segunda-feira, janeiro 26, 2004

Tudo isto é fátuo, espirro e já foi, se nos lembrássemos disto todos os dias quando nos levantamos, quão diferente o mundo seria
Aí, eu sinto o meu coração a bater. Baque, foi a chegada do Amor e eu não o vi, porque não é essa a cara do retrato que dele trago no bolso. Aí, eu tive um baque no coração e ele parou.

É assim que se sente o Amor chegar e eu que estava tão esquecido disso só me apercebi do baque, depois do baque se dar e quando qualquer coisa se dá e nós só a percebemos depois, é como que já não se tivesse dado, ou por outras palavras, já foi.

Depois fica a saudade do futuro, aquele que se calhar, ia noutra direcção diferente da que fiquei.

E quando estamos com saudades, quando estamos com saudade de alguém, de alguma coisa, entretemo-nos a sonhar aquilo que já fora, ou a sonhar o futuro daquilo que já acabou, e enquanto sonhamos aquilo que já fora, que não chegara a ser, ou virá a ser, não estamos aqui, no momento presente.


Vem até mim
Despida
Sincera
Leal
prolongando o natal...

Perguntaste-me como passei o meu dia de natal não sabendo o que eu sinto em relação a ele e dizendo que pelo teu lado se passou como um dia normal. Que te direi, que o natal não é um dia para mim mas também não é o ano inteiro.

Eu explico, o natal é mais como um trânsito, um encadeado preciso de momentos que se expressam numa certa configuração num determinado compasso de tempo. Como nuvens consteladas de ideias, de sentires, de pressentires, que pairam no ar de todos nós, nos permeiam e nos fazem reviver um sempre mesmo Mistério.

Poderia chamar-lhes dominantes arquétipas de um mesmo cíclico momento, porque ao ser por muitos relembrado e vivenciado se torna eterno repetido momento, ou por outras palavras, um conjunto de questões que sempre nos aparecem num mesmo ponto da mesma volta, a acenar as escolhas que tem de ser feitas, a encenação dos lados das questões e dos seus motivos, o caminho da redenção.

E vejo-te já a fugir para o fundo da sala, escoceante no teu racionalismo a que tenho que relembrar que é necessário o mesmo grau de fé tanto por quem acredita como por quem não acredita, sendo que verdadeiramente a palavra certa não é acreditar, é mais viver, vivê-lo, viver essa dimensão no plano existencial, cada dia, e ao vivê-la, vivificá-la, fazê-la actuar no Mundo ao Redor.

Por isso talvez seja melhor dizer que a diferença se estabelece entre quem o vive e o não o vive, embora a segunda parte da proposição não me pareça sequer verdadeira. Todos o vivem, nem que por breves instantes nos tempos das suas vidas, memórias escondidas, perdidas lá no fundo, por debaixo dos medos e das cicatrizes que o caminho fez.

Alguns são tão profundamente feridos que se esquecem durante eternidades, como princesas e príncipes encantados, que essa luz, que dá sentido à realidade verdadeira, está sempre lá, é só preciso escutá-la e acendê-la e que esse tempo (o tempo tem vontade própria como nós, independente) venha a nós, ou em rota de colisão ou doce abraço à nossa própria vontade de a ir acordar.

Só depende se estamos a jeito, como quem diz nos pomos a jeito dele. Não adianta apressá-lo, como que desejando que ele aconteça, nem atrasá-lo no medo do Novo.

Chame-lhes o que quiseres, Energia, Força, Luz, Deus, Grande Arquitecto, princípio inteligente, Amor ou pássaro a voar, pois são múltiplos seus nomes, mas contudo, a mim afigura-se uno na infinita multiplicidade da sua expressão, casa, casas múltiplas onde reside a sua beleza, espelhando-se na alegria do jogo entre todas as singulares diferenças, expressão infinita do Belo, que é só outra forma de descrever a eterna criança envolvida no belo eterno, a desfiar, a espelhar e espalhar esse mesmo Belo.

Porque a realidade é como um espelho, para que ela se me afigure bela, tem meu olhar de a ver bela, tem de ser o meu olhar a Beleza em Si. E isto não é assunto de religião menor esotérica não sabendo a quê, a que lado de fora, é mais da forma do nosso andar no dia a dia, coisa muito básica, mesmo.

É sair tranquilo para a rua, escutante ao que ao acontece, deixá-lo acontecer, decidir ao sair, sair alegre, ao sair, decidir ser feliz, hoje vou ser feliz, hoje vou estar feliz, hoje eu quero estar feliz, um sorriso ajuda e muito e abre a porta à alegria, este é seu segredo. E tentar não perder o humor porque há dias em que se perde a boa disposição por completo, tal é a feiura do que se nos atravessa ao caminho, e é nesses, precisamente, que é mais preciso tê-lo.

Para que tal aconteça é necessário ter o coração balanceado, em harmonia com a nossa natureza que se torna então o nosso querer, tarefa complicadíssima nos dias que correm, assim como naquele outro tempo antigo em que o Menino Nasceu, pois matavam-se Meninos como hoje se matam.

As flechas estão ai por toda a parte, cravam-se no nosso corpo, fazem o sangue rolar para a terra, não sei se foram 12 os passos da crucificação que neste último natal vivenciei, mas foram muitos, e contudo isto não acaba neste mês, é mais o seu contrário, este é o mês em que o Menino Nasce, depois há toda a vida pela nossa frente.

Como então num tempo tão conturbado, como todos os tempos de outrora, obter a harmonia interior geradora da harmonia exterior?

Parece-me ser este o núcleo do mistério da redenção, a possibilidade interna, que reside dentro de nós, que é simultaneamente parte externa a nós mesmos, por isso comum, única, e então no casar o que nunca esteve separado, gerar o equilíbrio dinâmico interno que se torna externo, o sopro do espírito, do coração, aquele que unifica, faz do longe e do afastado, perto, que pacifica, que dá a certeza ao andar, A luz do caminho.

Um caminho, um apontar com que me dizendo como quem me relembra, que a via está aberta, que há uma possibilidade de sair do conflito que parece eternizar-se, que nos apoquenta a todos, como quem diz, nos torna pequenos. Pequenos no ser, pequenos nas acções, pequeninos deuses com pequeninos poderes.

Eu não tenho de Deus nem Imagem nem Experiência de carácter cisionário, de cisão, esquizofrénica que apresenta múltiplas imagens de uma só realidade, que lá está sempre, sempre, por detrás e contudo essa mesma realidade, desdobra-se em múltiplos planos que se abrem proporcionalmente ao ver de cada um.

Eu para mim levo de forma muito literal a afirmação de que nós fomos criados a sua imagem e semelhança e esta consciência faz-me nele participar, ser por ele participado e se assim o for, somos todos seres transcendentes, capazes de nos transcender, capazes de transcender a dualidade, as múltiplas dualidades internas que se projectam na realidade que nos parece externa, colam-se a ela como grude, com que as coisas à volta nos aparecem.

Então estamos no reino da imaginação que acontece, que faz acontecer, uma operação de energia num plano profundamente mágico, fundado no mais velho de cada um dos seres, uma realidade para mim tão real como os milagres que acontecem na minha vida desde que me lembro, pois eles estão sempre a acontecer e digo-vos um segredo, eles são possíveis, eles existem, tornam-se reais

O Menino é coroado Imperador, Aquele que Governa, pelas suas qualidades de Imaginar, pela sua Criatividade.