terça-feira, novembro 04, 2003

Coisas da mecânica terrestre

Retratos de um Mundo perdido

… não tem cá ninguém que me atenda este problema técnico sobre um equipamento que aqui adquiri há menos de uma semana?
De momento não temos
De momento, como, minha Senhora, pois estão abertos e é nessa altura que devem dar a assistência. Está-me a dizer que uma cadeia desta dimensão, não tem um serviço de assistência técnica no local onde vende?
Sim temos, mas não está cá ninguém. Só temos dois colegas e os turnos isto e aquilo….Desculpe interrompê-la, minha Senhora, mas como deve calcular, o que me está a contar não é do meu interesse, eu não tenho nada que ver com tais assuntos que vos são internos, vim aqui para solicitar assistência, está-me a dizer que tenho que cá voltar amanhã? Sim.
Olhe é qual é o horário desse departamento?
Até às 7, mas são seis e meia!

Poderia ter chamado o gerente da loja, pedido explicações, mas decidi vir-me embora, pois teria que lá voltar à mesma no dia seguinte.

Produtividade, palavra que anda na boca de todo o mundo e ainda bem, tem a ver com estas questões, não só a produtividade como a rentabilidade que se obtém no bem servir os clientes.

Pois se pensar no tempo que perdi e vou perder a resolver uma questão que eu não criei, gasolina, parqueamentos e sobretudo as consequências e custos na produção actual por não solucionar o problema, ai tenho a noção exacta do tempo que não produzi e dos custos que tive de suportar, ironia da ironia, para não produzir.

Em Portugal sempre se gasta tempo demais a fazer as coisas, gasta-se muito tempo para fazer as coisas perdendo muito tempo produtivo em questões acessórias e sem qualquer valor produtivo. E quando se gasta tempo de mais, gasta-se também dinheiro de mais, coisa que não abunda nem parece que nasça nas arvores, pois não?
Oh, intimidade de saber-te a meu lado, doce aconchego, convite de brincadeira a electrizar-me o universo em expansão, doce aconchego no desvelo da atenção mútua, na partilha sem qualquer limite pré concebido, um deixar ir, um amigável fluir, uma bela companhia, um encontro, um querer feito de dois

E depois partir para o céu que esta terra é triste muitas vezes, pular do chão mesquinho, das coisas esdrúxulas, deixar para lá, fazer um novo universo de um novo verso.

Pois se hoje me desse para o raciocínio por antecipação, coisa que pode ser muito feia, como sabemos, antevia alguns a dizerem, escapista, alienado, então a querer o céu em vez de por os pés na terra ao lado dos seus irmãos. Não é essa a via do egoísmo, o safe-se quem poder, e então os outros.

Então não partiria contigo para um céu distante, porque o céu e Terra estão casados, a Terra espelha o céu, que está na Terra assim como a Terra no céu. Faremos aqui o Céu. Não pode ser de outra maneira, é preciso viver o céu na terra.

Hoje, misto de tristeza com revolta.

Tristeza em ver o tempo dos homens a passar, as grandes questões sem solução, um adiar das respostas, um começar devagar, como quem não quer começar e o tempo da Terra a passar.
Revolta da rasura dos dias brancos e lentos a passar, que não deixam sombras visíveis nas coisas permanentes e tudo isto não é mais que um estado de espírito, transmutável em outro qualquer mais agradável.
Quando faço as coisas, eles deixam de ser minhas nesse instante. Fazer, creio que é o mais próximo que um homem pode sentir de uma mulher a dar à luz. Enquanto se fazem vão crescendo, crescendo dentro de nós e nós a crescer por dentro delas. Depois a inevitável primeira separação, quando está feito, pronto a saltar cá para fora, surgem as dúvidas, será que está mesmo pronto, posso ainda fazer melhor, está compreensível, deixo-o ou não sair já. Súbito, mesmo quando lento, aquele momento, inevitável, em que sai mesmo, independentemente da nossa vontade, já Era e passa a Ser cá fora, que é como quem diz, tem o universo por sua casa. Ai começa uma infinita transformação, de tal forma que às vezes mais tarde ao cruzarmo-nos de novo, nem as reconhecemos, já elas e eu mesmo, somos distintos. Depois um sentimento de perda, um esvaziar, que nos faz dar conta de quanto estivemos ocupados, do tempo das coisas humanas que passou, um certo não saber de mim.