quarta-feira, novembro 12, 2003

Os corações grandes e puros não jogam xadrez. São grandes do tamanho do universo e quando amam, o que sempre acontece, em expansão como o próprio universo.

Os corações grandes são como figos maduros para a gente feia que sobe às árvores e gosta de comer o alheio. A gente feia, dá a sua dentada e deixa a outra metade partida no ramo como que a cair, mas os corações que são grandes como o mundo não se importam, continuam a abrir as suas portas às escadas dos que sobem a arvore.

Os corações grandes são leves e mexem-se muito com os ventos em todas as direcções. Ao contrário da gente feia que tem de transportar consigo as escadas que atrasam o movimento do espaço e os prendem à gravidade. Assim se tornam cada vez mais pequeninos e murcham, envenenados nas suas próprias escolhas.

Os corações grandes e belos são visíveis às vezes, sobem no espaço sideral e passeiam no céu entre as nuvens, sem peso como plumas. Quando batem forte uu,uu,uu,uu, criam belas melodias capazes de transformar o mais feio em belo.
Na festa encontrastes-me e engraçaste comigo, pensava eu. Não queres vir lá casa no meio de sorrisos e mais sorrisos, via eu, e eu, que sim, vamos lá. Acordamos no dia seguinte como amigos que dormem na mesma cama sem se tocarem mais para além da inconsciência dos corpos que dormem. A campainha tocou e ele subiu. Recebeste-lo com um sorriso que me demonstrou a minha miopia anterior, o rapaz, jovem como eu, meio surpreendido e desejoso daquela mulher. Era um rapaz que eu tinha visto na festa e que agora percebia ter com ela algum envolvimento em curso. Disse-lhes adeus e sai para a rua a pensar naquela manobra de ciúme certeiro que ela lhe tinha feito expressamente e que terá tido a sua eficácia, será? Nunca tal me tinha acontecido, ser utilizado desta forma por uma menina e pensando para os meus botões que estranhas são por vezes as estratégias das pessoas e a imaginar o que lhe terás contado da nossa história de amor carnal ausente
Chegaste à minha cama como amiga dizendo vamos só dormir e quando eu lutava comigo mesmo para apagar o meu desejo, disseste-me, desistes já? E eu a perceber de repente que a não vontade tua que me expressaras era afinal a mesma vontade, só que posta ao contrário. Uma coisa muito pouco feminina, uma necessidade de ser conquistada, ou uma forma de aplacar um qualquer sentimento de culpa em face do acontecer. Sim querida, sim, eu conquisto-te se tu também me conquistares, pois a carne é só carne e nela não há nada a conquistar nem colonizador me sinto, talvez mais polinizador de quem põe o pólen. Oh minha amada, eu sou só um beija-flor, Oh meu querido, meu amado, que manejas o sexo como um beija-flor, que bom ser uma planta de mel e abrir-me.
hoje, estreio aqui ao escrever os meus primeiros óculos graduados. Parece que o Mundo ao perto foi limpo outra vez. Que bom!
hoje na casa dos óculos a alcântara dizia-me a Senhora, dia feio e triste, parece um dia de finados e eu a responder-lhe pois é, embora o dia de finados este ano tenha sido um dia de sol, a recordar-nos como era bom antes de se terem finado. Acrescentava o Senhor a seu lado, pois , a greve, que eu ainda não tinha dado conta, o meio do mês, o dinheiro a já faltar e eu a desejar melhores tempos, a Senhora a responder, Deus o oiça e eu silêncio nesta matéria, boa tarde e até à  próxima que fui bem atendido, com gentileza no trato e eficácia no bem servir.
Um dia de tempo silencioso como existem às vezes, onde todos nós parecemos andar devagar e a falar baixinho, a não querer pertubar as nuvens no Céu.
Oh, quando tudo e todos se juntam, mesmo diferentes. Aceitação, compreensão sem os pequenos jogos de poder. Egos pequeninos, controlados como devem sempre andar. Não o eu versus o tu, mas o eu mais tu e ainda o outro, ou mesmo tudo o resto. Não, o eu quero, inconciliável com o querer alheio. Só na constatação da diferença, a construção e encontro do igual possível. Nada a provar, só a prova do desejo de querer a um, dois ou três. Tudo dá então um pinote e a alegria sustenta o fazer.