quarta-feira, agosto 03, 2005

A Clarice Lispector, Grande Coração Rubro, Rosa em Flor, Bela a Alma, Belo o Espírito em Belo Corpo no Campo Verde Infinito do Amor e dos Silêncios Que Cantam


Da varanda de sua casa, portadas e janelas abertas de par em par, o verão de calor entrava e se estendia por toda a casa em suaves esvoaçares, e o poema volteava no bico do pássaro, que era um mesmo sem quase nunca o ser. Vi-o a passar, detinha-se num pedacinho de instante que trazia em si as mais belas cores, que abria em leque como a cauda dos olhos e do olhar do pavão coroado, pois conhecem todos os poemas e todos os poetas a secreta lei do coração de que se dá sempre a mão a quem nos a oferece. Assim batem agradecidos os corações que se olham e se vêm num longe que é sempre perto.




Dá-me a tua mão
Dá-me a tua mão
Vou agora te contar
Como entrei no inexpressivo
Que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
Naquilo que existe entre o número um e o número dois,
De como vi a linha de mistério e fogo,
E que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
Entre dois fatos existe um fato,
Entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
Existe um intervalo de espaço,
Existe um sentir que é entre o sentir
nos insterstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos silêncio

Clarice Lispector




Dona Felismina que eu em meu coração traduzia por face do coração amante e amado feliz cortava seu cabelo em ciclos de doze anos. Menino, eu, pelas manhãs, quedava-me mudo e silencioso, observando o mistério do seu carrapito formar. Seu longo cabelo na alva luz por seu dorso que o pente em gestos de ritual certeiro, cego e sentido escorria antes do seu enrolar. Assim aprendi o mistério secreto dos fios que ligam à fonte e seu delicado cuidar em seu cuidado, aprendi o amor a rosa sem idade naquela precisa cor de prata como ao luar, que desde então se estende e desvela e se desnuda no lago dos reflexos de meu ser. Rosa sem idade, rosa sempre bela em sua beleza, em seu ser, em todos os tempos de seu ser, sempre bela em todas suas idades sem idade, pois rosa não tem nunca idade, tem saber, saber e sabor do Amor que ela é.


Dona Felismina não gostava de ver filmes com mortes na tv, pois achava que era a sério e já em sua longa vida a morte rondara de perto seus sonhos, dos seus dias acordados, dos seres que ela amava em seu perto. Razão tinha ela, pois o mundo é de certa forma como a forma em que o vemos, como o vivemos e o que sentimos em esse viver, um mesmo fora que é um mesmo dentro, um mesmo dentro que é um mesmo fora

Naquela varanda que dava para o baldio quadrado das hortas pequeninas lado a lado, Dona Felismina cantava para as plantas que cuidava, e eu menino, observava como elas ficavam felizes ao seu canto, como os caules, as folhas e as pétalas se levantavam, dançavam e fremiam em amor, imperceptível ao olhar de alguns, visível a outros na linguagem invisível do coração, um mesmo, o da Senhora e das Suas Plantas e Flores. D. Felismina se desvelava ao meu olhar menino, Ela, era a Rosa e a Flor, A Rosa e a Flor, Ela era.

Também me contava ela, muitas vezes, que quem canta, seus males espanta

Despedi-me dela, ela quase sem sopro, branca e translúcida em sua cama cancerígena que levou seu corpo para longe de meu olhar.

Ela continuou, continua e continuará sempre dentro de mim, como nas vezes em que chegando, eu menino ferido, todo em dor pela dor do mundo, me dava seu colinho, quando minhas lágrimas se soltavam em borbotões e encostado e abraçado por seu peito de novo me serenizava. Seus olhos viam tudo no instante, seu gesto e agir seguro, prado que acolhe, que segura, que atenua, seu vaso das águas que limpam, lavam e de novo curam.

As
Rosas
Sempre
O
São

Agradeço
À
Vida
Todas
As
Rosas

Todas
As
Mães
Que
Sempre
Me
Cuidaram
Que
Sempre
Me
Cuidam
A
Elas
Meu
Amor


Na rádio, de promenade em promenade oiço a cítara do mestre Ravi Shankar, a desenhar a paz


As mãos são para se dar, para se tocarem, para falar, para acariciar, para amparar, para puxar. Mãos são arte do desenho e do Desenhador, assim se tecem as tecituras do Amor