domingo, agosto 31, 2003

Na escola pequena do tempo antigo.

Pára de dar caneladas
Já viste aquele
Caneladas sempre a dar
Distibui a todos
Sem pretexto
sem distinção
Botifarra grande e forte
A dar, a dar
Dói, dói, não é o meu herói
Ninguém o para
Nem as nódoas negras
Nem os ais
A dar, a dar

Reuniu a turma
A ver como o assunto
Acabar
A decidir o ensinar
Assim o canelas
As botas
Teve que tirar
E doze pontapés
De meias
No muro dar


Mais força, mais forte
Nós a cobrar
No altar
Com a força
Com que nos dás
Assim a nossa dor sentiu
E parou de nos dar

Se canelas
Não fosse
Mas sim
Vesgo seu nome
Por olhos tirar
Como seria o ensinar?

Olho por olho
Dente por dente
? ? ?

sexta-feira, agosto 29, 2003

Ritual
Caminho das significâncias
E dos significados
Como sempre
É ele que em mim desce
E em si me abriga
Não o penso
Dou comigo a fazer o mesmo
Melhor dizendo
A fazer de uma mesma forma
E ai, sei que ele me visita.

Só no três, no quatro
Às vezes no cinco
É que por ele dou
Sei que estou dentro de ele
Que ele está dentro de mim


Agora sei, do último que me apareceu, cada vez que aqui escrevo, dispo-me literalmente, só nu o consigo fazer. E eu que pensei ser do calor que se tratava

Lembras-te disto que fizeste? Chegam-me nas vozes, na maior parte não, andei entretido a fazê-las, e depois de feitas, foram para outras lugares, outras paragens, que são minhas sem o ser. Se de todas me lembrasse, provavelmente não teria espaço para fazê-las.

Contudo é sempre bom pelos outros ser recordado, melhor dizendo, ser recordado por algo que se fez bem feito, tranquiliza-me os meus próprios passos, não para dormir, mas para continuar a fazer.
Conversa a várias vozes. ( qualquer ( pequeno hehehe)prazer me diverte , a Pedra e a Espada e todos os ausentes, presentes)
A forma como eu entendo a palavra religião é como re-ligare, tornar a ligar aquilo que só na aparência está desligado, sim não é o mundo que está a ruir, poderemos ser nós, mas eu quero mesmo é a ressurreição, disto não tenho dúvidas, há muito tempo. A questão é como operá-la. Bem sei, porque a mim os sinais também tem chegado de todo o lado, como sempre, os sinais estão por todo o lado, do fim da era, não do Mundo. É disto que falas, oh Sérgio, esta evidência da ligação entre todas as coisas, e sobretudo a noção, Maravilhada de Maravilha!!!, que nos entra pelos olhos dentro, ou pelo coração, ou sentidos, da transcendência das nossas acções, e de uma outra coisa, que às vezes tanto, nos aflige, o tempo. O Sempre Aqui, imediato, em todos os lugares, que no fundo é o mesmo único lugar mas como muito bem diz a Neyza é o lugar de viver com prazer, alegria, acrescento o desejo redundante, pois o prazer tem sempre a alegria, mesmo que seja mansinha.
A questão é a operação, como operar e a intenção que nela depositamos. Como ainda ontem eu e o António falávamos. Pode ser operado através de qualquer coisa, qualquer plano, ou se preferirem basta um qualquer grão de areia, que recordo, existe sempre acompanhado de muitos grãos de areia a seu lado, por dentro e por fora do próprio grão. E fala-me a Pedra, quieta e a Espada cortante, a quem eu já agradeci a existência, nestes diálogos não tão subterrâneos como as vezes me parecem, do ungido. Sim eu lembro-me desta definição, mas é ela aplicável a um só? Todos nós somos cristos, cruz e cordeiro, o que mais quisermos, não é? Ou acha a Espada que muda de nome cifrado, quando o vento lhe dá, a que eu posso chamar, como o António chamava a um jogo jogado a mais de que duas mãos, none of us, que corta não para dois lados só, como já lhe disse, rectificando-o agora, corta para todos os lados. Que se tratam de conversas de egos e alter egos, com intenções de alívio. Alívio?! Qual alívio. Quanto muito, responsabilidade acrescida! É como do barro fazer a coisa, sempre a moldar e a tocar, eu que sou múltiplo e infinito, como tu o és também, irmão, ou melhor será dizer, pedaço de mim mesmo. Pode-se fazer humor com tudo, as anedotas fazem-me rir e a tua fez-me, não duvides, mas miséria material, não ter que comer, ter fome de pão literal, não ter um tecto para dormir se se quiser, pois bem sei há quem prefira dormir debaixo da estrelas, não aceito!!!. Há que chegue para todos, a casa é grande, cada um que colha o que que quiser, desde que não pise as rosas, pelo menos as alheias, porque e só, porque elas são belas e minhas irmãs e porque se se colher as rosas deixa de haver pão!
Dizes-me que a operação ocorre, com a mudança do meu próprio ponto de vista. É certo, daquelas verdades Verdadinhas e Verdadeiras. É mesmo assim gramáticos carinhosamente loucos, na subtileza da atenção ao semelhante

Eu que tenho um coração do tamanho do Mundo
Capaz de tudo albergar
Eu que vejo tudo e às vezes nada
Eu que não quero esperar o que o outro creio me dever
Eu que sei que me devo a mim mesmo
Eu que não tenho medo de experimentar
Eu que não tenho medo de corrigir
E a Neyza a dizer
Ter coragem pra não temer o não.
Ter coragem pra aprender a ter
sem ter medo de perder.
Ter coragem pra mudar,
de ousar trocar de lugar.
E descobrir que a vida não é só o doer.
Mas um lugar prá se viver
com prazer.

Três vezes repito o verso final

Paixão
Epifania do tédio dos dias
No infinito das palavras
Beijo do Espírito
Trocado entre Amigos
Sagrada emoção de duas Almas
Num corpo só
Sagrada emoção
Da mesma única Alma
No mesmo único corpo

Paixão
Epifania do tédio dos dias
No infinito das palavras
Beijo do Espírito
Trocado entre Amigos
Sagrada emoção de duas Almas
Num corpo só
Sagrada emoção
Da mesma única Alma
No mesmo único corpo


Paixão
Epifania do tédio dos dias
No infinito das palavras
Beijo do Espírito
Trocado entre Amigos
Sagrada emoção de duas Almas
Num corpo só
Sagrada emoção
Da mesma única Alma
No mesmo único corpo

Até sempre como quem diz , sempre presente, até já

quinta-feira, agosto 28, 2003

Ai AKi

(Que é um Ai Ku mais longo, fora da regra trinária que é a sua, digo eu, no dicionário novo de mim e do Sérgio.)

Conhecer uma coisa
É como ser
Primo dela
Saber uma coisa
É como ser mãe
Pai e filho da coisa
Conhecer uma coisa
È tê-la como
Vizinha de mim
É vê-la fora de mim

Saber uma coisa
É tê-la dentro de mim
Mesmo quando ela
Está fora de mim
Conhecer uma coisa
É sabê-la por fora
Saber uma coisa
É tê-la por dentro de mim

terça-feira, agosto 26, 2003

Ontem de manhã ao sair de uma casa que era a minha sem o ser, abriu-se-me a porta para um jardim que era meu sem o ser
Uma luz límpida resplandecia todas as coisas
Um ar quente me acolhia
Sai para a rua no colo da paz
A mãe e filho a seu colo, com ele falava
Era a Voz da Mãe a condutora da alegria
E o filho os olhos grandes a arregalar
Como uma lengalenga
A encantar
Naquele silêncio belo e doce
Que o jardim do Mundo
Nesse momento se tornou
Fiquei feliz a vê-los passar
Na areia os peixes
Gritam por falta dos oceanos
Grelham-nos ao Sol
Os pescadores avisados
Ninguém os ouve
Abrem as pequeninas
Bocas feias
E gorgolejam
A asfixia
Os pesca-dores
Esses
Enganam o tempo
Na calma espera
O mar agita-se
No engano
Das aparências
Das vagas desiguais

Os barcos vêm vindo
Nos cais
As mulheres
Lamentam-se
Das liberdades perdidas
e...
Desencontrados
Acabam por se encontrar
O engano
Perpetua-se
Como os reflexos do Sol
Nas vagas
Ilusórias da realidade
Com nome certo
A meio-caminho do feio

E quem se engana
Com as peles de cordeiro
Que os lobos vestem
Nas vezes
Em que a astúcia
É rainha
E a ilusão
Dama de companhia
Basta pouca coisa
Para confundir os curiosos pouco atentos
Mas se pouco atentos são se calhar nem deveria pensá-los como curiosos porque ser curioso é ser atento e nada disto é dogmaticamente definitivo de nada. Há muitas formas de atenção. Há por exemplo a atenção desatenta, há a desatenta atenção. Há o meio, os três quartos, de uma coisa ou da outra, as suas expressões nas diagonais da própria coisa, os infinitos números do meio, não necessariamente o ponto equidistante, entre a atenção e desatenção.

No projector do meu sentir ao fundo nas docas, seriam 4 ou cinco os marujos
encostados às rodas de seu barco comum na terra ancorado. Marujos grandes, de cabelo rente, imponentes massas corpeas, força capaz de mover qualquer vela,
tal qual, como eu, de franzina aparência. Ao traçar a rota da Vontade a diagonal dos meus passos ao cruzamento com eles me levava. Bem sei que havia a possibilidade de mil outras rotas, que sempre me permitem ladear as coisas, como se ilhas ou escolhos se tratassem. Mas eu que os vira mesmo antes de os ver e sabendo que eu e eles acendera a lâmpada do projector do meu sentir, aventurei-me ao cruzamento, escolhi essa rota. Escolhi? Poderia ter feito a tangente aos marinheiros pela esquerda ou pela direita e os passos que me parecem meus, não são de facto só meus. A prova é que eles foram pela direita e foi à direita dos, marinheiros que se revelou o capitão. As palavras do capitão do momento dos marinheiros chegaram-me brutais ao ouvido. Não sei como há homens que não gostam de conas, em contínua reprise como se de um disco riscado de desprezo se tratasse. Tinha o marinheiro lançado o anzol e tentava o encantamento do peixe, que eu trazia em mim. O uivo brutal tinha contudo uma rede de malha aberta, que me permitia lidar com a coisa por dentro ou por fora de mim. Poderia ter subido ao castelo da Popa de mim mesmo, e dito algo, é comigo que fala, sabendo que sim e simultaneamente que não, era uma conversa a várias vozes, sendo a primeira dele. Eu espelho dos marinheiros, os marinheiros espelho de mim e então vi-me de calças brancas, sapatos de mocassim castanhos, camisa clara por fora das calças, mãos nos bolsos a caminhar, era ao marinheiro a imagem de quem não gostava de conas. Imagem que era Verdade, pois não gosto desta palavra que me parece brutal. A ter que nomear, chamar-lhe-ia Vaso, fenda, pássaros, chave de doces encaixes, como não poderia gostar da porta da minha primeira casa, aquela que me gerou e fez nascer, na qual amavelmente vivi, onde amavelmente me viveram, como pode alguém não gostar do céu, da terra, a nuvem quente, lua doce e protectora, Sagrado mistério?

No final da minha primeira rota, virei de bordo e enfunei de bolina a vela, que pela acção da deriva, transformara a direita em esquerda no ponto onde de novo o segundo cruzamento teria que acontecer.
O barco dos marinheiros, esse, mantinha-se encravado no mesmo cais, não tinha levantado qualquer âncora, largado qualquer amarra, não acontecera qualquer sereia, mas à medida que me aproximava, o vento repetia a mesma canção riscada.

As ondas trouxeram à superfície uma noite antiga de lontras, eu marinheiro de mim de jardineira branca, sandálias de verão com dedos a respirar, lenço curto e fino vermelho com cornucópias ao pescoço a falar na mesa que dava para o mar da dança, quando um bigode, daqueles de que do meio dá para os dois lados avançou para mim, abriu a carteira, desvela um crachá num ápice e diz-me para eu me levantar e o acompanhar à esquadra. Enquanto o dizia, interrompi-lhe o gesto de guardar de novo a carteira, agarrei-a e vi de perto ser verdadeiramente o dístico da PSP. Espantado levantei-me e perguntei-lhe porquê, o que se passava e nesse momento o barco ébrio que ele era, oscilando nas vagas, disse-me, você passou a noite a olhar para mim, com quem dizia que eu tinha estado toda a noite a galá-lo lubricamente. Espantado tinha eu escrito, mas então é que fiquei verdadeiramente espantado ao quadrado, azul do céu. Olhe homem, eu nem em si tinha reparado a não ser agora e lá fomos, três Amigos e um bêbado até a uma esquadra que já não existe. Lá dentro, o que eu não gostei mesmo foi de ter uma G3 na direcção do meu corpo, apontada pelas mãos de um colega do bêbado igualmente bêbedo. Enfim coisas que às vezes acontecessem, mas que acabaram em bem, pois se assim não tivesse sido, provavelmente não estaria aqui a escrever esta história.

Na bolina de mim mesmo, com as estrelas e os satélites por cima de mim, observei como navegador atento que no oposto da minha direcção aparecia no horizonte de mim uma terceira barca. Ao longe de novo perto o vento repetia o mesmo disco riscado.

No mar, o encontro dos três barcos deu-se no imediato Sul do barco encravado, e nesse instante em que o meu Amigo e minha Amiga comigo, provisoriamente fundeámos, o disco parou de girar.

Depois seguimos eu os meus Amigos para outros mares, outras passagens e a canção riscada do capitão do momento dos marinheiros, que o vento me trazia aos ouvidos, era um chorar que ficou a repetir encravado, eu gosto tanto de cona...

Não vi nenhuma sereia aparecer por perto do barco dos marinheiros encravados, que a estória das sereias e dos marinheiros é toda uma outra.

Nos azulejos brancos da cozinha da minha Amiga, ao pé do fogo que o fogão lembra que existe, estava marcado, são as escolhas que fazes, o teu destino.


No corrector automático? Das minhas palavras por baixo da dita palavra aparece um risco vermelho. Não existe nele tal palavra também, mas o facto de ele não ter essa palavra não invalida a sua existência, pois não?
Conversa entre pim, pam e pum

Quem és tu pimpampum
Para os outros julgar?
Porque deslizas sempre no mesmo erro
Se tu és tudo
Se todas as coisas te habitam
Porque chamares
Idiota aos outros
Burro és tu !

Porque a zanga alheia
Me desnorteia
Mas a zanga tem que ser tua também
Tu que dizes que sem ti sou nada
Que tudo é relação
Então metade da zanga tua será
O pum diz ao pam e ao pim
Que não deixam de ser termos carinhosos
O pam diz ao pim, carinhosos uma ova
Se do outro obténs a zanga
Não és tu que escreveste
Queres o beijo e é o afastar que acontece?
O pim relembra ao pum e ao pam
Carinõs , si quiero como ti pam e tu pum
O pum diz ao pam
Tenho direito ao pum ,ca tra, pum,
O pam diz ao pim e ao pum
Oh pim e pum
Então não sabeis que os corações são como leves pombas?
Tem que se chegar de mansinho, para neles entrar
Sim diz o pam e o pum ao pim
Insiste o pum
Eu tenho o direito à indignação
A minha janga esconjura o real
Quando faço o Bem tenho Mal dentro de mim
Sim the rainmaker model, diz o pam ao pim e ao pum.
Ou S.Paulo se preferires
The rainmaker model, pergunta o pam
Sim, noutro dia conto-te esta história, diz o pum, ao pam e ao pim
Disse o pim ao pam e ao pum
Lembram-se de quando éramos pequeninos
Jogar o jogo
pim pam pum
cada bola mata três
Isso, isso, mata e esfola disse o pum ao pam e ao pim
Matas-te alguém, esfolas-te alguém pergunta o pam ao pum
Não me recordo de tal acontecer
Respondeu o pum ao pam
Disse o pim ao pam e ao pum

A beleza do jogo
Era o fluir no movimento
E nos ricochetes, saber
Se daqui vou para ali, passando por acolá. Que
Bela
Brincadeira do Guerreiro.

Tenho sono disse o pum
Vamos dormir
Juntou-se o pim ao pam e ao pum
E de novo pimpampum
Para a terra dos Sonhos
Foi morar
Até manhã
Sonhem Bem
O Medo e seu irmão Amor

Não saias à rua
Oh sim, que ânsia de arejar


Ter pressa atrasa a hora da nossa morte?

segunda-feira, agosto 25, 2003

De férias decidi partir para o paraíso. Encontrei uma tabuleta que indicava para cima e dizia 1000 Km. Encontrei de seguida uma outra que apontava para baixo 150km. Mais tarde um homem que comigo cruzou disse-me, esta é a estrada. Um outro diferente disse-me o mesmo. Hei-de encontrar muitas tabuletas e homens pelo caminho mas hei-de encontrar o paraíso, vão ver.

domingo, agosto 24, 2003

Participação mística na pista de dança
Todos ao molhe e fé em Deus
Não é bem assim
Deus, todos os Deuses no meio da pista
Ninguém
Um só corpo
Nenhuma consciência pessoal
Só um som de alegria
Que de mansinho
Se instala
Como o botão do volume
Que aumenta
E que tudo promete
O som de caos que tudo permeia
Que tudo anuncia
Num soundsurrond infinito
Em múltiplas direcções
Tudo é possível
Nada é possível
Da lotaria
Só se extraem
As pequenas terminações
Eu que sou o dado
O dedo
A terminação
O do olhar quebrado
O coração arrebentado
O Joker perdido
Fluxo e refluxo

Fugiram para dentro de mim
As palavras
Não estabelecem nenhum elo
Nenhuma teia com o exterior
E contudo continuam a bailar dentro de mim
Será?
Ou será a Alma que me fala
E eu sem perceber
Porque me fala ela de tempos passados
Me leva ao mergulho da memória
A reconstruir o passado

Às vezes, os dias são assim
As palavras não saiem
Não servem de pontes

Com uma presunção paradoxal
De que se elas
Fossem proferidas
Fariam todos os sentidos

Como uma presunção
De um qualquer papel
Que o ego teria de preencher

Se não sou eu que falo
Então restaria respirar
Numa atenção desatenta
À espera que os sentidos
Desta estória da Alma
Se revelassem
e eu de novo
Nada mais fosse
Que uma tremente folha
Cantante
A seu vento

sábado, agosto 23, 2003

Hoje ao sair de casa

Vi uma porteira a falar com um cão. O meu cão, ou melhor será dizer, eu do meu cão, que como bem me relembrava um amigo, não há cães sozinhos. E assim é, este cão, António, que tem o nome do meu amigo, escolheu-me, viu-me um dia na rua e segui-me, fez-me dele desse momento até hoje. Desconfio que a minha namorada lhe terá dito, ao cão, olha eu vou partir e quero deixá-lo mais amaciado para a próxima, deixo-te a ti como um filho para ele cuidar, pois já me aconteceram namoradas que ao partir fizeram estranhos balanços à educação que me deram. Curioso mesmo era ter sido ela a crismá-lo. António porquê? Perguntara-lhe eu, a ouvir como resposta é o nome do meu ex namorado, mas isto é tudo uma outra história. Dizia eu, ou melhor dizia a porteira ao António
Oh , oh, oh, captain, my captain
O que é isto aqui no chão
Que líquidos são estes, meu malandro.
Eu que vinha atrás, no passado desta relação com a porteira constante, fechei a porta do elevador com certo estrondo como quem dizia aos botões do meu elevador, lá vamos nós outra vez.
Era como uma leve humidade sem cor, dentro de um circulo perfeitinho, a parecer o prato do vaso que a seu lado se encontrava, mas como os meus olhos ao perto não são muito de fiar, o São Tomé de mim, o dedo lá pôs e cheirando deu ao nariz da Porteira o cheirar, não me parece que sejam os líquidos do António, pois a mim parece-me respondeu-me ao mesmo tempo que franzia a cara com nariz ao cheiro que não cheirava. Está muito bem, já vamos tratar disso e saímos para a rua.

(a realidade, amiguinhos é muito mais perversa que isto, asseguro-vos)

Hoje ao sair de casa

Nas Avenida Novas, no cruzamento de nossos passos, disparou, acelerado num qualquer crioulo mestiço que eu não percebi. Parei, aproximei-me da sua cara e olhos nos olhos disse-lhe mais devagar que não percebi nada. Das palavras não, mas a sua instantânea e genuína aflição me submergiu no instante o sentir. Ajude-me que eu preciso de comer e não tenho como, chorava de Verdade o meu irmão. Nas calças por altura da ponta do sexo uma mancha alastrara. Dei-lhe um euro e caminhamos cada um no seu sentido, e eu fiquei triste a pensar. Lembrei-me que durante muitos anos segui a consciência de que dar uma esmola, não resolvia o problema de quem a pedia, que o que era mesmo necessário era resolver a fundo o problema, ou o fundo do problema. Onde estaria a fundação do problema? Que ao dar a quem pede prolongamos a sua própria indigência e lembrei-me também que geralmente quem o dizia não dava esmolas. Não posso ter regras imutáveis. A vida com isso não se compadece. Em cada momento emerge um pressuposto de vontade diferente do momento seguinte e mesmo que a situação se repetisse inexoravelmente idêntica, coisa que não creio acontecer, nem nos deja vu, esse pressuposto de vontade ou a quadratura moral do momento, que é para mim outra forma de dizer o mesmo, seria sempre distinto. Bem sei que há quem peça até por preguiça, ou se quiserem, peça sem necessidade de pedir, como todos nós fazemos muitas vezes, mesmo que não sejam de esmolas o que se trata. Porém até um pedido de um beijo pode-se ser feito como quem pede e recebe uma esmola e não é agradável, pois não? É como algumas mulheres que depois da separação se deitam com os mesmos homens, sem desejo só para lhes aliviar a dor que neles sentem, como verdadeiras santas, também às vezes a aplacar os seus próprios sentimentos de culpa das suas partidas. Depois recordei-me de ontem à noite ter pago acessórias cervejas a quem não morria de sede, de ter oferecido cigarros a quem respira à tona das águas e mentalmente a fazer contas em euros, disse-me bolas! Tenho que ter mais atenção na forma como dou, pois não posso dar tudo a todos, se calhar deveria apontar no meu livro em permanente re-escrita uma qualquer regra de conduta que seria, se éramos dois, deveria ter – lhe dado metade do pouco dinheiro que transportava, pois essa metade do pouco de pouco me faria. Não sei ainda resolver a questão do fundo ou o fundo da questão, mas quando cumprimentei a Mãe, que está no alto à esquerda do templo perguntei-lhe, diz-me Senhora, se cada um ajudasse o que está ao lado, aquele que se cruza, não se resolveria toda a questão?

As Avenidas são novas mas a miséria material dos homens é velha como o mundo. Até quando?

Hoje ao sair de casa,

no correio novo das avenidas novas, um Senhor-bem-composto que na sua qualidade de sócio gerente queria levantar uma correspondência pressupostamente a ele endereçada dizia à menina que o atendia,
Mas eu tenho aqui o bilhete de identidade e assino a recepção
Não lha posso dar, só com uma certidão da conservatória de registo comercial,

(que é para quem não sabe o papel que diz quem é que representa uma sociedade comercial, quem tem poderes para tal e tais actos e que demora uns dias variáveis às vezes largos a obter acompanhado de umas esperas enormes)

A menina respondia, são as instruções que tenho
O Senhor-bem-composto argumentava com argúcia e delicadeza e consegui mesmo que a menina se levantasse para ir perguntar a outrem, tendo para isso dado três passos para trás e tornado a sentar-se Nesse momento o Senhor-bem-comportado desistiu e a falar já para si mesmo dizia aos seus botões a meus ouvidos, este país não tem conserto e ao caminhar isto dizendo, a sua cabeça baixou. Foi este o momento em que vi que não era retórica da zanga, mas sim a sua Verdadeira Verdade. Todo eu estremeci e os meus pelos puseram-se em pé. Esta sensação, este ouvir, tem-me batido à porta com a frequência que me leva a dizer ser esta uma das meta ideias do momento.
A menina, essa, trocou o olhar com a sua colega afivelando um sorriso como quem tinha ganho um jogo de ténis



Hoje ao sair de casa na segurança social do Areeiro, uma outra menina, sozinha em pé atrás de um balcão com olhos vivos e brilhantes de quem Gosta de Fazer Bem e Verdadeiramente Ajudar, despachava todo e todos.
Que Maravilha!!!


Hoje ao sair de casa como em muitos outros dias







quinta-feira, agosto 21, 2003



Flamingos

Chegaste de preto e rosa
Caminhavas no espaço
Numa pré direcção consciente
Que te colocava a meus olhos

As palmas das tuas mãos
Num gesto síncrono e seco
Como todos os gestos que prendem
Por duas vezes
Sacudiram o espaço preto
Dos teus quadris
De cima para baixo
Num gesto que me revelava as tuas nádegas
Que por serem pretas
Só adivinhar se podiam

O segundo gesto
Foi um clássico
As mesmas mãos síncronas
Afastam cachos de cabelo
Para trás das orelhas
Em sincronismo com o caule
Que era teu pescoço
Sarcoteante no instante

No terceiro
As mãos que já me eram familiares
Imaginariamente
Desataram os fios rosas
Que se cruzavam pelo teu ventre.

Infinitamente gracioso
Belo e perdulário

Depois, nada
Talvez o Flamingo tenha ficado à espera da caça
De ser caçado
Pelo caçador imaginado
Que eu não sou




E se eu tivesse hoje acordado amargo, escreveria não um poema, mas uma ficção sobre as linguagens não verbais. Poderia rezar assim:

Vi-te ao entrar e quero que me vejas. Movimento-me no espaço para que tal aconteça. No meu primeiro gesto de convite ofereço-te a energia do meu amplexo, sacudindo um pó imaginário ou esbatendo invisíveis vincos, ou melhor dizendo porque não me esbates tu os vincos, porque esta noite quero por ti alisar-me. No segundo gesto o Flamingo demonstra ser irmão dos cavalos, família dos animais. A ele pede emprestado o resfolgar sinónimo da energia ou da vontade energética e acrescenta-lhe a revelação das orelhas. Quero que me oiças, que é como quem diz repara em mim.
O terceiro gesto é a minha promessa, o derradeiro transitório convite, abro o meu corpo para ti. Mas eu juro nada disto vi.
Todas as coisas são emoções a todo o momento
As emoções são como conversas constantes sem palavras
É como o dito pelo não dito
Mesmo quando a coisa com que falamos não está presente no nosso espaço físico imediato. Este sublinhado subliminal de todas as coisas, actua na maior partes das vezes com mais consequência do que as palavras que entre nós trocamos. Por isso às vezes quando penso o que quero de ti e as palavras com que o vou exprimir, o resultado da acção sai-me pela culatra. Como foi tal possível? Queria o beijo e o resultado foi o afastar...
Há coisas visíveis
E há coisas invisíveis
Por não serem visíveis não quer dizer que não existam, pois não?
Como dizia o poeta a vida é a arte do encontro e o problema é que há tantos desencontros.
Sou todas as coisas
Todas as coisas habitam dentro de mim.
No espaço de mim e de ti
a emoção eruptiu
Quente, abrasadora
Deixei de saber quem sou

Zanga, luxúria, tédio
Devolveu-me o exterior
Subiu-me como bolhas
Borbulhantes às superfícies
Descobri o referente externo
E encontrei-me comigo mesmo
Já sabia
Distinguia

Eram íntimos e imediatos
Flutuavam por todos os sentidos
E eu abraçava-os a todos
O referente externo era então interno
Subjectivamente meu
E eu era o que sentia

Emoções que eram borboletas à superfície
Por cima do mar profundo
No fundo, na escola aquática os peixes movimentavam-se
E alguns deles atravessavam a superfície até meus olhos
Como um vento subtil sempre presente em todos as coisas
Uma tonalidade afectiva que sublinhava todos os objectos
No campo da minha atenção
Fico? Vou por ali?
O seu carácter mudava constantemente como gotas contra um espelho
Onde as coisas a que eu me atendia eram reveladas
E as outras ocultadas

Tudo o que distinguia estava interligado,
Num total que o penetrava e envolvia
Emoções e sentimentos eram a forma de vivenciar essa totalidade
A consciência era conduzida pela tonalidade afectiva dos objectos
O espaço era consciente pelo que sentia

Mudei de direcção
O objecto exterior não era mais exterior
Vivia, respirava através de mim, dentro de mim
Dissolvi-me e assim renasci

De repente era eu o mesmo que tu
Éramos consensualmente o mesmo
Os corações como o mesmo síncrono relógio
Já nada distinguia
Nada era necessário ser distinguido
Deixara de existir o interno e o externo
Ressoava-mos

O um mais um já era três
Simpatia, empatia, compaixão
Uma realidade interpessoal
Um jardim comum que connosco colaborava
Revelava que o todo é maior que a soma das partes
Um incondicional olhar de emoção do amor
Não era meu nem teu
Habitava no meio de nós, fora de nós
Como uma música improvisada
Numa pauta maior que nós
Uma rapsódica comunicação
Que trocava os nossos sentir
Ao trocar-me por ti
Ao trocares-te por mim
Lendo os corações e sabendo os pensamentos
Além de qualquer palavra
Um conhecer intuitivo, um sentir profundo
Vindo da fonte das emoções

Paixão
Epifania do tédio dos dias
No infinito das palavras
Beijo do espírito trocado entre Amigos
Sagrada emoção de duas almas num só corpo


(nota: Para que servem as emoções os sentimentos? Para estabelecer segurança. Reprimimos os encontros com aquelas e aqueles que nos desequilibram. Através deles estabelecemos valores para avaliar física ou mentalmente os objectos à nossa volta e para nos orientar-mos através deles em função do valor que para nós representam. Com eles organizamos as experiências, ou melhor dizendo são estas funções inatas que nos permitem organizar a experiência. Ainda com eles estabelecemos relações, através deles estabelecemos relacionamentos, sendo eles, “eixos” da organização social. Através deles experimentamos ontologicamente a unidade, usámos estas funções para de um modo directo e intimo vivenciar não só a inter-subjectividade mas a inter-conectividade de todas as coisas e é assim “fazemos” sentidos e motivações.
Onde estão as “escolas” e os programas que nos educam as emoções?)


quarta-feira, agosto 20, 2003

qualquer coisa é sempre mais do que nos parece
os sentidos que lhe atribuimos dependem do limite da nossa visão
qualquer coisa é sempre qualquer coisa
tem sempre uma razão de ser
há sempre coisas que acontecem
e simultâneamente coisas que aparentemente não acontecem
avizinham-se, sendo avizinham-se, irmão/ sinónimo de visibilidade
existem com as outras
são ambas igualmente reais
só se manifestam em planos distintos

estou de olhos fechados a comer um bife
não vejo a vaca
não vejo a faca que a matou
sinto-me santo

hoje de manhã ao chegar à cozinha
percebi na planta que comigo vive
que estava triste dentro de mim
pois assim a vi sentir

hoje tornei-me vegetariano
e tornei-me a sentir santo

o problema é que comi a minha amiga planta
e o seu meu, próprio sentir

A vida é crime.
só me resta fazer os crimes necessários
e não mais que esses
O amor não tem limite
O amor nunca é demais
Amar é gostar do outro como ele é
É gostar de gostar dessa dádiva da sua diferença
que me alegra
Não se ama demais
Não se ama de menos
Ama-se
ponto


( retirei um poema que aqui estava de nome " os quatro obstáculos, pois não é meu e não me lembro da fonte. assim o fiz em 1 de Abril de 2004)

somos mais inteiros quando sentimos a falta de qualquer coisa

terça-feira, agosto 19, 2003

Belos irmãos meus.
Feios irmãos meus.
vivemos em Liberdade?

Até quando as listas negras
a atenção à maldade
a estúpida energia desperdiçada.

Deixem-me em paz
viver a minha vida
que eu convosco das duas umas
O bem pago com o bem
e o mal, não preciso de pagar
porque são vós próprios
que o pagam
acreditem,
os de curtas vistas arrogantes
nas suas certezinhas de invencibilidade
porque a terra e o ceú
todo inteiro vos cairá em cima.
ai, nada vos valerá
comprem óculos para ver o infinito
reles vermes, como baratas tontas
a dar, a dar
não desembainhem a espada má
que ela vos cortará.
Paranoico, eu?
Logo verão

Para quem sentir o mesmo
aqui se cria uma lista branca

é mais fácil sorrir que grunhir
saim-me de cima palermas
pulem nos vossos pequenos cubos
compartimentos esquizofrénicos
Pensem uma coisa e digam outra
Digam branco e actuem preto
e o preto vos fará pretos
são vocês o inferno.

A mulher de César não tem que ser só séria
tem também que parecê-lo.
Palermas há muitos
Que história esquizofrénica é esta
Basta ser sério
parecer ser sério quando se é sério
é no míníno não ser sério
O sério é
não se parece com nada
o sério é
não quer ser
não quer parecer
não tem que parecer

não me roubam o tempo com as vossas coisas mesquinhas
amem mais, se a vossa estupidez ainda vos permitir
Ama e faz o que quiseres e farás sempre o bem
Que querem de mim?
Que opere um cataclismo cósmico?
que faça um partido-inteiro
que faça uma lei

vós que estão no manicómio do outro lado da porta
aquele a que chamam na vossa miopia a normalidade
pois eu troco as direcções
fecho a porta
e deito a chave fora
no abismo do tempo
Não sejam palermas
sejam grandes

deêm a cara, cobardes.
assumam-se!
ponham um t-shirt
ou um autocolante
eu sou dos maus e faço o mal

é um privilégio real
fazer o bem
e ser considerado o mau da fita.

segunda-feira, agosto 18, 2003

Lua cheia ( afinal parece continuar, sem saber para onde. óptimo)

Pois então se descontasse toda aquela falsa ameaça, não seria bom ser transportado por um Hulk para fora daqui? Não é isso que o mundo muitas vezes me faz sentir? Que segredos mágicos terias para fazê-lo? Que tesouros esconderás em ti, pressenti nesse momento. Eu vi na eternidade dos teus olhos que falavas Verdade, que efectivamente poderias fazer o que dizias poder fazer.Olhar os olhos da eternidade nos meus próprios olhos, atenua o ruído e gera o centro de uma harmonia, penso eu de que... pois o que se passou foi o contrário. Quando encostei a minha mão ao peito do Hulk e naquele silêncio , começei a dizer-lhe que lhe ia contar uma estória, produziu-se um estrondo que me trouxe de novo à terra, pois tinha ele próprio provocado o silêncio geral. Teria ressoado como se de um tiro se tratasse. A hesitação momentânea que fora a minha e a história que ficou por contar. Conto-te agora sem ta contar.

Num país distante, chegaram à corte notícias de que ao Sul um grande dagrão devorava em grandes quantidades campos e pessoas, sem que ninguém o conseguisse demover nos seus intentos. O príncipe forte, cheio de energia, loiro e solar, despediu-se dos Deuses seus pais, do seu outro irmão moreno e lunar, montou o seu cavalo branco e dirigiu-se ao Sul envolvendo-se numa luta terrivel, de morte com o dragão. Batalharam longos dias e no momento em que o Príncipe solar cansado, achava que não teria forças para o derrotar e portanto se encontrava na eminência de ser derrotado, apareceu-lhe o seu irmão lunar que lhe disse, lembra-te da tua natureza... e assim fazendo derrotou o dragão, não matando-o, que os dragões não se matam, embora alguns distraidos assim o pensem, mas combinado com ele, que fosse morar nas profundezas de um lago e que não andasse mais a comer os campos e as pessoas.

Todo o pensamento vibrava em uníssono com as diferentes conversas, Numa mesa em redor, um grupo discutia política, certamente de esquerda como eles próprios se designavam. Um berrava por cima dos outros, como se os seus berros lhe dessem mais razão e eu a pensar, que loucura este caminho se se conduz a tal violência. que raio de forma de pensar a vida, imaginá-la que no fundo não é outra coisa que criá-la a si mesma.
O meu caminho terá que ser o meu caminho como sempre aliás ao lado dos outros, o meu passado é grande e são poucos os que me querem como companhia. Sou considerado perigoso. não me posso adaptar aos papeis que os outros esperam que eu preeencha e eles já sabem disso há muito tempo, se calhar há mais tempo de que eu próprio sei. Em suma, pensava no que desejava verdadeiramente e como alcança-lo.
As emoções estavam à solta como sempre acontece quando alguém organiza um centro no círculo.