sexta-feira, fevereiro 20, 2004

As imagens são emoções. Ver uma imagem é senti-la, é viver uma emoção. Uma emoção é uma constelação de afectos que nos afectam. Que aparecem ali num preciso momento do tempo espaço, se atravessam a nós e atravessam-nos como, um súbito arrepio de prazer ao chegar.

És tu com quem me cruzo, o Sentir que Trazes e que És, o Sentir que eu Trago
e que naquele momento Sou, o Meu Sentir do Teu Sentir e o Teu Sentir
do Meu e ainda o Sentir de Todo o Universo que presente Nos Sente.

O meu sentir e o teu sentir só é diferente quando aparece desigual, tu a sentires uma emoção diferente da minha ou vice-versa, porque as emoções são as mesmas, já eu e tu outrora as sentimos, só por isso é que nos podemos sentir um no outro, como em cada um de nós.

As imagens mergulham na memória associadas a uma carga emocional específica. Um certo conteúdo, que relembro, a meu ver, é sempre também uma forma, fiado como quem diz tramado, pelo momento e circunstâncias do que se viveu, que é só outra forma de dizer, das emoções que então se sentiram.

Matrizes compostas por tons diversos, cores distintas que habitam numa mesma imagem.


Tu para mim foste a atenção
Tu para mim foste a amizade
Tu para mim foste a ternura
Tu para mim foste o carinho

Ou o seu Anverso
Ou uma outra
Obliqua qualquer

Porque a imagem de um conteúdo emocional é mais como uma constelação. Formada, por diversos sentimentos que se viveram e da valorização que na altura lhe atribuímos. Pode sem dúvida existir um planeta maior, ou seja, uma dominante como quem diz, o Tom mais forte da imagem, a cor mais viva, mas elas geralmente são compostas como qualquer cor o é. È como um bolo, 259g gramas de atenção, um ovo e meio de Imaginação curiosidade, 3 litros de água alisada e uma força para o amassar. Depois vai ao forno, cozer como quem diz, cristalizar e nesse estado desce a uma prateleira da memória.

Entre muitas outras maneiras, mergulhamos na memória através de um elo emocional, presente, mas que nesse momento se descobre familiar, a um outro, outrora vivido. É como uma remissão, um certo sentir presente desperta um certo sentir outrora sentido e aparentemente parecido. Então, se a imagem actual é diferente da que já passou, só a emoção é equivalente, mas se, uma imagem é uma emoção e uma emoção, uma imagem, o que acontece, é que trazemos para o presente a imagem passada colada ao sentimento equivalente àquele que no presente sentimos.

Da mesma forma, as imagens que dormem no fundo da nossa memória, despertam e vêem a superfície, interrompendo-nos por assim dizer, o nosso presente, atravancando-se no real do momento, como um véu, cobrindo-o por substituição e impossibilitando dessa forma o Ver.