terça-feira, setembro 02, 2003

Numa da minhas janelas de rés-do-chão, que é o mesmo que dizer rente ao chão, mas acima do horizonte do meu olhar, no outro dia vi, duas metades de luas, dois pequeninos crânios, alvos ainda sem pêlos como dois montes e um vale no quadrado que era a sua moldura. Não sei se para mim a olhar ou para o fundo da sua sala do seu estar.
Hoje ao sair da porta do prédio, ali estavam os dois de frente, cada um a seu lado, sentados a olhar. Iguais e diferentes e eu no meio a passar e a dizer com mãos e voz, ora bom dia. O que estava no leste de mim sorriu-me como quem me conhecia desde sempre, o de oeste via outra coisa qualquer, que é esta, a sabedoria dos gémeos, saber o que o outro vê e dessa forma poder ver a dobrar, que é como quem diz, ver o Sul e Norte no mesmo olhar com o passado e futuro num só olhar
Laranja de franja
Laço de cetim
Saia de veludo
Voa até mim
Cá vou a deslizar
No sonho de ti
No sonho de mim
Ou no sonho
Em mim
Que os Pomares
São grandes
Tem sempre fruta madura
E meninas e meninos
A entrelaçar
Como o cofiar
Tem sombras?
E se não
Como conheceria o Sol?
Como um cesto a deitar
Entrelaça e laça
O sonho de encantar
Não há borracha a apagar
Nada a perder
Tudo a ganhar

Qual é o sonho por mim desliza
Qual é o sonho que me desliza
Que me alisa
Nas unhas que teimam
Em não ser
Tece, tece
Entrelaça
Que o medo é aquilo que ainda não é
Vê preto e preto o é
Vê branco
Branco o é
Diz-me o azul do pássaro
A cantar
Na laranjeira
Do Pomar

Os anzóis
Esses são como
O pássaro azul
Do pintor
Sem cor
Porque na gaiola
Se deixa estar
Se deixa estar?
Ou fui eu
Que lá o pus?
A recordar
O que alguém
Me recordou
Se lhe abres a porta
Morrerá em breve
E a mão a hesitar
E agora a responder
Tem tempo o voo?
Precisa do tempo
O voar?
No breve instante do voo
Antes da fisga o apanhar
e se fisgado vou estar
Então mais vale voar

Gira, gira
Língua de fogo
Sem parar
As meninas a saltar
E os meninos a correr
Sendo o saltar o correr
E o correr
O saltar
Como o voar

Laranja de franja
Laço de cetim
Saia de veludo
Voa até mim
Fazes-me feliz
E eu Te agradeço
Tremente em mim
Oh querida
Como são belas as tuas coxas
Que desejadamente me enlaçam
Oh querida que licor, que mel
Oh querido
A tua vontade
Viva me faz
Oh querida que paz
Que jardim
De encantar
O riso a soltar
Entre os irmãos
A palavra é como uma telenovela
A palavra é audiovisual
É som que é imagem
Ou mesmo
imagem sem som
A palavra palpita
Nos seus tempos
Tal coração
A palavra dispara
A palavra trava
Aspira
Engata
A palavra é melodia
A palavra tem física
São partículas
Que se movem no espaço
Tal qual
Como eu
Tão improváveis
Na sua massa como eu
As palavras têm buracos
Dentro de si
Como eu
Porque se eu me ver
De muito pertinho
Sou como um passador
Onde à volta de cada furo
A carne teima agarrar
A palavra tem cheiro
Azedo ou doce?

E ao contrário do que seria de esperar
Não vai a minha mão esquerda
Para a direita passar
Ou o meu pé direito avançar
Para a impossibilidade
Do esquerdo
Todo se teima manter
Na aparente ordem
Que sou eu

A palavra é mais que uma telenovela
A palavra é energia
Provoca-me choques eléctricos
Na pele a atravessar
A palavra dissolve-me
E torna a solidificar
A palavra tem temperatura
Frio ou quente?

Morno é que não.