terça-feira, novembro 18, 2003

O lobo mau e os três porquinhos, ou a ingenuidade, a tecnologia e a imaginação activa.

No tempo em que ainda não tinha sido inventado os circuitos electrónicos, vulgos chips, os rádios eram mais parecidos connosco e funcionavam a válvulas. Para quem não as conheceu, elas eram como lâmpadas que se conseguiam ver dentro por entre as frestas dos panos entrelaçados que revestiam as caixas. Eram mais próximos de nós, feitos à medida do que nós éramos, pois aquilo, as válvulas tinham primeiro que aquecer para começar a cantar tal e qual como a voz humana. Hoje estão para além de nós um bocadinho, liga-se e trás, sai logo música, como o puré instantâneo, sem qualquer necessidade de pré aquecimento.

Naquela festa de aniversário dos meninos pequeninos, às páginas tantas, às irmãs mais velhas do aniversariante puseram o vinyl dos três porquinhos e do lobo mau a rodar, uma versão brasileira, mista de narração e cantoria que começava assim, quem tem medo, quem tem medo do lobo mau, cantavam os porquinhos de mãos dadas a saltitar pela floresta a caminho da casa da avó, naquele velho truque de quem canta para espantar os seu próprios medos, que é como quem diz, falando deles e com eles, os transformamos.

Uma das irmãs chega-se a mim e diz, espreita lá para dentro que os vês a dançar em roda e eu assim fazendo, verdade verdadinha, é que os vi. Já os vistes? Perguntam elas a sorrir, eu a dizer que sim e elas a rir muito como bandeiras despegadas, e eu a ficar intrigado, pois provavelmente não saberia ainda das artes circenses da ilusão nem do poder da imaginação activa e activante, que todos possuímos mesmo quando não o sabemos. Saber não saberia, mas tal não queria dizer que o não vivesse.

Hoje, aparentemente um pouco mais crescido, quando me esqueço de mim, que é outra forma de dizer, quando me esqueço do que aprendi e lembro do que sei, as figurinhas, como gente pequenina continuam a visitar-me e a levar-me para os belos e mágicos territórios dos outros mundos que existem neste mundo e quando encontro um Irmão mais céptico, que se ri, já não me perturbo, quanto muito, fico um pouco triste por ele não ser capaz de vir brincar comigo na terra do nunca, aqui.
Naquele dia saímos para a rua a discutir e tu furiosa deste um pontapé num sinal de trânsito daqueles que indicam a proibição do sentido de circular. Instantâneo como o teu pontapé, Pum, caiu-te em cima da cabeça uma daquelas peças que terminam os varões que suportam os cortinados. Felizmente não te magoaste muito e eu que vinha atrás, atónito no meu próprio espanto perante aquela exemplificação que o Universo encenava para nós naquele preciso momento. Vá-se lá saber como o teu pontapé tinha escolhido aquele preciso sinal e não outro e mais estranho ainda, era o facto de tal objecto estar lá colocado a rematar o Poste do Sinal como uma invisível cortina do sentido correcto, como que à espera do teu pontapé para te cair em cima, a dizer-te pensava eu, que tu não, como a nossa zanga interior se repercute nas coisas exteriores, como vaso comunicante.


Ontem, como em alguns dias, o vento no interior de mim tudo revoltava, tipo conversa interior grrrrr com o mundo externo, como se tivesse a culpar o mundo exterior da minha própria insatisfação interior. Quando entrei sem acender a luz na casa habitual, que me abre as portas tantas e tantas vezes, e da qual eu conheço os volumes, como as linhas da palma da minha mão, Pum! Cabeça contra a porta que eu sei estar sempre entreaberta no seu eterno problema de verticalidade que a faz viver sempre numa obliqua entre o fechado e o aberto, que é como quem diz empenada. Um barulho imenso, a dizer-me do susto que ela levou, quando a minha cara lhe bateu. Na minha face direita, duas gotinhas de sangue, como sinais, para hoje recordar ao levantar que quando assim me sinto, devo andar muito rentinho ao chão e ter muito cuidado mesmo com o que penso.