de vir a ser duas coisas distintas, a cada vez, a que se afirma, rejeita a que não é afirmada, a vontade e a razão em que se apoia, o terceiro, é que separa unindo os pólos e determina qual deles se manifesta em seu caminhar.

Integrar é conhecer, absorver, nunca deitar fora, uma coisa que é impossível de deitar fora, pois não se pode deitar um dos nossos lados fora, ficaríamos metade e provavelmente com graves problemas de equilíbrio.

Esse tinha sido o problema da separação das coisas em toda a história do homem, separava-se no plano físico, aquilo que deveria ser separado no espírito, ou melhor dizendo no espírito do coração, mas sempre sabendo que separar é para unir, não para anular, deitar fora, matar um dos lados em detrimento do outro, pois isso seria como sonhar impossível em amputar a vida.


Uma revolução tende aos abusos e os abusados sofrem sempre com esses abusos, pois uma revolução é uma súbita e brusca mudança, sem planos perfeitos para o amanhã.

A revolução é filha da imperfeição dos planos pré existentes ou de como os Homens os deixaram ultrapassar pelo tempo. É filha de uma queixa cuja ausência de resposta a torna insustentável, que quebra os pratos e vira a mesa. E Mesmo a Revolução dos Cravos foi feita com armas nas mãos e com toda a habilidade negociadora que este Povo tem, porque sabe quanto preza a vida e que portanto prefere resolver as coisas pelo entendimento entre as partes.

Sabia o Homem que Liberdade era de alguma forma muito parecida à ausência de planos, muito mais ligada ao conhecimento e mestria da arte de navegação, pois o que os ventos e seu engenho, iriam casar como rotas, não o sabia ele quais, ao do cais, partir.
No Homem residia o Sonho e a Vontade.

Quando o Movimento das Forças Armadas sai para a rua, o futuro está em aberto, não se sabe ainda se terá sucesso. De certa forma como a própria vida, ou quando, porque estamos vivos podemos e fazemos uma coisa, só que a vida cria, protege e alimenta a vida e as revoluções geralmente tiram-na a alguns. Também como a vida, dirás, que não só, a alimenta como a ceifa. Sim, mas não, por vontade exclusiva dos Homens que a própria Vida Criou.

O homem recordava, que no momento do golpe, nem era claro os limites das suas próprias intenções, quanto mais, a existência de uma rota de navegação à médio prazo.
Percebera-a naquele hesitação inicial, se os presos políticos seriam ou não libertados. A revolução aí, por um momento engasgara, mas rapidamente se decidiu a abrir as portas das cadeias.

Depois organizaram-se os partidos, chegaram os exilados políticos que se tornaram os líderes, outros sempre no País tinham estado, e as pessoas, as pessoas naquela imensa euforia de liberdade, naquela euforia embriagada de desejo do sempre desejado e ainda não realizado.

Recorda o Homem, que o Infante que fora, tinha o pé partido no 25 de Abril e assim ficou a vê-lo da Janela, curioso passara o dia à janela a ver as pessoas que conhecia, como vinham vindo em alegria, temerosa no início e depois forte, alegria, era o sentir que ele sentia do mundo, por detrás daquela janela.

Mas no primeiro de Maio insistira com seu pai e lá fora de muletas até ao antigo estádio, onde aprendera e jogara ténis, estádio da Inatel, com aquela multidão, a maior que ele alguma vez tinha visto junto e que enchia por completo desde o Areeiro até à Alameda e que depois desembocava no estádio


Chorara nesse dia ao ver aquela multidão toda junta, mas a sentir de uma forma que não sabia explicar a si mesmo, uma solidão, uma solidão que já conhecia em sua vida e que ali de novo lhe aparecia, na momento em que mais gente se encontrara à sua volta. Parecia que qualquer coisa lhe dizia, que não se reconhecia naquela multidão, tão aparentemente uníssona, tão aparentes desejos comuns, que rapidamente se viriam a demonstrar, não serem tão comuns assim.

Escreveu nesse dia um poeminha gongórico, que rezava do fluxo e do influxo das pessoas, e que começava muito esdrúxulo e assim, se nós não saíssemos, vós não entrarias, pois o estádio estava tão cheio que só se entrava à vez.

Agora deixa-me contar essa emoção que eu senti e que andava no ar. Parecia que de repente as pessoas tinham descoberto que andavam esquecidas do que tinham dentro de si, do que tinham para dizer umas as outras, tudo se falava, muitos se abraçavam, recorda particularmente, a quantidade de abraços que se davam, todos falavam e o assunto rodopiava no infinito dos desejos, parecia-a que de repente todos se lembraram que tinham ideias e voz, imensa alegria da expressão, uma imensa alegria infantil de quem de repente achava que podia experimentar tudo, exagerado na forma do seu acontecer, sem limites, como as crianças às vezes são, concretizar todos os seus sonhos, nova época da Esperança, que se inaugurava, armavam-se comícios em cima de qualquer mesa, numa cervejaria, num café, numa fábrica, numa escola, as pessoas subiam as cadeira e começavam a discursar, por dá cá aquela palha. plop, plop, plop fazia a espontaneidade, os dias.

E todos tentavam aprender as novas palavras que vinham com os partidos, democracia, socialismo, comunismo, social-democracia, democracia cristã, social fascismo, fascismo, proletariado, quarta internacional, n ismos de todas as cores e feitios, enfim um mundo novo de conceitos, que começavam a ser usados para compreender e agir sobre o Real.

Toda a gente buscava a sua nova família ideológica, os partidos buscavam as pessoas, enfim o encontro aparentemente perfeito, as pessoas queriam organizar-se colectivamente em grupos, para operar no real, tal era a forma de ver da revolução em curso, a que alguns já chamavam, de permanente.

O problema em seu entender, é que o exagero que ele empregava a propósito da alegria, não foi tão literário e inocente como isso. Uma grande maioria, virara-se especificamente contra uma aparente minoria que na sua opinião representava o antigo regime e descarregou em cima dele a sua raiva de contida durante 48 anos, elegendo-os como inimigos, fascistas, representantes do grande capital, como então se dizia, tudo aquilo que representava o que havia para destruir para assim se poder cumprir o novo, um novo que ninguém naquele momento sabia muito bem qual era.

O País extremou-se e por diversas vezes não esteve muito longe a possibilidade de uma verdadeira guerra civil, e neste momento da sua narrativa, realizou o Homem, o quanto tinha de agradecer, a todos as Mães e Pais, que já eram Pais em Abril, de Todos os Lados, de Todos os Feitios, de Todas as Ideias, de Todos os Sentires, por terem conseguido evitar que as coisas assim se tivessem passado, que morressem mais, que muitas mães perdessem seus esposos, seus amados, que seus filhos ficassem órfãos.

Entraram-se em casas alheias, violaram-se intimidades, destruí-se e invadiu-se património alheio, confiscou-se, se bem que com outro nome, um mesmo que o antigo regime tinha feito, muito se assemelharam nesses momentos os dois, revolução e antigo regime, que são só nomes que representam Homens, seus pensares e agires. Tão aparentemente diferentes os projectos e as intenções e tão próximos o agir, os processos, mas correu sangue por diversas vezes, o verão quente das bombas.

Lembra-se de uma que arrebentou na Avenida. Ele foi dos primeiros a lá chegar, traziam já dois homens, um outro negro de pele muito escura, sem perna, cortada pelo joelho, sua carne vermelha em borbotões de carne e sangue, um contraste que nunca tivera visto, que realçava todo o absurdo daquilo, toda aquela dor.

Mas realizara depois o Homem, que nem essa diferença existiu, pois ideologias, pensava para ele, quer dizer sistemas de ideias, de axiomas mais ou menos bem colados que se tornam um ponto de vista, uma forma de leitura e concepção do real, uma forma de estruturar a vontade e a consequente forma de agir. Tanto poderia levar os Homens a organizarem-se em grupos de afinidades, como os poderia levar a organizar-se em torno da construção permanente dos seus próprios, individuais e únicos, pontos de vista, individuais sem que isso obstasse a desejada, porque fazedora de sentidos, fazedora de Amor, por isso rica, por isso Bela, por isso capaz da Alegria, Companhia no caminhar dos passos.

Resumindo dizia o Homem que se cada grupo era um sistema de afinidades ideológicas, antes de mais cada Homem que o compunha era por si mesmo um sistema ideológico, ao limite cada Homem seria uma ideologia, embora felizmente fosse também muitas outras coisas.

Lembrava-se daqueles primeiros tempos da revolução, dos jovens a encaixarem-se nas chamadas organizações juvenis partidárias, por motivos vários, ideias, tendências e imitação parental ou mesmo por amores, foi lá que ela se filiou, e assim filio-me para lhe para me poder a ela chegar. Razões várias, como a vida sempre o é, geralmente uma a cada um.

Organizações juvenis que eram correias de transmissão dos partido, do seu modo de ver o mundo, dos seus objectivos e das acções

Coisa chata, ordem de trabalhos que era sempre uma mesma, análise da situação politica internacional, análise da situação politica nacional, politica estudantil, organização e as sempre quotas, escudos trocados por estrelinhas vermelhas de papel. N moedinhas em sacos e nos bolsos.

Assim se transmitia a ideologia, se assegurava a coesão ideológica do grupo e se planeava a acção e se actuava no real. Chamava-se controleiro, mais uma vez as palavras a revelarem a essência dos homens, controleiro, era o responsável pela célula local, controleiro, o que controla, estava tudo dito de a forma mais clara que seria possível, como sempre, alias com as palavras se as observarmos, ao pé.

Manter o grupo coeso, era feito por controlo. Triste ideia de grupo, de tratamento em grupo, de tratamento entre pares, e por assim lhe parecer, toca lá a apresentar o ponto de vista. Recorda-se a estupefacção dos outros quando partilhava este ponto de vista, que servia de partida a um extenso rol de ideias e sugestões, sobre formas diferentes de se organizar o real.

Acções eram as reuniões gerais de alunos, os comícios, as associações, as manifestações, colar cartazes, distribuir comunicação vária, em ambiente rodeados na mais das vezes de bastante tensão.

Recorda a evolução da história da colagem dos cartazes. Vê como de inocente jogo de destreza inicial, descobrir o método mais racional e eficaz de o fazer, aquilo passara para frequentes lutas de bandos dos diversos partidos, quando no acto se encontravam, até uma altura em que a cola passou a ter pedaços de vidro, para obstar a que o inimigo os arrancasse, pois aquilo muitas vezes foi mesmo uma guerra, recordo de história de facadas e nem sei se houve mesmo quem nessa actividade morresse.

Recorda imensas cenas de violência, algumas delas, verdadeiras batalhas campais pela sua extensão e participação. Os jovens do secundário deslocavam-se armados com paus, matracas e correntes de liceu em liceu, à medida das necessidades e dos sucessivos ajustes de contas. Hoje bato eu, amanhã bates-me tu, assim andavam os tempos.

Violência com que essa geração de jovens foi marcada. Zangas que deixaram marcas, como sempre deixam, ainda hoje passado 30 anos a coisa não se encontrava resolvida. Havia alguns que ainda se olhavam hoje, como se fossem aquilo que foram no liceu, coisa muito difícil de acontecer, mesmo que assim o possa parecer em primeira análise.

Recorda o cerco à cidade de Lisboa, fruto dos rumores de uma iminente contra revolução, pensara já com uma certa distância do tempo, como fora possível serem jovens os que se encontravam maioritariamente nas barricadas, se aquilo tinha dado para o torto, seriam maioritariamente jovens suas vítimas, e ficar a pensar nos pais e no que eles andavam a fazer.

O outro lado da questão é que só se tinham encontrado uns paus, muitos poucos, e a grande aventura que aquilo era nos olhos de um jovem, mandar parar os carros, revistá-los, e vigiar lutando contra a contra revolução, pequeninos Hércules, pequeninos deuses, alguns se terão sentido e outros continuam assim pela vida fora.

A forma de tentar enformar real tão ao lado do que os jovens eram, do que queriam, ideologia versus cultura, educação, ideologia versus Amor. Assim alguns de nós decidiram brincar aos adultos precocemente, lá andámos a conduzir almas, ou assim pensávamos em prol da revolução ou de outra coisa qualquer.

Até os namoros, geralmente aconteciam dentro das respectivas famílias politicas, se bem que famílias politicas, se era a expressão dominante, escondia outras famílias, que a não ter havido revolução, se deveriam expressar sem nome, mas que levariam o real a acontecer de forma muito aproximada, assim ele o pensava, pois politica, ideologia, sistemas de valores e de crenças, diferenciação de condições económicas, pareciam-lhe coisas mais profundas que se manifestavam no real, que de certa forma já o estruturavam.

Os nomes que os grupos atribuíam aos outros, isso mesmo denotava, os betinhos, os freaks, eram designações que nem sempre eram simétricas às das famílias politicas.
Nomes, grupos compostos de massas indistintas, que tremendo erro de ver ao longe, pois bastava aproximar para ver a diversidade e a consequente e muitas das vezes inútil forma de rotular.

Foram chamá-lo à sala de aulas, está a decorrer um comício na sala de convívio. Saiu como era hábito de rompão, naqueles tempos os professores e os alunos estavam habituados a serem interrompidos por questões politica, era caso para dizer que a politica rompia por diversas vezes as portas das classes. Ia-se ao conselho directivo, obtinha-se uma carta de missão, e lá se ia de turma em turma dizer das coisas.

Antes de entrar, uma jovem amiga, diz-lhe não entres, é uma armadilhada para te apanhar. Eram quase sempre as amigas que com ele vinham ter, avisá-lo, defendê-lo, inclusive em situações de batatada, como na altura as chamava, pois ele não gostava delas, por isso lhe punha um nome mais brincalhão, na esperança que esse nome tornasse aquelas coisas tão feias mais como uma brincadeira de faz de conta.
Justiça seja feita tantas jovens mulheres que mostravam na mais das vezes mais coragem em situações de violência física, que muitos jovens homens. Foi coisa que sempre confirmara pela vida fora, sabia dentro de si como era grande a coragem a força no Ser Feminino.

Uma coisa era não gostar de violência, nem tentar operar através dela, a outra era a coragem. Agradeceu-lhe e foi entrando, talvez quarenta pessoas, o rapaz em cima de duas mesas, como eram habitualmente as tribunas, falava dos episódios do dia anterior em Coimbra onde os sociais fascistas tinham espancado os seus camaradas, já com os olhos para ele faiscando.

Antes mesmo de poder começar a falar, contar a outra versão da história, realiza em sua cabeça, que nem mesmo a história, eles vão deixar contar, o que eles querem é vingança por Coimbra e calha-me a mim, que é quem aqui está, e assim é.

Aquela gente toda o ladeia e comprimindo os que estão a frente e que tentam bater e batem durante muito pouco tempo, pois ele foi logo ao chão, e os que mais proximamente o rodeavam também, tipo moche de râguebi.

As n moedinhas das quotas, que ele transportava num saco de plástico na sua mochila, espalharam-se pelo chão em fortes tinidos, tudo aquilo rodava nos interstícios entre aquela massa humana que se tentava levantar, com aquele espanto acrescido, que som estranho era aquele que tinha surgido.

Depois apareceram dois seus amigos e camaradas, uma mulher e um homem, e os três em posição e enfrentando aquele grupo lá foram recuando até a parede da casa de banho, local dos jornais de parede, onde encurralados, conseguiram impor respeito àquela frente humana que ficou a metro e meio.

A coragem compensava, impunha respeito, e parecia que o grau que cada um trazia dentro de si era diferente para um outro, pelo menos numa mesma situação, pois já vira fracos fazerem-se fortes e fortes ficarem fracos.

Dizia diversas vezes, que mesmo sabendo que ia levar, era sempre melhor fazê-lo com coragem, pelo menos a coragem da dignidade, de quem sabe que vai levar, mas nem por isso deixa de ser o que naquele momento como homem é.

Fora aliás dos únicos aspectos positivos que encontrara associados a fama que quase sempre ao longo da sua vida o acompanhou, até ser ele próprio a se ensombrar.

Ficara com a intuição, de que nessa época, a sua coragem, e as histórias mirabolantes que se contavam acerca da sua pessoa nos liceus de Lisboa, que era cinto negro de karate e coisa que tais, o terá safado de algumas violências, pois as pessoas teriam mais receio em meter-se com ele, isto dizia ele globalmente pois no dia a dia as coisas tendiam a se passar de outro jeito.

No meio daquela confusão ficara sem o seu capacete, e mais curioso é que o jovem oponente era quem tinha ficado com ele, cabecilha contra cabecilha, as explicações tinham que ser pedidas, o capacete tinha que ser devolvido, assim decidiu com seus camaradas.

O problema era que o rapaz só tinha aulas dois dias adiante, pois eram muitos os rapazes, que naquela altura se inscreviam, nas escolas, só frequentando algumas para poder exercer as suas actividades politicas, era uma forma de infiltração que muitas juventudes partidárias usavam.

O problema nem era esse, o problema foram os dois dias de mentalização, sabendo quando o confronto ia acontecer, prefira sempre que as coisas acontecessem logo, sobretudo este tipo de coisas, as más ou menos boas, Dormira mal nessas duas noites, via o tamanho daquele rapaz que fazia o dobro do seu, um bocado mais velho, sabia que tinhas seus amigos com ele, que ele teria com certeza alguns também, e que seria a forma de se passar e o desequilíbrio entre as forças presentes que determinaria o desenlace.

Tinha um problema dentro de si, uma fronteira antiga, por ele delimitada, por ele prometida a si e à vida, que o limitava nestas questões. Não conseguia nunca ser o primeiro a bater, não porque não tivesse destreza para tal, mas porque nunca conseguia e sabia isso dentro de si, ultrapassar o patamar de por a mão ou um murro na cara de alguém.

Sabia que só podia agir por resposta, o que era um problema porque vezes havia, em que o primeiro soco que recebia, ou outra coisa qualquer, era tão bem feito, que lhe dificultava e às vezes comprometia, a capacidade de resposta. Tipo K.O sem o ser, ou um bem aplicado.

Isto correspondia a um duplo dizer, não há violência e violência só como resposta, a suficiente para esgotar a própria violência. Violência como resposta, pois reparara, que na mais das vezes, aquilo parava, depois de esgotada, exprimida, confrontada a energia entre as partes.

Aquilo levara-o a desenhar uma técnica e uma táctica, era como dar murros, ou esbracejar, com cara de quem o está a fazer muito a sério, cheio de vontade de ganhar, dizendo-lhe com a cara, olha, vê que eu vou ganhar pois a minha determinação é maior que a tua, a razão está do meu lado, a razão é a da não-violência, eu não quero isto assim, mas agora faço de urso, para que tu compreendas a minha força, e te tornes mais razoável.

O problema era que naqueles tempos muitos traziam já dentro de si a vontade de bater, qualquer conversa prévia, que estabelecesse uma ponte para um possível entendimento fora da violência, era usada ao contrário, quaisquer que fossem as palavras, elas eram só breve caminho para vias de facto. Era como dizer, eu não quero andar a porrada, eu não quero bater, isto não precisa de ser assim, mas o outro responde, e eu com isso, pega lá murro, pois é isto que te quero dar, não há nada a conversar.

O capacete fora recuperado e a solução deu-se no terceiro encontro, como geralmente se dá sempre se repararmos bem.

Dois comícios dos oponentes na mesma sala de convívio, um grande grupo de lado a lado em cada lado, a aproximação do confronto, e de repente lá está ele, com uma cara cheia de pús brancos, que ele agora via ao perto pois já lhe tinham comentado tal infecção, parece que o rapaz terá feito a barba com um gillete enferrujada, ele pensando, como ele era pírulas, grrrr, que nojo, se eu tenho de lhe dar um murro naquela cara, todo aquele pus a jorrar.

E quando aquilo acontece, quando o oponente alça e prepara o primeiro murro, ele fá-lo nesse mesmo instante e quando suas mãos tocam o corpo do outro, é simultâneo esse acontecer. Quando a refrega acabou, muito contente ele então, consigo mesmo se sentiu, estava contente pois tinha conseguido alterar seu axioma anterior, como não conseguia bater primeiro, batia em simultâneo, bastava ver o armar do braço do outro, e então nesse momento fazer o mesmo embora, um pouco mais rápido, para recuperar aqueles milésimos de segundos de quem parte mais devagar como a tartaruga face à lebre.

Vai a sair do liceu à hora de almoço, quando alguém o avisa que estavam uns quantos à sua espera lá fora ao portão, decide sair e encaminha-se para os braços daqueles que vinham para lhe bater e começam a bater, leva três ou quatro primeiros, está no chão, é agarrado por detrás pelas costas e pescoço, um outro começa a enfardar pela frente, o sangue começa a jorrar de seu nariz, o outro assusta-se com o sangue, vê nos olhos dele, ele a pensar que era consequência do estrangulamento, mais se assusta e tudo aquilo para.

Lembra a primeira greve com ocupação em que participou, 14 anos, uma festa, dormir fora de casa de seus pais, dormir nos sofás da sala dos professores, dentro de um saco cama, que delicia, ele que quase toda a sua vida sempre gostou de dormir em sofás, recorda-se mais tarde quando seus pais lhe deixavam a casa só para si como dormia todas essas preciosas noites no sofá.

O rapaz olhava todos aqueles discursos, observava as acções e procurava também a sua família politica. Não se conseguia decidir, e tentou-se nessa greve, que lhe parecera por motivos justos, ao lado daqueles que se colocavam mais num dos extremos de um dos lados.

É acordado nessa madrugada pelo líder do grupo, que lhe diz, veste-te, prepara-te, que vamos ter com outro camarada, uma reunião noutro lugar com um camarada mais responsável.

Tinha-se apercebido de uma conversa entre eles, levamo-o, ou não, e ficara com a sensação de que as opiniões se dividiram, mas aquilo era também uma sensação estranha de uma certa tensão, qual, perguntava-se ele, sabendo a resposta, aquele rapaz era muito violento na sua forma de ser, havia outro que não, que o sentia mais humano. Não se sentia totalmente à vontade com o primeiro.

O dia a nascer, um sol doirado de verão a subir em tons de azul desmaiados filtrados por ténue e húmida neblina, um só carro a descer a avenida, chegando à uma rotunda, o chão molhado, e a surda conversa entre aqueles homens. Levamo-lo, não levamo-lo, é preciso levá-lo porque o outro assim quer, ele quer conhecê-lo.

De repente o carro faz um pião, e todo aquilo para, voltam a trás para o deixar de novo no liceu, ele pensando com seus botões, há qualquer coisa escondida nesta história.

No dia seguinte, é acordado pela visita do tal jovem mais importante daquela organização que chegara para reunir com eles. Dá-lhes a noticia que a revindicação, tinha sido alcançada, que tinha sido acordado com o ministério, mas que a greve devia continuar. Confronta-o dizendo que aquela greve tinha sido feita e aprovada para aquele especifico fim, e que portanto era melhor fazer primeiro uma nova RGA e depois logo se via o que fazia. Não os conseguiu demover, e assim pegou seu saco cama, e voltou a casa de seus pais, afastou-se daquela família em que havia membros violentos demais para seu gosto e com métodos de operar que ele não gostava.


O homem repara que se algum dia houver alguém que venha a ler estas suas notas, vai pensar que aqueles tempos foram infernais, mas se embora as coisas se tivessem assim passado, não se passaram da mesma maneira com a maioria, isso era mais reservado a uma certa estripe de homens, que nunca eram muitos. Havia quem lhes chamasse de líderes, porque capazes de liderar.

O homem recorda as belas coisas também, pois à vida tem em si, infelizmente estas duas faces.

O jovem foi muito amado, por outros jovens de diferentes famílias politicas, era muito amado e muito protegido por muitos. O jovem muito Amou, muito deu, muito mostrou.

Em 77, já a chamada esquerda tinha perdido a sua posição dominante nos liceus e no país, pois os liceus residem também nos países.

Em Lisboa, o seu liceu, era o único que resistia e por isso foi alvo de uma invasão.
Já corriam rumores vindos de outros liceus, que se preparava uma invasão, tinha-se montado um sistema de informação telefónico com fios, vulgo telefone dessa época, para avisar das movimentações que esse grupo fazia nas motas, pois era um grupo que tinha motas.

Aproveita-se os intervalos, ia-se ao café e telefonava-se, e nesse telefonema viera a confirmação, eles tinham acabado de partir de diversas escolas. Corre por todo o liceu, ele e seus camaradas, avisando toda a gente, o conselho directivo para avisar a polícia, e indo de turma em turma, todos se reúnem no pátio. Que fazer, fazer um cordão humano a toda a volta do perímetro da cerca do liceu.

E de repente assim é, um enorme cordão de dentro da cerca, que não deixava pedaço destapado. Uma primeira linha e uma segunda linha constituída por grupos de retaguarda, nos sítios onde era mais previsível, eles tentarem entrar.

Muito decorria ao mesmo tempo, muitas decisões tomadas naquilo que nem seria um quarto de hora, olha os anarcas estão no telhado e dizem que tem cocktails molotof. Toca de com eles ir falar, de cocktail, não pode ser, vejam lá o que fazem, isso é muito perigoso, está bem, ufa.

Vão chegando as motas, alguns com paus, correntes, param vão-se juntando no local previsto, começam as provocações, as bocas os abanões da cerca. Serão mais de duzentos, aquilo aumenta de intensidade, surgem e chovem as pedras da calçada, chega por detrás a polícia de choque e eles ficaram literalmente no meio, são dispersados.

Verdadeira batalha campal, no último bastião da chamada esquerda nos liceus de Lisboa. Creio que houve um jovem que se feriu com alguma seriedade no meio dessa batalha e ao recordá-lo, espera secretamente em seu coração, que ele se encontre bem.

17 anos, controleiro de quatro liceus de Lisboa, membro de organismos de direcção das juventudes partidárias, membro da comissão central, no ano seguinte funcionário, tornava-se ele mais parecido com aquele seu primeiro grande oponente. Havia zonas do seu bairro, onde lhe era complicado ir pois se o viam, recebiam-no à pedrada.

E contudo algumas vezes lá fora, outras tivera mesmo que ir, como quando foi avisar o Pai que seu Filho tinha tido um acidente em sua lambreta.

Ia a cruzar a avenida larga e rápida quando deu conta de um acidente. Aproximou-se e viu aquele jovem do seu liceu, que ele conhecia de vista e nome e pouco mais, que se encontrava caído no solo aos berros de dor e pânico. Aproximou-se dele, vira que tinha a perna partida, pois encontrava-se numa daquelas posições impossíveis, e sossegou-o, que a fractura não estava exposta, que ele ficasse calmo.

Vira-se para a pequena multidão que aí se encontrava especada a ver e perguntou se alguém já tinha ido telefonar para a ambulância, que não, encarregou um, que partiu, e depois de o sossegar, fora então avisar o Pai que recebera a noticia em seu almoço, pois aquele era um tempo onde os Pais ainda iam almoçar a casa, com as mães e os filhos.
Devia ser, por estas e por outras, que muitos gostavam dele, e aquele gostar, transcendia em muitas das vezes, e de forma clara, qualquer posição ideológica numa qualquer linha imaginada.

Estranha situação com que já se deparara, antes e depois, que estranhas às vezes as pessoas se comportavam, ficavam paradas a ver, e como que se esqueciam do actuar.
A isto juntava-se aquilo que ele suspeitava na altura ser uma certa morbidez, um certo gosto em ficar a observar a desgraça alheia. Hoje entende de uma outra forma, muito gostam estas gentes de aproximar seus narizes à morte, só assim podia ser no Reino do Amor.

Eram já muitas as diferenças de sentir, de estar com a linha oficial daquela organização, cada vez mais afastados, cada vez mais diferentes os pontos de vista, que não, a batalha não era ideológica, era mais cultural, assim o expressava naquele tempo, pois assim o tinham feito, com imaginação, inventando e construindo novos jogos, com o teatro, com torneios desportivos, com passagens de filmes e coisas que tais. Ao fim de um ano onde viveu no Alentejo, estava farto, daquilo tudo, tudo aquilo deixara de fazer sentido, aquela actividade politica.

Farto de politica, cheio de belas vivências humanas. As pessoas, as pessoas daquela região, tão boas, trataram-no na mais das vezes tão bem. Toda a semana, na sua mota a viajar de lado para lado, Beja, Évora, Santiago, Sines, Pias, e um sem fim de outra terras. Viajar, aquele enorme liberdade, de mota, por estradas do lá vem um, pernoitando em casa de camaradas, alguns que o acolhiam como se um filho se tratasse.
Muito aprendera com todas aquelas gentes, um ano inteiro por sua conta, por conta da vida, fora da sua grande cidade, Lisboa.

Ia almoçar ao restaurante, se assim se podia chamar, que aquilo era mais casa de família com porta aberta a servir almoços. Aquela Mãe, chegava, ele pedia meia sopa, e a Senhora, trazia-lhe uma sopa a transbordar pelas bordas do prato. Como ele sentia o enorme Amor de seus gestos, dos eu carinho, como ele era todo então gratidão. E aquele azeite tão diferente do que conhecia na cidade, puro, sem nenhuma acidez, em dias de bacalhau, o prato enchia naquele azeite

Olhava a volta e era o tempo do balão a esvaziar-se. Aquilo parecera um balão que de repente se enchera e se tinha posto muito grande. Parecia que de repente as pessoas se lembraram de que não falavam há quase 50 anos. De repente descobriam tudo o que tinham calado, aquilo saia, em catadupas e o balão por um primeiro momento, enchera.
Todas as ideias, as novas ideias, as novas experimentações, muita conversa e menos fazer, muitas das ideias não tinham em seu entender, a necessária visão e experiência para as levar a bom porto.

Do outro lado do Mar, Francisco Buarque de Holanda, cantava o verso, foi bonita a festa, pá, numa canção a sentir Portugal e a sua revolução.

Pá era uma expressão dominante no tratamento entre muitos homens na altura, pá para aqui, pá para acolá, pá por todos os lados. Pensava o homem como um singelo verso pode conter as maiores chaves da compreensão, pois aquele pá, simbolizava em seu ver, uma demasiada proximidade no tratamento entre irmãos, que muitas vezes se tinha tornado porta aberta para o fácil e rápido desrespeito.


Pensava sempre o homem que é sempre importante a analise dos detalhes, pois como o povo sempre diz, é aí que mora o diabo, a divisão, o mal entendimento das coisas porque só se olha a um lado delas, mas mesmo assim avança no seu próprio texto, na esperança, que compondo todas as partes, se revele o equilíbrio e o justo, mas sabe também que a fragmentação, por vezes, contraria uma apresentação passo a passo equilibrada.

O homem não quer analisar em detalhe aquele lado do real daquele momento do tempo, em termos das alterações e vivências dos modelos produtivos. Mas recorda-se, de uma anedota ou facto real, que ele não o sabe ao certo, mas que lhe permitia em seu espírito, sintetizar o pensamento da revolução nestas importantes matérias dos dias dos seres.

Contava-se que teria ido uma delegação da revolução à Suécia, que em conversa com Olaf Palmer, teria dito, nós em Portugal, queremos tirar aos ricos para dar aos pobres, fazê-los menos ricos e assim os pobres mais ricos, ao que ele terá respondido, curioso, nós aqui pensamos de forma diferente, nós aqui, não queremos que ninguém fique menos rico, e queremos tornar os pobres, ricos.

e a realidade é que passados poucos anos da revolução, veio o empréstimo do FMI, para salvar o Mosteiro e as contas do País.


Vós Que
Aqui Estais
São as Elites
Descontentes
As Elites
Fatigadas
Fustigadas
Pelo País
Em que vivem
Pela Forma
Com que o País
Vos Faz Viver
Em mal
Com Vossos
Corações
E Consciências
Vós São
As Elites
Sacrificadas
Em Vão
Assim o País
Vós Faz
Sentir
E
Contudo
Sóis
Vós
O
País


Vós
Que
Hoje
Aqui
Estais
São
As
Mesmas
Elites
Que


Estiveram
E
Do
Mesmo
Se
Queixaram


As Elites
De Que
Te Falo
São
Elites
Do
Coração
Do
Amor
Do
Bem
Pensar
Do
Belo
Agir
Do
Bem
Fazer

São
As
Elites
Do
Dar
Do
Querer
Ajudar

São
As
Elites
Que
Sofrem
Perante
A
Ignorância
A
Verdade
Ainda
Não
Sabida


Vós
Que
Hoje
Aqui
Estais

São
Crianças
Mulheres
Homens
Amáveis
E
Do
Amor


Mães
E
Pais
Que
Vêem
Vossos
Filhos
Neste
Mundo
A
Crescer

Crianças
A Crescer
Rodeadas
De
Morte
De
Expressão
Do
Mal Feito
Do
Mal
Pensado
Do Mal
Medido
Do Mal
Pesado
Do Mal
Contado

Vós
As Elites
Do Coração
Todos
Num
Mesmo
Sofrer


Falta
De
Poder
Bem
Fazer

São
Múltiplas
As
Coisas
Estúpidas
Mal feitas
Mal
Intencionadas
Não
Intencionadas

A Intenção
A Intenção
Do
Amor

Pequenas
Grandes
Coisas
No
Dia
Nos
Dias
Todos
Os
Dias

Percalços
Dificuldades
Acrescidas
Coisas
Mal
Feitas
Mal
Pensadas
Que até
Parece
Que foi
Feito
Para
Falhar

Desmotivação
Em
Vez
De
Motivação
Mais Tempo
Mais Burocracia
Mais
Mal
Pagamento
E
O
Tempo
A
Passar


No País
Onde
Mais
Tempo
Se
Trabalha

Onde
Mais
Tempo
Se Trabalha
Porque
Mal
Se
Trabalha
Porque
Não
Se
Sabe
Bem
Trabalhar
Bem
Fazer


Porque
Quem
Faz
Na
Mais
Das
Vezes

Não
Bem
Faz

Nas
Vezes
Em
Que
Mesmo
Querendo
Mesmo
Bem
Intencionado
Não
Sabe
Fazer
Ou Diz
Que
Não O
Deixam
Fazer


Há de Tudo
Para Todos
Os Gostos
Oh Irmão


É
Contudo
Amargo
Este
Gosto

Este
Travo
No
Céu
Das
Nossas
Bocas
Nos
Dias
Que
Passam
Pesados
Os
Corações
A
Andar


As Elites
De Que
Te Falo
São
Fiéis
De
Amor
As
Elites
Fiéis
De
Amor
Olham
As
Governações
Os
Governos

E

Vêem
Muito
Desamor
Muito
Em
Si
Mal
Pensar

As
Elites
Querem
Um
Pacto
De
Amor
Um
Pacto
Da
Justiça
Da
Inteligência
Do
Valor
Da
Justa
Recompensa
As
Elites
Querem
Continuar
A
Acreditar
No
Sonho
Do
País
Que
Vêem
De
Trás


As
Elites
De
Que
Te
Falo
São
Seres
Individuais

Tem um
Problema
Não tem
Corpo
Rosto
Voz
Comum
Nas
Regras
E
Fronteiras
Do
Sistema

Por
Vezes
Assim
Se
Sentem
Impotentes
Por
Vezes
Assim
Parecem
Desistir

Mas
O
Amor
Nunca
Desiste
Pois
O
Futuro
E
O
Presente
É
Sempre
Seu

O Amor
Inventa

Imagina
As
Maneiras
Das
Coisas
Estragadas
Resolver


As Elites
De Que
Te Falo
São
Fiéis
De
Amor
Integram
Aunam
Não
Dividem
Aquilo
Que
Crêem
Uno


As Elites
De Que
Te Falo
Não
Partem
As Coisas
Não Fazem
Partidos


As
Elites
Mostram
Vão
À Frente
Conduzem
Sem
Conduzir
Pois
É
Assim
O
Amor


As
Elites
Tem
Que
Se
Tornar
Finas
Elites
Inteligências
Rendilhadas
Fiadas
Em
Puro
Ouro
De
Amor

Claras
Luminosas
Demonstrativas
Quanto
O
Baste


As
Elites
Tem
A
Imaginação
A
Seu
Constante
Lado
Podem
Imaginar
Criar
Implementar
Novos
Corpos
Novos
Rostos
Novas
Formas
Da
Casa
Melhor
Gerir


Imagens democráticas.

Fundação torta, edifício torto.


Muda-se o mundo quando nos mudamos a nós próprios e se cada um der a mão àquele com que se cruza no dia a dia, acabariam e acabaríamos deste modo todos os problemas. Não são pois os governos nem os partidos que resolvem ou serão capazes de resolver problemas como a miséria ou a pobreza, mesmo que para isso devam trabalhar e contudo isto não é em meu ver razão para acabar com eles.

Um dos problemas da democracia, baseados numa estrutura de partidos é que a realidade é inteira.

Um dos nossos problemas da democracia é que afinal um homem não é um voto, pois a introdução do método de hont, perverteu esta realidade, assim parece que em função do sítio onde habitamos, alguns homens correspondem a um voto virgula qualquer coisa enquanto outros que habitam noutros locais, eventualmente seus votos terão um valor inferior à própria Unidade.

Talvez fosse de resolver os problemas da representatividade relativa, começando por corrigir o que está invertido e assim de novo cada homem ser e ter de novo um voto, pois eles, os homens são todos do mesmo tamanho, mesmo quando têm membros amputados pelas minas.

E depois o método de Hont, o método da proporcionalidade, foi na altura acordado, por necessidades de proporcionalidade, ideia basicamente contrária a da ideia de unidade do homem e do seu voto. Acordo feito depois do 25 de Abril, e que ele ainda hoje cria inalterado. Se pensasse, então nos movimentos sociais das ultimas décadas no território, então hoje aquilo deveria fazer ainda menos sentido

Nas penúltimas eleições legislativas, o partido que obteve a maioria, teve uma minoria de votos em relação ao número de votantes. Se a democracia se baseia no princípio da representação da maioria, como pode então formar governo, mas tal contradição de termos, não impediu contudo a sua formação, nem se recorda o homem de ninguém ter tal questionado


Depois o homem foi ver seus apontamentos antigos à procura de umas reflexões sobre estas matérias.


Entre o partir e o ficar

Quem hoje vai decidir a questão são os indecisos. Não era nada difícil de prever se atendermos a realidade.
Assim, se os indecisos são os poderosos do momento, também lhes cabe, proporcional ao seu poder, um dilema, porque os indecisos não se conhecem entre si, não pertencem a nenhum partido.

Os indecisos não " sentem " nenhum partido, nem acordaram em conjunto, um sentido de voto. Contudo os indecisos são do grupo que vota, tem cada um, uma história de voto que os relaciona com os partidos presentes no tabuleiro das opções.
É um dos lados do dilema a enunciar um dos paradoxos " democráticos" da democracia. É afinal a minoria que determina o resultado, é a minoria que determina o resultado da maioria.

É claro, no momento em que escrevo, que a maioria quer uma mudança, o que quer dizer também que não querem mais do mesmo, querem melhor. Os indecisos também. Os indecisos estão indecisos porque não têm a certeza em quem devem votar para melhor viabilizar a mudança, porque ninguém lhes aparece claramente como o protagonista indiscutível dessa mudança.

Alias, é na palavra ninguém, que reside a causa profunda de um tão grande número de indecisos nesta hora, como muito certeiramente um português rural, que encarnava o númem do Saber do momento, enunciava num recente telejornal, que ajudaria, se os candidatos a primeiro ministro, mostrassem, quem com eles governaria, pois assim seria mais fácil escolher.

Que é o mesmo que dizer a todos os actores do sistema democrático, que colocar a escolha ao nível da personificação do grande líder, como se colocou, contribui para aumentar o número de indecisos. Os equívocos que um modelo de comunicação com base na personificação do grande líder, gera, são inúmeros.


O equivoco de que o melhor orador é o mais capaz, em detrimento, por exemplo, da discussão dos modelos de funcionamento das estruturas de governo, do uso do poder, da criação de mecanismos efectivos de transparência e de controlo do sistema pelos cidadãos.

Qual deve ser a formação de um primeiro ministro? Um especialista ou um transdisciplinar? Quanto de gestor e quanto de criativo? Das oito horas do dia de trabalho, quantas delas, deverá um ministro estar no seu gabinete e quantas no terreno?
Enfim, um verdadeiro novelo de questões, tipo caixa de Pandora, que pela sua densidade e utilidade merecem ser tratadas noutro lugar e com outra profundidade.

Alias é a meu ver perfeitamente sustentável, dizer que todo o modelo de comunicação está pleno de equívocos, sendo possível sintetizar no seguinte paradoxo toda a essência do problema. - num pais onde a maior parte de nós preferiu ficar a ver telenovela ao único debate conjunto, a democracia não utilizou o serviço público de televisão, para promover um debate planeado, por áreas, ao longo da campanha, que abordasse as múltiplas questões que ficaram de fora, ensombradas pela opção do futebol.

E é o futebol, aquilo, que determinou o aumento progressivo dos indecisos e que expressa um dos outros lados do dilema.( O que por si é um facto novo, cheio de curiosos e múltiplos significados, que necessariamente se irão corporizar em novas práticas políticas nos tempos próximos!).

O futebol deslocou o eixo da questão do plano das afinidades ideológicas de cada um para o plano da ontologia do ser. A mola dramática do caso do futebol Clube do Porto, seria um confronto entre a prática de princípios e a ausência deles. Os que engrossaram os indecisos, foram aqueles que perceberam, que ao que parece, decidiu-se fazer mais estádios do que os pedidos, que ninguém apresentou um estudo do impacto do retorno global versus investimento realizado, que ao que parece, decidiu-se fazer mais estádios sem apresentar uma visão estratégica de desenvolvimento, que justificasse de uma maneira lógica e aceitável, tal opção, agravado por um contexto tristemente e quotidianamente familiar, de significativa derrapagem de custos, numa situação de défice geral.

Da mesma forma que creio, que a coragem, como atitude, compensa embora por vezes não a curto prazo, creio que os indecisos são simultaneamente decididos. Os indecisos são homens e mulheres, que não se deixam refrear por dicotomias primárias de esquerda, direita e que pensam, que se é verdade que muitos vezes falta criatividade nas ideias e nas soluções, antes, coloca-se outro problema, que é o querer fazer bem, e saber, fazer bem.

Os indecisos sabem da enorme sabedoria colectiva do voto português, que tem a extraordinária habilidade de, em conjugação com o método proporcional de Hont, provocar empates técnicos em número de deputados. Os indecisos sabem algo, que parece escapar a alguns políticos, que ninguém obterá uma maioria absoluta parlamentar, pois seria como tirar a lua do céu.

Impossível. As razões são tão óbvias que nem vale a pena explicar. As praticas politicas tem muito que mudar até os políticos obterem esse grau de confiança. Os indecisos sabem que "o que está em cena " é uno, e como tal não querem uma mudança só para um dos lados da balança.

Por outras palavras o arquétipo bem português de por os ovos em diferentes cestas, com a curiosa peculiaridade de a sua enunciação ser feita ao contrário - não por todos os ovos na mesma cesta, a funcionar.

Assim, utilizando este atalho, e não me apetecendo cair na tentação de fazer o exercício mental do jogo das moedas, prevejo o seguinte resultado. Vitória do PSD, maioria parlamentar apertada, entre o PSD e o PP e o crescimento do Bloco de Esquerda. Abstenção global com tendência a pequena queda, essencialmente fruto da meteorologia. Assim se expressará o desejo de mudança.

Ficam os Amigos que receberem este e-mail, fieis depositários da minha previsão eleitoral feita pelo meu gabinete de sondagens constituído por mim com mim mesmo.
Vou-me deitar indeciso, a pensar se choverá e a lembrar-me que a autoridade não necessita de mão de ferro, mas sim, é silenciosa como uma flor.

Amanhã irei votar!

Muito obrigado por me aturarem a decidir o meu voto
17/3/2002