quinta-feira, novembro 27, 2003

As pessoas receiam tratar-se por queridas, dizerem umas às outras que lhes querem bem, receiam o toque dos corpos e das almas na mão que momentaneamente se tem entre a nossa, a festa nas costas, o franco abraço ou o beijo de dois homens que se beijam ao encontrar. Sabem amiguinhos, é que existem outras culturas, nas quais eu também já vivi onde esses são os costumes, sem passar pela cabeça de qualquer interveniente ter dessa forma a sua sexualidade a fracturar, a entrar em profunda divisão interrogativa, que isto, é o que verdadeiramente acontece a quem de fora se perturba, com a forma que outros com outros expressam os seus afectos ou reconhecimentos se quisermos por a coisa no seu mais básico. O Mundo é muito grande e a vida não é a preto e branco, pois entre o branco e o preto estendem-se as infinitas matizes do cinzento e de todas as cores.

Oh, Quantas vezes já receei tratar alguém por querido
Oh, Quantas vezes já receei o toque dos corpos
ou o franco abraço, ou o quente colo.
das Almas na Mão que por um momento
se têm entre a nossa.


As pessoas receiam porque têm medo da reacção alheia, medo do ridículo de serem mal tratadas pelo outro ao expressar, que é como quem diz, expor o desejo de lhe querer bem. Ou o medo que nasce daquelas vezes em que sentimos um outro, que como se escudando no gentil querer, aproveita essa abertura implícita no querer Bem a Algo ou Alguém para investir, cheio de violência e ódio. Ou então é como sentir que se se perdesse o pé e a compostura, como uma fronteira à qual se levanta a cancela com demasiada rapidez, nos expõem a uma qualquer manada de touros que lá vêm. Mas abrindo ou fechando a cancela, de forma rápida ou lenta, não obsta a que a investida aconteça, porque a vontade própria do touro a ela, é cega ao meu olhar.

Mas isto é só uma das possíveis projecções. Porquê imaginar os touros como violentos, porquê não pensá-los como carregados de enguias de paixão? Ou então em vez de imaginar que as cancelas quando se abrem depressa, naquilo que parece um só momento, terão por detrás os touros? Porque não projectar manadas de flores, ou doces chupa-chupa.

Ou o medo de sentir a iminência de perder o seu próprio pé como quem perde a compostura, oh, e se ele quer como eu estou a sentir querê-lo, se ele me quer tratar bem, mesmo muito bem, onde é que isto vai dar? Eu gosto dele, mas só azul, que é como quem diz, por exemplo como Amigo, nunca o Amor, não que não posso, estou ocupada, tenho uma relação, uma promoção, e o querer, se transforma num não querer, um querer que não quer nem deixa de querer, uma onda sem movimento, e depois a cancela já se fechou, os touros, as enguias e as flores, para outras paragens seguiram, aquelas que não tem cancelas nem a abrir nem a fechar e onde não moram os medos, só o encontro do querer.
já há muito tempo que não me cruzo com um frase que costuma estar grafada nas paredes da minha cidade, reza ela, sem verdade és um perde-dor
Hoje ao olhar as gotas de chuva que caíam na calçada, ouvi de repente psiu, psiu, passeei o olhar em redor e nada vi. Psiu, psiu olha lá tu aí, chega aqui, que eu vou te contar uma história. Foi esta a história que a gota me contou enquanto me molhou.

O galo de estimação da avó

Era uma vez um menino que tinha ido de férias grandes com sua irmã para a casa de campo de seus avós. Um dia o menino recebeu de seu avô, um espingarda de pressão de ar e partiu para a floresta ao lado da casa a experimentá-la. Disparava contra todos os alvos que elegia, mas pela sua falta de experiência nunca conseguia acertar e cansado e irritado voltava a casa quando de repente ali à mão de semear viu o galo de estimação de sua avó, que por o reconhecer também, prazenteiro se aproximou como sempre fazia, na esperança de uma guloseima para comer. O menino deixou-o aproximar-se e à queima cabeça disparou. O galo morreu instantaneamente numa grande poça de sangue. Assustado e em pânico, olhou em volta como em falta a ver se alguém teria visto o seu fazer. Pegou no ex- galo Jeremias, que mais não gemia e depressa o foi enterrar na curva da floresta. Quando nisso se encontrava, deu por sua irmã calada a observar.

Depois do jantar, sua avó disse a sua irmã, hoje é dia de tu lavares os pratos. A irmã aproximou-se do irmão e disse-lhe baixinho à orelha, olha amiguinho, lava tu os pratos se não queres que eu conte o que se passou e o menino, engolindo em seco, muito mansinho, lá foi lavar pratinho enquanto os avos e sua irmã foram ao cinema da sua aldeia. Aquilo repetiu-se nos dias seguintes, com a cama para fazer, com o arrumar da casa e por ai fora. Cada vez que calhava a tarefa a irmã, ele lhe sussurrava baixinho a lembrança do seu saber. Tantas foram as vezes que o menino não mais aguentou e um dia contou à sua avó o que tinha feito ao Jeremias.
Disse-lhe a avó, o meu querido menino, não faz mal, eu já o sabia, pois estava à janela, quando o vi, só estava a ver quanto tempo é que aguentarias ser escravo da tua irmã.

e assim parou de chover

(esta história que eu escrevi, foi-me contada há muito tempo por uma pessoa da minha familia)nota de 2 de abril de 2004