sexta-feira, novembro 21, 2003

Ontem o bando de pardais voou
Por de cima da Estrela de cinco pontas
E os Homens assustados
Fez fugir

Pequenos e leves pardais
Um breve bater de asas
A relembrar ao voar
Que basta pouco
Para assustar

Até dos pássaros
Já temos medo
Até o pardal
Já parece o inimigo
E nós pequeninos
E assutadiços
Como eles
A ficar
Oh meu Deus para que nos deste Olhos?
Se as bombas são cegas
Não vêem onde caem
Caem simplesmente
Simplesmente
Arrebentam quem vai a passar
Arrebentar é sua função
Ceifam vidas
Não fazem o Pão

Oh meu Deus para que nos destes os ouvidos?
As bombas não têm telemóveis
Para nos avisarem
Foge
Chega para lá
Que não tens nada com isto

Oh meu Deus para que nos destes pernas?
Se a bala é mais rápida que o andar

Oh meu Deus porque me deste as mãos?
Se elas não servem para te desviar
Não existem guerras convencionais
Existem guerras totais
Não existem guerras limpas
Guerreiros a guerrear
Tudo o sangue
A sujar

Nunca as guerras se restringiram aos que guerreiam
E aos espaços do seu guerrear
Mesmo quando todo o seu espaço
Se definia num só olhar
Limite antigo
Do campo de batalha
De outrora
Nos campos de lavrar

Já nesse tempo
As Mães e Pais ausentes
Choravam os corpos
Que partiam a guerrear

Depois do último estampido
No meio dos fundos gritos
Daqueles que agonizam
Percorriam os campos
Revolvendo Restos de corpos
A Encontrar
Os Rostos Queridos
Dos filhos partidos
Para enterrar.

Já não são
Os cavaleiros
E suas espadas
O limite do sangue
Circunscrito
Ao alcance
De seus braços
A voltear

Gume a cortar
A respingar
Ao lado
Como as bombas
Na cidade a arrebentar
Sempre

Cegas as guerras
Ao perímetro da guerra
Que de repente
Em todo o lado está
As bombas a tombar
Dos céus sobre
As cidades
Do chão das cidades
A todos
Os que se pensam
Incautos
Apanhar
No balcão a meu lado
A velha Senhora
De cabelos de prata como o luar

Velha Senhora
De Bengala parada
Ferida na perna
Do seu Andar
A perguntar

Tem água da serra do cão
Não, não tenho não
Tenho de Cara de Muro
Que não consigo saltar

Pequenos círculos doirados
Sobre o balcão a depositar
Lentas como estranhas
Ao seu novo contar

Depois em mim
Parou o seu Olhar
Manso
E devagar
A falar

A gente tem que se divertir com
Alguma coisa
Não é?

Corpo Antigo
Ferido e gasto
Com Alma Sábia
A Contar
Que tristeza conhecida é esta
Que me vela o olhar
Que desce sobre mim
Imensa como eterna
Queixa de tudo
O que sofre neste mundo
Uma imensa compaixão
Um imenso sentir
O olho a marear
Neste imenso Mar
De dor
A dar
Quieta
A tudo inundar


Que leveza é esta
Que pluma
O corpo a andar
Então Se torna

Como um outro andar
Um Imenso Fluir
A Tudo Integrar
Um querer Ajudar