terça-feira, dezembro 02, 2003

Fizeste-me uma pergunta, ah desculpa lá que não a ouvi, estava distraído, repete lá, como é isso de quando se obtêm aquilo que se quer, já não se quer mais?, Pois se calhar tens razão, pode não ser bem assim, depende, de quê , de se estás vivo ou morto, lá está ele a alucinar, e mais te alucinava se te dissesse que a morte não existe, mas que importa, que o comprimido azul foste tu que o escolheste e é esse que eu te vou desembrulhar. Olha, quando olhas o amanhã, que é outra forma de dizer, quando projectas o teu desejo, estabeleces uma meta para alcançar, estás aqui no hoje e as tuas unhas tem um centímetro e meio de comprimento, não é verdade, é, e amanhã quando alcançares o que ontem querias, que tamanho tem as tuas unhas? Por ai dois centímetros, que as minhas crescem muito depressa, estou a ver, e então amanhã, já não és igual ao que foste ontem, e se assim é, como e que o teu querer pode ser o mesmo?
Podem ficar com tudo o que é meu? Mas existe verdadeiramente algo que seja meu naquilo que vês como meu, sim, até de barato te dou que nalgumas coisas minhas que queres tuas, existe algo que é meu também, ou melhor, se o levares, era, o que de lá fica de mim é só uma sombra luminosa que um dia mais tarde irás encontrar. Mas as coisas não são minhas, são-me como te explicar, como que emprestadas, participo nelas, elas participam em mim e ponto, e eu estou lá mesmo quando não estou, recorda-te disso, quando as pretenderes para ti e depois que queres verdadeiramente de mim, suspeito que nada, uma breve aparência doirada no reino das aparências, aquele que não tem o doirado em si, que não faz luz, que não aquece os corações, e depois e depois, recorda-te que quando tens aquilo que querias já não o queres, assim leva o carro, a casa, e a mulher, dos dois primeiros pega lá a chave, que da mulher é ela própria que ta dá, dá? Olha é já agora, porque não levas o pacote inteiro, que está em saldos, os pneus gastos, a casa mete água e estou gasto e roto, leva-me a mim também, é-te mais fácil, para perceber o porquê do teu desejo enviusado de mim, ficarias mais completo nas minhas ausências de ti, ias ver o que custa ter, não coisas, porque ter é ser, como que te posso explicar de forma a entenderes, é um não ter, absurdo, dizes babando a boca ao novo carro, à nova prestação que te irá estrangular o tempo de viver, mas deixa lá, é bom frequentar com belas pernas restaurantes daqueles que servem os olhares alheios, aos quais tu te serves aos canibais mais as pernas que te acompanham, como um gostoso pitéu de ar ao léu, disseste léu, pois que eu não sou egípcio, não preciso de nada para ser enterrado, não quero um frio mausoléu, quero ficar bem de pertinho ao léu na mesma terra que me fez e depois recorda-te que isto é infinitamente grande, cabe-me na palma da mesma mão, há que chegue para todos, basta saberes o teu querer, pois não há dois iguais embora sejam iguais, paradoxos não sabes o que são, para que me queres então?
As coisas nunca estão quietas, mesmo que tal nos pareça, nos dias que andamos com óculos escuros de mais.

Meus amigos, quando me virem de novo a meditar de olhos fechados e quietinho no meio da esquina de um qualquer bar ou de uma qualquer rua pública ao andar, cheguem a mim o vosso corpo, não precisam de dizer nem de fazer nada, basta um ficar encostado como a roçar, mesmo como se não fosse assim, como um leve imaginar, porque só esse pequeno contacto e o calor que então me dás, torna certeiro e forte meu olhar. Aquieta-me meu coração junto ao teu. Nem mesmo as palavras entre nós são nesses momento necessárias, é só um estar acompanhado como fingimento verdadeiro.