sábado, dezembro 11, 2004

Disse hoje a UNICEF que morre uma criança a cada três segundos e nós aqui emaranhados nas nossas crisinhas politicas, reles impermanências de soluções adiadas, que não compõem os dias, muda-se mais uma vez sem nada mudar. Sim que Portugal tudo possa resolver, pois seu espírito tudo resolve, mas podia-se começar por resolver o problema aqui na nossa terra, nas nossas margens e fronteiras daquilo que não as têm, e depois quem sabe se espalhasse em todo o redor. Mas é a fasquia alta de mais para a nossa politica de vistas curtas, pois, que não assenta no campo sem fim do coração, e assim nos resignamos, lá vamos nós andando como escravos na vida, cabeça no chão, deixando de olhar e sentir os horizontes abertos do amor, assim me dizes tu e o repetes na boca dos que encontro e disso me falam, chegam e dizem-me, vendi-me, sou como uma puta, de luxo, bem sei, mas assim me sinto, e eu que não, não o és e se o fosses que seja por opção de desejo, não curvatura de uma qualquer impotência, pois cada um pode ser o que é, menos talvez aqueles que não o podem, pois não tem o tempo para tal, não tem que comer, ou não tem medicamentos para combater a sida, ou não tem condições mínimas para viver e assim se vão, e todo este povo dá e torna a dar como sempre, corações grandes, que mais dão, mesmo quando os bolsos se esmifram e as moedas são poucas. Damos, dás, dou, mas não chega ao que parece para resolver o irresolvido e assim me absolvo, numa falsa paz de meu próprio espírito e amanhã e outro dia igual e daqui a um tempo qualquer, serão quatro que se vão antes de seu tempo em cada segundo, tempo inferior a uma batida de meu coração, tempo menor do que eu a respirar, se as coisas no entretanto, não mudar.E enquanto escrevi estas palavras, a atender à média da constatação da Unicef, se foram lá ao longe, num aparente longe de meu coração, fora da distância de meu olhos mais umas setenta crianças. Conto o tempo da minha escrita assim, na medida dos homens, à medida mal medida de nós, um mesmo, a vida, e tu vens vindo ao fundo, dizer-me mais uma vez, pela ultima vez, sempre foi assim, sempre será, devias pensar em ti e não nos outros e eu, eu, e eu, que te escuto faço orelhas moucas às tuas palavras que conheço e sempre me chegaram desde que me lembro dos meus passos aqui na terra, e penso em momentos negros da hesitação, será que tens razão, será que sempre terá que ser assim e de repente, uma palavra imensa rola e se agita dentro de mim, como uma onda grande a crescer que grita por fim, NÃO, um grito de um pássaro selvagem imenso que se estende na abobada do Mundo e grito e choro por todas as Flores ceifadas por todos nós antes do seu próprio tempo, ou acharás porventura, que por não lá estares naquele ao fundo perto, nada tens a ver com isto.