domingo, outubro 19, 2003

Para Ti


Sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo, quanto fazemos ou
pensamos, válido para nós na proporção em que o pensamos válido, depende de
nós a valorização.

O sonhador é um emissor de notas e as notas que emite correm na cidade do seu
espírito do mesmo modo que as da realidade . Que me importa que o papel -moeda da minha alma nunca seja convertível em ouro , se não há ouro na alquimia factícia da vida ?

Depois de nós vem o dilúvio, mas é só depois de nós. Melhores e mais felizes ,os que reconhecendo a ficção de tudo , fazem o romance antes que ele lhe seja feito e como Machiavelli , vestem os trajes da corte para escrever bem em segredo.

Fernando Pessoa , do livro do desassossego

15-5-1930

sexta-feira, outubro 17, 2003

Sabes eu acho que os criminosos daqueles que por exemplo matam, e os pedofilos, são mais doentes que criminosos, uma pessoa que tira a vida a uma outra, é uma pessoa que não sabe o que é a vida e o seu sagrado valor, da mesma forma que um adulto que abusa de uma criança, seja de que forma for é uma pessoa doente porque os mais fracos devem ser protegidos e não abusados.Um adulto que não tem noção da dôr fisíca que inflinge, é um adulto doente sem noção da realidade.

o étimo da palavra composta Pedofilia quer dizer amor aos filhos. É terrivel usar-mos esta expressão, porque não é de amor que se trata, pois o amor trata bem a coisa amada, mas sim de uma perversão amorosa, algo que já não é amor e fico-me a recordar como as crianças deste país sofreram, quando a história pulou e de repente os adultos começaram a reprimir as suas intimidades e afectos no tempo inicial da epidemia psíquica da suspeita generalizada. E os pais preocupados com as passíveis preocupações alheias, tempos de paranoia, que fazem sempre sofrer colectivamente a todos, especialmente quando aqueles que representam os psicopompos da actualidade são implicados.

Só saiu um homem em liberdade, por isso o meu pensamento vai para os que lá ficaram, na esperança, que agora todos os recurso sejam apreciados em equivalente tempo, para que ninguem fique a pensar que há duas justiças em Portugal. Uma para os pobres e outra para os ricos e poderosos.
Mas saiu um paladino no esclarecimento do caso, pois que bem haja

quinta-feira, outubro 16, 2003

havia um país onde há 20 anos existiam pessoas que aguardavam em prisão preventiva quase por dois anos. Era imenso tempo a manter alguém preso antes de ser julgado e portanto eventualmente enfrentar uma condenação, porque enquanto isso não acontece o cidadão é considerado inocente e nos casos em que o é mesmo, o tempo da prisão preventiva deveria ser o mínimo possivel, pois desta forma se reduziriam as consequências.

havia um país onde há 20 anos se ouvia falar de uma história de abuso de crianças. Um país que dorme todas as noites durante tanto tempo com isto não pode dormir bem.



cena interior da prisão

o Anti herói

preso na sua cama, acabara de acordar a andar de bicicleta, consistindo o andar de bicicleta, em alguém colar com cuspo uma tira de papel a uma parte destapada da adormecida vítima e depois lançar-lhe fogo, aquilo ardia e quando chegava à pele o corpo agitava-se por reflexo automático a tentar apagá-lo e curioso mesmo era que aquilo, parecia aos olhos de alguns como que andar de bicicleta. Enfim cada um vê como vê e é aquilo que vê. Estranhas terapias de reintegração.

ah este é mais visual, muito mais fácil de planificar.


Olha querido, afinal não me quero ir embora, é de ti que eu gosto e estive a pensar, e a voz dele, não achas estranha, ainda não definida como homem, quase de falsete de adolescente, uma aceitação inter pares, como o organizador capaz, de construir as rédeas do partido, uma certa leitura de menino pródigio que dele mostram. Oh querida, agora poderia dizer o mesmo de ti, que fizeste uma terrivel insinuação sobre a sua sexualidade, que estás a colocar lenha para ele se queimar, não querido, agora é a minha vez de dizer que estou só a pensar.
olha alguém já pensou como é que ele pode retomar a sua função de deputado sendo suspeito de 15 crimes, olha, é por que é só suspeito, é inocente, não está julgado e anunciou ser paladino do apuramento de todo este escândalo, anunciou esta meta, mais nobre e acima do que a restauração da sua própria honra, aliás uma não poderia existir sem a outra. Que leve Esta Nobre tarefa até ao Fim, é o que lhe desejo, sabes porque já há mais de vinte anos que se fala nesta história e o mais triste é ser mais uma vez com aqueles que são os mais desprotegidos, aqueles que não tem familias, os menos aptos a se defenderem e que por essa razão estão entregues aos cuidados de todos, porque aqui o Estado somos nós também.

quarta-feira, outubro 15, 2003

No terceiro dia de verão, este era o guião da rodagem do dia

Saira do tribunal em liberdade e paradoxo do paradoxo tinha que voltar de novo à prisão para recolher as suas coisas. Cá fora as famílias e os amigos e a combinação, depois mais tarde em casa, estão todos convidados, que eu agora quero ir passear, ver a cidade, sentir a vida, os electricos a passar, as pessoas a andar, sim as pessoas a andar para onde querem, essa coisa espantosa e depois fazer muito, muito amor com a minha namorada, um amor muito tempo, muito tempo, a pretender uma impossibilidade, repôr a enorme ausência do corpo dela. Foi sobretudo a vida que lhe faltára, o podê-la confirmar de viva mão e viva voz, como um corpo de uma forma orgânica no seu infinito baile, assim caminhou a pé desde a Boa-hora, ao pé do rio, até a um dos cimos da cidade, por detrás do jardim do principe inglês, dirigiu-se á entrada, com um curioso pensamento na cabeça a bailar, que é com quem quer dizer, dificil de apagar, daqueles a quem dizemos schiuu, mas que teimosamente teimam em se infiltrar e que simplesmente era, será que se eu entrar deixam-me sair? tipo se a ordem do tribunal não tinha ainda chegado ou qualquer coisa no género. Mas não, fora recebido como quem já sabia, pegara as suas coisas, na ala já todo o mundo sabia, eram gritos e adeuses e desejos de felicidade, retribuidos e adeus de novo na rua.

irra isto parece um guião psicológico de um filme de autor português, daqueles que ninguém vê!!! devia ter ido trabalhar para a padaria em vez de ser assistente de realização, como é que isto se filma...


sim as sociedades tem de se proteger, mas nestes domínios proteger é sobretudo não deixar que aconteça, porque quando aconteçe as consequências não se removem, por isso a verdadeira protecção deveria ser fundada preferencialmente aí.
Oh Lírio branco do Campo, deixa que combinemos com a mestria da paletas de todas as cores, a sabedoria e a compaixão, ensina-nos e vê-la-nos o Caminho


mais tarde no café o mesmo casal de outrora, a conversa continuava, parecendo ter retomado no mesmo ponto do dia anterior às mesmas cinco horas da tarde


Sabes, sendo seminarista como se afigura, pressinto-lhe uma energia secreta, daquelas que se aloja nos corações daqueles a quem em pequeno se dá pouco espaço, uma forma de contrabalanço da rigidez imposta, uma porta de brincar, um gargalhar. O que é que estás para aì a dizer, sabes lá tu se foi essa a situação do homem, pois não sei, estou só para aqui a imaginar, mas segue-me o raciocínio e vê lá se não é possivel esta leitura. Algo que hoje em adulto lhe é visível de quem muito bem pode encaixar aquelas transcrições de excertos de gravações que apareceram, aquela forma de falar, de tratamento inter pares, os pás, uma certa familariedade que permite às vezes um certo rodopio de animo, a tal energia secreta.

Sim mas aquilo não tinha pés nem cabeça, não serviam para deduzir acusações daquela natureza, eventualmente só no campo da obstrução ou perturbação...
Sim, nem pés nem cabeça têm essas coisas, de andar por aí nos jornais ou televisões, pois como disseste não servem para estabelecer qualquer dedução que aponte para o crime, é por não terem sentido que não deveriam andar por aí, porque se não tem sentido lógico naõ quer dizer que não actue, que existam outros sentidos a ela colados.É por isso que eu acredito na inteligência da investigação, uma suspeita de envolvimento em 15 crimes, são muitos, tem que estar bem fundamentado, não corresponderá à imberbe ficção que os medias retrataram.

Olha querido, pára lá um bocadinho
Sim querida
Quero o divórcio, és um chato estás sempre a falar, não me deixas falar e no fundo, bem no fundo estás sempre a julgá-lo, a pintá-lo com uma ficção na qual tu escolhes as próprias cores, sempre tons negros carregados.
É verdade, isso que dizes, mas eu sei que sou um chato, que falo de mais, que te escuto de menos, não , não estou a julgar ninguém, estou só a pensar.


terça-feira, outubro 14, 2003

De qualquer forma é bom sempre que sai alguém da prisão
como é que podes dizer isso, tantas vezes que são libertados criminosos, ou outros que deveriam lá ficar mais tempo? Sim todo isso acontece, mas um dos bens mais preciosos do homem é a liberdade de poder julgar dos seus próprios passos, de caminhar para ali ou para acolá e viver é mesmo isto, caminhar, e quando se tira esse direito a alguém, que é o que acontece quando se está preso, é retirar a Possibilidade da Acção da sua Vontade, é como colocá-lo num tempo sem tempo, onde a mudança interior se a houver e que sempre necessita tempo, é sempre muito dificultada pelo contexto, como alías os próprios crimes, são tambem produtos de contextos.

As sociedades sempre tiveram tendência para tapar os olhos, a fingir que se não vissem, deixavam de existir, os seus prisioneiros e os seus loucos que é como pensar que longe da vista , longe do coração, coisa que sabemos impossivel.E aqui se me afigura uma primeira perturbação no real, se o objectivo da prisão é a reintegração na sociedade, não deixa de ser bizarro a vivência de um modelo caracterizado genericamente pelo virar das costas entre ambos, não parece ser muito propício à integração.


Sim,isso é verdade mas nós precisamos de proteger-nos, já lá vamos, deixa-me só retomar o fio à meada e voltar atrás um bocadinho. A percepção do mal que se fez, da vivência dos limites e da sua trangressão e das suas consequências, podem ser motivos, ou a trama base para a sua redenção interna, mas temos que concordar que as prisões na forma que existem, não são propriamente mosteiros, há sida e doenças afins como hepatites.

segunda-feira, outubro 13, 2003

caiu uma nuvem sobre Portugal com esta Libertação, todos opinam e ninguém parece saber ao certo nada, as leituras são multiplas, algumas delas laminares, como mais um criminoso que se escapa, quando chegar ao julgamento já não há nenhum e por ai fora. Até houve um momento em que momentâneamente os blogs deixaram de ser escritos e vi muitos a tentar descodificar o que sentiam.
No dia seguinte, naquele segundo dia de Paz, daquela Paz que trás um dia de verão com o seu calor e a sua luz, aliada ao cheiro da humidade outonal que já se faz sentir e que de manhã provoca uma névoa esbranquiçada, que tudo torna surreal e dôce.

No café tudo e todos estavam ao ralenti, as conversas habitualmente ruidosas, corriam baixinho, quase sussurantes, pois os bébes dormiam nas suas cadeirinhas, na mesa do lado. Emocionalmente foi como entrar num lugar Sagrado, aqueles locais onde a nossa frequência emocional se estabiliza e se aquieta numa mais baixa frequência.

aquele rapaz faz-me lembrar um seminarista
pois, um tudo nada balofo de carnes brancas
daqueles que estão sempre na iminência de suar nas brincadeiras mais ousadas
olhos pequeninos, dificeis de serem observados, porque pouco se dão a observar, já tinha também reparado, um olhar muitas vezes para baixo, ou um olhar como quem olha em frente quem está de frente, mas desfocado interiormente, que faz parecer a quem o vê, que é visto, amparado pelo olhar do outro, o que fala, o que sustêm, embora aqui seja a ilusão de que se trata, uma daquelas pequenas ilusões, do primeiro grau da magia, o mais baixo e o mais vil-mente usado.

Bolas quem te ouça falar, fica com a ideia que não gostas do homem e que estás mesmo a pintá-lo para melhor o servir à-forca-salvo-seja. Não, estou unicamente a dizer-te um pouco daquilo que vejo nele e em tantos outros tantas vezes, mas atenção não estou a julgá-lo, não quero julgá-lo, ele ainda não foi julgado e como tal imponho-me olhar sobre ele com neutralidade, mas isto não me faz esquecer o que nele vejo e mais, digo-te, ainda bem que não me compete tal decisão que será difícil de decidir, ou por outras palavras pesada, tal é o tamanho da tenda de circo montada à sua volta.

sexta-feira, outubro 10, 2003

Entrei no Monte da Virgem, os meus passos dirigiram-se automaticamente para a direita onde se encontrava o Senhor mais Crescido da Sala e a seu lado a TV que ele observava, dava imagens de um corredor da AR, onde um grupo de socialistas abraçavam o conterrâneo recem-libertado. Antes mesmo de chegar ao Senhor e dizer-lhe boa tarde estendendo-lhe a mão, senti-me profundamente bem por esta notícia da libertação de alguém que se encontra preso, graças a Deus, ou serão outros. Boa tarde, apresentámo-nos e o Senhor a dizer, agora é que vai ser o diabo, a indeminização que todos lhe vamos pagar e eu como que a alucinar a tentar saltar para o seu plano de raciocínio, como quem apanha um trém em alta velocidade e a perguntar-me que indeminização, até que plop, Haa, a indeminização do estado a um cidadão que foi mantido preso injustamente, o Senhor, já estava a escrever o final de uma história, cuja procissão ainda vai no adro e eu a tentar recordar da última informação que tinha sobre essa matéria que se reportava aos anos 80 e que se não me falha a memória seria de 37$00 por dia ou algo assim e a deduzir, 4 meses e meio, com actualização e mudança de moeda não nos sairá assim tão caro. Haa, não que ele é deputado, portanto só em salários justificados será uma fortuna, pois se calhar tem razão e avançei para outra cena.
Oh como é bom fazer amor de olhos bem abertos, os dois, como janelas, passagem para um outro ceú que estão nos teus olhos e para além deles, quando as asas se tornam uma só Asa, que flutua para além de todas as nuvens, em voô gracioso, infinitamente infinito, uma só emoção, a reverbar por todo o Universo, radiante de Calor como Vaga de Paz a Alastrar. Temos os dois o universo inteiro nas palmas de cada uma das nossas mãos, só depende de Onde Apontar.

quarta-feira, outubro 08, 2003

Oh Mãe
Senhora do Céu
Tudo É Tão Docê
Quando Me Visitas
Oh Mãe Terra que me Abraças
quando És Areia
No Amoroso Amplexo


OH ocidente onde me encontro que desacredita, diminui, salvo a excepção da Arte, a Imaginação da Vida ou na Vida. Contudo a Imaginação, aí está infiltrada em tudo, de permeio entre nós a imaginar-nos. Triste, como quem diz cansado, resultado da confluência de Um Ego Apolônico, aquele que Horácio exaltava até às estrelas e por depois, e o Ethos Hebreu monoteísta. Juntas william blake chamou-lhe um dia, Condição Satânica do Self, um monoteísmo de consciência a pretender afirmar que a vida é melhor vivida, negando, como se não Existissem, todas as coisas que não são passíveis de serem reduzidas ou encaixadas em claras e nítidas categorias lógicas.

terça-feira, outubro 07, 2003

mentes literais são as mentes que vêem na relva só o verde, que só vêem no passáro o voar, mentes literais são, mentes do isto ou do aquilo, não do isto, do aquilo e do aquele outro, mentes literais são mentes aprisionadas nos dualismos e se bem que eles existem, pois sem eles nada existia, não é isto, o dual, ele está lá para para a sua superação, que implica inclusão, harmonizar o isto com o aquilo e perceber tambem, que é como quem quer dizer não esquecer, o resto tembém. Colocar o e em vez do ou.
oh querida, sim que nos deixamos apanhar, sim que nos aprisionamos nas nossa próprias caixinhas construídas pelo nossos eginhos, sim querida, quantas vezes já esperei de ti isto e aquilo, sim querido , quantas vezes já te desejei assim ou assado e contudo querida, nada disso somos, sim querida que será melhor dizer, vamos sendo, um dia assim outro assado, por isso querido, é melhor não te ver como coisa parada, mesa de quatro pés assentes sem se mexer, por isso querida é melhor não emoldurar a ti, a mesa e os pés num quadro estático que coloco na gaveta dos meus desejos, sim querida, que os meus desejos são mais pequeninos que a realidade, os meu desejos são mais pequenos que tu, e eu e tu a imaginar os nossos desejos, sim querido, é como uma confluência, algo maior que as partes, algo entre as partes, algo para além das partes.
Aos meus amigos de pé de chumbo
que ficam presos
no local da imobilidade
mesmo quando
o protesto
ou a inquietação
existe

vamos fazer isto?
não sei, não sei se quero
embrenhados e emaranhados na vontade própria
não sei se será melhor
também não sei se será pior
de qualquer forma
ficar é que não
ambos não o queremos como está
se partirmos logo veremos
A onde chegar

só partindo
é que poderemos chegar
onde?

a algum lado
que será sempre distinto
daquele que imaginamos chegar
sempre diferente
do local onde estamos
é a única certeza
certeira

e depois tudo se move, não é
para quê ficar igual, imóvel
se ficarmos na orla da areia
é que não o saberemos

e para ir é preciso saber do querer
ter coragem de ultrapassar a questão do não saber
da dúvida e no junto querer
o fazer
É só imaginar o caminho
que se faz ao caminhar

em vez do chumbo no pé
as asas nas mãos
e se quando chegarmos
vermos que afinal não é o que queremos
poderemos voltar atrás
sim, poderemos ir para a frente ou para o lado
como quem diz outro lado qualquer
que então inventemos

e a delícia do caminhar no desconhecido
e as supresas no caminho
e as descobertas
e o novo
e os presentes que aparecem
áqueles que caminham

e sobretudo quão bom
sentir para nós mesmos
o sentir distinto
da habitual queixa
sobre onde estamos

Sim, deixa de haver
o conforto da queixa
o conforto do não movimento
o conforto do imobilismo
queixoso
de uma queixa que se eterniza como queixa

trocar a queixa
pelo prazer do risco de chegar
onde se pensou chegar
e saber chegar
sem queixar de novo
mesmo que seja
só uma estação intermédia
onde repousaremos
por um só instante

e depois pôr
de novo
a cada vez
um pé à frente
do outro

segunda-feira, outubro 06, 2003

o Lugar da Alma
Entre a realidade tangível externa
e os estados internos da mente
A posição intermédia
o Mundo da Imaginação, Paixão
nem fisíco nem material
nem abstracto ou espiritual
mas que os dois liga entre si
Alma, Imaginação
função transcendente
dos dualismos
para além do dual
policentricidade da Vida

( poema-resumo de extractos do livro de Robert Avens- Imaginação é realidade. nota de 1 de Abril de 2004)
Mysterium tremendum et fascinans

não há espírito sem imaginação
porque é a imaginação que imagina o espírito
mesmo quando o espírito finge ser independente da imaginação
pois esta "independência" como tudo o mais criado pelo homem
É um produto e fantasia da Alma
A fantasia e a imaginação são tão ontológicas
como a fonte de onde Brotam.
A alma não existe separada do que faz
A Alma está precisamente no meio
Absolutamente no meio
A Alma que estritamente não é
dota tudo o mais com Sentido e Ser

( poema-resumo de extracto do livro de Robert Avens- Imaginação é realidade. nota de 1 de Abril de 2004)
hoje na rua das Portas de Santo Antão, ao descê-la, o Senhor que me acompanhava os passos disse-me, olhe estas pedras tão levantadas e separadas entre si, precisavam mesmo de uma massa entre elas a uni-las
apagamento
como o fogo que cessa de arder
extinção da febre da avidez
do ódio e da desilusão
vícios da mente dualística
que distingue entre o eu e o não eu

sabedoria para ver através das máscaras do meu ego
compaixão que me permite a identificação Maior

A contradição é ameaçadora
para as mentes literais
que se esqueçem de
Heráclito a dizer
que todas as coisas
acontecem
através da compulsão de uma contenda

( poema-resumo de extractos do livro de Robert Avens- Imaginação é realidade. nota de 1 de Abril de 2004)
se o homem errado usa os meios certos, os meios certos funcionam de maneira errada

ditado chinês

sexta-feira, outubro 03, 2003

Querida Paula que deslizas nos sonhos. Como isto é curioso, esta comunicação pessoal, não direcionada na intimidade, entendendo isto como uma comunicação no altar do mundo, que me parece muito bem e sobretudo a ideia de que as mensagens chegam sempre mesmo quando não nos são directamente endereçadas, bela constatação, que elas não se perdem e do seu enorme alcance, como os pensamentos que pensamos ou os desejos que projectamos.

escreveste...

Mas não será o amor um dos maiores medos, trazendo com ele a dúvida se o êxtase amoroso sentido é tão arrebatador como nos parece, e porque, possivelmente, tudo se baseia mais na vontade de agradar ao outro, aos outros, por medo de perdermos a sua companhia...

Não sei do medo no amor, ou melhor dizendo tenho muitas dúvidas que o medo seja parte do amor. Bem sei da emoção de não saber da correspôndencia do amor, da recusa do outro face a nossa exposição do sentimento e outras coisas que tais, mas quando isso acontece, só isso acontece, não se passa mais nada e será que amor que não é correspondido, será verdadeiramente amor? não é esta a ilação que decorre da tua própria frase, quando claramente associas o medo à consciência que reflecte a ausência do Amor, pois o sentir é sentir que o que está em causa é o agradar ao outro por medo de perder a sua companhia.

Ora este poderá ser um medo ou dois, mas parece-me um pouco ao lado do próprio amor. A mim o Amor, não tem como pressuposto a necessidade de agradar ao outro e do medo da sua perca. O Amor trata bem a coisa amada, ou seja, permite-lhe sempre a liberdade, ao limite a liberdade de o outro se ir embora, ou por outras palavras a possibilidade da sua eventual recusa em ser por nós Amado.

E quando isso acontece, o que acontece? deixa-mos de querer bem ao outro, congelámos por assim dizer o nosso sentir? não, não me parece, ao limite pode-se amar alguém sem ser retribuído, embora se calhar o preferissemos, mas como diz o provérbio quem não arrisca não petisca, ou mais uma vez a velha história dos sapos e dos princípes, de que já falámos, ou seja, aqui o medo, eu substituo pela emoção da procura, sabendo que é preciso procurar como quem encontra e continuar a encontrar como quem procura.

Dizem-me também as tuas palavras do medo uma ideia, um sentir que me parece estranho, quando escreves sobre a .... dúvida se o êxtase amoroso sentido é tão arrebatador como nos parece....pois por um lado não sei bem se falas da dúvida que podemos ter relativamente ao que verdadeiramente sentimos dentro de nós, coisa muito comum, ou mesmo se o êxtase do outro é real, mas real, como na vida real são as duas faces da mesma dúvida. Se o êxtase existe e quão arrebatador ele é, é coisa que penso podemos sempre pescar a resposta dentro de nós, mesmo nos dias em que nos olhamos nos espelhos sem nos reconhecermos. Do outro, é tambem uma questão de conhecimento, da verdade do outro nas suas relações, da sua consciência e da sua vontade, mas que creio ser possivel de ser averiguado, sobretudo se deixarmos de lado as nossas pequenas projecções, do que esperamos ou desejamos como comportamentos ideais do outro, quando substituimos a projecção pela aceitação, pela escuta do outro, aí penso que começamos a encontrar respostas e depois o que terá o Amor a ver com as nossas pequeninas projecções? parece-me que ele sempre as transcende, que a sua mecânica é de outra natureza, bem diferente desta pequena economia terrestre dos nossos pequeninos egos.

E quando falo em aceitação, não se entenda por tal, o querer de qualquer maneira, aceitar é como perceber e aceitar como um facto alheio, que por ser alheio mas cruzado connosco nos afecta, mas recordando que são sempre os meus próprios pés que caminham, não é o pé do outro que me faz caminhar, e aqui entramos no Outro nível do Amor de que tambem falas.


E que sim, tranquiliza os medos, todos os medos, embora tal não queria no meu entender dizer, que eles estejam sempre ausentes, um bocado como entre a Fé e a dúvida me movo, pois como poderia existir uma sem a outra? Recordo-me de Platão a falar dos graus de amor, propondo que à medida em que se avança na vida, como que se vive uma evolução do amor dos corpos terrenos para a elevação do amor ao Espiríto, à Alma e a Deus. Não me parece no ponto que me encontro que haja assim como que dizer uma fractura ou impossibilidade entre o Amor particular e o Universal, parecem-me ser ambas faces da mesma moeda, um a reflectir ou encarnar o outro e vice versa. Por isso querida Paula, talvez o amor não seja o maior dos medos como equacionas, mas sim o maior dos desafios, uma especie de realidade simultânea e transcendente, nos mesmos dias em que por ele nos sentimos abraçados e há sempre uma especie de frissom, uma cócega na barriguinha, uma emoção que como qualquer outra pode por nós mesmos ser sempre transmutada, não uma emoção inevitável que nos paralize como o medo às vezes pode fazer, mas que paradoxalmente nos conduza ao seu encontro ou melhor nos deixe aberto a que ele nos encontre.
um só toque, partida e chegada para todas as direcções e depois é só seguir a Música