sábado, agosto 23, 2003

Hoje ao sair de casa

Vi uma porteira a falar com um cão. O meu cão, ou melhor será dizer, eu do meu cão, que como bem me relembrava um amigo, não há cães sozinhos. E assim é, este cão, António, que tem o nome do meu amigo, escolheu-me, viu-me um dia na rua e segui-me, fez-me dele desse momento até hoje. Desconfio que a minha namorada lhe terá dito, ao cão, olha eu vou partir e quero deixá-lo mais amaciado para a próxima, deixo-te a ti como um filho para ele cuidar, pois já me aconteceram namoradas que ao partir fizeram estranhos balanços à educação que me deram. Curioso mesmo era ter sido ela a crismá-lo. António porquê? Perguntara-lhe eu, a ouvir como resposta é o nome do meu ex namorado, mas isto é tudo uma outra história. Dizia eu, ou melhor dizia a porteira ao António
Oh , oh, oh, captain, my captain
O que é isto aqui no chão
Que líquidos são estes, meu malandro.
Eu que vinha atrás, no passado desta relação com a porteira constante, fechei a porta do elevador com certo estrondo como quem dizia aos botões do meu elevador, lá vamos nós outra vez.
Era como uma leve humidade sem cor, dentro de um circulo perfeitinho, a parecer o prato do vaso que a seu lado se encontrava, mas como os meus olhos ao perto não são muito de fiar, o São Tomé de mim, o dedo lá pôs e cheirando deu ao nariz da Porteira o cheirar, não me parece que sejam os líquidos do António, pois a mim parece-me respondeu-me ao mesmo tempo que franzia a cara com nariz ao cheiro que não cheirava. Está muito bem, já vamos tratar disso e saímos para a rua.

(a realidade, amiguinhos é muito mais perversa que isto, asseguro-vos)

Hoje ao sair de casa

Nas Avenida Novas, no cruzamento de nossos passos, disparou, acelerado num qualquer crioulo mestiço que eu não percebi. Parei, aproximei-me da sua cara e olhos nos olhos disse-lhe mais devagar que não percebi nada. Das palavras não, mas a sua instantânea e genuína aflição me submergiu no instante o sentir. Ajude-me que eu preciso de comer e não tenho como, chorava de Verdade o meu irmão. Nas calças por altura da ponta do sexo uma mancha alastrara. Dei-lhe um euro e caminhamos cada um no seu sentido, e eu fiquei triste a pensar. Lembrei-me que durante muitos anos segui a consciência de que dar uma esmola, não resolvia o problema de quem a pedia, que o que era mesmo necessário era resolver a fundo o problema, ou o fundo do problema. Onde estaria a fundação do problema? Que ao dar a quem pede prolongamos a sua própria indigência e lembrei-me também que geralmente quem o dizia não dava esmolas. Não posso ter regras imutáveis. A vida com isso não se compadece. Em cada momento emerge um pressuposto de vontade diferente do momento seguinte e mesmo que a situação se repetisse inexoravelmente idêntica, coisa que não creio acontecer, nem nos deja vu, esse pressuposto de vontade ou a quadratura moral do momento, que é para mim outra forma de dizer o mesmo, seria sempre distinto. Bem sei que há quem peça até por preguiça, ou se quiserem, peça sem necessidade de pedir, como todos nós fazemos muitas vezes, mesmo que não sejam de esmolas o que se trata. Porém até um pedido de um beijo pode-se ser feito como quem pede e recebe uma esmola e não é agradável, pois não? É como algumas mulheres que depois da separação se deitam com os mesmos homens, sem desejo só para lhes aliviar a dor que neles sentem, como verdadeiras santas, também às vezes a aplacar os seus próprios sentimentos de culpa das suas partidas. Depois recordei-me de ontem à noite ter pago acessórias cervejas a quem não morria de sede, de ter oferecido cigarros a quem respira à tona das águas e mentalmente a fazer contas em euros, disse-me bolas! Tenho que ter mais atenção na forma como dou, pois não posso dar tudo a todos, se calhar deveria apontar no meu livro em permanente re-escrita uma qualquer regra de conduta que seria, se éramos dois, deveria ter – lhe dado metade do pouco dinheiro que transportava, pois essa metade do pouco de pouco me faria. Não sei ainda resolver a questão do fundo ou o fundo da questão, mas quando cumprimentei a Mãe, que está no alto à esquerda do templo perguntei-lhe, diz-me Senhora, se cada um ajudasse o que está ao lado, aquele que se cruza, não se resolveria toda a questão?

As Avenidas são novas mas a miséria material dos homens é velha como o mundo. Até quando?

Hoje ao sair de casa,

no correio novo das avenidas novas, um Senhor-bem-composto que na sua qualidade de sócio gerente queria levantar uma correspondência pressupostamente a ele endereçada dizia à menina que o atendia,
Mas eu tenho aqui o bilhete de identidade e assino a recepção
Não lha posso dar, só com uma certidão da conservatória de registo comercial,

(que é para quem não sabe o papel que diz quem é que representa uma sociedade comercial, quem tem poderes para tal e tais actos e que demora uns dias variáveis às vezes largos a obter acompanhado de umas esperas enormes)

A menina respondia, são as instruções que tenho
O Senhor-bem-composto argumentava com argúcia e delicadeza e consegui mesmo que a menina se levantasse para ir perguntar a outrem, tendo para isso dado três passos para trás e tornado a sentar-se Nesse momento o Senhor-bem-comportado desistiu e a falar já para si mesmo dizia aos seus botões a meus ouvidos, este país não tem conserto e ao caminhar isto dizendo, a sua cabeça baixou. Foi este o momento em que vi que não era retórica da zanga, mas sim a sua Verdadeira Verdade. Todo eu estremeci e os meus pelos puseram-se em pé. Esta sensação, este ouvir, tem-me batido à porta com a frequência que me leva a dizer ser esta uma das meta ideias do momento.
A menina, essa, trocou o olhar com a sua colega afivelando um sorriso como quem tinha ganho um jogo de ténis



Hoje ao sair de casa na segurança social do Areeiro, uma outra menina, sozinha em pé atrás de um balcão com olhos vivos e brilhantes de quem Gosta de Fazer Bem e Verdadeiramente Ajudar, despachava todo e todos.
Que Maravilha!!!


Hoje ao sair de casa como em muitos outros dias