terça-feira, março 30, 2004

Oh, tanta coisa dentro de mim, para a mim me dizer, que ainda não sei por onde começar, mas começarei quando o souber porque o prometido é para cumprir, só que seu tempo não é só meu.

Será sempre verdade que o prometido é para cumprir. Eu, por exemplo, quando te prometo uma coisa, obrigo-me sempre a cumpri-la?

Tens que cumprir, porque se não não haveria entendimento nem acordo, se tu mudasses a virgula, minuto a minuto que passa.

Sim, mas os minutos continuam a mudar minuto a minuto e eu com eles e assim aquilo que te prometi, pode no segundo seguinte, deixar de me fazer sentido cumprir. Quantas vezes, já mudaste de opinião sobre um assunto, uma ideia, um sentir.

Sim entendo-te, mas é sempre necessário regular o meu com o teu relógio, para que o entendimento se faça, e assim aconteça. Se tu me prometeres uma coisa e depois no dia seguinte não a quiseres cumprir, poderás sempre de novo chegar ao pé de mim e dizer-me, ontem fiz-te esta promessa, e aqui hoje estou a dizer-te que por estas razões que te apresento, quero e modifico a minha promessa. Aí dirás, ou não dirás de mim, é inconstante, o rapaz, não se pode confiar, ou então és como a própria vida, que te faz.

Poderás dizê-lo, uma ou outra coisa qualquer, e a escolha será sempre tua, mas a questão do cumprir ou não cumprir uma promessa, é sempre antes de mais connosco mesmo. Uma promessa para ser feita a Outro, terá sempre que ser feita a mim mesmo primeiro.

Oh naquela noite, numa cidade, como tantas outras, que é também a minha cidade, desciam meus passos em direcção ao largo do Poeta do Amor, quando a voz que ia à frente, me prendeu olhar.

Belo jovem de cor chocolate, cabelos em finas tranças, parecia juba de leão.
Olhas-te a frase, vermelho grafada na parede de uma casa, que é a mesma casa que habitamos e gritaste a quem te quisesse ouvir, temos que parar com ele, temos de o matar, e aquela frase foi a suficiente para eu te ouvir e apressando meu passo te alcancei.

E queres matá-lo, porquê?
Porque anda a matar gente
Ele? Propriamente não, que não empunha a arma nem aperta o botão da bomba que cai do céu, mas sim, manda fazê-lo e o resultado, assim, é o mesmo, Morte.
Mas se o matasses, não estavas a fazer o mesmo que condenas que ele faça, não te tornarias igual a ele?
…. (os quatro pontinhos do pensamento que se pensa e se vê a pensar)
Por debaixo do Poeta do Amor e Seus Amigos, disse-te, dizendo a mim mesmo, a ti e a Outro, que se o soubesse, a parava nesse preciso momento e as minhas lágrimas correram para fora dos meus olhos.
Quando as viste, reconheceste algo, reconheceste-te, e de repente aí parado me disseste eu sou o … e puxas-te do passe social com foto, aproximando-o de meus olhos para mo confirmar, eu a dizer-te não é preciso, e depois estou sem óculos, de nada serviria, acredito em ti, no que me estás a dizer, que o teu nome é o dizes, pois era o sentir o saber, não as suas palavras.
Depois disseste-me, reconhecendo-me de um qualquer outro lugar, tu és o ….
E eu que sim, aperta-mos a mãos, apresentaste-me quem contigo caminhava e juntos descemos até ao rio.
Contava ela, como tinha sido inútil o apelo do nosso presidente, num caso de uma jovem portuguesa que foi presa e executada num outro país distante, onde as leis assim ainda o são e eu que nem de tal me tinha apercebido…

Esta promessa, Que Te Fiz, se a Quiseres Considerar, Eu não a quebrarei, pois sou eu que meço e julgo e vivo as consequências das minhas próprias promessas, o seu não cumprir ou o Cumprir.

Imagina agora que a promessa é dupla, fruto de um acordo comum, imagina que tu rompes o teu lado, justificará isso, que eu rompa a minha também?



segunda-feira, março 29, 2004

Durante o tempo que vou escrevendo, espetei algumas farpas escritas em mim e ao fazê-lo provavelmente em outros também.
Dei-me geralmente conta, no momento do seu acontecer mas, umas não as corrigi prontamente.
Disse-me então a mim num qualquer momento passado que haveria uma altura que corresponderia ao final deste blog, onde depois de esgotar aquilo que tinha como intenções de escrita, remataria com um texto final sobre essas mesmas farpas que me espetei.
Contudo a escrita em bases regulares tem ela própria outros desígnios, velha questão que muitos antes já levantaram sobre os processos e o acto da escrita.
Sei que a escrita envolve quem escreve se o fizer em acto de verdade consigo mesmo.
E a escrita como espelho da Alma, acaba por colocar à própria, novos desafios, novas questões, ou novas respostas para velhas questões.

Não sei assim tanto, o que se passa na assim chamada blogsfera, mas quando dou por mim a justificar os “erros” que intencionalmente faço na minha própria escrita a terceiros, tenho que parar para pensar, porque justificar para fora, corresponde às vezes, a uma inquietação interna, que corre em nós, qualquer coisa que não está bem.

E se aquilo que escrevemos nos serve de espelho, então uma das coisas que a meu ver se deve tirar dela, é essa possibilidade, dávida da integração, de equilibrar daquilo que dentro de nós se agita.

Não estou em nenhum concurso, se é que o há, e começa-me a parecer nestes últimos dias que sim, e a haver algum, será comigo mesmo, com os outros, conto histórias, leio e converso.
Procuro escrever como procuro viver, em verdade, ou melhor na busca dela. Qual? A minha, que se calhar fará sentido a alguém que a leia e nem isso posso em rigor saber

Sou contudo humano, um simples humano, cheio de imperfeições, que por vezes erra mas que pode enquanto aqui andar, tentar sempre corrigir, sem também não esquecer que o que se fez está feito bem como aquilo que não se faz, não foi feito. Cair sete vezes e levantar-me oito e na esperança que a pedra que me faz tropeçar na nona vez não seja a mesma da sétima.

Acredito que nos podemos sempre melhorar e escrever escutando o nosso coração é uma forma de me melhorar. Mas também é verdade, que a consciência disto, não apaga uma outra, que amanhã posso de novo fazer asneira. Mas a vida é muito curiosa e acaba sempre de uma forma ou outra de nos dar o retorno do que fazemos. E cada vez que reflicto a partir de mim mesmo ou do mundo em volta, sobre temáticas como a verdade, a justiça, responsabilidade, o bem e o mal, novas consciências e aprendizagens faço nestas matérias. É pois um imperativo da minha própria consciência que me leva a revelar, aquilo que considero como erros, naquilo que são já largos meses de escrita quase quotidiana.

Esta é pois a descida ao meu inferno pessoal, no sentido em que creio que ambos, o o céu e inferno estão dentro de mim e de cada um de nós. Quem vive, arrisca a errar e o erro é talvez a forma de se aprender. Para mim, viver, é um projecto em construção permanente, na qual sempre me vou modificando. A escrita é assim também. E se eu não sou aquilo que escrevo, sou eu contudo que a publico, mesmo nas vezes em que sinto que a minha mão é simples veiculo. No fim, se o houver, será então altura de balanço e a Deus deixarei o seu juízo.

Há muitas coisas que não sei, algumas vou sabendo, outras não, de qualquer forma como também o escrevi, ter a possibilidade de corrigir um erro e não fazê-lo é que não me parece ser humano, na forma como eu vejo o humano e também sei que a vida às vezes não nós dá sempre essa oportunidade.

A este assunto voltarei em breve, assim o espero e se a vida, assim também o quiser e me deixar.

sexta-feira, março 26, 2004

Equação económica

Os Empresários do meu País
São Fracos de Espírito
Parem Ratos
Ouvi Dizer

Se Tu fosses Professor deles
O que Farias
No Teu próprio País

Se Corrias Com Eles
Com
Quem
Riqueza
Criarias

Se Fosses como Eles
Não o Serias
E
Seguro
Riqueza
Criarias

Veio o Senhor Doutor
E disse
Aquele outro é asno

Veio o Senhor Engenheiro
E disse
Aquele outro ali é incompetente

Veio o Senhor Padre
E disse
Aquele outro não tem Fé

Veio o Senhor Polícia
E disse
Agarra Aquele
Que é Ladrão

Veio o Senhor Juiz
E disse
Aqui
Há Crime

Veio o Senhor Jornalista
E disse
Aqui não há
Notícia

Veio o Senhor Verde
E disse
Aquele ali
É Vermelho

Veio o Senhor Cubo
E disse
Aquele Ali
É Redondo

Veio o Senhor Silêncio
E disse
Ruído


Aqui

Não Te consigo
Entender

Vim eu
E disse
Cobras e Lagartos
Mas vocês são maus
E eu sou melhor

Veio o Senhor Padeiro
E disse
Ora, ora
O pão
É todo
O mesmo
E a farinha
Tem os grãos
Que tem
Vamos Lá
Dar
A
Mão

Oh Meu Querido Filho
Belo Rebento da Vida
Pela manhã Birrinha
De Quem Desde Sempre
Acha a Escolinha
Longa Demais
Grande Demais
Para Seu Coração
Pequeno E Grande
Na Grande Atenção
Que O Amor
Lhe Dá

Oh Meu Querido Filho
Belo Rebento da Vida
Pela Manhã Birrinha
Solucinho Encravado
Lágrima a Escorrer
Coração a Estremecer

Paciência A Reclamar-se
Oh Que Bom É
Quando a Ternura
E a Paciência
Me Toma

Tem Vezes

Mas Aqui Peço
Ao Amor
Que Todos Os Dias
Assim
Me
Ensine


Oh Meu Querido Filho
Belo Rebento da Vida
Pela Manhã Birrinha
Ânsia dos dias Grandes
Como Tu Lhe Chamas
Dias Soltos
Teu Sabor
Na Grande
Família


Oh Meu Querido Filho
Belo Rebento da Vida
Pela Manhã Birrinha

Não Quero ir p´ra escola
Quero Ir para Casa da AvÓOOOOO

Tu Que Sabes Tudo
Eu Que Não Sei Nada
nem de proposito, o sérgio do antes feio o blog,num dos seus inteligentes textos, cercando este a quadratura dos limites da linguagem e a utilização normativa no post parole, parole, parole

copiei-lhe,

Bizarro - [Do it. bizzarro, pelo esp. bizarro.] Adj. 1. Gentil, nobre, generoso. 2. Bem-apessoado, bem-parecido; garboso. 3. Vestido com elegância; bem vestido. 4. Fanfarrão, jactancioso. 5. Extravagante, esquisito".

Abração Sérgio Gouveia

Oh, tenho lido imensos blogs e ando muito preguiçoso para vos linkar. São gentes como eu , que eu não conheço de carne e osso, por vezes presente-se um reconhecimento que vem do passado longinquo, será que ele hoje diria , isto assim, parece e não parece, mas que importa , se a carne está, e os corações, o sentir , o pensar e a vontade tambem lá estão.
Gosto de vos ler
Inspiram-me
Conversam comigo
Esclarecem-me

e para os espiritos obtusos e calculistas das posicões nos espectros em que enquadram a realidade, é sempre bom recordar, tu podes-me dar isto tudo, sem eu concordar ao limite, em rigorosamente nada contigo.

Bem Hajam Por Existirem

à angela que viaja por terras distantes e nos dá o privilégio de viajarmos com ela, seu olhar e seu pensamento. Para ela, um pensamento especial pelo Post onde se colocava profundas e certeiras questões sobre Ser e Expressar, que ela encontra neste seu caminhar aberto ao nosso olhar

e contudo uma obsessão como lhe chamas, é para mim, uma paixão profunda, que revela mas tambem nos pode ocultar, aos outros e a nós mesmos.

Sarava, angela e os que te acompanham, que os ventos vos sejam favoraveis, os passos leves e que encontrem pela terceira vez a lagoa das aguas trementes da ternura, e lá façam um desejo profundo, para que a partir desse mesmo então, centro, toda ela se espalhe pelo mundo inteiro.


quinta-feira, março 25, 2004

o texto de dia 22, "Existe alguma diferença entre o bombista suicida e um assassinato planeado"
mexeu-se outra vez, cumprindo-se o adágio não há duas sem três. Se haverá quarta, ah isso não sei. escrevia eu neste dia pois acabei de o mexer outra vez neste dia 29 de Abril de 2004

quarta-feira, março 24, 2004

É preciso ao caminhar ir escutando o meu próprio coração, é-me preciso escutar a minha verdade. As coisas são o instante em que acontecem e Elas estão sempre a acontecer. Acontecem e já se foram e a minha acção com elas, conjunta a elas, participado por elas, participante nelas, dá-se naquele breve instante do seu acontecer. Tudo aí se joga, no instante que nos é jogado.

É preciso escutar o meu passado para estar atente ao meu presente, que é aquilo que condiciona a o meu futuro, mas é sobretudo, estar atente ao presente do acontecer, sabendo que todos os meus passados possiveis, os vividos e os não vividos, bem como todos os potenciais futuros estão presentes em cada momento presente.

E quando eu sei de mim, da verdade do que me vai no coração, quando vou atento escutando-me e escutando o alheio, as coisas correm melhor, saem melhor, tem um efeito melhor, se fosse a Galp, diria que adquirem a tal energia positiva.

Ontem à noite quando voltava eu e meu filho a casa na entrada do túnel do viaduto da Av. Estados Unidos da América, mesmo naquele ponto onde começa a descer e por um momento a visibilidade se reduz, dou de caras com um autocarro aí parado. Paro atrás dele e fico a espera de abertura para o ultrapassar, coisa difícil, aquela hora pelas duas principais características do movimento dessa hora, naquele local. Muito e com velocidade elevada, naquela precisa entrada do túnel, onde por um instante se reduz a visibilidade a quem vai a entrar.

Controlando pelo retrovisor, a ver se não viria alguém que não me visse parado, finalmente consigo ultrapassá-lo e vejo no instante, alucinado de o fazer, o que o fizera parar. Um balde branco de tinta de 20 litros em pé afastando qualquer ideia de ter caído em movimento, aí se encontrara no meio da vida, perdão via, de pé paradinho, pela mão humana que aí o colocara.

Ao descer a Avenida coloco-me ao lado do condutor de autocarro e pergunto-lhe

Parou pelo balde não foi?
Sim
È melhor avisar a polícia, pois está num sítio perigoso

Tem aí forma de o fazer, via rádio?
Não
Então avisa você ou eu?

E nesse momento olhámos os dois para Entre Os Campos, onde na curva para o Campo Grande, estavam umas luzinhas de carro da polícia a piscarem, paradas.

Talvez seja mais simples que seja o Senhor a avisá-los, disse-me do enorme tamanho do seu autocarro.
Anui e assim dei conta do ocorrido, parado na rotunda de Entre- os-campos, a virar para os campos Grandes e por debaixo da lembrança da Restauração com um sorriso nascente e crescente de mim mesmo.

quando voltei ao carro, meu filho disparou, o que foi isto? e eu lá lhe expliquei a minha versão do ocorrido, uma bela conversa.
o texto anterior mexeu-se um bom bocado, desenvolveu-se
e é sempre assim, os textos vão-se escrevendo, ou somos nós que os escrevemos?, para lembrar o Poeta

segunda-feira, março 22, 2004

A Violência é filha de uma Dor e tem como Irmã a Vingança.
Existe alguma diferença entre o bombista suicida e um assassinato planeado.

Ambos decidem matar e matam e aqui para mim reside a sua igualdade. Quebra-se a Lei de Que toda a Vida É Sagrada e Tem O Mesmo Valor. Bem sei que cada um terá os seus motivos e justificações para tentar defender os seus actos, mas qualquer motivo ou qualquer justificação, não altera este infeliz facto. Que a Vida é mais uma vez violada.

Chega-me esta consciência para saber então onde me coloco. Reafirmo-me que tem que chegar esta consciência para saber onde me coloco. Ambas matam e a fronteira estabelece-se, aí, nessa linha desenhada por cada um de nós na areia, entre Não Matar ou matar.

Quando me digo que me tem que chegar esta consciência, é porque todas as outras não me servem mais, não me servem para aquietar para saber onde desenho a linha, porque primeiro preciso saber ao certo de mim o seu desenho, para depois desenhá-la.

Não me posso deixar ir pelos ramos infinitos das razões, das queixas e das dores desfolhadas por cada um dos lados, sejam os lados quais forem, porque esta história é a história do Mundo, onde quer que se vá. Não posso ir emaranhando-me ramo em ramo do velho incontável desfiar das dores. Quero voltar rápido ao lugar das raízes, porque a outra estrada é a que sempre se viu, vai dar ao mesmo e tem um sinal claro, cada vez há mais conflitos. Por isso parece-me uma estrada perigosa que vai dar asneira e se assim o vejo, tenho que encontrar uma outra. E Depois, a Vida toda talhada para o Belo e todo este Terror a entrar todos os dias em meus olhos. A fazer pesados os corações.

Parece-me que é preciso chegar as raízes do problema, só assim o poderei ver, porque se a sua manifestação é múltipla como nunca foi, as suas causas parecem-me mais reduzidas em número, quase sempre um mesmo denominador comum.

Nada disto me faz esquecer contudo o desfiar das queixas e das dores de cada um dos lados. Nada disto me faz esquecer as abismais diferenças de forças

Também não me esqueço que desde pequenino nunca gostei de quem se aproveitasse da força física para enxovalhar os mais fracos ou mesmo das alcunhas que serviam para depreciar. Sempre me revoltei com esses tratamentos e creio poder-me dizer que na maior partes das vezes assim terei actuado, com o coração instintivo, rápido como só ele sabe ser na protecção dos mais desprotegidos. Também sei, que houve vezes que não o fiz. Não é isto que fazem os Pais ao proteger os que mais necessitam, os Filhos.

Ver a fragilidade do outro, a limitação, a imperfeição, ou mesmo o defeito e ir lá escarafunchar, fazer sentir o outro ainda mais pequeno e fraco e rir-se à conta da maldade que faz, diz que é um menino que não se ama a si mesmo, que alguem não esteve, para o Belo lhe mostrar. Quem se gosta de si, não desgosta dos outros, quem se gosta de si não precisa de razões para se sentir mais importante, ou mais forte que um outro.

E que era isto no menino de minha idade que o fazia. Só uma dor, uma dor de não saber gostar de si mesmo, de a vida não lhe ter, isso ensinado, não lhe ter mostrado a beleza imensa e infinita do que poderia vir a ser, se ele próprio o fosse, ou melhor fosse, por si mesmo, não por pôr a pata em cima de outro, mas mais como o gato das sete léguas, dar grandes pulos de contentamento e alegria nos dias de seu viver. Conhecer o prazer, o sentido, a paz interior, a ausência dos nossos demónios quando se ajuda outrem, em vez de lhe fazer mal. Conhecer o contentamento e a alegria de proteger a Vida, de faze-la frutificar, de tornar o mundo um local melhor para todos viverem, que eu por mim não quero nem posso deitar ninguém fora.

Que falta de inteligência, até na produção das próprias piadas, sim, porque as piadas também têm famílias como nós, há piadas que fazem o Belo Rir e outras, o cínico rir e entre elas infinitas outras também. Porque então escolher a mais fácil, aquela que se faz a custa da fraqueza do outro, aquele que está ao lado, mais próximo, há mão de semear

Que triste espectáculo, vi alguns de nós fazer, a que triste e feios filmes, tão novo assiti e de alguma forma participei.

E bem sei que as dores se curam pelo toque, pelo olhar, pelo conversar

Estou a almoçar, a comer rolo de carne e a sentir-me relutante em comê-la, pois agora a carne anda sempre demasiado próxima de mim mesmo. Na televisão, uma gaveta metálica, rodeada de mãos, umas querem abri-la e outras não e enquanto observo o impasse, percebo o género de gaveta de alumínio que é e preparo-me para o pior com o garfo a meio caminho da boca. Abre-se e fecha-se num brevíssimo instante, que dá para ver uma estranha cabeça achatada e a massa encefálica cá fora. Todo o meu corpo estremece ao momento, a cara volta-se mas já estava visto.

A Europa condena esta acção e geralmente condenação anda associada a sentença e à sua execução. A Europa condena, as Democracias Europeias condenam, mas nem mesmo me parece ser uma questão de sentença, parece-me ser mais necessário o ensinar do perdão, como quem lembra às partes o que há a lembrar, actuando a vontade de ajudar a parar, agir, interpondo-se, para dar espaço a esse perdoar interno de cada um, da vitima e do vitimado e grafando perdão como aquela dose necessária de anestesia da dor que abre a possibilidade de olhar de novo um outro. pois o sofrimento que vemos é muito grande de lado a lado.

Se bem que os valores da Democracia sejam em momentos como estes mais do que nunca a defender, não deixo contudo de me aperceber que elas não encontram ainda respostas eficazes para estes problemas.

As guerras, eclodem sempre quando se projecta a nossa própria sombra em alguém alheio, num grupo, numa etnia, num sei lá o que, não é só a minha sombra pessoal, ou a tua, é um estado psíquico resultante de muitos assim o fazerem ou a deixarem que outros assim façam por eles.

Quando um grupo grande de pessoas começa a ver outros como diabólicos, perigosos, inferiores ou qualquer outro argumento e quando muitos assim se juntam a sentir, o mal que o homem é capaz, vêm ao de cima, entorna sobre outrem e o sangue corre entre os homens independentemente do lado que estão, num mundo como o de hoje, onde não existem mais, lá ao fundo naquele lugar onde se andam a matar, distante de mim ou de ti. Por outro dizer não há mais lados, há cada vez, um mais, e maior só lado.

As imagens viajam no espaço numa operação quase instantânea e muita gente as vê, é tocada por elas, o acesso a uma enorme quantidade de informação está cada vez mais difundido. Nunca o Mundo se tornou tão pequeno e tão instantâneo no seu acontecer, como hoje.

É preciso efectivamente interpor a prática do diálogo, é preciso conversar, e como não se pode conversar entre tiros e bombas, primeiro têm que aparecer os homens necessários, que é o mesmo que dizer, os suficientes para se interporem. Este papel é geralmente mais fácil de ser interpretado por alguém fora das partes, que aqui convém recordar, são também sistemas Democráticos, sendo os votos de cada um que habitam esses lugares que elegem as pessoas que os governam.

Depois umas horas mais tarde na televisão, uma reportagem com aquele que foi morto dos céus com três morteiros ao sair do templo onde orara.

Imagens de um homem frágil, que precisa de ajuda para se mover, para lhe levarem a barba. E contudo, ao que se diz, inspirador de um sem fim de atentados, de mortes.

Depois ele diz, anseio há quarenta anos ser mártir, e nesse mesmo dia que o estou a ver, tinha-se realizado o seu desejo.

Quando o Jornalista lhe pergunta se o seu filho decidisse tornar-se mártir, como ele reagiria, a sua resposta, é de que ficaria feliz por essa decisão.

Eu por mim vou levá-lo a sério, mesmo muito a sério

Aquele homem e muitos outros, mulheres e também crianças, que tentam morar ali ao lado, não conseguem viver, serem felizes, vejo-as a andar de pedras, armas e bombas nas mãos. A vida e a felicidade, são coisas que se só se constroem em tempos de paz.

Aquele homem acha que sacrificando a sua vida e mesmo a de seus filhos se justifica para que a vida dos outros seus, venha a ser melhor.
Alguém que valoriza a sua vida dessa forma, mais facilmente disporá das vidas alheias, daqueles que tiver considerado como inimigos.

Uma questão reduzida a matar e morrer. Não sei de entre os múltiplos nomes de Deus, um que defenda a morte face a Vida, que opte pelo terror em detrimento do Belo.

E os mártires tem pelo menos um sempre mesmo efeito, aumentam o fogo, dão novas razões para que matança continue.

Também dou conta que aquilo que motiva alguém que o faz ou manda fazer é muito próximo da visão religiosa do Ocidente, muito mais próxima do que, uma por vezes, clamada divergência com o Oriente. Não interpretamos como o maior acto de amor, o sacrificio que Cristo fez, morrendo por todos nós, para nos permitir a salvação. E contudo Ele fê-lo pela Vida, não pela morte de outrém.

É preciso efectivamente interpor um espaço, que quer dizer entre as partes e curar as dores mais fortes e mais agudas para que se possa conversar, e como não se pode conversar entre tiros e bombas, primeiro têm que aparecer os homens necessários, que é o mesmo que dizer, os suficientes para se interporem. Este papel é geralmente mais fácil de ser interpretado por alguém fora das partes, que aqui convém recordar, são também sistemas Democráticos, sendo os votos de cada um que habitam esses lugares que elegem as pessoas que os governam.

Só me parece existir uma forma de estar para acabar com o terror, para poder-mos viver num mundo sem ele. Inventando as formas para que não se quebre a lei de que toda a vida é sagrada e tem o mesmo valor, porque também é terror, viver num mundo que nos mostra que parece que afinal ela não tem toda um mesmo valor e contudo tem.

E depois se isto acontece na mesma casa comum, a outros que basicamente são como eu, a que poderei se assim os quiser ver como irmãos, não chega saber só onde me coloco, mas tambem agir a partir e em conformidade com o meu ponto de vista. Velar com muitos outros, para que a Vida se possa Afirmar.

Tambem é certo que não chegará só conversar, é preciso imaginar, acordar e implementar soluções que terão de ser distintas das até hoje apresentadas, fácil de deduzir, face aos resultados que se tem obtido. Isto é fácil de deduzir, o dificil é fazê-lo.

Dentro de mim
Existe o Paraíso
E seu Irmão Inferno
Se um Muito me eleva
Seu Irmão Muito
Pequeno me torna

Dentro de mim
Existe a Luz
E Sua Irmã Treva

Se uma Muito Me Aquieta
Outra muito Me Perturba

Eu Sou
Juiz do Meio
Ouço Uma
Ouço a Outra
E Decido Qual
Me Acompanha
No Meu Passar

A Primeira Me Diz
Eu Ajudo-te
A segunda
Posso Ajudar-te?

E Não É a Ajuda
O Ajudar
E a Pergunta
O Não Saber

Ajuda de Ajudar
Ou a Dúvida
De Sim Ou não
Ajudar

E Não Deito
Porque Não Posso
Metade de Mim
Fora

E Tu
O Outro
És Igual a Mim
Ou Só a Metade de Mim


Terrorismo
Uma palavra sem género
Não
Tem um Género
Que é o Género Humano
Pois Entre Nós Acontece
Nas suas múltiplas configurações
O terrorista
A terrorista
Ou Um outro Qualquer
Um Outro Qualquer?
Sim
Porque Eu não o Sou
Se tu Também não o És
Terá que ser Um outro
Aquele Ali a passar ao fundo
Que Basta Meus Olhos
O Verem Como Estranho

Outro que Me Digo
Não Conhecer
Ou que Me Dou
Ao Luxo
De Não Querer
Conhecer

Porque não será um
Caro Luxo
Dizer-me Que não
Conheço As Minhas Trevas
E Chutá-las Para Um Outro
Que vai a Passar
Esquecendo
Que a Bola e a Baliza
São num Mesmo Campo
E Que Só Te Passo a Bola
Porque Ambos
Estamos a Jogar


Eu, Tu ou Um Outro
Não Seremos Todos
De Um Mesmo Género?
Humanos

Então como Um Outro
Poderá Ser a Besta
E Eu Um Anjo
Só Cheio de Luz?
Oh Pai, deixa-me dizer-te como gosto de ti
Oh Pai, como no outro dia Minha Mãe dizia
Lembra-te que És o fruto desta União
Vossa Longa União
E Eu Lembro-Me
E Agradeço
Por Vós
A Vida
A Luz

Salve, Minha Mãe
Salve, Meu Pai
Desculpa Pai
Por Salvar
Primeiro a Mãe

Mas em Pequenino
Pensava
Quando esse Pensar
Me Entreteu
Que se a Minha Mãe
Sempre a Conheceria
A Ti Talvez não

Contudo se não te tivesse
Conhecido
Não era Eu
Pois da União da Minha Mãe
Com outro Pai
Nasceria
Outro
Diferente de Mim
Distinto
Daquilo
Que hoje Sou

Depois
Pensei
Se Aquilo
Que sou
Sou Eu

Poderia
Ter sido gerado
No corpo
De Outra Mãe
Pelo Meu Pai

Seria como andar
Com o teu corpo
Sendo Contudo
Eu
Bizarra ideia
Num mundo
Bizarro,
Dizes?

Agradeço-Vos
Mãe e Pai
De Me Fazerem
Maravilha
E Maravilhado
Neste Fugaz
Momento do Existir
Aqui


Agradeço-Vos
Mãe e Pai
Por Me Fazeres
Participar
Em todas as coisas
Que existem
Por Poder Rolar
No Verde Prado
Por o Sol que me Aquece
Pela Lua
Que me Oculta
E Me Revela
Pelo Meu Filho
Sorriso
Sorrindo
Num Mesmo
Firmamento







sábado, março 20, 2004

Oh Mãe
Que Trazes no Regaço
Portugal

Que aqui se dá conta
As gentes de Teres Aparecido

O Mãe Santa de Portugal
Cujo Nome
É Oriente e Ocidente
Todo Reunido
Seja Outra Vez

Oh Mãe que te Preocupas
Com os Teus Filhos
Olha para Mim
O Que te Peço

Oh Mãe Vida
Oh Mãe Que Dás a Vida
Oh Mãe Que Geras a Vida
Oh Mãe Carinhosa
Oh Mãe Toda Feita Carinho
Oh Mãe Que Enterneces
Oh Mãe Que Embalas
Oh Mãe Que Amamentas
Oh Mãe Que Cuidas
Oh Mãe Que Vigias
Oh Mãe Que Amparas
Oh Mãe Toda Perdão

Perdoa-me das ofensas
Que te faço
Mesmo quando
Não sou eu
Que as faço
Mas deixo fazer
Porque aquele
Que Assim deixa Acontecer
É Tão Responsável
Como aquele que faz

Perdoa-me de Andar Cego
À Tua Imensa Beleza
Perdido na ilusão infinita
Das múltiplas formas e apelos
Fragmentos que me agarram
Fragmentos eu deixo
Que me agarrem
E em fragmento de mim
Me torno
Sem Ti em Mim

Perdoa-me de Não Saber
Proteger
Todos os Teus Filhos
E fechar meus olhos
À Morte de um Filho
De Outro Pai
Que Morre ao Lado

Oh Mãe não
Me olhes
Não mo dês
Que Eu Sei
Razões de Sobra
Tens
Para Comigo
Te Zangares

Rogo-te
Ouve Só
Aquela Mãe
Que Em Madrid
Entre os comboios
Torcidos
Clamava
Como Grafava
Naquele
Preciso
Instante
Toda
A Estupefacção do Mundo
Naquele Tom
Tão irreal
Quanto neutral
Tão Por Isso
Fortemente
Real

Isto não pode ser assim.

Oh Mãe
Lembra-te que
Aquela Mãe
É também Mãe
Como Tu Própria
O És

Oh Mãe, Santa, Teu espírito é o Espírito de Todo o Infindável Amor, Teu espírito é o espírito do Infindável Perdão. Faz correr teu uterino leite na memória dos homens à noite quando adormecerem, faz-lhes recordar o doce sorriso, o quente colo, a luz da paz, o doce afago da Vida, Imensa Aventura, Ventura, do Viver.
Recorda-lhes com teu peito os alvos leites jorrantes, amamentantes e aconchegantes.
Recorda-lhes com Teu Ventre a Dança do Doce Amor Eterno

Oh Mãe Santa
Reconhecida
Pára
A Dor
Amanhã
Ontem
e
Depois

quinta-feira, março 18, 2004

Telegrama um: gen. Literário sincrético. Vou de mim para ti. Stop. Não tenho tempo de te explicar tim tim por timtim. Stop

Não há Terrorismo, há Terror
Não há Terroristas, há actos do Terror
Não há combate ao terrorismo, há prevenção de ameaças de actos do terror
Há bombas a arrebentar, ontem mais uma em Bagdad
Longe ou perto?
Mas sobretudo, há que acabar com o Terror
Também há o Belo
Também há o Amor
Também há falá-lo
Também há Fazê-lo
Também há Abundância e Miséria
Também há excesso das duas
Também há Morte
Também há Vida
Também há Opção

Agora das duas uma. Stop. Um, decide dizer que eu estou louco. Stop.
Dois, pensa no assunto, pensa porque o digo assim. Stop. Se quiseres, obviamente. Stop. A linguagem que usamos revela sempre a forma como olhamos o Mundo e da forma como o vemos depende o agir.


Telegrama dois

De pai aflito para mundo aflito

Não, não estou tranquilo da forma como se está a fazer a prevenção dos actos de terror.
Dou detalhes a quem os solicitar e a quem eu julgue poder dar.

Telegrama três

Aquele Senhor Francês a quem eu reconheço uma certa bonomia na forma de estar, pai como eu, só um pouco mais velho. Seu corpo faz-me sempre lembrar um sempre em pé, afunila numa cabeça pequena para aquele corpo grande, alarga para a cintura e estreita para os pés.

Exprime-se com gestos grandes ao falar. Geralmente fala o que lê e isso leva sempre a uma interpretação desfasada que compensa com os gestos de mão como a dar-lhe mais veracidade.

Suas mãos faziam um gesto redondo, começavam juntas, afastavam-se cada uma para seu lado, desenhando o círculo e ao encontrarem-se de novo, encaixavam um momento uma na outra, para depois recomeçar o eterno pautado redondo de suas palavras. Eu ouvia-o, e retinha seu gesto de Aunar o Mundo, tudo o que dizia era o mundo no circulo das suas mãos.





Das suas palavras retive que só se acabava com o terror no mundo quando se acabasse com a fome e a miséria. Parecem-me sábias palavras.

Depois fiquei a pensar que já as ouvi muito. Só que agora há toda uma diferença. Sabes qual é?

Antes podia-se só dizê-lo, como quem diz, dizê-lo e não fazê-lo e pouco se passava, e por pouco se ter passado, agora a pergunta e a necessidade da resposta é posta diariamente à Bomba

Espero que o Senhor Tenha consciência disto, pois para além de ser um homem rigorosamente igual a mim ou a ti, desempenha funções de chefe de estado numa democracia europeia.

Vamos Fazê-lo ou ficamos no jogo do um dó li tá, quem está livre, livre está.
A Paixão de Cristo.

Não, não me chames louco, excêntrico, mito poético, real, irreal, deprimido, neurótico, com a mania da perseguição, de andar ou mesmo sentir pós-modernista, ou ainda outra coisa qualquer, que a minha intenção é clara. Não me comeces a rotular, pois rotular é só uma forma de arrogância sobranceira ao outro que leva sempre a um mesmo resultado, à imprudência face ao outro, e a imprudência é geralmente meio caminho andado para a desgraça.

Vem então comigo neste pensar, pois o que eu estou aqui a fazer é claramente, querer ajudar, estou a pensar sobre o que sei e não sei e a partilhá-lo contigo. Uma intenção de dar, de partilhar.

Uma das coisas mais estúpidas que poderíamos fazer num momento como este num mundo onde tudo o que se acredita tende a ser possível, seria não olhar com muita atenção, humildade e respeito os pontos de vista distintos dos nossos, e distinto do meu, é já o teu. Bastam portanto dois, e depois se pensarmos o mundo de hoje em rede, rapidamente imaginamos a aparente infinita multiplicidade de pontos de vista e acções decorrentes.

Depois, seria bom também não confundir prudência com um andar de mãos no bolso, ou fechadas em punho face ao desconhecido que quer dizer só aquilo que é diferente, e que de repente imaginamos como perigoso e assim o criamos com o nosso próprio medo, porque o que então acontece é que o outro ao sentir o nosso medo, activa também o seu em seu coração. O medo pega-se, é contagioso e o que se passa basicamente quando dois se cruzam, é uma troca de sinais, que mostram a vontade de cada um e a vontade é a resultante da forma como se vai. Prudência parece-me ser exactamente o contrário, olhar olhos nos olhos, olhar frontal e não de soslaio, olhar que se mantém, que não é breve no olhar, que se deixa respirar, que respira, que se deixa pelo outro entender, com tranquilidade e calma nos passos e no coração, dar-se a ver ao outro em vez de esconder.

Verdade, como sei eu a verdade, pergunta Pilatos à sua Mulher, que lhe devolve o olhar perturbado pela perturbação da pergunta que seu marido lhe revelara.
Pois sabe a Mulher, que nem rei, nem julgador era, aparente mera Esposa, destrinçar aquilo que seu marido não sabe e como quem sabe, só pode ficar perturbado quando alguém não o sabe, porque é sabendo, que é outra forma de escrever verdade, que se alcança a Paz.

Pilatos é só um homem como eu ou tu a julgar outro homem que por acaso é filho de Deus. Pilatos é um homem agarrado entre o deve e o haver, apertado pelo seu chefe César, mesmo com o pescoço na corda por assim falar, a desempenhar um papel entre diversos grupos de pressão e a tentá-lo gerir com habilidade.

Nenhum homem em perfeito juízo pode saber a verdade por empréstimo alheio, embora seja o alheio que a traga. Por outro dizer, quando não sei a verdade, não posso chegar ao pé de ti é pedir-ta, tipo dá-me a verdade. O que tu podes fazer se te comportardes como irmão amado, será dar-me a dávida do teu olhar, sabendo que sabes que é ai que tens de parar, o resto é sempre comigo próprio.

A Mulher de Pilatos cujo nome eu não sei, o que também não deixa de lembrar como a história é contada numa óptica por assim dizer Apolínea, sabia a verdade.

Sabia a verdade, porque ao contrário do que muitos comentadores profissionais afirmam, não é necessário traduzir a realidade para os outros, que nesse momento em que o dizem eles próprios, se tornam outros distantes de outros, os nozes, e aqui acontece a fractura introduzida pelo seu próprio pensar, eu versus o tu, não mais o eu e tu, mas adiante.

A Mulher de Pilatos sabia a verdade porque cada um tem por assim dizer o seu próprio quinhão dela, qualquer um sabe ver a verdade por debaixo das aparências, mesmo quando não compreende as palavras daquele que observa. Nunca vi em ninguém do povo, analfabeto e rural, desde que pequeno me lembro de mim, Alguém, que não soubesse julgar, escrevendo aqui julgar como averiguar e decidir para si mesmo do agir. Da infância recordo os seus sábios e grandes corações, abertos, averiguadores e portanto conhecedores.

A Mulher de Pilatos sabia a verdade porque andava nas ruas do dia a dia, misturava-se com o povo, ouvia as gentes que vinham de longe e contavam as novidades, e mesmo sem ver o filho de Deus, via-o nas caras e nas palavras das gentes, na concordância do canto e do cantado em seu coração.

Deixava-se estar a Mulher, aquietando-se olhava dentro de si, num fim de tarde e via em seu próprio lago se as palavras, a ele atribuídas, lhe faziam sentido, se se encaixavam na sua forma de sentir, se lhe eram concordantes, e que sim, era como se fossem palavras que lhe punham falares que sempre existiram na sua forma de ser e de estar. De repente percebera que a verdade já não era só sua, como que uma solidão, se dissolveu em seu peito, a verdade era a sua e a de muitos outros.

Contudo a mim parece-me que Seu Marido Pilatos, já teria visto a verdade em Sua Mulher quando ela lhe disse, avisando-o, não condenes aquele que te trazem, pois é um homem Santo. Quando Pilatos lhe pergunta qual é a verdade, o que ele está verdadeiramente a perguntar-se, é como é que ele gere a verdade em relação à sua complicada vida e de compromisso em compromisso desatento leva também ele entre muitos outros, o filho de Deus, à Morte Humana.

O que é a verdade se não integração, integração interna daquilo que dentro choca, ou choca de dentro com o fora ou de fora para dentro, ou mesmo num dentro e fora que é um mesmo, mas que ao chocar, choca e ao chocar, é como quem está dizendo, esta meia, não é deste pé, este pé não é deste sapato, este coração está fora do coração.
E não é a harmonia a quebra da contenda, o arritmado que se torna o ritmo, a colcheia que se encaixa na nota, o coração que floresce e faz florescer.

quarta-feira, março 17, 2004

Oh Mãe
Oh Mãe de Todos
Mãe Única de Todos
Abraça-me
Muito
Faz-me
O
Aconchego
Do Amor

Oh Mãe
Que em
Meu Peito
Está um Enorme
Soluço Encravado
Que Por
Meus Olhos
Nestes Dias
Está Saindo
Todo
O Mar
Inteiro
Sem Fim
De Dor


Oh Pai
Perdoa-Me
Que Eu
Não sei
O que Faço

E Sou Teu
Filho
Como Tu És
Pai
Do Outro
Que é
Meu Irmão

Oh Pai
Que o Amor
É Sempre Maior
Que Qualquer Dor
Que O Amor
Cura A Dor

Oh Pai
Que És Filho
Lembra-te
Sempre
Do Doce
Amor

Asas Que
Te Voam
E
Te
Fazem
Voar

terça-feira, março 16, 2004

Ontem a cidade levantou-se com o Irmão Sol, quente a nos aquecer de uma forma, que eu por mim já não me lembrava que podia existir, de tal forma fria e triste tem estado a Alma em minha companhia. Sol, de uma Luz Cruíssima, quase ofuscante, como quem nos lembra que a Primavera se sucede sempre aos Invernos se a vontade dos homens assim o determinar.

A Luz simboliza a Verdade

Obrigado Irmão Sol por me aconchegares neste dia e em todos os adiante, por começares a derreter este imenso choque emocional que paira sobre toda a terra de há uns dias para cá e que nos trás a todos de coração pesado, entristecido e preocupado.

Irmão Sol, deixa-me pedir-te que me aqueças amanhã também, porque o que hoje senti foi ainda pouco para apagar a dor que trago em meu peito e vi nos dias que passaram as caras vazias, olhos e olhares baços, as almas ausentes, os corpos como autómatos sem saber para onde ir ou de como ir, em muitos dos meus irmãos.

Fui de carro de Lisboa a Cascais e decidi ir pela marginal com os seus severos limites de velocidade, 50, 60, pois não tinha pressa e depois quando a fragilidade da vida de cada ser humano, nos cai em cima desta forma, parece que de repente a pressa se aquieta e damos valor a outras coisas como ao andar a essa velocidade poder usufruir da paisagem, participar nela pelo olhar, pelo sentir. Ah estava quente, estava um cru azul, estava o rio, estava o mar. Ah estava quente e foi assim o quanto eu me apercebi que estava com frio, parecia mesmo que o frio teimava em resistir ao Sol, assim ia e assim vim.

Olho o mar, o eterno mar, as praias da linha cheias de gente jovem a aproveitar aquele belo dia e tudo é lindo de se olhar, sereno e tranquilo, apetecível e muito.

Vi também muitas entidades policiais em diversas acções de controlo, junto ao tráfico dos Tir no rio, na estrada e na auto-estrada e senti-me de alguma forma protegido por aquela vigilância em acção que observei.

Ao voltar ao chegar no mesmo habitual sítio onde habitualmente está uma patrulha, um outro condutor na via contrária, faz-me o clássico sinal de luzes a avisar, e nós próprios, sempre os primeiros a tentar facilitar, a tentar a argúcia mal aplicada, passar ao lado a assobiar baixinho fazendo batota.

e são tempos para Todos andarmos vigilantes no plano pragmático das coisas e dos dias. E ser vigilante é de certa forma andar com a Verdade dentro de nós


sábado, março 13, 2004

Não, não acredites que não podes fazer nada. Pensa um bocadinho mais na questão.
Mas eu sou só uma gota no meio de tantas outras
Sim, mas as gotas estão juntinhas no mesmo único mar
Todas elas se tocam e tocam e movem o próprio mar
O tamanho não importa, o Ser é que sim
Vem a onda a enrolar e eu gota sou levantado num instante ao céu
E todo o mesmo mar por baixo se contrai a ocupar o espaço que eu deixei
Quando por fim, volto a descer, todo ele se expande para me acolher
E certo será, que mesmo que não veja o outro lado do mar a expandir-se
Ele continua a mexer-se, fruto do Meu e do Teu Ser
Sabes, a realidade é como uma padaria
Mas o mundo de hoje parece ser mais uma linha de fábrica
Onde eu faço um parafuso e tu apertas a porca seguinte
Nem eu nem tu vemos os dois juntos e acabados
O padeiro não
Faz a massa com as mesmas mãos que tiram os prontos pães do mesmo forno
E depois se é bom ser a mesma farinha
Nas vezes que tal acontece
E onde tudo pela agua se liga
A mesma que faz o sangue

Não fiques à espera
De outra gota
Quando Tu próprio a És
Corre Gota de Amor
No Único mesmo Mar

quinta-feira, março 11, 2004

Hoje mais um dia de olhos rasos de água de mar salgada. Tudo isto é um absurdo, penso ao pensar na reunião importante que vou ter, hoje já não pode ser para mim dia de reuniões, não sei mais do que tinha de falar e passado pouco tempo deste sentir pensar, o telefone toca a adiar a reunião que eu almejava há já muito tempo.

Depois ouço na televisão muitos líderes da Europa a dizerem toda uma mesma coisa. Que vão acabar com o terrorismo, que a policia os irão apanhar e que os tribunais irão punir os responsáveis e fico aqui a pensar que nada disto é real.

Pois o que vejo, todos os dias é ele a aumentar, independentemente de uma maior colaboração entre as policias, os serviços de informação e os sistemas de controlo. Por outro lado ao pensar em profundidade parece-me infantil, como um desejo infantil sem nexo nem consequência que estas soluções possam efectivamente acabar com o terrorismo. O mundo é muito grande e é impensável controlá-lo a todo, ou controlar todos e cada um de nós. Haverá, ou melhor, a realidade prova, que há sempre um buraco de agulha por onde uma bomba ou mesmo treze como hoje aconteceu aqui ao lado, irá sempre detonar. Infelizmente mais uma vez provado. Madrid na semana passada, parou uma, hoje passaram treze e nesta hora o sangue e a carne que é todo um mesmo, continua a escorrer da vida para a morte dos que iam a passar.

Não vou repetir na escrita o que já disse aquando do acontecer das bombas em 20 de Novembro de 2003.

Mas as imagens rodopiam dentro de mim, revelando o que está sempre religado e minha tristeza e preocupação aumenta. Recordo que houve um político português, creio ter sido um único que na altura ousou dizer o mesmo na televisão. Só não sei se para além de dizê-lo actuou nesse sentido, na secreta esperança que sim, pois esse seria sem dúvida um caminho de redenção, até no plano mesquinho e restrito do partido a que pertence e esse partido, como qualquer outro partido, tem ligações pelo mundo fora, contactos abertos que poderiam ser accionados.

O que agora vejo dentro de mim, para a frente, assusta-me. Não, não o vou escrever, não lhe vou dar nenhum corpo neste papel, que não o é. Vou só pensá-lo, meditar sobre esta inquietação, tentar resolvê-la dentro e fora de mim, pois perdoem-me a minha forma de ver, mas para mim, são ambas, lados, de uma mesma coisa.

Os eixos do mal, não estão num plano externo a mim ou a ti, como muito se houve dizer
E então sobe-me avassalador à minha consciência a conversa de ontem à noite, que girava sobre episódios de violência que cada um contava ter vivido. Chegou-se rapidamente ao sempre mesmo ponto.

Espera aí, que eles não são como eu, não somos todos iguais. Não, somos todos iguais e diferentes e poderemos agir sempre de formas distintas, mas se na história que contaste, se tivesses um facalhão igual àquele que te ameaçava o que farias? Se a quadratura do momento, que é a tua vontade e a do outro te pusesse o dilema de morrer ou matar o que farias?

Uma arma empunhada na mão é sempre um perigo, meio caminho para a derrocada, um sempre mesmo facilitador de uma sempre mesma solução, violência que se paga com violência e que gera novas violências. E então agora, que esta guerra, nem mãos visíveis tem, as bombas foram colocadas por umas que os que foram agora despedaçados nem chegaram a conhecer e aquilo que não se conhece nem se pode mesmo chegar a defrontar, como da mesma forma, não se pode fugir do que não se conhece que irá acontecer.

Violentas contudo não são as armas, mas a intenção de quem num momento as usa, mas violências são também a fome e a falta de condições básicas de viver, das crianças no mundo que morrem sem ser ao tiro e à bomba, antes de chegarem aos cinco anos de idade, mesmo quando não são as bombas que descem dos céus que as matam, mas a minha e se calhar a tua tem o que comer e contudo as crianças são todas iguais, riem de barriga cheia e choram bebés com a fome.

Psicose securitária, falava disto, há poucos dias, o Senhor responsável da segurança do euro, pondo a tónica que o nosso país e as nossas gentes sempre respeitaram e almejam a liberdade individual e que não se deveria portanto exagerar nas medidas de segurança e a forma como o entendo neste ponto, vem-me de toda a história, recheada de acontecimentos semelhantes onde as ameaças e a sua concretização sempre serviram para limitar a própria liberdade de cada um, retirando num ápice, aquilo que os homens demoraram muito tempo a construir.

O mesmo dizia por outras palavras ao bocado na televisão, Jorge Sampaio afirmando que estes acontecimentos não destruiriam aquilo que ele considerada Sagrado e que pretendia extenso a todos nós, a Paz e a democracia. Da Paz não tenho dúvida de ser Sagrada, mas mesmo antes dela não está a própria Vida?

Paz é necessária à Vida, para que ela se afirme, a democracia, essa já tenho mais dúvidas embora perceba o que ele quis dizer. Democracia é um sistema de organização da Vida com bastantes problemas como se vê. Não, não me escutes como um desejo de retorno a um qualquer velho e ultrapassado ismo, mas se calhar amanhã no mundo, o sistema chamar-se-á de outra maneira, mesmo que transporte em si todo o que de bom ela teve e tem, como outras sistemas de organização anteriores, como por exemplo, o antigo matriarcado.

Perdoa-me dizer-te isto, pois eu sei que não pus nenhuma bomba, nem em pequenino, atada a um gato como vi outros contarem e quero acreditar que tu que agora me lês também não o terás feito, mas quem terá posto esta, a de ontem e de amanhã?
Será a eta, que não me parece ser neste caso especifico pela forma como aconteceu, ou uma outra qualquer organização terrorista que no mundo de hoje está tão ligada e colaborativa com outras tantas, da mesma forma que as policias entre si, ou seremos todos nós que as deixamos acontecer?

O crime e o castigo

Então um dos juízes da cidade adiantou-se e disse
Fala-nos do Crime e do Castigo
E ele respondeu

Quando o espírito
Se põe a navegar sobre o vento,

É que devido apenas à vossa imprudência
Magoais os outros
E portanto vós mesmos.

E por essa injustiça cometida
devereis chamar
e esperar um instante, desatendidos,
à porta dos eleitos.

O vosso eu-divino
É como o oceano

E permanece para sempre
livre de toda a mancha
e, como o éter
sustenta apenas
o que é alado

Como o sol
É o vosso eu-divino

Não conhece os buracos da toupeira
Nem as tocas da serpente

Mas o vosso eu-divino
Não habita apenas vosso ser

Ainda é humano
muito do que há em vós
e muito do que há em vós
ainda é humano

mas antes um pigmeu informe
que caminha adormecido no nevoeiro
em busca do seu próprio despertar

Agora gostaria de falar
do homem que há em vós

Porque não é o vosso eu-divino
Nem o pigmeu no nevoeiro
Que conhecem o crime
e o castigo do crime

Amiúde, vos tenho ouvido falar
De alguém que comete um delito
Como se não fosse um de nós
Mas um estrangeiro
E um intruso no vosso mundo

Ora digo-vos
Que assim nem como o santo
Nem o justo
Se podem elevar
Acima do mais alto
Que mora em cada um de vós

Também o malvado e o débil
Não podem cair mais baixo
Que o mais baixo
Que mora em cada um de vós

E assim como nem uma só folha
Se torna amarela
Sem o silencioso consentimento
De toda a árvore

Assim o malfeitor
Não pode fazer mal
Sem o oculto assentimento
De todos vós

Como em procissão
Caminhais juntos para o vosso eu-divino

Vós sois o caminho
E sois o caminhante

E quando um de vós tropeça e cai
Fá-lo para precaver
Os que vêm atrás dele
Como advertência
Contra a pedra do tropeço

Sim;
Ele cai por aqueles que vão adiante
E que embora mais ágeis
E de pé seguro
Não afastaram a pedra do tropeço

E ficai sabendo
Ainda que as palavras
Caiam pesadas nos vossos corações:

O assassinado não é irresponsável
Pelo seu próprio assassinato;

E o roubado não está livre
Da culpa de ser roubado

E o justo não é inocente
Dos actos do malvado
E aquele que não tem mancha
Não está limpo
Das acções do réu.

Mais ainda:
O culpado é muitas vezes
A vítima do ofendido

E, ainda com mais frequência
O condenado é que leva a carga
Em vez do irrepreensível
E inocente

Não podeis separar
O justo do injusto
E o bom do mau

Porque eles estão juntos
À face do sol
Como são tecidos juntos
O fio negro e o branco

Se um de vós
Julga a esposa infiel
Ponha também na balança
O coração do marido
E meça a sua alma com cuidado.

E aquele que quiser açoitar o ofensor
Olhe bem, antes
O espírito do ofendido

E se um de vós quiser castigar
Em nome da rectidão
E descarregar o machado
Contra a árvore do mal
Olhe também as suas raízes

E, por certo
Encontrará as raízes do bem e do mal
Do frutuoso e do estéril
Entrelaçadas
No coração silencioso da terra

E vós, juízes,
Que quereis ser justos:

Que sentença pronunciareis
Contra aquele
Que, embora seja honesto
Segundo a carne,
É ladrão, segundo o espírito?

Que pena aplicareis
Àquele que assassina segundo a carne
E é ele próprio
Assassinado em espírito?

E como julgareis
Aquele que nas suas acções
É um impostor e um tirano,

Mas é também
Ofendido e ultrajado?

E, como processareis aqueles
Cujos remorsos são já maiores
Que os seus delitos?

Não é remorso
A justiça administrada
Por essa mesma lei
Que tão bem quereis servir?

Contudo,
Não podeis impor o remorso
Ao inocente
Nem arrancá-lo
Do coração do culpado.

Espontaneamente
Gritará de noite
Para que os homens vigiem
E pensem.

E vós que sois chamados
A compreender a justiça
Como podereis fazê-lo
A não ser examinando todas as questões
À plena luz do dia?

Só então sabereis
Que o justo e o caído
São apenas o mesmo homem
De pé no crepúsculo
Entre a noite do seu eu-pigmeu
E o dia do seu eu-divino

E que a pedra angular
Não é superior
À pedra mais funda
Dos seus alicerces

( Khalil Gibran, livro , o Profeta, editorial A.O. Braga)

A lua se põem e amanhã será de novo o sol a aparecer, hoje a morte chegou a muitos vivos e estamos para aqui todos muito tristes e revoltados. Até à proxima bomba. Ah, que hoje à noite joga-se futebol.

sexta-feira, março 05, 2004

Desculpa-me dizer-te assim, pois sei que vais achar um pouco rude e a responsabilidade de ser pai, não te faz desejar ser de outros, de ânimo leve. Os filhos só existem porque eu sou teu filho e tu és filho de uns outros entes queridos que nos quiseram e que já se foram, alguns sem mesmo nunca nos terem conhecido, e contudo se me puser a escutar baixinho, posso senti-los dentro de mim.

Meu filho, teu neto, é teu filho, é filho de mim, dos avós e se olhar lá bem no fundo da curva, cada vez mais vejo graus de parentesco afastados a tornarem-se próximos, cruzados e cruzamentos, até chegar ao primeiro homem e primeira mulher, será? Seremos assim todos, tão verdadeiramente irmãos?

O meu filho é igual ao teu filho, os filhos são todos iguais aos filhos e os pais sempre pais. A carne é toda a mesma, o sangue que corre nas veias da mesma cor, vermelho rubro e a lei e o motor do universo, Um mesmo, o Amor.

A dor que sentes em teu próprio peito quanto teu filho está em dor, é igual a que eu sinto no meu quando é meu filho a sofrer.

Oh perdoa-me por te dizer que a dor irmana, pois sei que isto é feito para o paraíso, um sorrir, um riso e um alegrar, como quando as crianças correm felizes.

Depois abro as janelas do meu olhar, devagarinho para não tentar enlouquecer, à crueza da fria luz do real que de rompante me atordoa, num mundo que de repente vejo de pernas para o ar. Serei eu ou será ele, que assim se encontra, ponho-me a pensar…

São milhões as crianças que não viverão mais de cinco anos, ténues flores ainda quase sem hastes e fico-me a pensar, não temos nós o saber e os meios para resolver uma questão como esta?

Ah se eu fosse tremendamente rico em euros, oferecia aviões, um sistema de produção alimentar integrado e digitalizado, um ininterrupto carrossel aéreo, onde certamente, até os aviões gostariam de voar. Depois pegava nisto tudo e ia ter com o banco contra a fome de forma a apetrechá-lo a Banco Mundial Contra a Fome. Depois, voava ao Brasil, pois lá decorre algode intenção similar, a ver de que forma poderíamos colaborar.

Ah, agora perdoa-me de misturar tão belo desejo do espírito com coisas tão aparentemente vis como as moedas, que o espírito e as moedas andam sempre de mão dadas, são ambos humanos. O dinheiro não é o diabo em si, nem só causador dos males entre os homens, como tudo, depende da forma como se usa. Então ponho-me a imaginar que o sistema que Portugal e o Brasil juntos inventassem, poderia até vir a ser fonte de receitas para os países, pois o problema está em toda a parte e de repente ouço-te já ao fundo de uma qualquer rua, a clamar, pecado, mas então, não é que ele quer fazer dinheiro com a erradicação da fome.

Não, não fiques nesse absurdo discurso de velho amigo meu do velho Restelo, que no fundo de todas essas dúvidas reside uma certeza, que para acabar com a fome e a miséria no mundo, o dinheiro será sempre necessário, pois todos o iremos pagar, mas não esqueçamos que pagar não é necessariamente não ter receitas, ficar mais pobre, com menos dinheiro, haja a habilidade de as receitas se tornarem sempre maiores do que as despesas. E depois, no dia em que as moedas, se transformarem em hóstias de câmbio ou noutra coisa qualquer, lá falaremos deste assunto, de novo, outra vez.

Poderia um desidério como este, tornar-se como o europeu de futebol, nacional, ou mesmo europeu ou mundial?

Depois fico a imaginar um bocadinho o que tal desidério erguido como vontade individual e colectiva, Portugal, poderia ter de impacto em nós mesmos e na forma como o mundo nos vê.

Recordo, que energia, que vontade percorreu Portugal e então se expressou, quando milhares de aparentes estranhos por todo o país se derem as mãos num mesmo clamor, Oh como vibrou então a Alma de Todo Portugal.

Auto estima. O que nos faz andar bem dispostos, que é o que acontece quando nos sentimos bem na nossa própria pele? Viver de acordo com a consciência, de acordo com aquilo que sentimos ser o belo e o bem, para quando te olhar, ter de mim, a imagem alegre e contente?

Talvez viver de acordo com a Lei ajudasse, tê-la como vontade, e sair correndo pratica-la, sabendo como vão meus passos, talvez se começasse-mos a endireitar as coisas básicas do mundo, nos começássemos a sentir mais bem dispostos, felizes, mais alegres, numa só palavra, motivados, que vos parece? Talvez a vida se tornasse menos complicada e não se tomassem tantos calmantes.

Ás vezes, parece-me que confundimos a árvore com a floresta, são tantas as dores, as complicações que não conseguimos mais ver as árvores centrais, dividimos assim o nosso mal-estar, por cada uma das pequeninas árvores da floresta, mas se calhar o assunto resolve-se mais facilmente se se pensar que basta talvez, mudar as árvores nucleares.

Aquelas que parecem mais improváveis de se mudarem e contudo, ao pensar em profundidade nelas, cada vez mais me parece, que se alteradas, seu efeito seria, como luzinhas que decidiram um dia acenderem-se todas, num mesmo momento, numa mesma vontade.

Cala-te rapaz, o mundo sempre foi assim e será, cresce, qual endireitar as coisas, já tantos o tentaram antes de ti, e o que deles resta? Um punhado de pó, um outrora de boas intenções esbroadas sem apelo nem agravo pelo passar das horas. E Ensina quanto antes, teu filho assim, prepara-o para o mundo tal qual ele é. Sempre as crianças morreram antes de tempo, sempre se matou.

Chama-me rapaz ou mesmo criança que meus ouvidos se alegrarão. Delas sou amigo, contudo, quero ousar das horas que passam, serem minhas, ser eu a avaliar o que delas faço, pois antes de mais tenho de viver comigo mesmo e olha que a vida não é um punhado de pó, quando acontece, pode ser muito mais que isso.

Perdoa-me meu filho por viveres num mundo que gira ao contrário dos valores do amor e insiste em que eu continue a educar-te para a esquizofrenia, para a cisão pois a Lei do Amor não é Regra de um Único Real.

Perdoa-me a rudeza de mostrar o sagrado e o profano como duas faces de uma mesma moeda humana, mas um anda sempre enredado no outro e vice-versa, é tipo caso de amor fulminante e fulminado. Não desgruda mais. O Sagrado não é coisa distante de um qualquer céu inacessível ao olhar ou ao tocar, o Sagrado é o Humano. Sagrada é toda a vida e que toda a vida tem o mesmo valor.


Perdoa-me baixar a conversa do céu para a terra, pois rude sou ao dizer-te que a vida é assim mesmo, que o céu e a terra se encontram como que misturados num mesmo plano. Existem céus mais claros e aconchegantes e outros mais escuros e ameaçadores da mesma forma que acontece na terra, e o que se faz num afecta o outro, como quem escreve, repercute-se no outro nível de realidade do mesmo único e múltiplo plano.

Uns pais sem vontade, num mundo também sem grande vontade, uma desmotivação, uma constante e desde muito apontada fractura na nossa própria imagem, que afecta a auto estima e portanto tende a complicar a vida e os negócios de todos nós. Poderá ser assim, mas penso no madrileno que antes de sair de casa para trabalhar lê no jornal que nessa manhã uma carrinha de explosivos preparava-se para explodir no centro da cidade e arrebentar com todos e tudo que estivesse à sua volta nos primeiros 600 metros.

Uma guerra, um novo tipo de guerra que se repete todos os dias um pouco por todo o planeta. A guerra não local, pronta sem eu o tu o saber a arrebentar sobre a minha e a tua cabeça no momento inocente em que criamos ir. O medo a residir no coração dos homens, os muros da mútua desconfiança a crescerem e os anúncios do ardor da contenda, para ser suave na forma de escrever, que o que geralmente se vê, são corpos decepados.

Ponho-me a escutar os meu próprios botões se é lá fora ou cá dentro que reside o medo. Como está meu coração, se inquieto e agitado a tudo em sua volta agitar, ou um outro agitar, aquele que sentimos quando nos move o desejo e a vontade do que já sabemos querer. Um antípoda do outro, um que quando treme põem todas as coisas em volta agitadas, fora de ritmo, pois então, é ele, o arritmado. O outro batendo no próprio ritmo, rápido, também, mas em uníssono com as coisas à volta.

O coração do outro embora sendo um mesmo é sempre do outro. Dou conta que dentro de mim pode residir ora um ora o outro e que a minha vontade é a porta que que ao escolher um, afasta o outro

O amor move-se porque é curioso, amor abre-se ao outro, entrega-se e recebe em pura inocência. Amor é achar que o Outro nos amplia, nos torna melhores, que com ele se pode aprender, que nos tornamos mais completos, é compaixão, tolerância, compreensão, integração

Repara então, que o céu e o inferno estão, residem também dentro de nós, é aquilo que decido sentir face a algo, a escolha é sempre minha.

Oh, meu filho, que o céu não se pode decretar por decreto, nem por voto democrático, para que o céu se revele inteiro como me parece que é, parece-me necessário que, primeiro ele, se revele dentro de cada um de nós e que cada um por ele opte. Sendo aqui o revelar, coisa concreta, Querer e Andar com o Céu cá dentro.

E depois ainda é preciso saber se falamos do mesmo céu. Para mim o céu é como viver nos braços do amor, Amar muito e Muito ser Amado, toda a antítese da miséria e da violência.

Perdoa-me meu filho que eu não sei explicar-te isto, não sei porque os homens o fazem, nem mesmo sei se é o mundo ou eu mesmo, que está de pernas para o ar. Não percebo como estas coisas acontecem em nome do Amor. São trevas, nuvens escuras num mesmo único céu azul que escurece quando assim acontece.


Então puxando a conversa para as entranhas da terra no sítio onde se produz a riqueza, imagino que o sistema que os países inventassem se traduziriam num arranjar das nossas terras produtivas, de uma forma ordenada, criadora de emprego, fora de limitações de quotas de produção pois esse pensar mais não teria razão de ser. Produzíamos para a Vida para o Mundo, não para a Europa, que talvez quem sabe, se comovesse e alinhasse nessa batalha.

Depois fico-me a pensar Portugal como uma marca, o que não lhe retira rigorosamente nada do que ele é, independentemente do plano em que o olhar, não sendo portanto nenhum sacrilégio ou heresia.

Hoje as grandes marcas sabem que são as ideias e os valores que a elas estão associados, e a forma como se vivem, ou de outra forma, como se tornam reais, que fazem a diferença, isto perante um consumidor cada vez mais informado e exigente e com preocupação de toda a natureza. As marcas grandes são assim confrontadas com a necessidade de desenvolver posturas face a questões que cada vez mais se tornam a agenda dos dias, questões éticas, morais e abrangentes.

Qual será o valor de uma tal ideia no mundo?
Qual é o valor do propósito de acabar com a miséria e a violência?
Qual seria o impacto deste pensar e agir na nossa balança externa.

Muitas das empresas portuguesas e brasileiras embarcariam nesta caravela de luz na mais bela cruzada de sempre naquela que seria recordado muito tempo depois como a última das cruzadas, no tempo em que os homens ainda não se sabiam entender. Traziam também ao voltar, novos negócios e receitas para Portugal.

Perdoa-me de te mostrar assim a realidade, toda misturada, mas é assim que ela aparece a meu olhar. Desço agora os degraus da cave onde me encontro a escrever e então um desejo me interrompe, quando isto for concretizado, por favor, enviem-me alguns euros pois eu tenho uma renda a pagar, e um filho para cuidar. Sou só um pequenino homem para aqui a escrever, não um Santo.

E já se infiltra um novo pensamento, será possível um sonho deste concretizar-se na realidade e organização politica em que hoje vivemos? O que se teria de mudar?

Cala-te rapaz, deixa de dizer baboseiras, que idade tens? Não pareces, pareces mais ter 4 anos de idade, vê se cresces e rapidinho, se não teu futuro…..

Pois calado estou, estive foi a escrever e está escrito.