quinta-feira, novembro 13, 2003

conversas sobre encantamentos 1


O desaparecimento da filha divina

Bela adormecida recebeu ao mesmo tempo todas as bênçãos e uma maldição. Um sono que se assemelha à morte, como Coré raptada por Plutão Deus da Morte, desaparecida deste mundo até ao novo despertar primaveril da natureza. Mito de Deméter, Figura dupla e variável, Deusa de fecundidade, que assiste ao parto, que vela o crescimento do grão de trigo e que no desaparecimento de Coré torna-se Deusa da vingança e da infelicidade. Divindades ambivalentes de acções ambivalentes nos seus processos de humanização tal qual nós, sempre em função da natureza da relação.

Vénus perseguindo sua filha Psique roída de ciúmes pela adoração dos mortais, que nela viram a encarnação da mãe, mais bela que a própria mãe. Agindo sob o impulso primário dos seus afectos e emoções, sem grande reflexão e criando assim uma grande desordem no mundo. Hera e os seus ciúmes de Zeus que a levava por vezes a castigar os filhos inocentes dos amores e as rivais. Faces da mesma Figura, a Grande Mãe, a Deusa Mãe antiga. Deusas são imagens de uma feminilidade absoluta e irreflectida que só segue as reacções emotivas elementares. Deusa Mãe misericordiosa, acolhendo em seu seio os infelizes e estropiados, os pobres de quem cuida e ama, como na representação medieval de algumas imagens da Virgem Maria em que o seu manto envolve e protege os necessitados. A Deusa Mãe, a grande prostituta que se entregava a qualquer homem desconhecido, fecunda e infinitamente generosa, caridosa sem restrições mas também capaz de um ciúme, orgulho e vingança sem limites.

Por ocasião do baptismo da bela criança, os seus pais dão uma grande festa de apresentação onde um terrível acontecimento terá lugar. Aqui a história varia consoante as versões. Convidam as Fadas Madrinhas, mas esquecem-se de uma, ou por que não têm pratos e talheres suficientes, ou porque se pensa que aquela que não se convida está morta ou encantada num alto andar de uma qualquer torre esquecida, ou ainda porque levava uma vida demasiado introvertida longe do mundo e da vista. Mas essa Fada acaba por aparecer e sentindo-se pessoalmente insultada e desprezada condena a menina a morrer quando chegar aos quinze anos. Uma outra versão chama a Fada Má de Miséria, divindade da pobreza, da miséria e doença que se abatem sobre as pessoas. Assim como fazer o Mal por fazer o Mal, só porque lhe deu na gana.

Deusa esquecida como mulher abandonada, como Ártemis, que ao ver Agamemnon decidido a partir da Tróia e a ver que o culto a si mesma iria ser abandonado pelos homens, furiosa, faz-lhe faltar o vento e exige-lhe o sacrifício da sua filha Ifigênia.

Felizmente uma outra Fada madrinha aparece e consegue reverter o terrível augúrio, transformando-o num longo sono do qual um beijo a despertará.

Na personagem da Fada Má personificam-se os sentimentos feridos da Deusa Mãe. Ela encarna o orgulho ferido e o rancor que leva à desgraça.

Mas porquê a Heroína é vítima de uma sorte tão terrível?

Uma versão diz que é simplesmente assim, como aquela onde a Fada Má se chama Miséria, outras que a Fada Deusa estava em cólera por ter sido esquecida. O problema é que a nossa cultura assenta numa ideia nuclear de um Deus bom e justo e se o Mal aparece somos levados a pensar que é por culpa nossa, seja do velho Adão, dos nossos pais ou por via dos nossos próprios recalcamentos. Muitas vezes poderemos dizer com razão que Deus é o culpado, coisa mais ou menos herética para a nossa tradição, embora o Deus do Antigo testamento, seja um Deus que pode ter um humor terrível que cai em cima da própria humanidade como um raio, ou então um Deus que deixa que o Diabo aja.

(resumo adaptado a partir do livro "O feminino nos contos de fadas" de Marie-Louise Von Franz. nota de 2 abril de 2004)
Moravas num segundo andar que nesse dia me parecera muito mais alto do que habitualmente. A fachada do prédio em obras tinha o habitual andaime. A luz na janela do teu quarto revelava-me a tua presença dentro da casa e assim decidi subir pelo andaime e bater-te à janela em vez da habitual porta. Ainda hoje, pelos vistos, me recordo da tua surpresa feliz estampada no rosto. Passado muito tempo numa roda de amigos contaste o episódio atribuindo-o a outro. Se calhar não me lembro disto, é só uma efabulação da memória sempre exímia na reconstrução do tempo. Seria um quarto andar?