quarta-feira, julho 30, 2003

Às vezes a vida real tem destas coisas...

Exma. Senhora,

É com sentimentos ambivalentes que lhe escrevo. Com tristeza porque não pensava que um pedido de impugnação relativo à notificação passada pela EMEL lhe “roubaria” o seu precioso tempo, à luz das tarefas que sei o seu cargo comportar. Por outro lado, é com alegria pois o perfil de V. Ex.ª tranquiliza-me sobre uma justa deliberação.

Passo a expor:

No passado dia 10 do corrente mês, ao sair de casa dei com o meu carro imobilizado. De imediato telefonei para a EMEL, informando-os que não percebera como tal acontecera, visto ter o dístico de residência e perguntando qual era o procedimento para o desbloquear.

Extracto do primeiro diálogo com quem me atendeu:

E daqui a quanto tempo é que chega a equipe?
Ah, isso não lhe sei dizer, não temos retorno
Não tem retorno?
Sim, não tenho retorno das equipes a não ser quando lá chegam.
E não me pode dar uma previsão temporal?
Não, infelizmente, não posso
Está-me a dizer que tenho de ficar aqui de plantão, neste local sem sombra, no calor tórrido que hoje está?
Pois...
Mas diga-me lá se tem equipes neste bairro?
Isso não lhe sei dizer
Quantas equipes tem?
Umas trinta
Bom, minha Senhora, deve ter um tempo médio à luz da experiência?
Não lhe posso dizer
Se faz favor pode-me passar ao seu superior hierárquico?
Não o vai atender
Não me atende? Como é tal possível num serviço público?
Se faz favor, tente primeiro, antes de tal me dizer
Olhe, não atende
Então, deixo-lhe o meu telemóvel pedindo-lhe o favor de lhe pedir que me telefone.

Esperei uma hora tentando esconder-me do sol na sombra de uma tabuleta e pensando para mim mesmo que se em vez de 43 tivesse 74 teria certamente uma insolação.

Tornei a ligar.
Extracto do segundo diálogo:
Já passou uma hora e continua sem chegar nenhuma das vossas equipes.
Vai ter que me resolver este assunto pois estou sem tempo, tenho um compromisso em Coimbra a que já não vou chegar a tempo.
Não lhe posso dizer, não tenho retorno.

Pois, isso foi o que me disse a sua colega, mas explique-me o que é isso de não ter retorno, como contacta com as equipes?
Pelo rádio.
Bom, então se é pelo rádio terá obviamente retorno, ou esses extraordinários rádios só recebem e não emitem?
Não...

Passada mais meia hora lá chegou a equipe acompanhada por um supervisor.
Explicaram-me que o meu dístico estava fora de prazo e que me enviaram uma carta registada a informar da necessidade de renovação do mesmo. Não me recordo de a ter recebido, mas certamente tal poderão provar, visto que ela foi registada, portanto pedia-lhe desde já o favor de confirmar se efectivamente a enviaram.
Visto que o supervisor não se apresentou como tal, facto que eu deduzi pela diferença da indumentária, perguntei-lhe se o era, que sim confirmou-me no seguinte diálogo.

Extracto terceiro do diálogo:

Faz o favor de mostrar o regulamento da EMEL
Não tenho.
E com base em que clausulado do regulamento podem os Senhores proceder à imobilização do veículo, visto que ele tem o dístico da residência?
Não sei, mas tem o dístico expirado
Parece-lhe lógico que o facto dele estar caducado, altera a realidade de eu ser efectivamente residente e portanto ter direito a parqueamento, os Senhores não podem confirmar com a V. base de dados se efectivamente as matriculas correspondem a residentes? Tem lá os todos os dados, visto que foi preciso fornecê-los para obter a autorização.

Se me dei ao trabalho de lhe transcrever estes diálogos é porque penso que será útil a V. Ex.ª o conhecimento da forma real de tratamento da EMEL relativamente aos cidadãos de Lisboa e na esperança que V. Ex.ª tome as provisões que entender necessárias para corrigir estes comportamentos.
Pressuponho que qualquer serviço de uma entidade pública, como é o caso da referida deverá ser norteado por um espírito de serviço público, pautada por uma relação que respeite e sirva os cidadãos e que não se baseie nos termos descritos, onde a “manha” parece ser o a pedra de toque. Este meu sentimento como já pude constatar, não é único entre os cidadãos. Não deveria a EMEL ter uma relação de proximidade com eles e sobretudo bem servir-nos? Estamos a falar de funcionários que percorrem quotidianamente as ruas dos mesmos bairros e que portanto deveriam conhecer as pessoas ou pelo menos ter um sistema de dados que permitisse o cruzamento de informações.
Mais, alguns de nós sabem porque disso os media nos informaram no seu tempo de ocorrência, que existem cidades no nosso país onde, por iniciativa de alguns, foi demonstrada a inconstitucionalidade de tal regulamento levando mesmo os tribunais a invalidar a aplicação de sistemas equivalentes. Também não creio, por razões mais profundas que não cabe agora discorrer, que o problema do trânsito nas grandes cidades se resolva desta maneira.

Assim, declaro que continuo a ser residente em Lisboa e de tal facto poderei vir a apresentar, caso solicitado, testemunhas desta realidade, se estiver perante uma situação de inversão do ónus da prova que a meu ver será da EMEL e não minha.
Como nota final, reparo agora ao reler a notificação, no campo de recibo dos 30 euros que fui de imediato obrigado a pagar, que este não foi assinado pelo respectivo funcionário da EMEL, o que pode configurar uma situação de irregularidade financeira.


Com os meus melhores cumprimentos




sábado, julho 26, 2003

Eu sem ti, sou nada
tudo é relação
Há um momento de apreender as ideias já consteladas e depois há o momento de
começar a esquecê-las. Esse é o belo momento do começo do vôo, onde as asas aparentemente alheias, superam o medo de ser eu mesmo, (mesmo não sabendo o que isso significará), me sustentam a aparente liberdade. É como aquele detective, que ao chegar a casa acende a sua lareira com um livro da sua enorme biblioteca.Não te assustes, é só uma metáfora literária...

Há quem diga que tem memória de elefante
dos factos factuais, acrescento eu, pois são esses os exemplos convocados.
lembro-me de saber isto..., lembro-me de conhecer este..., e tudo isto é um aparente facilitador das coisa mundanas.
Eu que tenho mémoria de passáro, parece-me mais ser uma história de elefante em loja de porcelana, partindo alegremente a loiça, pensando os seus pés como de bailarino se tratassem. Enfim cada qual é agarrado pelo que escolhe, se é que algo se escolhe, mas esta é, toda uma outra história.
Oh meus Deuses, ...e quando as palavras que a Alma pensa, ou o meu corpo e a sua pele,ou os arquétipos constelados me curto-circutam, aquilo que penso ser a minha fala.
As palavras são transientes
As ideias também. Por isso não posso levar-me à séria.
De preferência a brincar, mesmo que hoje não me pareça ser o que sempre sou?
Quando falo contigo, somos pelo menos quatro.
Por isso entendermo-nos pela aparente literalidade das palavras é algo díficil.
Uma casa é um sítio onde habitamos? ou um cubo com fendas?
Sou aquele que pensa que pensa e organiza as palavras, são as palavras ditas, sempre diferentes do sentido pensado.
E és tu a ouvir as palavras
E tu a pensar as palavras que ouviste.
Pensar que quando falo contigo são quatro é ainda pôr a fasquia por baixo.
Por isso antes de falar contigo, agarro-te as mãos e faço-te sentir o meu coração.
falo com tudo o que sei e simultâneamente com tudo o que não sei.
Sou como um cego pequeno num caminho cheio de buracos que não espero.
relembro-me, criança a sopesar as palavras que ia descobrindo, sendo que algumas delas não faziam sentido algum...

sexta-feira, julho 25, 2003

Lua cheia de Julho

(Seria o teu nome ou o meu, ou de outro outrem?)

Chegaste-te a mim, irmão e proferiste o teu nome.
Eu sou o Hugo!
Tu és o Hugo, repeti-te aproximando-me da tua orelha, tentando sobrepor-me às conversas ruidosas é à música, a confirmar, porque algo não me tinha parecido ser o que ouvira dizer-te.
Não, eu sou o Hulk!!
Hulk?, demorei uns segundos a compreender que a realidade já não era a realidade, que as portas do mundus imaginalis se tinham franqueado,
Como de repente a encenação toda montada e os actores convocados à cena, como sempre então acontece.

Tudo se começara a encaixar retroactivamente ao instante do primeiro sentir.

Entraras, irmão negro, no meu campo de visão dançando em sensual simbiose com a música. Exalavas harmonia e sedução, aquela particular dos irmãos negros que sabem dançar.
Debruçando-me da mesa de espectador frontal de todo o universo, dissera-te que tal sensualidade requeria uma mulher.

Provavelmente não foi feliz com as palavras. Provavelmente deveria ter ficado no meu canto a interagir silenciosamente, mas naquela noite apetecia-me naco, Carne, Espírito, Alma, Alegria e Amor. Apetecia-me trincar a própria vida.

Como sempre, quando muito um sentido se quer, manifestam-se os sentidos contrários com igual pujança à espera, ou melhor, dávida de integração possível.

Tudo se virou de pernas para o ar no exacto momento em que me disseste algo do género, eu tenho mulher e filhos que sustento, que de repente a tua masculinidade ferida exigira. Um imenso mal entendido emprenhou a violência que se repercutiu em toda a sala e arredores. Houve um salto no tempo e no espaço e o abismo abriu-se todo a meus pés. O malandro Hermes, fizera soar as pancadas de Moliére.

Eras como um Deus Apolíneo, pleno de força e zangado a reflectir a minha própria zanga interior, até então mantida no sonho de mim mesmo e que por ser assim esquecida, abrira agora ali o abismo todo.

Bailava-mos no espaço há um tempo, tentando eu integrar toda aquela violência, quando depois de ter percebido o nome com que te apresentaras, me disseste algo como, poderia pegar em ti e levar-te para longe daqui, ao mesmo tempo que me o mostravas torcendo o punho e o braço num gesto falsamente ameaçador, e eu sabendo que era verdade, aproximaras a tua face até eu antever a eternidade nos olhos escuros que entretanto se fixaram nos meus. No eterno poço fundo, acabara de ver a primeira pista sobre a natureza profunda da minha própria zanga.
Continuará?

sexta-feira, julho 18, 2003

Cofiar, remoer, entrelaçar, imaginar
São realidades ontológicas.


Parti no meu sonho
Leva-me para longe daqui, para outro mundo, outro lugar
Des lembra-te de mim, pequenino com o coelhinho no colo, juntos a comer cenouras
Um sonho rasgado desce em mim
Fractura-me do lugar donde estou
Para uma outra visibilidade
Um outro estar, um outro ser
Qual era o sonho que me sonhava?
Os sonhos sonham-se a si mesmos
Não sou eu que os sonhos
Aparecem-me a qualquer hora
A dormir ou acordado.
Serão doces, quem lá vem?
Pois que sejam
Que sejam doces como o vento
Sabe ser, quando a todos sussurra