quarta-feira, novembro 26, 2003

Querido, fecha a porta que estou com frio, não faz mal, vem cá que eu te aconchego ao colo do meu quente desejo, não querido, que não é desse frio que se torna quente que eu falo, qual é então minha querida, é aquele que entra nas minhas portas, por debaixo das frinchas, quais portas minha querida, querido, aquelas que delimitam o meu castelo do ser, aquelas que eu fecho aos outros para melhor me proteger, ah querida, falas-me das portas impossíveis que por o serem deixam sempre passar o frio mesmo quando as crê-mos por nós fechadas, às sete chaves da mesma morada. Que falas, querido que me estás a ensandecer, falo-te, das portas que se erguem ou se fecham tanto faz, por causa da dor que os outros nos fazem às vezes sentir, sim querido são essas, as que me metem o frio, sim eu sei, querida, mas já reparas-te que mesmo com elas erguidas, o vento continua a soprar por todas as tuas alas, o frio a entrar por invisíveis frinchas, como a dizer-te querida, que porta erguida pela dor, não serve para fechar nada, não garante o calor, não apaga a própria dor, só serve para criar a ilusão que ela está fora quando ainda está dentro, e que o castelo é todo um mesmo, não há portas fechadas nem abertas, uma só imensa paisagem, por isso se dor sentes, para quê as portas, deixa sentir, chega-te a ela, muito de pertinho para a melhor convencer a tornar-se nova alegria e depois lembra-te daquele verso, do rio que corre tumultuoso dizem que ele é violento, mas ninguém parece lembrar-se da igual violência das margens que o comprimem, um zanga, uma dor, tem sempre dois lados a respingar para todo o lado.