quinta-feira, março 11, 2004

Hoje mais um dia de olhos rasos de água de mar salgada. Tudo isto é um absurdo, penso ao pensar na reunião importante que vou ter, hoje já não pode ser para mim dia de reuniões, não sei mais do que tinha de falar e passado pouco tempo deste sentir pensar, o telefone toca a adiar a reunião que eu almejava há já muito tempo.

Depois ouço na televisão muitos líderes da Europa a dizerem toda uma mesma coisa. Que vão acabar com o terrorismo, que a policia os irão apanhar e que os tribunais irão punir os responsáveis e fico aqui a pensar que nada disto é real.

Pois o que vejo, todos os dias é ele a aumentar, independentemente de uma maior colaboração entre as policias, os serviços de informação e os sistemas de controlo. Por outro lado ao pensar em profundidade parece-me infantil, como um desejo infantil sem nexo nem consequência que estas soluções possam efectivamente acabar com o terrorismo. O mundo é muito grande e é impensável controlá-lo a todo, ou controlar todos e cada um de nós. Haverá, ou melhor, a realidade prova, que há sempre um buraco de agulha por onde uma bomba ou mesmo treze como hoje aconteceu aqui ao lado, irá sempre detonar. Infelizmente mais uma vez provado. Madrid na semana passada, parou uma, hoje passaram treze e nesta hora o sangue e a carne que é todo um mesmo, continua a escorrer da vida para a morte dos que iam a passar.

Não vou repetir na escrita o que já disse aquando do acontecer das bombas em 20 de Novembro de 2003.

Mas as imagens rodopiam dentro de mim, revelando o que está sempre religado e minha tristeza e preocupação aumenta. Recordo que houve um político português, creio ter sido um único que na altura ousou dizer o mesmo na televisão. Só não sei se para além de dizê-lo actuou nesse sentido, na secreta esperança que sim, pois esse seria sem dúvida um caminho de redenção, até no plano mesquinho e restrito do partido a que pertence e esse partido, como qualquer outro partido, tem ligações pelo mundo fora, contactos abertos que poderiam ser accionados.

O que agora vejo dentro de mim, para a frente, assusta-me. Não, não o vou escrever, não lhe vou dar nenhum corpo neste papel, que não o é. Vou só pensá-lo, meditar sobre esta inquietação, tentar resolvê-la dentro e fora de mim, pois perdoem-me a minha forma de ver, mas para mim, são ambas, lados, de uma mesma coisa.

Os eixos do mal, não estão num plano externo a mim ou a ti, como muito se houve dizer
E então sobe-me avassalador à minha consciência a conversa de ontem à noite, que girava sobre episódios de violência que cada um contava ter vivido. Chegou-se rapidamente ao sempre mesmo ponto.

Espera aí, que eles não são como eu, não somos todos iguais. Não, somos todos iguais e diferentes e poderemos agir sempre de formas distintas, mas se na história que contaste, se tivesses um facalhão igual àquele que te ameaçava o que farias? Se a quadratura do momento, que é a tua vontade e a do outro te pusesse o dilema de morrer ou matar o que farias?

Uma arma empunhada na mão é sempre um perigo, meio caminho para a derrocada, um sempre mesmo facilitador de uma sempre mesma solução, violência que se paga com violência e que gera novas violências. E então agora, que esta guerra, nem mãos visíveis tem, as bombas foram colocadas por umas que os que foram agora despedaçados nem chegaram a conhecer e aquilo que não se conhece nem se pode mesmo chegar a defrontar, como da mesma forma, não se pode fugir do que não se conhece que irá acontecer.

Violentas contudo não são as armas, mas a intenção de quem num momento as usa, mas violências são também a fome e a falta de condições básicas de viver, das crianças no mundo que morrem sem ser ao tiro e à bomba, antes de chegarem aos cinco anos de idade, mesmo quando não são as bombas que descem dos céus que as matam, mas a minha e se calhar a tua tem o que comer e contudo as crianças são todas iguais, riem de barriga cheia e choram bebés com a fome.

Psicose securitária, falava disto, há poucos dias, o Senhor responsável da segurança do euro, pondo a tónica que o nosso país e as nossas gentes sempre respeitaram e almejam a liberdade individual e que não se deveria portanto exagerar nas medidas de segurança e a forma como o entendo neste ponto, vem-me de toda a história, recheada de acontecimentos semelhantes onde as ameaças e a sua concretização sempre serviram para limitar a própria liberdade de cada um, retirando num ápice, aquilo que os homens demoraram muito tempo a construir.

O mesmo dizia por outras palavras ao bocado na televisão, Jorge Sampaio afirmando que estes acontecimentos não destruiriam aquilo que ele considerada Sagrado e que pretendia extenso a todos nós, a Paz e a democracia. Da Paz não tenho dúvida de ser Sagrada, mas mesmo antes dela não está a própria Vida?

Paz é necessária à Vida, para que ela se afirme, a democracia, essa já tenho mais dúvidas embora perceba o que ele quis dizer. Democracia é um sistema de organização da Vida com bastantes problemas como se vê. Não, não me escutes como um desejo de retorno a um qualquer velho e ultrapassado ismo, mas se calhar amanhã no mundo, o sistema chamar-se-á de outra maneira, mesmo que transporte em si todo o que de bom ela teve e tem, como outras sistemas de organização anteriores, como por exemplo, o antigo matriarcado.

Perdoa-me dizer-te isto, pois eu sei que não pus nenhuma bomba, nem em pequenino, atada a um gato como vi outros contarem e quero acreditar que tu que agora me lês também não o terás feito, mas quem terá posto esta, a de ontem e de amanhã?
Será a eta, que não me parece ser neste caso especifico pela forma como aconteceu, ou uma outra qualquer organização terrorista que no mundo de hoje está tão ligada e colaborativa com outras tantas, da mesma forma que as policias entre si, ou seremos todos nós que as deixamos acontecer?

O crime e o castigo

Então um dos juízes da cidade adiantou-se e disse
Fala-nos do Crime e do Castigo
E ele respondeu

Quando o espírito
Se põe a navegar sobre o vento,

É que devido apenas à vossa imprudência
Magoais os outros
E portanto vós mesmos.

E por essa injustiça cometida
devereis chamar
e esperar um instante, desatendidos,
à porta dos eleitos.

O vosso eu-divino
É como o oceano

E permanece para sempre
livre de toda a mancha
e, como o éter
sustenta apenas
o que é alado

Como o sol
É o vosso eu-divino

Não conhece os buracos da toupeira
Nem as tocas da serpente

Mas o vosso eu-divino
Não habita apenas vosso ser

Ainda é humano
muito do que há em vós
e muito do que há em vós
ainda é humano

mas antes um pigmeu informe
que caminha adormecido no nevoeiro
em busca do seu próprio despertar

Agora gostaria de falar
do homem que há em vós

Porque não é o vosso eu-divino
Nem o pigmeu no nevoeiro
Que conhecem o crime
e o castigo do crime

Amiúde, vos tenho ouvido falar
De alguém que comete um delito
Como se não fosse um de nós
Mas um estrangeiro
E um intruso no vosso mundo

Ora digo-vos
Que assim nem como o santo
Nem o justo
Se podem elevar
Acima do mais alto
Que mora em cada um de vós

Também o malvado e o débil
Não podem cair mais baixo
Que o mais baixo
Que mora em cada um de vós

E assim como nem uma só folha
Se torna amarela
Sem o silencioso consentimento
De toda a árvore

Assim o malfeitor
Não pode fazer mal
Sem o oculto assentimento
De todos vós

Como em procissão
Caminhais juntos para o vosso eu-divino

Vós sois o caminho
E sois o caminhante

E quando um de vós tropeça e cai
Fá-lo para precaver
Os que vêm atrás dele
Como advertência
Contra a pedra do tropeço

Sim;
Ele cai por aqueles que vão adiante
E que embora mais ágeis
E de pé seguro
Não afastaram a pedra do tropeço

E ficai sabendo
Ainda que as palavras
Caiam pesadas nos vossos corações:

O assassinado não é irresponsável
Pelo seu próprio assassinato;

E o roubado não está livre
Da culpa de ser roubado

E o justo não é inocente
Dos actos do malvado
E aquele que não tem mancha
Não está limpo
Das acções do réu.

Mais ainda:
O culpado é muitas vezes
A vítima do ofendido

E, ainda com mais frequência
O condenado é que leva a carga
Em vez do irrepreensível
E inocente

Não podeis separar
O justo do injusto
E o bom do mau

Porque eles estão juntos
À face do sol
Como são tecidos juntos
O fio negro e o branco

Se um de vós
Julga a esposa infiel
Ponha também na balança
O coração do marido
E meça a sua alma com cuidado.

E aquele que quiser açoitar o ofensor
Olhe bem, antes
O espírito do ofendido

E se um de vós quiser castigar
Em nome da rectidão
E descarregar o machado
Contra a árvore do mal
Olhe também as suas raízes

E, por certo
Encontrará as raízes do bem e do mal
Do frutuoso e do estéril
Entrelaçadas
No coração silencioso da terra

E vós, juízes,
Que quereis ser justos:

Que sentença pronunciareis
Contra aquele
Que, embora seja honesto
Segundo a carne,
É ladrão, segundo o espírito?

Que pena aplicareis
Àquele que assassina segundo a carne
E é ele próprio
Assassinado em espírito?

E como julgareis
Aquele que nas suas acções
É um impostor e um tirano,

Mas é também
Ofendido e ultrajado?

E, como processareis aqueles
Cujos remorsos são já maiores
Que os seus delitos?

Não é remorso
A justiça administrada
Por essa mesma lei
Que tão bem quereis servir?

Contudo,
Não podeis impor o remorso
Ao inocente
Nem arrancá-lo
Do coração do culpado.

Espontaneamente
Gritará de noite
Para que os homens vigiem
E pensem.

E vós que sois chamados
A compreender a justiça
Como podereis fazê-lo
A não ser examinando todas as questões
À plena luz do dia?

Só então sabereis
Que o justo e o caído
São apenas o mesmo homem
De pé no crepúsculo
Entre a noite do seu eu-pigmeu
E o dia do seu eu-divino

E que a pedra angular
Não é superior
À pedra mais funda
Dos seus alicerces

( Khalil Gibran, livro , o Profeta, editorial A.O. Braga)

A lua se põem e amanhã será de novo o sol a aparecer, hoje a morte chegou a muitos vivos e estamos para aqui todos muito tristes e revoltados. Até à proxima bomba. Ah, que hoje à noite joga-se futebol.