terça-feira, agosto 26, 2003

Ontem de manhã ao sair de uma casa que era a minha sem o ser, abriu-se-me a porta para um jardim que era meu sem o ser
Uma luz límpida resplandecia todas as coisas
Um ar quente me acolhia
Sai para a rua no colo da paz
A mãe e filho a seu colo, com ele falava
Era a Voz da Mãe a condutora da alegria
E o filho os olhos grandes a arregalar
Como uma lengalenga
A encantar
Naquele silêncio belo e doce
Que o jardim do Mundo
Nesse momento se tornou
Fiquei feliz a vê-los passar
Na areia os peixes
Gritam por falta dos oceanos
Grelham-nos ao Sol
Os pescadores avisados
Ninguém os ouve
Abrem as pequeninas
Bocas feias
E gorgolejam
A asfixia
Os pesca-dores
Esses
Enganam o tempo
Na calma espera
O mar agita-se
No engano
Das aparências
Das vagas desiguais

Os barcos vêm vindo
Nos cais
As mulheres
Lamentam-se
Das liberdades perdidas
e...
Desencontrados
Acabam por se encontrar
O engano
Perpetua-se
Como os reflexos do Sol
Nas vagas
Ilusórias da realidade
Com nome certo
A meio-caminho do feio

E quem se engana
Com as peles de cordeiro
Que os lobos vestem
Nas vezes
Em que a astúcia
É rainha
E a ilusão
Dama de companhia
Basta pouca coisa
Para confundir os curiosos pouco atentos
Mas se pouco atentos são se calhar nem deveria pensá-los como curiosos porque ser curioso é ser atento e nada disto é dogmaticamente definitivo de nada. Há muitas formas de atenção. Há por exemplo a atenção desatenta, há a desatenta atenção. Há o meio, os três quartos, de uma coisa ou da outra, as suas expressões nas diagonais da própria coisa, os infinitos números do meio, não necessariamente o ponto equidistante, entre a atenção e desatenção.

No projector do meu sentir ao fundo nas docas, seriam 4 ou cinco os marujos
encostados às rodas de seu barco comum na terra ancorado. Marujos grandes, de cabelo rente, imponentes massas corpeas, força capaz de mover qualquer vela,
tal qual, como eu, de franzina aparência. Ao traçar a rota da Vontade a diagonal dos meus passos ao cruzamento com eles me levava. Bem sei que havia a possibilidade de mil outras rotas, que sempre me permitem ladear as coisas, como se ilhas ou escolhos se tratassem. Mas eu que os vira mesmo antes de os ver e sabendo que eu e eles acendera a lâmpada do projector do meu sentir, aventurei-me ao cruzamento, escolhi essa rota. Escolhi? Poderia ter feito a tangente aos marinheiros pela esquerda ou pela direita e os passos que me parecem meus, não são de facto só meus. A prova é que eles foram pela direita e foi à direita dos, marinheiros que se revelou o capitão. As palavras do capitão do momento dos marinheiros chegaram-me brutais ao ouvido. Não sei como há homens que não gostam de conas, em contínua reprise como se de um disco riscado de desprezo se tratasse. Tinha o marinheiro lançado o anzol e tentava o encantamento do peixe, que eu trazia em mim. O uivo brutal tinha contudo uma rede de malha aberta, que me permitia lidar com a coisa por dentro ou por fora de mim. Poderia ter subido ao castelo da Popa de mim mesmo, e dito algo, é comigo que fala, sabendo que sim e simultaneamente que não, era uma conversa a várias vozes, sendo a primeira dele. Eu espelho dos marinheiros, os marinheiros espelho de mim e então vi-me de calças brancas, sapatos de mocassim castanhos, camisa clara por fora das calças, mãos nos bolsos a caminhar, era ao marinheiro a imagem de quem não gostava de conas. Imagem que era Verdade, pois não gosto desta palavra que me parece brutal. A ter que nomear, chamar-lhe-ia Vaso, fenda, pássaros, chave de doces encaixes, como não poderia gostar da porta da minha primeira casa, aquela que me gerou e fez nascer, na qual amavelmente vivi, onde amavelmente me viveram, como pode alguém não gostar do céu, da terra, a nuvem quente, lua doce e protectora, Sagrado mistério?

No final da minha primeira rota, virei de bordo e enfunei de bolina a vela, que pela acção da deriva, transformara a direita em esquerda no ponto onde de novo o segundo cruzamento teria que acontecer.
O barco dos marinheiros, esse, mantinha-se encravado no mesmo cais, não tinha levantado qualquer âncora, largado qualquer amarra, não acontecera qualquer sereia, mas à medida que me aproximava, o vento repetia a mesma canção riscada.

As ondas trouxeram à superfície uma noite antiga de lontras, eu marinheiro de mim de jardineira branca, sandálias de verão com dedos a respirar, lenço curto e fino vermelho com cornucópias ao pescoço a falar na mesa que dava para o mar da dança, quando um bigode, daqueles de que do meio dá para os dois lados avançou para mim, abriu a carteira, desvela um crachá num ápice e diz-me para eu me levantar e o acompanhar à esquadra. Enquanto o dizia, interrompi-lhe o gesto de guardar de novo a carteira, agarrei-a e vi de perto ser verdadeiramente o dístico da PSP. Espantado levantei-me e perguntei-lhe porquê, o que se passava e nesse momento o barco ébrio que ele era, oscilando nas vagas, disse-me, você passou a noite a olhar para mim, com quem dizia que eu tinha estado toda a noite a galá-lo lubricamente. Espantado tinha eu escrito, mas então é que fiquei verdadeiramente espantado ao quadrado, azul do céu. Olhe homem, eu nem em si tinha reparado a não ser agora e lá fomos, três Amigos e um bêbado até a uma esquadra que já não existe. Lá dentro, o que eu não gostei mesmo foi de ter uma G3 na direcção do meu corpo, apontada pelas mãos de um colega do bêbado igualmente bêbedo. Enfim coisas que às vezes acontecessem, mas que acabaram em bem, pois se assim não tivesse sido, provavelmente não estaria aqui a escrever esta história.

Na bolina de mim mesmo, com as estrelas e os satélites por cima de mim, observei como navegador atento que no oposto da minha direcção aparecia no horizonte de mim uma terceira barca. Ao longe de novo perto o vento repetia o mesmo disco riscado.

No mar, o encontro dos três barcos deu-se no imediato Sul do barco encravado, e nesse instante em que o meu Amigo e minha Amiga comigo, provisoriamente fundeámos, o disco parou de girar.

Depois seguimos eu os meus Amigos para outros mares, outras passagens e a canção riscada do capitão do momento dos marinheiros, que o vento me trazia aos ouvidos, era um chorar que ficou a repetir encravado, eu gosto tanto de cona...

Não vi nenhuma sereia aparecer por perto do barco dos marinheiros encravados, que a estória das sereias e dos marinheiros é toda uma outra.

Nos azulejos brancos da cozinha da minha Amiga, ao pé do fogo que o fogão lembra que existe, estava marcado, são as escolhas que fazes, o teu destino.


No corrector automático? Das minhas palavras por baixo da dita palavra aparece um risco vermelho. Não existe nele tal palavra também, mas o facto de ele não ter essa palavra não invalida a sua existência, pois não?
Conversa entre pim, pam e pum

Quem és tu pimpampum
Para os outros julgar?
Porque deslizas sempre no mesmo erro
Se tu és tudo
Se todas as coisas te habitam
Porque chamares
Idiota aos outros
Burro és tu !

Porque a zanga alheia
Me desnorteia
Mas a zanga tem que ser tua também
Tu que dizes que sem ti sou nada
Que tudo é relação
Então metade da zanga tua será
O pum diz ao pam e ao pim
Que não deixam de ser termos carinhosos
O pam diz ao pim, carinhosos uma ova
Se do outro obténs a zanga
Não és tu que escreveste
Queres o beijo e é o afastar que acontece?
O pim relembra ao pum e ao pam
Carinõs , si quiero como ti pam e tu pum
O pum diz ao pam
Tenho direito ao pum ,ca tra, pum,
O pam diz ao pim e ao pum
Oh pim e pum
Então não sabeis que os corações são como leves pombas?
Tem que se chegar de mansinho, para neles entrar
Sim diz o pam e o pum ao pim
Insiste o pum
Eu tenho o direito à indignação
A minha janga esconjura o real
Quando faço o Bem tenho Mal dentro de mim
Sim the rainmaker model, diz o pam ao pim e ao pum.
Ou S.Paulo se preferires
The rainmaker model, pergunta o pam
Sim, noutro dia conto-te esta história, diz o pum, ao pam e ao pim
Disse o pim ao pam e ao pum
Lembram-se de quando éramos pequeninos
Jogar o jogo
pim pam pum
cada bola mata três
Isso, isso, mata e esfola disse o pum ao pam e ao pim
Matas-te alguém, esfolas-te alguém pergunta o pam ao pum
Não me recordo de tal acontecer
Respondeu o pum ao pam
Disse o pim ao pam e ao pum

A beleza do jogo
Era o fluir no movimento
E nos ricochetes, saber
Se daqui vou para ali, passando por acolá. Que
Bela
Brincadeira do Guerreiro.

Tenho sono disse o pum
Vamos dormir
Juntou-se o pim ao pam e ao pum
E de novo pimpampum
Para a terra dos Sonhos
Foi morar
Até manhã
Sonhem Bem
O Medo e seu irmão Amor

Não saias à rua
Oh sim, que ânsia de arejar


Ter pressa atrasa a hora da nossa morte?