sexta-feira, outubro 03, 2003

Querida Paula que deslizas nos sonhos. Como isto é curioso, esta comunicação pessoal, não direcionada na intimidade, entendendo isto como uma comunicação no altar do mundo, que me parece muito bem e sobretudo a ideia de que as mensagens chegam sempre mesmo quando não nos são directamente endereçadas, bela constatação, que elas não se perdem e do seu enorme alcance, como os pensamentos que pensamos ou os desejos que projectamos.

escreveste...

Mas não será o amor um dos maiores medos, trazendo com ele a dúvida se o êxtase amoroso sentido é tão arrebatador como nos parece, e porque, possivelmente, tudo se baseia mais na vontade de agradar ao outro, aos outros, por medo de perdermos a sua companhia...

Não sei do medo no amor, ou melhor dizendo tenho muitas dúvidas que o medo seja parte do amor. Bem sei da emoção de não saber da correspôndencia do amor, da recusa do outro face a nossa exposição do sentimento e outras coisas que tais, mas quando isso acontece, só isso acontece, não se passa mais nada e será que amor que não é correspondido, será verdadeiramente amor? não é esta a ilação que decorre da tua própria frase, quando claramente associas o medo à consciência que reflecte a ausência do Amor, pois o sentir é sentir que o que está em causa é o agradar ao outro por medo de perder a sua companhia.

Ora este poderá ser um medo ou dois, mas parece-me um pouco ao lado do próprio amor. A mim o Amor, não tem como pressuposto a necessidade de agradar ao outro e do medo da sua perca. O Amor trata bem a coisa amada, ou seja, permite-lhe sempre a liberdade, ao limite a liberdade de o outro se ir embora, ou por outras palavras a possibilidade da sua eventual recusa em ser por nós Amado.

E quando isso acontece, o que acontece? deixa-mos de querer bem ao outro, congelámos por assim dizer o nosso sentir? não, não me parece, ao limite pode-se amar alguém sem ser retribuído, embora se calhar o preferissemos, mas como diz o provérbio quem não arrisca não petisca, ou mais uma vez a velha história dos sapos e dos princípes, de que já falámos, ou seja, aqui o medo, eu substituo pela emoção da procura, sabendo que é preciso procurar como quem encontra e continuar a encontrar como quem procura.

Dizem-me também as tuas palavras do medo uma ideia, um sentir que me parece estranho, quando escreves sobre a .... dúvida se o êxtase amoroso sentido é tão arrebatador como nos parece....pois por um lado não sei bem se falas da dúvida que podemos ter relativamente ao que verdadeiramente sentimos dentro de nós, coisa muito comum, ou mesmo se o êxtase do outro é real, mas real, como na vida real são as duas faces da mesma dúvida. Se o êxtase existe e quão arrebatador ele é, é coisa que penso podemos sempre pescar a resposta dentro de nós, mesmo nos dias em que nos olhamos nos espelhos sem nos reconhecermos. Do outro, é tambem uma questão de conhecimento, da verdade do outro nas suas relações, da sua consciência e da sua vontade, mas que creio ser possivel de ser averiguado, sobretudo se deixarmos de lado as nossas pequenas projecções, do que esperamos ou desejamos como comportamentos ideais do outro, quando substituimos a projecção pela aceitação, pela escuta do outro, aí penso que começamos a encontrar respostas e depois o que terá o Amor a ver com as nossas pequeninas projecções? parece-me que ele sempre as transcende, que a sua mecânica é de outra natureza, bem diferente desta pequena economia terrestre dos nossos pequeninos egos.

E quando falo em aceitação, não se entenda por tal, o querer de qualquer maneira, aceitar é como perceber e aceitar como um facto alheio, que por ser alheio mas cruzado connosco nos afecta, mas recordando que são sempre os meus próprios pés que caminham, não é o pé do outro que me faz caminhar, e aqui entramos no Outro nível do Amor de que tambem falas.


E que sim, tranquiliza os medos, todos os medos, embora tal não queria no meu entender dizer, que eles estejam sempre ausentes, um bocado como entre a Fé e a dúvida me movo, pois como poderia existir uma sem a outra? Recordo-me de Platão a falar dos graus de amor, propondo que à medida em que se avança na vida, como que se vive uma evolução do amor dos corpos terrenos para a elevação do amor ao Espiríto, à Alma e a Deus. Não me parece no ponto que me encontro que haja assim como que dizer uma fractura ou impossibilidade entre o Amor particular e o Universal, parecem-me ser ambas faces da mesma moeda, um a reflectir ou encarnar o outro e vice versa. Por isso querida Paula, talvez o amor não seja o maior dos medos como equacionas, mas sim o maior dos desafios, uma especie de realidade simultânea e transcendente, nos mesmos dias em que por ele nos sentimos abraçados e há sempre uma especie de frissom, uma cócega na barriguinha, uma emoção que como qualquer outra pode por nós mesmos ser sempre transmutada, não uma emoção inevitável que nos paralize como o medo às vezes pode fazer, mas que paradoxalmente nos conduza ao seu encontro ou melhor nos deixe aberto a que ele nos encontre.
um só toque, partida e chegada para todas as direcções e depois é só seguir a Música