domingo, novembro 30, 2003

Acreditar uma coisa é como entende-la e william Blake a recordar que uma imagem passivel de ser acreditada, é sempre uma imagem da Verdade
como cascatas epifânicas
Desculpem amiguinhos, mas não há nenhuma competição em curso, nenhum prémio a conquistar, ou a partilhar, não há um Mim em detrimento alheio, ou vice-versa imaginado, não me peçam para participar num jogo de damas que eu visualizo em três jogadas. O jogo é só meu e por mais estranho que te possa parecer, ele é o mesmo que o teu, mas jogado comigo mesmo
Tudo tem seu nome, tudo fala o seu dizer. Chegas-te dizendo, eu sou o melhor, sou muito bom, já toquei para dois Coliseus cheios e o meu pensar a acrescentar, de quê, de cristãos prontos a morrer na boca do Leão? Não, respondias-me a Mim-Mesmo, ou melhor eras só o meu pensamento falado, confrontando-me com uma já conhecida máscara de mim. Foste ou És, eis a minha questão, da qual tu como interprete me encenas.
Linda a história do julgamento alheio, estou farto dos homens disparas-te, perdão minha querida senhora, que errei na resposta que ouviste, mas queres ouvir o que se lhe segue, é que ainda não acabei, mas quem és tu para te pores assim jangada, por ventura nunca te enganaste no julgar alheio? Queres ouvir, aquilo que a consciência do errar me eleva? E antes só posso pedir-te desculpa pelo falho apresentar, e tu, que também tinhas que pedir desculpas e eu a insistir, primeiro as minhas, porque é, foi, essa a ordem das coisas, depois as tuas. Que belo começo de diálogo, cada um como cada qual a pedir desculpa ao outro, mano a mano no humano, num menos belo humano, sem convite ao novo recomeço.
Já há muito que os pássaros daquela praça ao lado da praça com rio ao fundo, não me relembravam o acordar. É aqui que a minha cidade acorda, pela segunda vez. Como um bailado estelar de todas as estrelas, um trinado sonoro , eu a olhar. Gemem ou gritam ou disparam os sons da harmonia, que importa se só eu e eles lhes damos o sentido. E eu em baixo, pequenino do tamanho de Mim a ver todo aquele rodopiar como um Mar. Todas as Arvores são nesse instante , seu ninho comum. Depois do acordar, depois da função feita, as pombas descem no arrulhar de um qualquer silêncio, como pontos infinitos do mesmo diálogo, meus irmãos. Depois combinam o chegar do silêncio, a partida e o NovoVoltar. Oh como é bom por vós ser beijado, espantado ao vosso entendimento do silêncio em seu tempo. Porquê não pousaram em mim como quem me encontrava, não fizemos ainda a secreta aliança.
Não têm ainda a curvatura retesada e única de um mesmo Arco, ou sou eu que não a tem?.
São andorinhas apardaladas que comigo se cruzam ao meu andar, Eu vejo, e cego-me a ver
Quando não vejo


Ama-me de olhos bem abertos, por todos os poros da pele de teu corpo, onde eu te escreverei o Desejo e seu Irmão Amor. Ama-me através de todos os cheiros, Lambuza-me de chantily e põe por cima a mais preciosa cereja, a tua casa, a casa da mesma Alma, Teu Nome. Penetra-me como que me rasga sem fim, de mim, dissolve-me pelo teu toque pesado, presente e possante, arranca-me o coração para eu o continuar ver, a bater, como cavalo branco em louco galope na tua mão e assim saber, que continuo a viver, depois com minhas unhas arrancarei à tua pele parada, as penas de tuas Asas, no mundo o silêncio da grande harmonia.

sábado, novembro 29, 2003

Que beijos fumo?

Todos os que se acendem ao meu passar
No maço infinito do mundo que os contém
Corpos que se tocam no eterno baforar
Beijos efémeros sem pesar
Como perfeito circulo a subir ao céu
No etéreo fumo de Todo o Amor
Me Torno e Torno a Tornar
Beijos lentos
Rápidos
Violentos
De Afundar

Que beijos Fumo?

Daqueles que dissolvem
Como cinza tornam
Silêncios de Encantar
Daqueles da Luz a dar
Daqueles que não se vêem
Ao Olhar


Beijo-te a Ti
As arvores
Os cães
Os pássaros
As Nuvens
O Riso e o Mar
E o que Mais
Encontrar

Tens fósforos?

sexta-feira, novembro 28, 2003

Á procura de um sorriso pela cidade saindo da rua do Paraíso.

Passáramos com a Lua a noite a rir, O Tejo a fazer-lhe cócegas e ela para cima e para baixo, numa terna brincadeira. De manhã cedinho saímos para a rua como a missão de encontrar o primeiro a rir. Descemos a rua do Paraíso, tal foi o nosso errar, a Santa Apolónia fomos dar. Está no comboio, disse um de nós, se calhar partiu com o maquinista a apitar e por isso não se deita ao nosso olhar. Depois rentinho ao rio, no Terreiro fomos espreitar, se calhar foi tomar banho e está debaixo das águas a navegar, grande deve ser seu pulmão que cá cima não, veio, não. Depois no Rossio já quase a chegar aos Restauradores, mesmo frente ao teatro, lá encontramos a primeira falta de siso. Na caixa aberta da carrinha que parecia ir à frente, uns Senhores de fartos bigodes num riso farfalhudo e eu que atrás ia conduzindo, com o dedo a apontar e nós todos a rir ao olhar, contentes de o ter encontrado. Nesse preciso momento os senhores que riam ao verem nosso riso, suas caras de novo petrificaram, num qualquer tipo de zanga expressado num olhar fixo e franzido sem bigode a dançar, como a quem de novo tinham posto o dente do siso, a pensar que está a ser gozado e os sorrisos deles e os nossos foram todos navegar para outras margens. Tiro pela culatra, a relembrar que só encontra quem procura sem procurar e depois seguindo, procurando como quem encontrou. Desde esse dia decidimos não mais procurar o riso alheio, só mesmo o nosso, a Soltar, que depois consta que ele é contagiante como vírus universal.
Ora hoje sexta-feira, vou-me outra vez casar, estão todos convidados para este copo de água a transbordar, não têm que comprar prendas para nos visitar, que cada um já tem a sua casa e por razões de economia amorosa a dois decido o meu casar. Aqui só há festas para quem as agarrar, é mesmo só namorar, oh que bela poligamia, neste espaço que não é espaço, pois é todo o espaço de encantar, sem distância outra que o Anel do querer linkar, um só click e já lá estou. Longa vida aos que se ligam, como casa bem o casar em vez do afastar

Assim foi o namoro pré nupcial

Quando no final da minha página vi vamos lixar tudo, escrito, tive uma
momentânea dissonância cognitiva, vamos lixar tudo? E só depois percebi que
era link e Blo e assim aqui vim, um pouco aos arrecuos, que vamos lixar
tudo, parece-me ser algo, como te o direi, estranho. Só se for para aplainar
as farpas das madeiras múltiplas, que nos ferem a todos. Mas afinal não me
piquei, hihihihi, mas está bem, vou linkar quem tudo lhe dá na Real Gana

Vamos lixar tudo?
E não tenhas crises ao casar, mesmo não sabendo se são tuas, minhas ou de quem as apanhar, que da crise tenha a tradução da breve paragem antes do novo andar

Do bichinho de conta a história assim o rezou na troca de folhas de amoreiras que os curiosos podem ler nos comentários de ontem

Só uma pergunta lhe faço, pois há muito tempo que não me punha a contar se o bichinho do belo contar, tem cem pezinhos no seu belo abraçar. O que importa mesmo é perguntar em qual deles o anel deve entrar.
o nada é o todo desordenado
Os corações nunca dão passos em falso, é como uma impossibilidade deles, congénita como seu eterno bombear, falsos como medo é o pensar, contudo às vezes é necessário pousar nos silêncios internos para ouvir de novo o sangue a correr e dessa unica forma encontrar a palavra que nos contem.
aquela que nos dá a luz que apaga a sombra do mundo inteiro no instante do seu falar
bombeia, coração bombeia pra melhor em silêncio eu te escutar
Reconhecer é como estremecer
Um leve corar
Um súbito Virar
Um Vivo Enrubes-Ser
Um Encantar
A Aquecer
Uma Onda
A Mexer
Um Sino a Cantar
Uma Fada a Voar
Um Doce
Ensandecer
Como Chocolate
A Derreter
Uma Pálpebra a Flutuar
Um Breve Enternecer
Como Só Coração
Sabe Tecer
hoje não me sai da cabeça um verso de Sebastião da Gama que reza assim e assim fica aqui rezado.
tens muito que fazer?
não, tenho muito que Amar

quinta-feira, novembro 27, 2003

As pessoas receiam tratar-se por queridas, dizerem umas às outras que lhes querem bem, receiam o toque dos corpos e das almas na mão que momentaneamente se tem entre a nossa, a festa nas costas, o franco abraço ou o beijo de dois homens que se beijam ao encontrar. Sabem amiguinhos, é que existem outras culturas, nas quais eu também já vivi onde esses são os costumes, sem passar pela cabeça de qualquer interveniente ter dessa forma a sua sexualidade a fracturar, a entrar em profunda divisão interrogativa, que isto, é o que verdadeiramente acontece a quem de fora se perturba, com a forma que outros com outros expressam os seus afectos ou reconhecimentos se quisermos por a coisa no seu mais básico. O Mundo é muito grande e a vida não é a preto e branco, pois entre o branco e o preto estendem-se as infinitas matizes do cinzento e de todas as cores.

Oh, Quantas vezes já receei tratar alguém por querido
Oh, Quantas vezes já receei o toque dos corpos
ou o franco abraço, ou o quente colo.
das Almas na Mão que por um momento
se têm entre a nossa.


As pessoas receiam porque têm medo da reacção alheia, medo do ridículo de serem mal tratadas pelo outro ao expressar, que é como quem diz, expor o desejo de lhe querer bem. Ou o medo que nasce daquelas vezes em que sentimos um outro, que como se escudando no gentil querer, aproveita essa abertura implícita no querer Bem a Algo ou Alguém para investir, cheio de violência e ódio. Ou então é como sentir que se se perdesse o pé e a compostura, como uma fronteira à qual se levanta a cancela com demasiada rapidez, nos expõem a uma qualquer manada de touros que lá vêm. Mas abrindo ou fechando a cancela, de forma rápida ou lenta, não obsta a que a investida aconteça, porque a vontade própria do touro a ela, é cega ao meu olhar.

Mas isto é só uma das possíveis projecções. Porquê imaginar os touros como violentos, porquê não pensá-los como carregados de enguias de paixão? Ou então em vez de imaginar que as cancelas quando se abrem depressa, naquilo que parece um só momento, terão por detrás os touros? Porque não projectar manadas de flores, ou doces chupa-chupa.

Ou o medo de sentir a iminência de perder o seu próprio pé como quem perde a compostura, oh, e se ele quer como eu estou a sentir querê-lo, se ele me quer tratar bem, mesmo muito bem, onde é que isto vai dar? Eu gosto dele, mas só azul, que é como quem diz, por exemplo como Amigo, nunca o Amor, não que não posso, estou ocupada, tenho uma relação, uma promoção, e o querer, se transforma num não querer, um querer que não quer nem deixa de querer, uma onda sem movimento, e depois a cancela já se fechou, os touros, as enguias e as flores, para outras paragens seguiram, aquelas que não tem cancelas nem a abrir nem a fechar e onde não moram os medos, só o encontro do querer.
já há muito tempo que não me cruzo com um frase que costuma estar grafada nas paredes da minha cidade, reza ela, sem verdade és um perde-dor
Hoje ao olhar as gotas de chuva que caíam na calçada, ouvi de repente psiu, psiu, passeei o olhar em redor e nada vi. Psiu, psiu olha lá tu aí, chega aqui, que eu vou te contar uma história. Foi esta a história que a gota me contou enquanto me molhou.

O galo de estimação da avó

Era uma vez um menino que tinha ido de férias grandes com sua irmã para a casa de campo de seus avós. Um dia o menino recebeu de seu avô, um espingarda de pressão de ar e partiu para a floresta ao lado da casa a experimentá-la. Disparava contra todos os alvos que elegia, mas pela sua falta de experiência nunca conseguia acertar e cansado e irritado voltava a casa quando de repente ali à mão de semear viu o galo de estimação de sua avó, que por o reconhecer também, prazenteiro se aproximou como sempre fazia, na esperança de uma guloseima para comer. O menino deixou-o aproximar-se e à queima cabeça disparou. O galo morreu instantaneamente numa grande poça de sangue. Assustado e em pânico, olhou em volta como em falta a ver se alguém teria visto o seu fazer. Pegou no ex- galo Jeremias, que mais não gemia e depressa o foi enterrar na curva da floresta. Quando nisso se encontrava, deu por sua irmã calada a observar.

Depois do jantar, sua avó disse a sua irmã, hoje é dia de tu lavares os pratos. A irmã aproximou-se do irmão e disse-lhe baixinho à orelha, olha amiguinho, lava tu os pratos se não queres que eu conte o que se passou e o menino, engolindo em seco, muito mansinho, lá foi lavar pratinho enquanto os avos e sua irmã foram ao cinema da sua aldeia. Aquilo repetiu-se nos dias seguintes, com a cama para fazer, com o arrumar da casa e por ai fora. Cada vez que calhava a tarefa a irmã, ele lhe sussurrava baixinho a lembrança do seu saber. Tantas foram as vezes que o menino não mais aguentou e um dia contou à sua avó o que tinha feito ao Jeremias.
Disse-lhe a avó, o meu querido menino, não faz mal, eu já o sabia, pois estava à janela, quando o vi, só estava a ver quanto tempo é que aguentarias ser escravo da tua irmã.

e assim parou de chover

(esta história que eu escrevi, foi-me contada há muito tempo por uma pessoa da minha familia)nota de 2 de abril de 2004

quarta-feira, novembro 26, 2003

Querido, fecha a porta que estou com frio, não faz mal, vem cá que eu te aconchego ao colo do meu quente desejo, não querido, que não é desse frio que se torna quente que eu falo, qual é então minha querida, é aquele que entra nas minhas portas, por debaixo das frinchas, quais portas minha querida, querido, aquelas que delimitam o meu castelo do ser, aquelas que eu fecho aos outros para melhor me proteger, ah querida, falas-me das portas impossíveis que por o serem deixam sempre passar o frio mesmo quando as crê-mos por nós fechadas, às sete chaves da mesma morada. Que falas, querido que me estás a ensandecer, falo-te, das portas que se erguem ou se fecham tanto faz, por causa da dor que os outros nos fazem às vezes sentir, sim querido são essas, as que me metem o frio, sim eu sei, querida, mas já reparas-te que mesmo com elas erguidas, o vento continua a soprar por todas as tuas alas, o frio a entrar por invisíveis frinchas, como a dizer-te querida, que porta erguida pela dor, não serve para fechar nada, não garante o calor, não apaga a própria dor, só serve para criar a ilusão que ela está fora quando ainda está dentro, e que o castelo é todo um mesmo, não há portas fechadas nem abertas, uma só imensa paisagem, por isso se dor sentes, para quê as portas, deixa sentir, chega-te a ela, muito de pertinho para a melhor convencer a tornar-se nova alegria e depois lembra-te daquele verso, do rio que corre tumultuoso dizem que ele é violento, mas ninguém parece lembrar-se da igual violência das margens que o comprimem, um zanga, uma dor, tem sempre dois lados a respingar para todo o lado.

terça-feira, novembro 25, 2003

Mais um fragmento de menino e menina a passear nas cidades antigas.

E de repente vêm-me à memória, uma outra história face da mesma moeda no tempo antigo em finais de setenta do século passado em Beja. A partir das 21h, as mulheres nativas não saiam mais à rua, estranha cidade que as parecia engolir.
No café central a bica depois do jantar, era quase uma ausência feminina, que nenhum açúcar adocicava. Frequentado por meia dúzia de homens e mulheres que eram todos os estrangeiros que lá se encontravam, menos os aviadores, coisa que nunca percebi o porquê. Professoras, empregados bancários aí deslocados e eu, na altura também funcionário embora de outra natureza. Belas amizades aí se fizeram, numa cidade que dormia enquanto nós voávamos por de cima de todos os sonhos, a vive-los. Esta era a fotografia em plano geral da cidade desse tempo. Em plano aproximado, eu a ela tinha chegado como meio espião escondido com rabo de fora. O pretexto era a invenção de Cardia, do chamado propedêutico, eu a pretextar como a enganar, sabe tive que sair de Lisboa, e decidi para aqui vir durante este tempo, pois lá, um ano inteiro sem aulas, no meio daquela imensa confusão, sabe como é, não conseguiria estudar, e aqui estou eu, mais a minha mota e os livros de estudos, para estudar à séria neste ano, e sim Senhora Doce viúva que me acolheu, me dê para mim o quarto de cima, que eu gosto de ficar perto do céu, uma cama e uma mesa para eu por todo este papel, e que sim, menino, tenho todo o gosto e precisão em recebê-lo eu e meu filho. Mas tudo isto, o escrito para trás que é como quem diz para cima é introdução de telenovela, não a render o peixe, mas perdida, como quem diz encontrada, na multiplicidade da memória, fio que puxa fio num infinito desenrolar.
Ali conheci uma menina que era mais ou menos como eu, era esta a história do meu contar. Ela a menina, tinha também sido desterrada do sul, para casa do tio, pois pai e sua mãe a achar que a escola perto do mar estava cheia de más companhias, como tubarões prontos a morder a sua pupila, enfim coisa de marés agitadas, mas eram outros os mares, quando naquele jardim de Beja pela primeira vez nos beijámos. Só uma vez subimos ao céu do meu quarto que de seguida a querida senhora viúva, me veio dizer, para nunca mais e se o céu já fora o meu e o teu, a casa continuava a ser dela e que importa, só importa mesmo é o respeitar da vontade alheia. Espanto e revolta, vieram depois, na reunião semanal da direcção local do partido, ao ver quer o nosso beijo público constava já da ordem dos trabalhos. Trabalho? Aquilo parecia-me mais calvário ou mesmo uma carga de trabalhos, pois os camaradas a perguntar, que alguém lhes tinha ido dizer, então o menino e a menina a beijar, qual são as suas intenções e por ai fora, o filme negro a discorrer e eu a alucinar. Sei que ninguém vai acreditar, mas era assim que alguns rimavam amar com liberdade, naquele par-tido tempo, de esquerda, os valores que afirmavam. Menino e menina que se beijam, é só beijo o tratar e é entre eles com eles, mesmo no altar de todo o mundo, o seu único passar.
quanto mais contigo me deito, mais hoteis me aparecem em linha...hihihi
Hoje recebi uma carta que rezava assim

Querido pimpampum

Se determinarmos por exemplo o peso de cada seixo no fundo do rio Tejo e obtivermos um valor médio de 145g, isto pouco ou nada diria da verdadeira natureza dos seixos. Quem, baseando-se nessa conclusão acreditasse poder encontrar, numa primeira amostra, um seixo de 145g certamente sofreria uma grande decepção, podia mesmo acontecer não encontrar uma só pedra com esse valor, por mais que a procurasse.

Os métodos estatísticos proporcionam um termo ideal de uma conjuntura de factos e não o quadro de sua realidade empírica. Embora possam fornecer um aspecto incontestável da realidade, podem também falsear a verdade factual.

Os factos reais porém evidenciam-se em sua individualidade; de certo modo, pode-se dizer que o quadro real se baseia nas excepções da regra, e a realidade absoluta, por sua vez, caracteriza-se predominantemente pela
irregularidade.

Uma média ideal obtida pela estatística elimina todas as excepções, em cada extremidade da escala, em cima e em baixo, substituindo-as por uma valor médio abstracto. Este valor adquire na teoria o lugar de um facto fundamental e incontestável, mesmo quando não ocorre sequer uma vez na realidade. As excepções numa ou noutra direcção, embora reais, não constam absolutamente dos resultados finais, uma vez que se anulam
reciprocamente.

Sob o peso das estatísticas, o homem individual sofre um processo de nivelamento e deformação que distorce a imagem da realidade e a transforma em média ideal. As estatísticas reprimem o factor individual em favor de realidades anónimas que se acumulam em formações de massa.

Em lugar da essência singular concreta, surgem números, características e conceitos que cumulativamente ditam as formas do viver.

Em lugar da diferenciação moral e espiritual do indivíduo, o sentido e a finalidade da vida individual, a única vida real, não assenta mais no desenvolvimento do indivíduo, mas numa razão imposta de fora para dentro do homem, ou seja na objectivação de um conceito abstracto cuja tendência é colocar-se como única instância de vida.

A decisão moral e a conduta de vida são progressivamente retiradas do indivíduo que, encarado como unidade (número) social passa a ser administrado, nutrido, vestido, formado, alojado e divertido por conceitos e acções baseados numa abstracção irreal.

Assim, o indivíduo torna-se uma espécie em vias de extinção. Quem ousa afirmar o contrário sofrerá imensos embaraços na sua argumentação. O facto de o indivíduo atribuir importância à sua própria pessoa, aos membros da sua família e aos amigos e conhecidos que compõem o seu meio somente comprova a estranha subjectividade do seu sentimento.

Na verdade o que significam esses poucos em comparação com os dez mil ou milhões que o rodeiam? E quanto maior for a multidão mais
“ indigno” se torna o indivíduo.

Quando o indivíduo esmagado pela sensação da sua insignificância e impotência, vê que a vida perdeu sentido, que afinal não é a mesma coisa que bem estar social e alto padrão de vida, encontra-se a caminho da servidão da
qual, sem saber nem querer, se tornou prosélito, deixando-se fascinar e subjugar pelas verdades estatísticas, doutrinado acerca da unidade e impotência da personalidade singular e da sua incapacidade de representar e personificar uma organização de massa.

Assim, se compreende que o juízo individual seja cada vez mais inseguro de si mesmo e que a responsabilidade seja colectivizada ao máximo. O indivíduo renuncia a julgar, confiando o julgamento a uma entidade externa a si.

Com isso o indivíduo torna-se cada vez mais uma função da sociedade que, por sua vez, reivindica para si a função de único portador real da vida, mesmo que no fundo não seja mais do que uma ideia.

O estado de direito resvala para uma forma primitiva de sociedade, isto é de comunismo das tribos primitivas sujeitas à autocracia de um chefe ou de uma oligarquia.

Com os meus cumprimentos

C.G.Jung
Quase glosa

Sim querido porque as outras, isso dizem de ti, não querida que não importa o que os outros dizem, estão eles porventura, aqui entre nós? Não querido não estão, mas sempre o disseram, deve por isso existir um fundo de verdade, não querida, como podes ter a certeza que sempre o disseram e que dizem a mesma coisa? Acompanhas-me desde sempre? Se a mesma coisa dissessem teriam que ser tu, coisa que tu não és, pois não, tens nome próprio Mas já reparaste querida, que acabam mesmo por estar, quando os invocas, sim querido é verdade, é um estar sem estar, como nós minha querida? Não querido, na realidade só estamos aqui os dois, então querida que importa o que os outros dizem para nós aqui os dois sozinhos a falar e a sentir. Já te olhaste ao espelho, minha querida, sim já o fiz, viste que a tua face é de um lado clara e do outro escura, como o sol e a lua, sim querido, percebo o que dizes, pois há dias que me levanto com a lua e outros que me deito com o sol, e já reparaste querida a intima relação entre esse teu sentir e aquilo que te faço sentir? Sim querido, já o reparei e não pensas que assim o é também de mim para ti? Pois é, somos relacionalmente, não é, podemos um ao outro apaguizar os fantasmas ou criar o mais terrível inferno, pois é querido está tudo nas nossas mãos, como quem diz no nosso coração a sentir. E então querida, quantos corações estão aqui, agora a sentir? Dois, querido que às vezes parecem ser só um. E não será, oh querida, a invocação do alheio que não somos nós, uma forma de a mim e de ti fugirmos? Sim querido, que eu quero saber de mim como sabendo de ti, vou deixar a paisagem no sítio dela, lá fora. Sim querida que a tua paisagem é para mim única, não é outra, seria cego se visse em ti a paisagem alheia mesmo quando crês ser-te igual, e depois querida, estás em local e situação de privilégio para chegar às tuas próprias conclusões, não é, estás aqui intima de mim. Foca a tua própria lente que não necessitas de armações alheias, cegas colectivamente num aparente mesmo sentir. Oh querido que são muitos os que estão fora e torna-se cada vez mais difícil saber de mim própria, afirmar aquilo que sou e que sei, ponho-me a perguntar às vezes se a louca serei eu. Não querida, que não estás louca, estás só a ser aquilo que és, mas não te confundas com os números alheios, porque se não perdes-te de ti mesma e eu perco-te a ti, já não sei mais quem és. Já viste quanto mais fácil e tentador, parece ser acreditar numa qualquer maioria qualificada em vez de te acreditares sozinha. Sim querido, vou tentar só, auscultar o meu único coração.

segunda-feira, novembro 24, 2003

Um homem que caminha sozinho de preferência ao sábado a noite pela madrugada da cidade, isto é não acompanhado por uma mulher é homossexual.

Uma mulher que caminha sozinha sem preferência de qualquer dia da semana é uma prostituta.

Oh amiguinhos, então não sabem que esse filme não existe mais e até o próprio cinema que o passava já fechou. Vejam lá com atenção o prazo de validade dos vossos bilhetinhos. E já me estou a rir do que a banana, perdão banner me vai trazer.
Claro está, aparece-me de seguida o detective do telefone espião, Mário Costa da Amadora, o que não sabe da coisa Amada.
Gosto, gosto muito destes algoritmos netianos a tudo tentar relacionar, como a vida e os seus ritmos. Escrevo a palavra deitar e lá em cima aparece 2000 hotéis de Portugal, páginas Amarelas, onde é mais fácil deitar, perdão, procurar. Depois a seu lado, Cascais, oito hotéis com reserva em linha, muito fácil, hotéis confortáveis, como sempre o deitar deve ser e económicos, como quando me deito contigo à borla. Belo país, de tanto deitar e fico a pensar como vou brincar no algoritmo do riso de mim e de ti. Reservei a linha inteira de Cascais e com ele, nela me vou deitar, cada quarto um conforto sempre em linha, como o meu vigésimo primeiro dedo se transforma.
A irmã dictómica é amiga do paradoxo, ou não?

Sim querida. Eu sei que em mim buscas a segurança, sim eu sei querida que em mim buscas a liberdade, sim querida eu sei que de mim buscas a liberdade, como pode ser, querida? Serão ambas irmãs ou inimigos profundos? Sim querido, que liberdade parece não rimar com segurança. Parece coisa disjuntiva, mas se em vez do ou colocares o e talvez tudo se resolva, não te parece? Sim querida liberdade com segurança, ou segurança livre, como casa bem o casar em vez do afastar. Sim querido que podemos inventar entre nós as duas como irmãs gémeas. sim querida, não deitemos uma fora pela janela, façamo-lhes um mesmo ninho para ambas deitar.
Oh deixa-me ser
Nem que por breve instante
A imagem de fora
De tua janela
Deixa-me ser
A breve nuvem
Que revela
A lua que ao cão
Uiva
No breve instante
Feito ternura
Por cima do Azul, Minha Senhora, em Círculo Doirado, na mesa ao lado a Senhora a fazer-me metáforas de mim e eu como que a almoçar-me.
O Amor é como nota endossada de elevados juros para quem em sua casa a recebe, e quem a tem, é o mais rico de todos. Mesmo quando o banco é falso e o ladrão a tenta roubar. Porque de tanto valor seu câmbio, não há mão que a leve, não há ladrão que a roube, nem o banco está, nunca fechado.
Oh meus queridos parvalhões, com a vossa ressaca de homens, na noite junta em magotes solitários, aspirando mulheres, que não vêem. No instante do primeiro a passar, é rabeta, aquele que ali vai a andar, dispara a dôr colectiva na espera de um pretexto que eu te não vou enterrar. Grandes homens, juntos como juncos secos, a murchar, belos a fenecer, que não há mais fazer, sempre aos molhos, sem fé em Deus, como dedos da mão que nada agarra, mas grandes nessa desunião, como grande ilusão.
Vagueava como um cão pelas alamedas da noite
Alçando a perna aqui e acolá
É como Sombra a passar
É um Amor de Dar
Cão batido
Por ele próprio
Escorraçado
Ao Sol

E Ele a Ladrar
Ao Vento
Do seu Pesar
Morde a própria perna
Ao Saltar

Já nada sabe de Si
Nem pernas têm
O Cão maneta
Cego à presença
Da mais bela Flor

Vive debaixo
Da cama alheia
Enroscado
A fugir do Pontapé

Até a Pulga
De Si foi passear
Aos saltos por aí
Pois seu sangue
Frio
Água Quente
Se Tornou
Sopra Vento em Flôr
Trás-me Novas do Meu Amor

domingo, novembro 23, 2003

Pã, filho de Hermes
Alado
Que tua flauta mágica
Tudo O Novo Encante
Como Encanta
Tua Canção

Que Homem e Deus
Se reúna de novo Num
Que a terra e o céu
Seja de novo Um

Já a Ninfa Pinheiro
Ressuscitou
O Eco assim o cantou

Sete são as
Notas do Universo
Com Cera do
Novo Tempo
Unidas Pela tua mão

sábado, novembro 22, 2003

Isso, sim isso, deixa o pensamento no estendal do Tejo, retira do corpo só o sentir, que os pensamentos são produtos de imaginações amargas, como fiel de balança desequilibrada, de feitor mal feitante. Que tudo isto é o mesmo redondo, sim eu sei que tu sabes que eu sei, sim que eu sei que tu sabes que eu o sei. Não há nódoa, não há pano, só Tecelão a tele – ser, como Amor sob Vontade, que as tágides me disseram que devem andar sempre juntos como cabelos de uma mesma Trança.
Lá vai o louco, dizem ao passar
Lá vai o louco a sofrer

Eu sei porque
Então diz, oh dó
Como quem canta o lá
Reza que ele a amava tanto
Que mesmo quando ela
Outro amava
Que não a amava
Por ela sofria
De a ver infeliz
No seu desamor
Era mais a dor
Que por ela sentia
Que a sua própria dor

Lá vai o louco a passar
Lá vai o louco a sofrer
Ouve-se ao seu passar
Morte
Vai a correr pela calçada
Vento sul de levante
A tudo ensandecer
Vai descalça e não segura
Formosa
Dar de beber a quem tem sede
Cara Serpente
Enrola em meu corpo
De sangue quente
Mata-me de Mim
Por de cima do ouro
Salvo o seja
Vade retro

Mário Costa
Detective da Amadora
Investiga
Infidelidades
Alheias
Que é muito feliz em família
Diz
Agradecendo à sua Mulher
Fiel

A relacionar o que não tem relação
Deve ser
Palavra Amor
Palavra Paixão
Palavra Outro
Verbo Namorar
Que o faz Aparecer
Como algoritmo da vida
Será?
Que eu só conheço
Da infidelidade
Uma tradução
Engano de mim mesmo
recomeça
como quem
nunca acabou
a chuva
a cidade
a namorar
e as mágoas
a lavar
e o Rio
a engrossar
Não sei nada
E tudo penso
O tempo a não passar
Nem eu a alegrar
E depois
Sempre as mesmas tretas
As mesmas projecções
As mesmas ilusões
Sobre os Outros
Como teia de aranha
Na mosca a tecer

A tentar prender
Aquilo que não se
Pode prender
Outro alguém
Como se eu fosse
Dono de ti
Eu que nem de mim
O sei ser

Riam-se sabichões
Até ao dia
O vaso desconhecido
Vos caia em cima
Da cabeça
A passar

Esperança de Amor
Estás a brincar
Qual amor
Sentimentalismo
De pinga amor

Necessidade de companhia
Por não saber estar só
Mas relativa
Que amanhã está a ressonar
É feio, sem interesse
E cheira mal da boca
Não dá mais
Para beijar

O quando o desejo
Contudo
Está lá
É para apagar
Súbito
Tem que ser
Já conhece
O pescador
A rede do Apanhar
E o sinal do Mar

Não poderemos só falar
Não poderemos só estar
Iguais ao que somos
Não poderemos só brincar
Que a brincadeira é sempre séria
E se não é de brincadeira que se trata
Porque ela é séria
Então é mesmo a brincar
Como o aldrabar
Que adultos fazem

Eu calculo que tu não calculas
Eu obtuso
Creio que tu não tusas
Esdrúxulo de mim?
Não pode ser
Redondo como a laranja
Do bom trincar
Isso sim
É que é brincar

Como dizer entendermo-nos
É necessário algum tipo de contrato
Clausulas de exclusão
A excluir
A possibilidade de Integração
Como ilha impossível
No mar do imenso mundo
E desculpem
Qualquer coisinha
Que não quero ser
Boazinha
blá, blá, blá,
Vá lá?

Até o dia
Em que te encontrar
Lado a lado
Como família
Debaixo da terra
Dentro do cemitério
A ficar
Blá, blá, blá?





sexta-feira, novembro 21, 2003

Ontem o bando de pardais voou
Por de cima da Estrela de cinco pontas
E os Homens assustados
Fez fugir

Pequenos e leves pardais
Um breve bater de asas
A relembrar ao voar
Que basta pouco
Para assustar

Até dos pássaros
Já temos medo
Até o pardal
Já parece o inimigo
E nós pequeninos
E assutadiços
Como eles
A ficar
Oh meu Deus para que nos deste Olhos?
Se as bombas são cegas
Não vêem onde caem
Caem simplesmente
Simplesmente
Arrebentam quem vai a passar
Arrebentar é sua função
Ceifam vidas
Não fazem o Pão

Oh meu Deus para que nos destes os ouvidos?
As bombas não têm telemóveis
Para nos avisarem
Foge
Chega para lá
Que não tens nada com isto

Oh meu Deus para que nos destes pernas?
Se a bala é mais rápida que o andar

Oh meu Deus porque me deste as mãos?
Se elas não servem para te desviar
Não existem guerras convencionais
Existem guerras totais
Não existem guerras limpas
Guerreiros a guerrear
Tudo o sangue
A sujar

Nunca as guerras se restringiram aos que guerreiam
E aos espaços do seu guerrear
Mesmo quando todo o seu espaço
Se definia num só olhar
Limite antigo
Do campo de batalha
De outrora
Nos campos de lavrar

Já nesse tempo
As Mães e Pais ausentes
Choravam os corpos
Que partiam a guerrear

Depois do último estampido
No meio dos fundos gritos
Daqueles que agonizam
Percorriam os campos
Revolvendo Restos de corpos
A Encontrar
Os Rostos Queridos
Dos filhos partidos
Para enterrar.

Já não são
Os cavaleiros
E suas espadas
O limite do sangue
Circunscrito
Ao alcance
De seus braços
A voltear

Gume a cortar
A respingar
Ao lado
Como as bombas
Na cidade a arrebentar
Sempre

Cegas as guerras
Ao perímetro da guerra
Que de repente
Em todo o lado está
As bombas a tombar
Dos céus sobre
As cidades
Do chão das cidades
A todos
Os que se pensam
Incautos
Apanhar
No balcão a meu lado
A velha Senhora
De cabelos de prata como o luar

Velha Senhora
De Bengala parada
Ferida na perna
Do seu Andar
A perguntar

Tem água da serra do cão
Não, não tenho não
Tenho de Cara de Muro
Que não consigo saltar

Pequenos círculos doirados
Sobre o balcão a depositar
Lentas como estranhas
Ao seu novo contar

Depois em mim
Parou o seu Olhar
Manso
E devagar
A falar

A gente tem que se divertir com
Alguma coisa
Não é?

Corpo Antigo
Ferido e gasto
Com Alma Sábia
A Contar
Que tristeza conhecida é esta
Que me vela o olhar
Que desce sobre mim
Imensa como eterna
Queixa de tudo
O que sofre neste mundo
Uma imensa compaixão
Um imenso sentir
O olho a marear
Neste imenso Mar
De dor
A dar
Quieta
A tudo inundar


Que leveza é esta
Que pluma
O corpo a andar
Então Se torna

Como um outro andar
Um Imenso Fluir
A Tudo Integrar
Um querer Ajudar

quinta-feira, novembro 20, 2003

Isto é a sério, é verdadeiramente a doer e calhará mais tarde ou mais cedo a cada um. Muita Atenção que isto é a sério e não haverá nenhum sistema de segurança, nenhum exército, nenhuma polícia, nenhum sistema de informação, que possa não deixar que a matança aconteça, seja ela pela forma de uma bomba um de um vírus, como aliás tem sido inequivocamente demonstrado, pois todos os países as têm e sempre continua a acontecer e a crescer. Violência respondida com violência trás e trará sempre mais violência. Não se pode pensar que se pode contê-la dessa maneira, tal Hidra que por cada cabeça cortada, faz nascer duas novas.
A única forma de acabar este carrossel macabro, que repito mais tarde ou mais cedo se abaterá sobre todos, que é o mesmo que dizer cada um, é abandonar as armas como resposta e ir à fala. É preciso ter a coragem de o Fazer, uma Coragem que é muito maior que a coragem da resposta à bomba ou ao tiro. Que se juntem as vontades dos homens necessárias, que é como quem diz suficientes, para ir falar com aqueles que vemos e que nos vê como inimigo. Falar e Acordar, resolver todas as pedras do sapato e então fundar o Tempo de PAZ.
Já me entrou a morte dos corpos pelos olhos e pelas mãos dentro diversas vezes, que é como quem diz demasiadas. As suaves e as violentas, as por Amor e as Cobardes e a carne viva ao céu de uma perna decepada pelo joelho ou por onde for, é sempre a mesma, um cheiro a queimar, e ela, a carne vermelha, aos borbotões, como que a querer saltar por todos os lados de dentro do Corpo, um silêncio que revela a partida súbita do espírito e a imensa dor, um incrédulo ver. O radical desperdício, Nada o justifica, é só dor, é só dor.
O sangue a correr, a correr, afluentes de um mesmo imenso rio, como as veias do meu corpo, a correr pela mesma casa, um rio Imenso, Triste, Vermelho a tudo e todos manchar .

Esta casa é a mesma casa, não existem quartos pendurados, contínuos ao redondo da Terra, assim o disseram os Argonautas, aqueles que do Céu viram o Templo e se assim é, aqui será o local e o tempo de todos. Temos que caber Todos cá dentro, sem exclusão, sem ninguém a empurrar um outro para fora.
E sempre a mesma pergunta a ressoar, Aquela que sempre me visita, Se o Amor é o Motor, porque não é ele a Lei? Que é como quem diz, porque não é o Amor Eterno e Imutável a guiar Constante como Eterno, os meus passos e os passos de meus Irmãos. Abro a TV, como janela para o Mundo, e vejo o sangue a correr, noutras partes do Mundo, que é o mesmo mundo, a mesma minha Casa, que é só outra tradução do mesmo Templo comum, o mesmo sangue no mesmo corpo que é o meu também. Que importa se falas chinês, se tem olhos amendoais, a dor é a mesma, uma só, e vejo o Irmão do Amor, O medo a ser, estampado com brutal estampido em todas as caras do mesmo rosto. O medo que se funda no mesmo desespero, daqueles irmãos a quem nós fazemos sentir, perdido por cem, perdido por mil e a actuar em conformidade com tal estado de espírito, porque o eixo do mal, não é coisa externa, atributo alheio, dos outros, que afinal não são Outro mas sim o Mesmo.
Oh meu Deus, como tudo está ligado, como tudo remete para tudo, mesmo as coisas mais aparentemente banais, um Eterno diálogo a entrar-me por todos os poros, todo os buracos do meu corpo, um mesmo corpo de todos os corpos, o mesmo único corpo. Penso, sinto, e todo isto simetricamente se repercute nos outros, que eu penso não saber quem são, que sentam na mesa do lado, as sua conversas, são de repente a minha conversa interior, os meus mais secretos pensamentos, ali a desfilaram nas bocas aparentemente alheias, e eu sempre a espantar-me, Um Enorme Espanto, Um Belo espanto que me ocorre a todas as vezes como se fosse a primeira. Um Eterno diálogo, sempre em Aberto, a correr, simetria da mesma Alma do Mundo.
Curvo-me perante a Tua consciência, Entrego-me a Ti, Quero a Tua Vontade como Minha e peço-te para quu Me guies os meus Passos, me faças de Ti o Teu sapato.
Estou farto, estou farto, de um país do tamanho do Mundo, igual ao mundo, onde os filhos da pauta, nem coragem têm para sê-lo. Pela sombra enterram os punhais pelas costas. Estou farto de perdoar-lhes e se eu não sou Deus vou mesmo deixar este assunto do perdão definitivamente nas suas mãos.

Estou farto de ser Bom, vou soltar todo o meu Ódio.

Quem são os filhos da pauta, que numa noite de 1988, bêbedos que nem cacho, como eu alias nessa noite, mas não tão bêbedo assim para não saber que era verdadeiro o que diziam, me disseram a passar, tu estás fodido enquanto nós existirmos. Quem são Vós, oh cobardes de m…. Pois eu hei-de morrer depois de vós, e antes hão de pagá-las todas, a todos os que fizeram o mesmo.

País de brincar, meninos de brincar aos segredos de meia tigela, como se soubessem alguma coisa à séria. 43 Anos de existência para perceber isto, vão todos bugiar, pentear macacos e assumam-se, venham cá que eu vos recebo de braços abertos.

Querem que eu fale mal, pois eu também o sei fazer, até gosto da veia vernácula de tradição portuguesa, tão emocional como eu estou agora. Que m… é esta das listas negras. Então isto é uma democracia ou não, porque se o não for, digam-no para as coisas ficarem mais claras no domínio da luta pela liberdade de expressão.

Socialistas da xuxa amarela, como o picapau a xuxar nos bolsos de todos.

Sabem como os Senhores falavam e geriam o dinheiro?

Não, pois eu digo-vos. Exemplo em primeiríssima mão, a TDT (televisão digital terrestre) custa quanto, perguntava eu, como se vai pagar o investimento? Qualquer coisa entre 100 a 120 milhões de contos na altura. Como? Dizia eu, 100 ou 120, a alucinar como se mais ou menos 20 milhões fossem não escudos mas amendoins. E então com certeza que os senhores fizeram um estudo económico, sim, sim, e eu a pedir, e seis meses depois, tive que chegar à conclusão que não havia, o estudo.

Agora multipliquem isto por todos os sectores e projectos e é fácil perceber o estado das finanças em que deixaram o país.

Arrogantes, como um dos ministros do reino de brincar, a dizer no final de uma reunião onde ouvirá a verdade, que era coisa muito simples que se tratava, já quase seis anos e as coisas na mesma, e que como um pai zangado, a dizer-me com cara de quem parece que me quer comer, ah, não pode falar assim, não pode… Esquizofrénicos. Ainda não perceberam que a transparência é um processo em curso, que as revoluções da tecnologia, os medias, os vão curar definitivamente da esquizofrenia, não vão poder deixar dizer em casa uma coisa e outra na rua, ou ao telefone, ou dizer uma e fazer a outra, que é a mesma coisa esquizofrénica. Se eu fosse a vocês, e felizmente não sou, ia para o sanatório, a banhos a ver se descobria quem sou, ou então afogava-me à espera que uma ponte me caísse em cima

Explica para mim ex-ministro de cultura, como é que no mesmo concurso ao ICAM a mesma empresa em dois projectos distintos num critério de avaliação imutável, no contexto, o seu curriculum, pode ter duas classificações distintas? Dá mais jeito nas contas finais.

Sempre para os amigos, os amiguinhos e os priminhos dos amiguinhos, o pega lá que és dos nossos. Valores de esquerda?

Querem que eu fale mal, pois eu também o sei fazer, até gosto da veia vernácula de tradição portuguesa, tão emocional como eu estou agora. Que merda é esta das listas negras. Então isto é uma democracia ou não, porque se o não for, digam-no para as coisas ficarem mais claras no domínio da luta pela liberdade de expressão

A tal chamada esquerda, eles que nem sabem qual é a sua mão esquerda, e de virilidade tem aquela de quem se mete connosco leva.

Pois leva, e o pior é que me lixam a mim e a tantos outros profissionalmente há anos, suas b…pela cor dos meus olhos, não gostam, pois fiquem cegos neste momento.

Só compadrios. Manigâncias? Cada um fala do que sabe nos termos que sabe e que lhe são familiares como linguagem, pela boca morre o peixe, que não sou eu, são vocês.

Olhe Senhor Doutor, contrito como sempre ao falar, até se vê a raiva a ferver, uma sempre enorme pedra na mão, quase a saltar, pelo menos aprenda alguma coisa quando lida com a imagem, sabe, cada segundo de vídeo tem 25 frames, 25 frames que são como 25 fotografias, da sua cara e da sua alma, se é que acredita que a tem.

Se eu fosse filho de Almada rematava a minha cena de ódio dizendo, coragem, já têm todos os defeitos, só vos faz falta as qualidades, mas entretanto vão viver para as Berlengas.

Agora passem-me para o primeiro lugar da vossa lista negra ou contratem um mafioso de leste que aqui na rua onde vivo, diz-se que por meia dúzia de euros matam qualquer um desde que seja pequenino, ou então sejam homems e peçam desculpa e emendem-se.

Andaram os vossos antepassados a lutar contra o fascismo para que. Até devem dar voltas nas campas.

Se alguém souber quem são, por favor que me diga e será bem vindos à lista dos Brancos, porque nós também temos uma.

E agora vou plantar couves, porque trabalho não tenho e cada vez que abro a boca fica ainda pior.

Eu sei que no futuro, ninguém se recordará mais de vocês, como sei que Portugal reconhece os seus valores postumamente, mortos, quando já não incomodam, pensam vocês.

Aqui fica o resto da profecia que já fiz mas que na altura só revelei metade, 12 anos ficará Durão Barroso a governar.
tu só estiveste a julgar os outros, e eu incrédulo, sem querer acreditar no que me dizias e a pensar para mim mesmo se efectivamente estivera a julgar os outros. Olha que não sei, pelo menos não é essa a minha intenção, é mesmo das coisas que eu acho de evitar pela sua enorme complexidade e incógnitas associadas, aliada à percepção de um sentir, que é, quem sou eu para julgar outro igual. Bem sei que isto depende da percepção que cada um tem da vida, se se vê ou não vê, as ligações entre todas as coisas, se se sente ou não, a presença de Algo que nos transcende, porque se não o vê, a sua inclinação será para a justiça humana, mas se o vê, que é outra forma de dizer, o vive, então rapidamente se dá conta que são múltiplos e infinitos os sistemas regulatórios a operarem em níveis distintos, sempre a Agir, se vemos por detrás da persona, qual máscara tranquila de uma falsa tranquilidade, mas que sei eu, dos seus pesadelos quando à noite se deita, ou do mal estar no seu levantar? e assim fiquei a pensar naquilo que vos disse.

Contara-vos os factos que presenciei directamente com aqueles que até há pouco nos governaram e das questões pragmáticas das coisas terrenas, como a gestão do dinheiro comum, e das consequências que a meu ver tal teria tido nos dias de hoje. Tudo entroncara mais uma vez na velha questão do investimento imprescíndivel para o desenvolvimento e que desenvolvimento poderá haver, quando as casas ou a Casa gastam mais do que tem? Desenvolvimento implica dinheiro para investir e se ele não existe, não é possivel o desenvolvimento.

Pois estas questões caminham sempre para a consciência do julgamento e das responsabilidades. De qualquer forma em termos da mecânica terrestre e da justiça entre os homens, não temos nenhum código que enquadre responsabilidades individuais ou de um partido em questões cuja complexidade e relações causa efeito, serão sempre os argumentos para o seu não apuramento, ou por outras palavras, não se condena numa qualquer moldura, tipo se o partido for responsável pela má condução dos dinheiros públicos, não fica por exemplo impedido de concorrer nas próximas eleições, pois não. O sistema não julga, não prova que uma determinada herança deficitária possa ser atribuido a fulano ou beltrano, não esqueçendo contudo que estas realidades determinam o dinheiro ou a falta dele em todos os bolsos por períodos longos no tempo. Estranha esquizofrenia da realidade, pois se um de nós individualmente ficar a dever dinheiro, pode nalguns casos ser preso.

Prova tem a ver com julgamento, e que julgamento posso eu fazer que é outra forma de dizer que julgamento posso eu fazer por mim próprio e para mim próprio, por aquilo que sei em primeira visão ou mão? Só que aqueles não servem para a função e actuar em função desta contestação. Mais nada mesmo, ou se quiser perspectivar no tempo de forma mais correcta, direi, eles, naquele momento das suas vidas, embebidos na sua cultura ideológica, não se encontravam preparados e quem sabe se a vida os ensinar e eles aprenderem.

Não se trata de provas e julgamento dos homens, que como eu eu são projectos em construção, em permanente construção, mesmo quando nos sentimos petrificados. Assim talvez o julgamento interior deva ser orientado para impossibilitar a repetição dos mesmos erros, ou seja, como prevenir que tal situação se repita independentemente de ser personificada por beltrano ou cicrano. E proceder de acordo com esta consciência torna-me assim como que dizer, co-responsável e se assim o é, deveria assumir a minha quota no melhorar das coisas.

Desde os vinte e cinco tostões da primeira semanada, mesmo antes da introdução da mesada e até hoje, a minha relação com o dinheiro foi variando ao longo do tempo. Comportamentos de excesso, erros de confiança, falta de rigor, ou falta de visão também já me aconteceram nestes domínios, por isso a minha compaixão, que quer só dizer, capacidade de sentir o outro, de percebê-lo, de saber quem é a cada momento e por isso aceitá-lo, é grande.

Não me parece que a minha intenção seja julgar beltrano ou cicrano, mas isto não invalida os factos que presenciei, é só uma questão de memória e rigor histórico, de partilhar contigo algo que se passou à minha frente e que é só uma outra face da mesma moeda comportamental que se expressava naquele infeliz e significativo modo de ser, de quem dizia, que quem se meter com o partido,leva.

O que eu penso necessário, é quase como separar os homens dos seus gestos, porque os homens mudam, mas os gestos tem uma tendência a manterem-se iguais no passado do tempo, aquele onde se funda o presente e o futuro. Pelo fruto conheço a árvore, que me parece ser outra forma de dizer que o fruto é distinto da árvore e que por isto, se pode avaliar por si próprio e ambos, a árvore como o fruto, estão e estarão sempre em mudança.

E depois é sempre tão fácil julgar outrém, basta para tal apontar o dedo e classificá-lo como qualquer coisa bizarra, como quem diz diferente.

Lembras-te dos homens que estavam à frente dos campos de concentração e das atrocidades que fizeram?
sim
e como pensas que eles seriam em família?
pais e maridos exemplares
pois, então como era isso possivel?

quarta-feira, novembro 19, 2003

Hoje neste belo dia de sol ao almoço, chegou-me ao ouvido na mesa ao lado a seguinte história.

Como se sabe qual é a nossa alma gémea
Hum, que pergunta difícil e fácil
Deixa pensar um bocadinho
Está bem
Olha, vês aquele relvado ali em frente, ao pé do Rio?
Sim
Então, vai até lá e caminhando sempre para a frente, nunca voltando atrás, apanha um caule belo, mas um só, e vem cá traze-lo, enquanto eu penso na resposta.
Alrigte
geste a minate ( praivete jooke)
Então, vens de mão a abanar, que é como quem diz, não trazes nenhum
Pois, a medida que ia avançando ia descobrindo alguns belos, mas sempre esperei encontrar outro ainda mais belo e assim quando cheguei ao fim do relvado não tinha nenhum.
É isso que acontece na vida real.

A relva são as pessoas bonitas
Os caules bonitos são as pessoas que te atraem
E o relvado é o tempo
Quando procurares a alma gémea, não compares e não esperes que exista uma melhor, pois se assim o fizeres desperdiçarás o tempo da tua vida, porque o tempo não volta atrás. O mesmo se aplica na procura do companheiro ideal, a carreira ou os negócios.
Ama, Agarra e mantêm a oportunidade que tens na mão, não desperdices o tempo.

Paguei o café, bebi a conta e atirei-me ao rio.
deixa deitar a cabeça
por cima do teu colo

deixa descansar
da longa viagem
entre teu peito

deixa a tristeza escoar
deixa a lágrima secar
deixa ser criança
outra vez
sem consciência
Do tédio
na ilusão branca
do tempo

deixa ai ficar
quieto
à espera de ver
nascer
primeiro as raízes
de seguida
folhas verdes
por fim
os pêssegos
Esquerda, Direita?

Deixem-me rir
A consciência espacial não se resume à esquerda e à direita
E então as outras direcções que estruturam, a dita!
A frente, ou atrás, o cimo ou o baixo, ou todas as diagonais infinitas e intermédias
Que interseccionam todos os planos?
Ou será que a esquerda pela lógica psicológica corresponde à consciência e a direita à inconsciência?
Não me parece ser disto que falam, quando falam de esquerda e direita.
O tempo dos falsos dualismos já acabou.
A realidade não é dual, é múltipla.
A realidade não discrimina, integra.
Mesmo que a operação para tal seja separar para melhor unir
Mas separar não é rotular
É só identificar as parecenças e as diferenças
Ver o uno e o múltiplo em todas as coisas.
Eu sou isto, aquilo, que às vezes é mesmo o seu contrário e ainda outra coisa qualquer ou se preferirem tudo o resto
Mesmo aquilo que não sei que sou.
Ou se quiser eu sou mesmo tudo
De esquerda, de direita, de trás, de frente, de cima de baixo e de sudoeste!
Heresias gritam eles, há toda uma grande diferença!
Qual, perguntamos?
Serve-nos de alguma coisa saber que fulano de tal é de esquerda ou direita?
Alguma garantia de quê?
Alguma Sanidade
Alguma serenidade
Alguma verdade
E embora deva existir alguém que se chame esquerda ou direita, como eu me chamo pim pam pum, não os conheço.
Falamos então de abstracções
Pequenas ideias mentais
Aproximativas ao real
Mas que não são o real
O real é excepção
E as excepções não são passíveis de serem abstractizadas.
Serve-nos de alguma coisa rotular?
Obtemos alguma mais valia de conhecimento com tal facto?
Obtemos algum saber com tal operação?
É a esquerda boazinha e a direita mazinha?
São os operários bonzinhos e os patrões mauzinhos?
Consciência é uma coisa que se casa com o espaço e tempo
Eles próprios mutáveis.
E a pessoa
Eu não sou bom nem mau, oscilo, assim escreveu um músico
E quem melhor de um músico para escrevê-lo
Pois não trata ele do tempo e do espaço?

O que importa mesmo
É ter o coração certeiro
O pensamento livre
Andar feliz
A fazer felizes
Como quem faz bebés
A leveza no pé
A cabeça no ar ao andar
O querer bem
O bem-fazer
O Gostar
A Alegria a Espalhar
E Ajudar
Hoje acordei louco. De repente estava num país que não era o meu, um país onde uma critica, um ponto de vista diferente, não correspondia a um gesto de utilidade e de ajuda, mas sim de despeito. Abri a boca e pum, lá fui parar a mais uma lista de inventados inimigos. Que burros, pensei e voltei para a cama dormir a ver se quando de novo acordar, já estou de volta ao meu país.
Telefonou-me o presidente do mundo. Disse-me, naquelas bandas do mundo há gente que não se entende, andam a matar-se uns aos outros. Pegue um jacto e vá lá resolver a questão. Está bem, convide-os para a mesma casa, eles que deixem os canivetes à porta e dê-me a chave.

Quando lá cheguei, um já tinha a orelha do outro na boca. Pedi ao que lhe mordeu, a camisa e improvisei um penso. Comecei por dizer que não sabia nada das causas das suas guerras, nem falava as suas línguas, portanto deveríamos tentar entendermo-nos como se crianças de quatro anos fossemos. Peguei na chave e frente a todos, engoli-a dizendo-lhes, a porta só se abre quando existir acordo. Quem quiser começar a expor as suas razões que o faça.

Começou um a dizer que os outros matavam indiscriminadamente os seus próprios filhos civis. Depois outro da parte oposta disse o mesmo, que eles matavam as suas crianças. Um outro disse que o local Santo estava em território alheio e que não os deixavam frequentá-lo. Outro acrescentou que não lhes davam espaço para viver, que lhes roubavam a terra, que não os deixavam trabalhar, que os outros eram ricos e eles pobres.

Para nós a terra é quadrada e o céu roxo. Outro respondia, a verdade é o céu ser vermelho e a terra triangular e aquilo era um emaranhado tão velho e tão grande, que às tantas parecia a história do ovo e da galinha. Quem começou primeiro, perguntei, mas ninguém mantinha a memória de tal facto. As mágoas acumuladas de parte a parte eram já uma dor imensa que tudo e todos cegava.

Estávamos há três dias naquilo quando decidi fechar hermeticamente as janelas e dizer-lhes que deveriam entender-se enquanto havia ar. Decidiram-se todos pelo sacrifício e preparavam-se para morrer lado a lado, que ironia. A solução não me agradava, pois se lá estavam os cabecilhas de cada um dos lados, outros haviam do lado de fora, e assim mesmo que estes decidissem morrer outros lá fora continuariam a dança macabra, ainda por cima com mais estes mártires do entendimento não alcançado.

Chamei os filhos e entes queridos deles para dentro de casa e disse-lhe que se não se entendiam, levava-os para sempre, iam viver num local distante e que nunca mais deles saberiam. Mais uma vez alguns disponham-se a sacrificar os seus próprios filhos para justificar a continuação da memória da matança.

Só me parecia haver uma solução, mandei reunir todas as crianças e troquei-os de pais e assim ninguém mais matou ninguém com receio de estar a matar o seu próprio filho.

terça-feira, novembro 18, 2003

O lobo mau e os três porquinhos, ou a ingenuidade, a tecnologia e a imaginação activa.

No tempo em que ainda não tinha sido inventado os circuitos electrónicos, vulgos chips, os rádios eram mais parecidos connosco e funcionavam a válvulas. Para quem não as conheceu, elas eram como lâmpadas que se conseguiam ver dentro por entre as frestas dos panos entrelaçados que revestiam as caixas. Eram mais próximos de nós, feitos à medida do que nós éramos, pois aquilo, as válvulas tinham primeiro que aquecer para começar a cantar tal e qual como a voz humana. Hoje estão para além de nós um bocadinho, liga-se e trás, sai logo música, como o puré instantâneo, sem qualquer necessidade de pré aquecimento.

Naquela festa de aniversário dos meninos pequeninos, às páginas tantas, às irmãs mais velhas do aniversariante puseram o vinyl dos três porquinhos e do lobo mau a rodar, uma versão brasileira, mista de narração e cantoria que começava assim, quem tem medo, quem tem medo do lobo mau, cantavam os porquinhos de mãos dadas a saltitar pela floresta a caminho da casa da avó, naquele velho truque de quem canta para espantar os seu próprios medos, que é como quem diz, falando deles e com eles, os transformamos.

Uma das irmãs chega-se a mim e diz, espreita lá para dentro que os vês a dançar em roda e eu assim fazendo, verdade verdadinha, é que os vi. Já os vistes? Perguntam elas a sorrir, eu a dizer que sim e elas a rir muito como bandeiras despegadas, e eu a ficar intrigado, pois provavelmente não saberia ainda das artes circenses da ilusão nem do poder da imaginação activa e activante, que todos possuímos mesmo quando não o sabemos. Saber não saberia, mas tal não queria dizer que o não vivesse.

Hoje, aparentemente um pouco mais crescido, quando me esqueço de mim, que é outra forma de dizer, quando me esqueço do que aprendi e lembro do que sei, as figurinhas, como gente pequenina continuam a visitar-me e a levar-me para os belos e mágicos territórios dos outros mundos que existem neste mundo e quando encontro um Irmão mais céptico, que se ri, já não me perturbo, quanto muito, fico um pouco triste por ele não ser capaz de vir brincar comigo na terra do nunca, aqui.
Naquele dia saímos para a rua a discutir e tu furiosa deste um pontapé num sinal de trânsito daqueles que indicam a proibição do sentido de circular. Instantâneo como o teu pontapé, Pum, caiu-te em cima da cabeça uma daquelas peças que terminam os varões que suportam os cortinados. Felizmente não te magoaste muito e eu que vinha atrás, atónito no meu próprio espanto perante aquela exemplificação que o Universo encenava para nós naquele preciso momento. Vá-se lá saber como o teu pontapé tinha escolhido aquele preciso sinal e não outro e mais estranho ainda, era o facto de tal objecto estar lá colocado a rematar o Poste do Sinal como uma invisível cortina do sentido correcto, como que à espera do teu pontapé para te cair em cima, a dizer-te pensava eu, que tu não, como a nossa zanga interior se repercute nas coisas exteriores, como vaso comunicante.


Ontem, como em alguns dias, o vento no interior de mim tudo revoltava, tipo conversa interior grrrrr com o mundo externo, como se tivesse a culpar o mundo exterior da minha própria insatisfação interior. Quando entrei sem acender a luz na casa habitual, que me abre as portas tantas e tantas vezes, e da qual eu conheço os volumes, como as linhas da palma da minha mão, Pum! Cabeça contra a porta que eu sei estar sempre entreaberta no seu eterno problema de verticalidade que a faz viver sempre numa obliqua entre o fechado e o aberto, que é como quem diz empenada. Um barulho imenso, a dizer-me do susto que ela levou, quando a minha cara lhe bateu. Na minha face direita, duas gotinhas de sangue, como sinais, para hoje recordar ao levantar que quando assim me sinto, devo andar muito rentinho ao chão e ter muito cuidado mesmo com o que penso.

segunda-feira, novembro 17, 2003

No deserto da existência
A areia escalda-nos os pés
Queríamos as Asas de Ícaro
Mas a Idade é como a gravidade
Gravemente nos prende

Resta-nos a Alegria
Essa imagem doce
Como que sobre exposta
Demasiada Luz
Que nos ofusca

Já andámos à beira mar
Já possuímos os oceanos
Já nos perdemos
Ousaremos Dizer?

Traímos as estrelas
Arquitectando Palavras
Como Castelos
Para melhor nos proteger?

Já não somos animais
Já esquecemos
A pele e os odores

Só nos resta morrer
De repente

Flores para a nossa campa
Nestes corações pequenos
Alegres
Na Esquina da felicidade

Por entre a luz trémula
Das velas
Descubro teu corpo
Centímetro a centímetro
Redondo

Já a Garça preta
Tinha outrora riscado o éter
Deixara na lembrança
Uma pequena semente vermelha
No cimo de nós

Quando A Mandrágora
Subiu pelos nossos pescoços
Cobrindo o Céu


Por entre a luz trémula
Das velas
Reparo
À ausência da tua Alma

Na impossibilidade
De os pássaros selvagens
Voarem nos teus lábios
O Sonho Comanda a Vida e Mundo É uma Bola Colorida nas Mãos de uma Criança , escreveu o Poeta António Gedeão, para nos convidar a todos a mergulhar nas memórias da Infância e relembrar que se comunica com os afectos, que é como quem diz, com eles que se aprende, que comunicar é sempre um acto pedagógico, que o étimo da palavra pedagogo, quer dizer aquele que connosco caminha, que o Saber é relembrar Aquilo que Está Dentro de Nós e que a atitude priveligiada do pedagogo eficaz é ser aquele que nos ajuda a Lembrarmo-nos do que já sabemos e que sempre Reside em Nós.

domingo, novembro 16, 2003

Como jornalista insistias no conceito da objectividade e eu a perguntar, qual objectividade e tu a responder, aquela que advém de não ser parcial face ao objecto da análise, e eu, o que é isso, e tu, não tomando partido por um dos lados da questão, e eu, como é isso possível, se é de interacção que sempre se trata, um processo em curso, no qual ambas as partes presentes se afectam, como quem diz se transformam, fruto dessa mesma interacção ou se preferires a física a dizer que o fenómeno é alterado pela observação do que observa, da mesma forma que o primeiro altera o segundo e que essa constante alteração provoca um continuum de alterações em todo o universo, que exagerado, dizes tu e eu, porquê, lá por não as ver, não quer dizer que assim não seja, quantas coisas existem sem eu saber delas, mas a mim parecem-me estar sempre todas ligadas, como o ricochete da bola nos mecos do bowling, ou quando jogo xadrez, antecipando as minhas três, quatro, cinco futuras jogadas, que já não são 3 nem quatro nem cinco, mas 6, 8 ou dez, pois implica também antecipar as tuas, sendo que umas condicionam as outras. E depois ao relatar não te podes apagar, acabas sempre por expressar um ponto de vista, a construção das coisas nunca é neutra nos seus sentidos, mesmo quando lhe falhamos a leitura ou sobre elas fazemos uma redução condicionada pelos nossos próprios limites de visão.
Não posso deixar, por questões que se prendem com os meus próprios passos profissionais ao longo destes últimos 22 anos e para quem se interessa por Serviço Público de Televisão deixar de referenciar um dos posts de hoje de Manuel Falcão, cuja visão subscrevo deixando os meus augúrios para que o cepticismo de João Botelho não se concretize. Pela primeira vez em muitos anos existe um projecto novo, que se traduzirá em meu entender em mudanças nos paradigmas como os conheciamos até hoje nestas matérias. E no meu entender bem assentes, que é o mesmo que dizer, bem pensadas.

sábado, novembro 15, 2003

Saudade, inversão espácio-temporal, coisa familiar de nós. Quando ando entretido a recordar o que já passou não estou, nem vivo no tempo presente pois nele apenas se projecta uma Sombra de mim, como um estar sem estar, como se ele, o tempo do momento presente tivesse deixado de existir.

Quando recordo o que passou e porque já passou estou então noutro tempo que não é o tempo do que passou. Ora assim sendo, se o tempo onde me encontro não é o tempo nem passado nem presente, em que tempo estou? Estou de repente no futuro que é uma só outra forma de dizer que assim crio o futuro. Parece ser a meu ver que assim se funda o acto de ver prospectivo, a visão da profecia, que permite ver os espaços do tempo que há de vir. Um ir para trás para ir para a frente, como uma inversão daquele velho lema dois passos à frente, um atrás(hihihi), se bem que basta um atrás para dois à frente, considerando o presente no meio.

Então, quando não vivo no tempo presente, o passado que já não é passado, mas sim o presente onde também não estou nesse momento e assim experimento o futuro, em que tempo existo?
Porventura terá sido para mim, Agostinho da Silva, quem nos últimos tempos terá traduzido em palavras acessíveis o que é o Espírito Santo, dizia ele, Espírito igual a Sopro, Santo igual a reconhecido. Como se vê, não é de questão esotérica que se trata. Sopro é vento, Sopro são palavras ou o conhecer sem elas, Sopro é a visão, Sopro é saber, Sopro faz mexer as coisas onde actua como vento nas folhas quando se expande no espaço. Santo como reconhecido quer dizer aquilo que se sabe igual, entendendo aqui igual, como a premissa do Saber, sou essa coisa, essa coisa sou eu, ou pondo a coisa em termos concretos, um homem para conhecer a pedra, terá que ter tido a capacidade de a experimentar sobre um ponto de vista “petromórfico”.

Espírito é o Irmão invisível que está em toda a parte, que desce sobre as vozes das pessoas, que alumia as ideias, que nos faz ouvir no sítio certo e na hora certa a coisa certa, sendo que o sítio e a hora são sempre certos, infinitamente presente.


Na Praça de Espanha, no carro, com o meu filho atrás, ao volante o Espírito Santo a conduzir. Dei pela sua descida, que é como quem diz, visita, como quase sempre dou. Um bom arrepio, os pêlos em pé, uma vaga de calor que invade o corpo, uma alteração na frequência emocional, como quando nos rimos, um sentido que se torna sentido, como se as coisas externas deixassem de ser externas tornando-se participadas em mim e por mim.

Quando ele desce nas tábuas mais rasas, aquelas que Dele são mais Irmãs, sinto-o às vezes, numa ligeira alteração do tom da fala do Outro, como que uma sequência alterada quase impossível de Palavras na boca e nos Gestos familiares, uma pequena dissonância em que Ele se Revela, e ele ai está, certeiro na sua sabedoria como sempre, como a peça que falta no puzzle, a resposta certa e certeira, na hora que então se torna ela própria, certa.
Às vezes vale a pena mentir, dizias, e eu a responder, não creio e a perguntar, às vezes quando? E tu a dizeres, quando dessa forma se evita a dor no outro, e eu, como sabemos o que é melhor para o outro, como fundar tal certeza, e se não o for, o mal que fazemos, como posso eu substituir-me a outro e a Deus, que direito me assite a mentir-te. Sim bem sei, que muitas vezes não sei, que me engano, que te engano, mas sempre a tentar não ser de propósito, fruto de uma intenção de ocultar ou mesmo mentir, porque se te o faço, tenho de o fazer a mim primeiro e depois se o fizer não sei mais de mim, não sei mais quem sou, se uma mentira, meia mentira, ou meia verdade e assim perco o meu coração. Prefiro a verdade mesmo que brutal como tu dizes que ela às vezes pode ser, porque brutal para mim, minha querida, é não saber mais quem sou emaranhado numa qualquer não realidade, uma coisa assim e assado, zona de sombra na qual embaciado me espelho. Mentir-te é mentir a mim mesmo, coisa que não gosto de me fazer.
Sou como a sombra que caminha à minha frente
Um farrapo a andar
Uma ténue lembrança
A recordar
Um eterno apagar
Um Fogo-fátuo
Que queima sem queimar
Uma Quimera a passar

Oh meu Amor
Diz-me aquilo que não sei de mim
Oh meu Amor
Diz-me aquilo que eu
Ainda não sei Querer de Mim

Ao descer a calçada
Húmida pelo
Amor da Chuva
Depois de Ele se ter esquecido de Mim
Os meus pés iam pensando

Mentira

Não se esqueceu de mim
Esteve em todos os rostos
Em todas as falas
Que cruzaram
Meus Olhos
Em todos os Olhares Ouvidos
O Eterno Diálogo
Da Atenção Amorosa
Um Eterno Dizer
Um Súbito Contar
Um Persistente Entender

Oh como tudo isto é belo
Oh como é bom andar Alegre
Em seus braços
Uma Infinita Doçura
Clarividente
A Ousar
A Quimera
A Eterna
Aventura

No meio da noite
Poeta e seus Amigos
A Soprar
No meio da vida
Na Ilha Grande
Dos Amores
De Todo
O Sempre

Vejo-o de Espada
No tempo
Em que ela era
O acrescento do Braço
Como a unha
No fim
Do dedo
Anel
Anelar

Espada
Dos Corações Altivos
Num Encontro Cego
Ao Olhar
Como um vento
Um Sopro a Passar

quinta-feira, novembro 13, 2003

conversas sobre encantamentos 1


O desaparecimento da filha divina

Bela adormecida recebeu ao mesmo tempo todas as bênçãos e uma maldição. Um sono que se assemelha à morte, como Coré raptada por Plutão Deus da Morte, desaparecida deste mundo até ao novo despertar primaveril da natureza. Mito de Deméter, Figura dupla e variável, Deusa de fecundidade, que assiste ao parto, que vela o crescimento do grão de trigo e que no desaparecimento de Coré torna-se Deusa da vingança e da infelicidade. Divindades ambivalentes de acções ambivalentes nos seus processos de humanização tal qual nós, sempre em função da natureza da relação.

Vénus perseguindo sua filha Psique roída de ciúmes pela adoração dos mortais, que nela viram a encarnação da mãe, mais bela que a própria mãe. Agindo sob o impulso primário dos seus afectos e emoções, sem grande reflexão e criando assim uma grande desordem no mundo. Hera e os seus ciúmes de Zeus que a levava por vezes a castigar os filhos inocentes dos amores e as rivais. Faces da mesma Figura, a Grande Mãe, a Deusa Mãe antiga. Deusas são imagens de uma feminilidade absoluta e irreflectida que só segue as reacções emotivas elementares. Deusa Mãe misericordiosa, acolhendo em seu seio os infelizes e estropiados, os pobres de quem cuida e ama, como na representação medieval de algumas imagens da Virgem Maria em que o seu manto envolve e protege os necessitados. A Deusa Mãe, a grande prostituta que se entregava a qualquer homem desconhecido, fecunda e infinitamente generosa, caridosa sem restrições mas também capaz de um ciúme, orgulho e vingança sem limites.

Por ocasião do baptismo da bela criança, os seus pais dão uma grande festa de apresentação onde um terrível acontecimento terá lugar. Aqui a história varia consoante as versões. Convidam as Fadas Madrinhas, mas esquecem-se de uma, ou por que não têm pratos e talheres suficientes, ou porque se pensa que aquela que não se convida está morta ou encantada num alto andar de uma qualquer torre esquecida, ou ainda porque levava uma vida demasiado introvertida longe do mundo e da vista. Mas essa Fada acaba por aparecer e sentindo-se pessoalmente insultada e desprezada condena a menina a morrer quando chegar aos quinze anos. Uma outra versão chama a Fada Má de Miséria, divindade da pobreza, da miséria e doença que se abatem sobre as pessoas. Assim como fazer o Mal por fazer o Mal, só porque lhe deu na gana.

Deusa esquecida como mulher abandonada, como Ártemis, que ao ver Agamemnon decidido a partir da Tróia e a ver que o culto a si mesma iria ser abandonado pelos homens, furiosa, faz-lhe faltar o vento e exige-lhe o sacrifício da sua filha Ifigênia.

Felizmente uma outra Fada madrinha aparece e consegue reverter o terrível augúrio, transformando-o num longo sono do qual um beijo a despertará.

Na personagem da Fada Má personificam-se os sentimentos feridos da Deusa Mãe. Ela encarna o orgulho ferido e o rancor que leva à desgraça.

Mas porquê a Heroína é vítima de uma sorte tão terrível?

Uma versão diz que é simplesmente assim, como aquela onde a Fada Má se chama Miséria, outras que a Fada Deusa estava em cólera por ter sido esquecida. O problema é que a nossa cultura assenta numa ideia nuclear de um Deus bom e justo e se o Mal aparece somos levados a pensar que é por culpa nossa, seja do velho Adão, dos nossos pais ou por via dos nossos próprios recalcamentos. Muitas vezes poderemos dizer com razão que Deus é o culpado, coisa mais ou menos herética para a nossa tradição, embora o Deus do Antigo testamento, seja um Deus que pode ter um humor terrível que cai em cima da própria humanidade como um raio, ou então um Deus que deixa que o Diabo aja.

(resumo adaptado a partir do livro "O feminino nos contos de fadas" de Marie-Louise Von Franz. nota de 2 abril de 2004)
Moravas num segundo andar que nesse dia me parecera muito mais alto do que habitualmente. A fachada do prédio em obras tinha o habitual andaime. A luz na janela do teu quarto revelava-me a tua presença dentro da casa e assim decidi subir pelo andaime e bater-te à janela em vez da habitual porta. Ainda hoje, pelos vistos, me recordo da tua surpresa feliz estampada no rosto. Passado muito tempo numa roda de amigos contaste o episódio atribuindo-o a outro. Se calhar não me lembro disto, é só uma efabulação da memória sempre exímia na reconstrução do tempo. Seria um quarto andar?

quarta-feira, novembro 12, 2003

Os corações grandes e puros não jogam xadrez. São grandes do tamanho do universo e quando amam, o que sempre acontece, em expansão como o próprio universo.

Os corações grandes são como figos maduros para a gente feia que sobe às árvores e gosta de comer o alheio. A gente feia, dá a sua dentada e deixa a outra metade partida no ramo como que a cair, mas os corações que são grandes como o mundo não se importam, continuam a abrir as suas portas às escadas dos que sobem a arvore.

Os corações grandes são leves e mexem-se muito com os ventos em todas as direcções. Ao contrário da gente feia que tem de transportar consigo as escadas que atrasam o movimento do espaço e os prendem à gravidade. Assim se tornam cada vez mais pequeninos e murcham, envenenados nas suas próprias escolhas.

Os corações grandes e belos são visíveis às vezes, sobem no espaço sideral e passeiam no céu entre as nuvens, sem peso como plumas. Quando batem forte uu,uu,uu,uu, criam belas melodias capazes de transformar o mais feio em belo.
Na festa encontrastes-me e engraçaste comigo, pensava eu. Não queres vir lá casa no meio de sorrisos e mais sorrisos, via eu, e eu, que sim, vamos lá. Acordamos no dia seguinte como amigos que dormem na mesma cama sem se tocarem mais para além da inconsciência dos corpos que dormem. A campainha tocou e ele subiu. Recebeste-lo com um sorriso que me demonstrou a minha miopia anterior, o rapaz, jovem como eu, meio surpreendido e desejoso daquela mulher. Era um rapaz que eu tinha visto na festa e que agora percebia ter com ela algum envolvimento em curso. Disse-lhes adeus e sai para a rua a pensar naquela manobra de ciúme certeiro que ela lhe tinha feito expressamente e que terá tido a sua eficácia, será? Nunca tal me tinha acontecido, ser utilizado desta forma por uma menina e pensando para os meus botões que estranhas são por vezes as estratégias das pessoas e a imaginar o que lhe terás contado da nossa história de amor carnal ausente
Chegaste à minha cama como amiga dizendo vamos só dormir e quando eu lutava comigo mesmo para apagar o meu desejo, disseste-me, desistes já? E eu a perceber de repente que a não vontade tua que me expressaras era afinal a mesma vontade, só que posta ao contrário. Uma coisa muito pouco feminina, uma necessidade de ser conquistada, ou uma forma de aplacar um qualquer sentimento de culpa em face do acontecer. Sim querida, sim, eu conquisto-te se tu também me conquistares, pois a carne é só carne e nela não há nada a conquistar nem colonizador me sinto, talvez mais polinizador de quem põe o pólen. Oh minha amada, eu sou só um beija-flor, Oh meu querido, meu amado, que manejas o sexo como um beija-flor, que bom ser uma planta de mel e abrir-me.
hoje, estreio aqui ao escrever os meus primeiros óculos graduados. Parece que o Mundo ao perto foi limpo outra vez. Que bom!
hoje na casa dos óculos a alcântara dizia-me a Senhora, dia feio e triste, parece um dia de finados e eu a responder-lhe pois é, embora o dia de finados este ano tenha sido um dia de sol, a recordar-nos como era bom antes de se terem finado. Acrescentava o Senhor a seu lado, pois , a greve, que eu ainda não tinha dado conta, o meio do mês, o dinheiro a já faltar e eu a desejar melhores tempos, a Senhora a responder, Deus o oiça e eu silêncio nesta matéria, boa tarde e até à  próxima que fui bem atendido, com gentileza no trato e eficácia no bem servir.
Um dia de tempo silencioso como existem às vezes, onde todos nós parecemos andar devagar e a falar baixinho, a não querer pertubar as nuvens no Céu.
Oh, quando tudo e todos se juntam, mesmo diferentes. Aceitação, compreensão sem os pequenos jogos de poder. Egos pequeninos, controlados como devem sempre andar. Não o eu versus o tu, mas o eu mais tu e ainda o outro, ou mesmo tudo o resto. Não, o eu quero, inconciliável com o querer alheio. Só na constatação da diferença, a construção e encontro do igual possível. Nada a provar, só a prova do desejo de querer a um, dois ou três. Tudo dá então um pinote e a alegria sustenta o fazer.

domingo, novembro 09, 2003

Querida Neyza que me deixas recados do outro lado do Atlântico, aqui te saudo o regresso às artes de blogar nesse espaço que não é espaço pois é todo o espaço, está em todo o lado, é o próprio espaço. Clube das almas inquietas, a lembrar o dos poetas mortos, mas morta não estás tu, trús trús, vivinha da silva, bem sei que momentaneamente constipada, no encontro daqueles que querem algo mais do correr dos dias. Dizes-me que a minha contabilidade dos últimos posts è amarga embora por amor e talvez assim seja e avisas-me para não deixar que me roubem o humor, como se fosse possivel alguém roubar o humor a outro, somos nós próprios que às vezes o perdemos ou, é ele que nos perde?
Produtividade tem a ver com a capacidade de organizar o trabalho e isso pode-se aprender como tudo, especialmente se formos despertados para esta consciência.

Organizar é planear, e as ideias do planeamento são basicamente as mesmas, clareza na definição das intenções, dos porquês das coisas, dos objectivos, o que se quer alcançar, clareza na construção dos métodos de executar, como se faz e porque assim se faz e avaliação do impacto face aos resultados desejados.

Planeamento é Desejar, coisa boa, que os que para ele estão despertos e sabem do seu impacto nas coisas do Mundo.

Recordo-me há mais ou menos quinze anos atrás, quando comecei a trabalhar com outras pessoas, que falar de tarefas ou calendarização era como falar chinês. Grosso modo as pessoas não tinham ideia do que seria uma tarefa, quanto mais do que era o planear, para não falar num cronograma, pedras do caminho e por ai fora.

Nunca vi o trabalho como trabalho. Tudo isto se prende com a forma de ver aquilo que se faz ou não se faz. Sempre dei conta de mim a dizer ao outro que não trabalhava, utilizava mais a palavra criar e ficava a ver a leitura de pedantismo que o outro expressava, mesmo quando não o expressava, como quem diz, quem é este para se por de fora desta prisão que nos prende a todos, criar, como se ele criasse alguma coisa, como se fosse um demiurgo, esta era já também a minha dúvida.

Quase sempre soube o que me propunha fazer no plano da das coisas concretas, talvez por isso, nunca me pareceu o trabalho, uma prisão, um fardo que se tem de carregar. É uma questão de gostar do que se quer fazer e por isso desejar fazê-lo, mais uma Aventura, cheia de Surpresas pelo Caminho, Riquezas para Mim mesmo e para os Outros. E depois, não é bom andar entretido com aquilo de que se gosta?
Uma boa reunião portuguesa é aquela em que há tempo para relaxar, brincar, promover a troca dos afectos e das histórias pessoais, aquelas tão bem preparadas por todos, que de repente acabam sem dar mesmo a ideia de terem começado. Uma sensação de tempo bem aproveitado e quente de afectos, que mais se pode querer…

quarta-feira, novembro 05, 2003

Uma típica má reunião de trabalho à portuguesa.

Todos chegam atrasados. Ninguém sabe de antemão o que quer, ou seja ninguém a planeou consequência da falta de definição de ideias prévias. Fala-se de tudo menos do que se tem de fazer, pois não se conhecem os objectivos.

No cimo da mesa todos os egos andam à solta, cada uma tentar demonstrar o quão se julga mais importante do que o alheio.

Por baixo da mesa, cada um tenta impor o seu poder abstracto sobre os outros, sim eu sei, porque sou melhor que tu, ou então, não pode ser assim como tu dizes, pois eu que te sou superior, não posso deixar que tu o definas, pois se assim o definires, talvez amanhã sejas tu o meu superior.

Toda a gente sai sem saber exactamente o que irá fazer. Perderam-se trás a quatro horas de trabalho para os envolvidos, transportes e espera incluídos.

Portugal o país da Europa com mais reuniões por metro quadrado no tempo estupidamente desperdiçado e depois sempre a mesma queixa, Oh trabalha-se demais, ou isto de trabalhar dá muito trabalho, porque não se sabe como trabalhar e tudo isto tem a ver com a Educação e com os valores que cada um associa ao trabalhar.

terça-feira, novembro 04, 2003

Coisas da mecânica terrestre

Retratos de um Mundo perdido

… não tem cá ninguém que me atenda este problema técnico sobre um equipamento que aqui adquiri há menos de uma semana?
De momento não temos
De momento, como, minha Senhora, pois estão abertos e é nessa altura que devem dar a assistência. Está-me a dizer que uma cadeia desta dimensão, não tem um serviço de assistência técnica no local onde vende?
Sim temos, mas não está cá ninguém. Só temos dois colegas e os turnos isto e aquilo….Desculpe interrompê-la, minha Senhora, mas como deve calcular, o que me está a contar não é do meu interesse, eu não tenho nada que ver com tais assuntos que vos são internos, vim aqui para solicitar assistência, está-me a dizer que tenho que cá voltar amanhã? Sim.
Olhe é qual é o horário desse departamento?
Até às 7, mas são seis e meia!

Poderia ter chamado o gerente da loja, pedido explicações, mas decidi vir-me embora, pois teria que lá voltar à mesma no dia seguinte.

Produtividade, palavra que anda na boca de todo o mundo e ainda bem, tem a ver com estas questões, não só a produtividade como a rentabilidade que se obtém no bem servir os clientes.

Pois se pensar no tempo que perdi e vou perder a resolver uma questão que eu não criei, gasolina, parqueamentos e sobretudo as consequências e custos na produção actual por não solucionar o problema, ai tenho a noção exacta do tempo que não produzi e dos custos que tive de suportar, ironia da ironia, para não produzir.

Em Portugal sempre se gasta tempo demais a fazer as coisas, gasta-se muito tempo para fazer as coisas perdendo muito tempo produtivo em questões acessórias e sem qualquer valor produtivo. E quando se gasta tempo de mais, gasta-se também dinheiro de mais, coisa que não abunda nem parece que nasça nas arvores, pois não?
Oh, intimidade de saber-te a meu lado, doce aconchego, convite de brincadeira a electrizar-me o universo em expansão, doce aconchego no desvelo da atenção mútua, na partilha sem qualquer limite pré concebido, um deixar ir, um amigável fluir, uma bela companhia, um encontro, um querer feito de dois

E depois partir para o céu que esta terra é triste muitas vezes, pular do chão mesquinho, das coisas esdrúxulas, deixar para lá, fazer um novo universo de um novo verso.

Pois se hoje me desse para o raciocínio por antecipação, coisa que pode ser muito feia, como sabemos, antevia alguns a dizerem, escapista, alienado, então a querer o céu em vez de por os pés na terra ao lado dos seus irmãos. Não é essa a via do egoísmo, o safe-se quem poder, e então os outros.

Então não partiria contigo para um céu distante, porque o céu e Terra estão casados, a Terra espelha o céu, que está na Terra assim como a Terra no céu. Faremos aqui o Céu. Não pode ser de outra maneira, é preciso viver o céu na terra.

Hoje, misto de tristeza com revolta.

Tristeza em ver o tempo dos homens a passar, as grandes questões sem solução, um adiar das respostas, um começar devagar, como quem não quer começar e o tempo da Terra a passar.
Revolta da rasura dos dias brancos e lentos a passar, que não deixam sombras visíveis nas coisas permanentes e tudo isto não é mais que um estado de espírito, transmutável em outro qualquer mais agradável.
Quando faço as coisas, eles deixam de ser minhas nesse instante. Fazer, creio que é o mais próximo que um homem pode sentir de uma mulher a dar à luz. Enquanto se fazem vão crescendo, crescendo dentro de nós e nós a crescer por dentro delas. Depois a inevitável primeira separação, quando está feito, pronto a saltar cá para fora, surgem as dúvidas, será que está mesmo pronto, posso ainda fazer melhor, está compreensível, deixo-o ou não sair já. Súbito, mesmo quando lento, aquele momento, inevitável, em que sai mesmo, independentemente da nossa vontade, já Era e passa a Ser cá fora, que é como quem diz, tem o universo por sua casa. Ai começa uma infinita transformação, de tal forma que às vezes mais tarde ao cruzarmo-nos de novo, nem as reconhecemos, já elas e eu mesmo, somos distintos. Depois um sentimento de perda, um esvaziar, que nos faz dar conta de quanto estivemos ocupados, do tempo das coisas humanas que passou, um certo não saber de mim.

segunda-feira, novembro 03, 2003

Voltei, sem ter partido, estando este tempo todo no pc do lado a preparar um projecto que conclui na 6ª feira. Mais uma candidatura e sempre a mesma dúvida, valerá a pena? Vale sempre a pena quando a Alma não é pequena, respondo-me a mim mesmo. O problema é que havia um país onde as coisas não eram geralmente julgadas pelo seu mérito, mas mais pelas amizades e pelos interesses a que chamam de favores de Amizade, como se a Amizade pudesse ser interesseira, embora muitos assim se disfarcem. Comigo passam-se sempre coisas bizarras nos concursos, desde quase sempre, é um enorme rol que parece dizer-me pimpampum, vê lá se te chegas a um lado, se te pões debaixo de um certo chapéu, como que a tentar impor-me a impossibilidade de andar sozinho à chuva neste mundo. Era um país que habitava dentro de outro país onde se dizia à boca cheia e ao pontapé, que ele, o outro, sempre o outro, que é só o nosso igual, põe a fasquia do desejo e do pensamento demasiado alta. Como uma monumental feira das vaidades, um julgamento perpétuo das intenções alheias, um viver sem viver, pois quem assim se ocupa, não lhe resta tempo para viver a sua vida. Era um país do bota abaixo, tão baixo, que ficou mesmo sem bota, sem sapateiro e dinheiro para comprar uma nova. Era um país do nivelar por baixo, sempre por baixo, com medo das alturas e das recompensas celestiais, pai se subo muito alto até ao Sol o que acontece? Derrete-se a cera? não meu filho, depende da qualidade das abelhas, que é como quem diz das suas Obras.

Contudo fazer um projecto é como desenhar uma rota, inventar um caminho e depois é como sempre uma questão comigo mesmo, saber se o faço o melhor que sei, ou se vou por um atalho qualquer, ou se tento apagar ali um bocadinho onde não sei que devo apagar e coisas no género.

Estou contente!
Ah, como é bom sentir a inteligência do que se constrói. Como é bom fazer a Terra e o Ceú moverem-se a partir de um pequenino pontinho, as faíscas a saltar, os mecanismos a enredarem-se, como a visão se amplia, como ela sai de fora do tempo e do espaço.