sexta-feira, julho 25, 2003

Lua cheia de Julho

(Seria o teu nome ou o meu, ou de outro outrem?)

Chegaste-te a mim, irmão e proferiste o teu nome.
Eu sou o Hugo!
Tu és o Hugo, repeti-te aproximando-me da tua orelha, tentando sobrepor-me às conversas ruidosas é à música, a confirmar, porque algo não me tinha parecido ser o que ouvira dizer-te.
Não, eu sou o Hulk!!
Hulk?, demorei uns segundos a compreender que a realidade já não era a realidade, que as portas do mundus imaginalis se tinham franqueado,
Como de repente a encenação toda montada e os actores convocados à cena, como sempre então acontece.

Tudo se começara a encaixar retroactivamente ao instante do primeiro sentir.

Entraras, irmão negro, no meu campo de visão dançando em sensual simbiose com a música. Exalavas harmonia e sedução, aquela particular dos irmãos negros que sabem dançar.
Debruçando-me da mesa de espectador frontal de todo o universo, dissera-te que tal sensualidade requeria uma mulher.

Provavelmente não foi feliz com as palavras. Provavelmente deveria ter ficado no meu canto a interagir silenciosamente, mas naquela noite apetecia-me naco, Carne, Espírito, Alma, Alegria e Amor. Apetecia-me trincar a própria vida.

Como sempre, quando muito um sentido se quer, manifestam-se os sentidos contrários com igual pujança à espera, ou melhor, dávida de integração possível.

Tudo se virou de pernas para o ar no exacto momento em que me disseste algo do género, eu tenho mulher e filhos que sustento, que de repente a tua masculinidade ferida exigira. Um imenso mal entendido emprenhou a violência que se repercutiu em toda a sala e arredores. Houve um salto no tempo e no espaço e o abismo abriu-se todo a meus pés. O malandro Hermes, fizera soar as pancadas de Moliére.

Eras como um Deus Apolíneo, pleno de força e zangado a reflectir a minha própria zanga interior, até então mantida no sonho de mim mesmo e que por ser assim esquecida, abrira agora ali o abismo todo.

Bailava-mos no espaço há um tempo, tentando eu integrar toda aquela violência, quando depois de ter percebido o nome com que te apresentaras, me disseste algo como, poderia pegar em ti e levar-te para longe daqui, ao mesmo tempo que me o mostravas torcendo o punho e o braço num gesto falsamente ameaçador, e eu sabendo que era verdade, aproximaras a tua face até eu antever a eternidade nos olhos escuros que entretanto se fixaram nos meus. No eterno poço fundo, acabara de ver a primeira pista sobre a natureza profunda da minha própria zanga.
Continuará?