quinta-feira, agosto 21, 2003



Flamingos

Chegaste de preto e rosa
Caminhavas no espaço
Numa pré direcção consciente
Que te colocava a meus olhos

As palmas das tuas mãos
Num gesto síncrono e seco
Como todos os gestos que prendem
Por duas vezes
Sacudiram o espaço preto
Dos teus quadris
De cima para baixo
Num gesto que me revelava as tuas nádegas
Que por serem pretas
Só adivinhar se podiam

O segundo gesto
Foi um clássico
As mesmas mãos síncronas
Afastam cachos de cabelo
Para trás das orelhas
Em sincronismo com o caule
Que era teu pescoço
Sarcoteante no instante

No terceiro
As mãos que já me eram familiares
Imaginariamente
Desataram os fios rosas
Que se cruzavam pelo teu ventre.

Infinitamente gracioso
Belo e perdulário

Depois, nada
Talvez o Flamingo tenha ficado à espera da caça
De ser caçado
Pelo caçador imaginado
Que eu não sou




E se eu tivesse hoje acordado amargo, escreveria não um poema, mas uma ficção sobre as linguagens não verbais. Poderia rezar assim:

Vi-te ao entrar e quero que me vejas. Movimento-me no espaço para que tal aconteça. No meu primeiro gesto de convite ofereço-te a energia do meu amplexo, sacudindo um pó imaginário ou esbatendo invisíveis vincos, ou melhor dizendo porque não me esbates tu os vincos, porque esta noite quero por ti alisar-me. No segundo gesto o Flamingo demonstra ser irmão dos cavalos, família dos animais. A ele pede emprestado o resfolgar sinónimo da energia ou da vontade energética e acrescenta-lhe a revelação das orelhas. Quero que me oiças, que é como quem diz repara em mim.
O terceiro gesto é a minha promessa, o derradeiro transitório convite, abro o meu corpo para ti. Mas eu juro nada disto vi.
Todas as coisas são emoções a todo o momento
As emoções são como conversas constantes sem palavras
É como o dito pelo não dito
Mesmo quando a coisa com que falamos não está presente no nosso espaço físico imediato. Este sublinhado subliminal de todas as coisas, actua na maior partes das vezes com mais consequência do que as palavras que entre nós trocamos. Por isso às vezes quando penso o que quero de ti e as palavras com que o vou exprimir, o resultado da acção sai-me pela culatra. Como foi tal possível? Queria o beijo e o resultado foi o afastar...
Há coisas visíveis
E há coisas invisíveis
Por não serem visíveis não quer dizer que não existam, pois não?
Como dizia o poeta a vida é a arte do encontro e o problema é que há tantos desencontros.
Sou todas as coisas
Todas as coisas habitam dentro de mim.
No espaço de mim e de ti
a emoção eruptiu
Quente, abrasadora
Deixei de saber quem sou

Zanga, luxúria, tédio
Devolveu-me o exterior
Subiu-me como bolhas
Borbulhantes às superfícies
Descobri o referente externo
E encontrei-me comigo mesmo
Já sabia
Distinguia

Eram íntimos e imediatos
Flutuavam por todos os sentidos
E eu abraçava-os a todos
O referente externo era então interno
Subjectivamente meu
E eu era o que sentia

Emoções que eram borboletas à superfície
Por cima do mar profundo
No fundo, na escola aquática os peixes movimentavam-se
E alguns deles atravessavam a superfície até meus olhos
Como um vento subtil sempre presente em todos as coisas
Uma tonalidade afectiva que sublinhava todos os objectos
No campo da minha atenção
Fico? Vou por ali?
O seu carácter mudava constantemente como gotas contra um espelho
Onde as coisas a que eu me atendia eram reveladas
E as outras ocultadas

Tudo o que distinguia estava interligado,
Num total que o penetrava e envolvia
Emoções e sentimentos eram a forma de vivenciar essa totalidade
A consciência era conduzida pela tonalidade afectiva dos objectos
O espaço era consciente pelo que sentia

Mudei de direcção
O objecto exterior não era mais exterior
Vivia, respirava através de mim, dentro de mim
Dissolvi-me e assim renasci

De repente era eu o mesmo que tu
Éramos consensualmente o mesmo
Os corações como o mesmo síncrono relógio
Já nada distinguia
Nada era necessário ser distinguido
Deixara de existir o interno e o externo
Ressoava-mos

O um mais um já era três
Simpatia, empatia, compaixão
Uma realidade interpessoal
Um jardim comum que connosco colaborava
Revelava que o todo é maior que a soma das partes
Um incondicional olhar de emoção do amor
Não era meu nem teu
Habitava no meio de nós, fora de nós
Como uma música improvisada
Numa pauta maior que nós
Uma rapsódica comunicação
Que trocava os nossos sentir
Ao trocar-me por ti
Ao trocares-te por mim
Lendo os corações e sabendo os pensamentos
Além de qualquer palavra
Um conhecer intuitivo, um sentir profundo
Vindo da fonte das emoções

Paixão
Epifania do tédio dos dias
No infinito das palavras
Beijo do espírito trocado entre Amigos
Sagrada emoção de duas almas num só corpo


(nota: Para que servem as emoções os sentimentos? Para estabelecer segurança. Reprimimos os encontros com aquelas e aqueles que nos desequilibram. Através deles estabelecemos valores para avaliar física ou mentalmente os objectos à nossa volta e para nos orientar-mos através deles em função do valor que para nós representam. Com eles organizamos as experiências, ou melhor dizendo são estas funções inatas que nos permitem organizar a experiência. Ainda com eles estabelecemos relações, através deles estabelecemos relacionamentos, sendo eles, “eixos” da organização social. Através deles experimentamos ontologicamente a unidade, usámos estas funções para de um modo directo e intimo vivenciar não só a inter-subjectividade mas a inter-conectividade de todas as coisas e é assim “fazemos” sentidos e motivações.
Onde estão as “escolas” e os programas que nos educam as emoções?)