quinta-feira, dezembro 18, 2003

Isto vem de baixo (tipo continuação da Mafaldinha)

Contudo a questão, uma pergunta que chega ou um beijo ao passar é sempre relacional e parece-me que a Mafaldinha tinha uma certa razão em se afastar aborrecida, que era afinal o único gesto possível, no contexto de dois adultos seus pais que ao discutirem entre eles a pergunta inicial, se esqueceram dela.

Parece-me a mim que é sempre possível dar uma resposta no momento da pergunta, mesmo quando não a sabemos, é como começar a desenhar o pensamento no altar do mundo, sem qualquer tipo de quadro à vista, ou mesmo sem giz, e depois se há coragem para isso, que é só outra forma de dizer, se não pretender ter uma posição de falsa sabedoria a manter, então posso abrir as asas e voar na procura da pergunta, e curioso mesmo, é que se contigo voar na pergunta que me fazes, é meio caminho andado comigo e contigo para a encontrar.

Eu faço um risco, e depois tu acrescentas um rabisco e no final temos um desenho todo inteiro.


E o que importa mesmo é partilhar aquilo que se sabe e aquilo que não se sabe e depois quando uma pergunta me chega há sempre uma razão para ser essa mesma, mesmo quando não percebo logo, a sua razão. Dito de outra maneira, se me chega esta, é porque não me chegou outra e se assim simples o é, alguma razão comigo, terá que lá estar, na pergunta que o alheio de mim me põe e com um trato gentil, um bocadinho de paciência, muito sentir e pensar, até a consigo na maior parte das vezes a in teligir contigo.

Recordo na minha infância algo que sempre me intrigava e que foi ao princípio, como que uma sensação de que os adultos de repente, no meio de uma conversa qualquer na qual eu estava presente, como por passe de mágica, geralmente despoletado por um evidente a meus olhos, olhar triangular, mudavam o tom, como quem diz o desciam, ou as palavras que passavam a utilizar eram mais esdrúxulas aos meu limitados ouvidos, como se pensassem ao chegar a determinados assuntos, que falando de outra maneira, era como de repente eu deixasse de lá estar, a conversa passasse a ser tipo uma cifra cifrada ao meu entender.

E assim era, cada vez que via tal acontecer, logo se arredondavam mais as minhas orelhas para melhor ouvir numa escuta ainda mais atenta do que a habitual.

Mas as conversas não são só palavras, aliás se me limitar a ouvi-las estarei a cegar-me a todo um conjunto de informação que é na maior parte das vezes mais importante, certeiro e clarificador que as próprias palavras e mesmo que eu não saiba ainda reconhecer algumas, o que resta relativamente a elas é uma curiosidade reforçada e nascente, um bocadinho como na história do fruto proibido, quando mais se o proíbe, maior é a tentação que se gera para o alcançar. E depois, mesmo que eu criança, não consiga descodificar algumas das palavras que oiço, coisa aliás que me acontece quase todos os dias em adulto, tinha uma vantagem relativamente aos adultos, como todas as crianças que ainda não o esqueceram. É que as conversas têm corpo e pele, cheiro, temperatura e paladar e sentimentos. Os olhares, os ombros, as mãos, o movimento do rosto conversam mil palavras numa mesma palavra. As próprias palavras são aquáticas, aéreas, gasosas ou sólidas, secas, às vezes pegam mesmo fogo, outras fazem chover no molhado.

Eupeu espestoupou muipuitopo conpentenpentepe
Lembro-me da Mafaldinha a perguntar às páginas tantas a seus pais se eles tinham ou não decidido e planeado o seu nascimento. Na vinheta seguinte, seus pais embrenhavam-se numa daquelas discussões que parecem sem fim e a Mafaldinha aborrecida no esquecimento deles por ela, retirava-se de cena, sem que o seu pedido de resposta tivesse aparente eco.

Será? Será que uma discussão em que outros dois se envolvem deixando-nos de fora não é por si só uma resposta. Se pensar bem é até uma grande resposta, que me permitiu em primeira instância determinar para mim mesmo o peso específico da “minha própria” pergunta, ao ver que ele ressoa de forma irregular noutro, como quem diz estendida em seus ângulos quebrados, ainda não arredondados na mútua compreensão (fiat lux) entre as aparentes partes (eu e tu), a pergunta e a resposta, que é o que acontece quando se busca por uma resposta à volta de uma pergunta.

Depois estendendo o pensamento no seu varal, permite-me saber se os interlocutores praticam a des arte do diálogo ou a arte da conversação, pois entre estas duas palavras
que são também duas práticas está a diferença entre chegar ou não chegar às respostas.

É bom relembrar que o prefixo, dia, (no) logo quer dizer divisão e é o que geralmente acontece no diálogo onde as partes estão mais interessadas em ouvir o seu próprio eginho e suas opiniõeszinhas, mesmo que não saibam verdadeiramente quais são, por variadas razões, como por exemplo, há muito não reflectir sobre a questão que está em cima da mesa, ou ainda não ter a sua própria resposta e portanto recorrer a um qualquer manual alheio, comprado em alheio olhar. Diálogo costuma ser tipo marcar pontos num qualquer jogo imaginário, mostrar à audiência, que sou melhor ao mais inteligente do que o parceiro, que nem mais é parceiro, pois esse mecanismo costuma determinar o outro, mais como oponente adversário do que parceiro, algo a derrotar, algo a esmagar para eu me poder afirmar, como se esmagar algo ou alguém fosse algo que me torna mais vivo e maior. Bem pelo contrário, esmago-me sempre um pouco quando esmago outrem.

E que interesse tem tal mecânica dialogativa (palavra do meu dicionário privado, como muitas outras, senão mesmo todas)? Sai algum de nós, eu, ele ou os outros com algum conhecimento acrescido? Faz-se o Saber, partilhado? Geralmente não, pois é. Alias como tal seria possível, se aquilo que nos leva a conversar à volta de uma pergunta é por um lado, algo que naquele momento é comum aos dois, e por outro a necessidade de completar um puzzle que antes de mais é meu e depois nosso, pois se tivesse todas as pecinhas para que precisaria eu do diálogo externo?

E depois se eu não te escuto para que falar-te?
E depois se eu não me escuto, de que te posso falar?

Já conversar é outra conversa. Na minha gramática inventada por mim conversar é palavra filha de com versejar. Com de, Contigo conversar e trazer à mesa o Com, que é como quem diz, o meu ponto de vista , o teu e de preferência os outros também. Para quê? Para com por o verso único, versejar, aprender com o teu e com o meu, completar o puzzle, ver a coisa Una, ou seja harmonizar todos os seus contrários que sempre bailam no Grande Verso do Ser.

Com versejar de mãos dadas e dessa foram do dois fazer o um.