quarta-feira, abril 14, 2004

Sarava, Belos Irmãos viajantes
Que me deixam pérolas
De quentes afectos
Sarava pela percepção
Do Fruto do Gostar
Sarava Irmãs Mulheres
Por Essa Certeza Afirmada
Que as Crianças
São Fruto da Arvore do Amor
Que Eu Gostava
Que Este Mundo
Mais Feminino
Fosse
Mais Doce
Mais Paz

Contudo Estes Textos
São Tanto Meus Como Teus
Tu Deles Farás
O Que Quiseres
Sentidos Sim
Sentidos Não
Lhes darás
Por Isso Quando Me Elogias
Não Te esqueças de Fazer
O Mesmo a Ti

Se Sou Boa Pessoa
Já Sei Quão fácil
É Fazer mal
Sem Querer
Mais Fácil
Ainda
Quando
Querido

Tento Ser
Talvez
Seja
Nesta
Hora
Minha
Resposta
É mais fácil
Ser Bom em Paz



Aquele menino
Ali
Em si mesmo
Olha a realidade
Com os dedos de sua mão

Movimenta
Redondos e
Pautados Gestos
Ritmo das coisas
Do Acontecer

É Rápido
Como Um Vento
Seu Sentir
Sua Cabeça
Seu Pensar
E Seu Agir


Já não filmava a minha cidade, as gentes da minha cidade, as gentes que nos visitam, o sol, o calor daquela tarde, aquela luz, aquela água daquela precisa fonte, aqueles cartazes de pub que contavam a história que eu ia a filmar. Oh, dos Restauradores, descendo pela R. Augusta até ao Terreiro do Paço, bem, não bem isso, não passar do losango por debaixo do Arco que marca as horas e ficar a olhar ao longe o que não se via, o rio.

O Senhor engraxador que colocou o cachimbo quando o convidei a falar sobre o 25 de Abril, o que foi para si, que dispara um discurso rápido, de aparentes estranhos sentidos
Antes era mais físico agora é mais psicológico, se posso falar com Deus porque falar com os Anjos, Eu vim de lá da guerra, foi um dos últimos a sair e desde que aqui cheguei comecei a ter problemas, há alguns Senhores que não querem falar comigo, as listas, mas eu insisto, orgulhoso em já ter sido actor secundário de um filme, ia-lhe bem o cachimbo, um misto de marinheiro em sua barba.

Depois no fundo da boca do metro, o acordeonista cego, um mesmo que eu encenei em Madrid há talvez 20 anos, um com quem se cruza o rei menino a quem o cego pergunta o nome e responde, me llamo Madrid, e com quem no final caminham pela noite mais o ursinho de peluche para o horizonte, com a lua a pôr-se, o cego conduzido pelo menino ou seria o menino pelo cego, salta-me a memória que agora se encena no presente em que vou.

Em Madrid durante o dia o cego passeava nas avenidas de betão, sem vivalma à vista, cego ele e cega a cidade a ele e contudo o cego vê com os outros sentidos de uma forma que eu só recordo na meninice usar, um apuro no tocar, no cheirar, no ouvir, no degustar. Um cego vê muito, só não vê as imagens com os seus olhos, mas no seu sonhar, vê-as como nós os que vemos, as vemos.

Depois o voar das pombas
Depois as pessoas a passar
Depois as sempre conversas
O eu tiro a ti, tu tiras a mim com o estrangeiro louro com câmara como eu
A mesa dos asiáticos e os sorrisos de gato com viola ao vivo nas mãos de artista
Pop-off
Olha o paulo forte
O risco da água da fonte com céu azul por detrás
Os cartazes de publicidade revolução nas máscaras
Empréstimos para comprar casa em 45 suaves anos
Depois o cego da guitarra
Depois a florista
Depois o cheiro a castanha assada
Depois a Breve Entrada Na Igreja
O pedinte nos seus degraus
Depois os livros na tenda no meio da rua
Depois a simpática homem estátua com caveiras nos óculos
O Banco com o Veleiro de Pedra
A lingerie beije na montra
Os destinos de atinos turísticos

E depois
Aquele sempre criança negra que me aparece às vezes quando filmo, entre o Terreiro do Paço a ver-se já o rio e os Restauradores, que sempre se mete pela câmara dentro em alegre riso e serpenteante macacada, e que ali naquele momento volveu.

Pedacinhos de imagens de um dia qualquer de calor de primavera, onde a alegria e a boa disposição reinava quase como a competir com o azul do céu, eu a olhar pela câmara, ou as coisas a olharem-me através dela?
O príncipe em Madrid, esse conduzia a cegueira para o fim da noite, pois a seguir vem o Sol.

Sem comentários: