terça-feira, setembro 30, 2003

aqui se declara
do encontro o querer
da mão o agarrar
não o bater
da emoção certa e quente
não a surdez
A minha mão direita avançou no espaço da mesa entre nós intreposta, dedos em ângulo a fazer o movimento de mim para ti e no meio, bate no tempo e no tampo a marcar uma fronteira, a dar a ideia da fronteira, enquanto a minha boca as palavras falavam, sabes, eu já não acredito que haja diferenciação entre o interno e o externo, vivo-os como uma única realidade e eu a ver o espanto a desenhar-se nos teus olhos, como um qualquer gozo incrédulo disse-me o teu sorriso a responder.
e assim fiquei neste assunto a meditar.

Sabes Mafalda, o facto de não existir diferença entre o interno e o externo, não invalida que simultaneamente existam os corpos, nomeadamente os alheios e muitas outras coisas de permeio que geralmente existem sem mim ou não. Contudo quando com elas me encontro, não só com aquelas que estão presentes no meu próximo espaço, mas também coisas tipo, um desejo que transporto dentro de mim que quero muito que aconteça, ou outra coisa ainda, como uma saudade, um pensamento,já as coisas não estão de permeio, que é como quem diz entre, são mais assim, como que permeadas por mim, nelas participo, elas me participam.

O espaço tempo em que me movimento não é aquele que os meus olhos abarcam, ou o relógio da sala a falar-me de um tempo contínuo sempre para a frente, como se não soubessemos que existem tempos para trás, tempos parados, presentes parados, futuros atrasados e todas as suas infinitas variações, mas isto não invalida tambem a existência dos horários de trabalhar. Falo-te da percepção da não existência de fronteiras da forma como habitualmente as pensamos, de que eu não sou só corpo e que mesmo ele é como que uma configuração energética, como modos de ser e agir que em muito ultrapassam o limite físico do meu corpo. O meu espaço não está limitado pelo alcançe da minha mão, mal entro na sala, a minha forma de expor que trago em mim naquele momento, já inter-aje com os empregados ao fundo, mesmo antes de nos ver-mos. Eu, o espaço do restaurante, as pessoas, todos bailámos, já, pelos ceús, mesmo que alguns teimem em não reparar como tudo se tornou de repente como que um barco bêbado, a abanar e ressoar. Alías é melhor dizer que mesmo antes de eu entrar já estava tudo como que misteriosamente conectado, havia mesmo um certo tipo de ambiente emocional, muito em consonância com o tempo no rio, mas que não se esgotava nele.

Sabes, estava mais a falar daquele tempo da escolhinha antiga, onde não tinhamos ainda a percepção dos falsos limites, antes de começarem a por as coisas em caixinhas e nos convidarem a ver assim, como que dizendo tão giro, vê lá como fica bem ali naquela caixinha, que arrumado e dá tanto jeito, resolve uma imensidão de questões, facilita, e então a não haver esta percepção dos limites, viviamos por assim dizer em vertiginosa expansão, os nossos corpos, que melhor será dizer, nós no nosso todo, eramos grandes, muito grandes, as nossas mãos pintavam estrelas em ceús distantes e outra magias que tais. Estava mais a falar de desejar voltar a ter um corpo muito muito grande, que me permita ter um horizonte muito grande.

E se eu aparentemente existo sem ti, é só verdadeiro em parte, porque há sempre uma parte um do outro que reside em nós, que fica a residir em nós quando nos cruzamos, como a indicar a possibilidade de se pensar tudo isto como um só corpo, com muitos corpinhos diferentes.

E o problema não são as caixinhas porque enquanto fazem sentidos e muitas assim o fazem, é de as guardar, uma coisa torna-se um problema, quando as nossos perguntas não têm respostas, daquelas que estão nas caixinhas.


Ora pois um beijinho para a Suave Mafalda