quarta-feira, setembro 03, 2003

Oh meu querido filho
Meu pequeno homem
Se soubesses como
O universo se põe tão doce
Quando a dormir
O teu braço estendes
E a tua mão
Me ampara o peito

É pequenina a mão
É infinitamente grande
O Amparo.

Oh meu querido filho
Espelho distinto de mim
A própria chave de mim

Oh meu querido filho
Comigo na cama a dormir
E o Sonho do mundo
Numa paz profunda
Doce enleio
do Pai

Oh meu queridíssimo filho
Meu pequeno Pai
Que me ensina a ser Pai
No saber sem saber
Que é o único saber

Oh meu querido filho
Dos seres alados
Desejado

Eu hoje
Sou como um sonho a dormir
Um acordar adormecido
Uma fada a passear

Anda por ai um gelado com nome de pistola a distribuir uns postais e eu a pensar a quem o enviar. Um deles que dá pelo nome, inveja, reza assim:
Eu queria, tu querias
Ele tem, nós queríamos
Vós queríeis, eles queriam
Como não sei o que ele tem, ponho-me a imaginar, será que ele tem dor?
Por outro lado, aquilo que eu queria será aquilo que tu queres? É o meu querer função de outro? E quando o é, por isso se torna igual? Quanto muito, diferente entre iguais.

Será este o texto do gelado postal? que eu a ninguém vou enviar!
Ao Pedro, a mim mesmo e a tantos outros.

O coração que não Vê, não sente, porque ver é Sentir. O que está distante dos olhos pode estar perto do Sentir, ou ser mesmo o Sentir. Uma ausência que se atenua é ainda uma presença que se sente e poderei mesmo perguntar-me se haverá ausências definitivas? Só da carne por enquanto, porque o Resto, que é Tudo está sempre presente, num tempo, esse sim ausente. Não nos esqueçamos que os relógios são invenções humanas, que regulam os ritmos humanos, não os das estrelas ou do céu. Qual é o tempo de um coração quebrado? Quanto tempo leva ele a se colar, ou melhor dizendo, quanto tempo a cola o leva a colar? Eu acho mesmo que o mundo vira num virar do nosso olhar que é o mesmo que dizer num virar de Sentir, é como mudar de posição, mas há tempo que o meça? Ou será o tempo a minha ilusão da vontade de não sofrer? E como ser alegre se não sofrer? E não nasceram e nascem os frutos no silêncio? Pelos frutos se vê a arvore, diz outro ditado popular.
Não vive o Teu Pai em ti? Não está ele presente dentro de ti?

um abraço quente e forte
Depois foi o meu braço a pensar, que os olhos esfomeados já estavam na porta do café onde iam lanchar. Dei por mim, ou melhor deu o braço em mim a estender-se ao encontro de outro que o queria alcançar, para se apoiar. Olhei o sorriso que vinha com o braço que abraçara o meu e que me disse, já ali estava ontem no mesmo lugar, e eu a olhar o que o fizera tropeçar. Já ele se ia, quando constatei, dobrado à procura, que era só uma pedra da calçada mais protuberante que as outras em seu redor. Pois já lá estaria ontem e talvez amanhã também. Não sei se terão sido os movimentos tectónicos, ou a força da água na pedra, ou mesmo o calceteiro, que no momento de a calçar, deslumbrado pela beleza paralelipipédica a quis ligeiramente realçar, contudo era-me estranhamente familiar a ideia de tropeçar uma e outra vez na mesma pedra, a Alma a ensinar doce como ela sabe ser, que os passos só mudam de direcção depois de entender cada tropeção. Por isso nos parece, às vezes, que os comboios não andam na nossa estação. Sagrado mistério da vida, que tudo encena, que tudo liga e ao Todo remete.

Depois, ao entrar no café, lá está o Senhor com as mãos em frente a uma máquina de aparar a massa fresca como cilindro redondo e a sorrir, quando a massa era já tirinhas, mostra-me a iguaria em camadinhas pronta a ir ao forno, como a ilustrar quão bom é ser padeiro, amassar a massa e fazer o pão, do principio ao fim sem solidão. Só pude mesmo pedir uma tosta mística e um galão.