quinta-feira, fevereiro 19, 2004

Sabes, eu não tenho muitas histórias de futebol ao vivo, contudo recordo uma daquelas em que o real de repente se abre de forma desconhecida ou surpreendente. Uma daquelas que nos confirma, que às vezes, a chamada realidade ultrapassa aquilo que convencionamos chamar de ficção.

Na fila em baixo, um Senhor com ar de reformado, parcas posses mas remediado, kispo cintado cinzento, como aqueles que se deixaram de ver há uns anos e boné a condizer, assim, começara eu a vê-lo.

No relvado os guerreiros tentavam enfiar a bola no buraco alheio e protegido.

Os habilidosos guerreiros construíam emoções, rasgos de génio, momentos de acerto e desacerto e grandes ohhhs de quase, nãooooo, foi por um triz. Tanto eu como o Senhor, estavamos por assim dizer, banhados por aquela emoção colectiva que a todos perpassava.

Os olhares começaram a cruzar-se expressando os comentários de certa jogada, os corpos aproximavam-se chegando a tocar-se nos levantares exclamativos e um brilho nos olhos, que quando acompanhados, constroem no real um certo desejo, começara a acontecer.

Assim íntimo no sentir, com aquela emoção que une, chegara o intervalo. O Senhor retira do seu bolso uma sandes e virando-se para mim disse, é servido? Agradecendo declinei e fui dar uma volta.

Quando voltei o Senhor, retira então do bolso uma enorme e verdadeira pistola prateada tipo Colt 45, exibindo-a diz-me, eu estou prevenido, eles que venham, que eu os receberei. Atónito ao momento, pensei para os meus botões, quem seriam eles? Para depois perceber que se referia aos adeptos da outra equipe.

Estranho homem, tão gentil como mostrara ser e contudo eventualmente preparado na sua cabeça e acção para uma das maiores violências. De gentil a besta, tão fina a fronteira. Basta o medo residir no meu coração.

Espero que agora existam detectores de metal nos estádios.