quinta-feira, março 18, 2004

Telegrama um: gen. Literário sincrético. Vou de mim para ti. Stop. Não tenho tempo de te explicar tim tim por timtim. Stop

Não há Terrorismo, há Terror
Não há Terroristas, há actos do Terror
Não há combate ao terrorismo, há prevenção de ameaças de actos do terror
Há bombas a arrebentar, ontem mais uma em Bagdad
Longe ou perto?
Mas sobretudo, há que acabar com o Terror
Também há o Belo
Também há o Amor
Também há falá-lo
Também há Fazê-lo
Também há Abundância e Miséria
Também há excesso das duas
Também há Morte
Também há Vida
Também há Opção

Agora das duas uma. Stop. Um, decide dizer que eu estou louco. Stop.
Dois, pensa no assunto, pensa porque o digo assim. Stop. Se quiseres, obviamente. Stop. A linguagem que usamos revela sempre a forma como olhamos o Mundo e da forma como o vemos depende o agir.


Telegrama dois

De pai aflito para mundo aflito

Não, não estou tranquilo da forma como se está a fazer a prevenção dos actos de terror.
Dou detalhes a quem os solicitar e a quem eu julgue poder dar.

Telegrama três

Aquele Senhor Francês a quem eu reconheço uma certa bonomia na forma de estar, pai como eu, só um pouco mais velho. Seu corpo faz-me sempre lembrar um sempre em pé, afunila numa cabeça pequena para aquele corpo grande, alarga para a cintura e estreita para os pés.

Exprime-se com gestos grandes ao falar. Geralmente fala o que lê e isso leva sempre a uma interpretação desfasada que compensa com os gestos de mão como a dar-lhe mais veracidade.

Suas mãos faziam um gesto redondo, começavam juntas, afastavam-se cada uma para seu lado, desenhando o círculo e ao encontrarem-se de novo, encaixavam um momento uma na outra, para depois recomeçar o eterno pautado redondo de suas palavras. Eu ouvia-o, e retinha seu gesto de Aunar o Mundo, tudo o que dizia era o mundo no circulo das suas mãos.





Das suas palavras retive que só se acabava com o terror no mundo quando se acabasse com a fome e a miséria. Parecem-me sábias palavras.

Depois fiquei a pensar que já as ouvi muito. Só que agora há toda uma diferença. Sabes qual é?

Antes podia-se só dizê-lo, como quem diz, dizê-lo e não fazê-lo e pouco se passava, e por pouco se ter passado, agora a pergunta e a necessidade da resposta é posta diariamente à Bomba

Espero que o Senhor Tenha consciência disto, pois para além de ser um homem rigorosamente igual a mim ou a ti, desempenha funções de chefe de estado numa democracia europeia.

Vamos Fazê-lo ou ficamos no jogo do um dó li tá, quem está livre, livre está.
A Paixão de Cristo.

Não, não me chames louco, excêntrico, mito poético, real, irreal, deprimido, neurótico, com a mania da perseguição, de andar ou mesmo sentir pós-modernista, ou ainda outra coisa qualquer, que a minha intenção é clara. Não me comeces a rotular, pois rotular é só uma forma de arrogância sobranceira ao outro que leva sempre a um mesmo resultado, à imprudência face ao outro, e a imprudência é geralmente meio caminho andado para a desgraça.

Vem então comigo neste pensar, pois o que eu estou aqui a fazer é claramente, querer ajudar, estou a pensar sobre o que sei e não sei e a partilhá-lo contigo. Uma intenção de dar, de partilhar.

Uma das coisas mais estúpidas que poderíamos fazer num momento como este num mundo onde tudo o que se acredita tende a ser possível, seria não olhar com muita atenção, humildade e respeito os pontos de vista distintos dos nossos, e distinto do meu, é já o teu. Bastam portanto dois, e depois se pensarmos o mundo de hoje em rede, rapidamente imaginamos a aparente infinita multiplicidade de pontos de vista e acções decorrentes.

Depois, seria bom também não confundir prudência com um andar de mãos no bolso, ou fechadas em punho face ao desconhecido que quer dizer só aquilo que é diferente, e que de repente imaginamos como perigoso e assim o criamos com o nosso próprio medo, porque o que então acontece é que o outro ao sentir o nosso medo, activa também o seu em seu coração. O medo pega-se, é contagioso e o que se passa basicamente quando dois se cruzam, é uma troca de sinais, que mostram a vontade de cada um e a vontade é a resultante da forma como se vai. Prudência parece-me ser exactamente o contrário, olhar olhos nos olhos, olhar frontal e não de soslaio, olhar que se mantém, que não é breve no olhar, que se deixa respirar, que respira, que se deixa pelo outro entender, com tranquilidade e calma nos passos e no coração, dar-se a ver ao outro em vez de esconder.

Verdade, como sei eu a verdade, pergunta Pilatos à sua Mulher, que lhe devolve o olhar perturbado pela perturbação da pergunta que seu marido lhe revelara.
Pois sabe a Mulher, que nem rei, nem julgador era, aparente mera Esposa, destrinçar aquilo que seu marido não sabe e como quem sabe, só pode ficar perturbado quando alguém não o sabe, porque é sabendo, que é outra forma de escrever verdade, que se alcança a Paz.

Pilatos é só um homem como eu ou tu a julgar outro homem que por acaso é filho de Deus. Pilatos é um homem agarrado entre o deve e o haver, apertado pelo seu chefe César, mesmo com o pescoço na corda por assim falar, a desempenhar um papel entre diversos grupos de pressão e a tentá-lo gerir com habilidade.

Nenhum homem em perfeito juízo pode saber a verdade por empréstimo alheio, embora seja o alheio que a traga. Por outro dizer, quando não sei a verdade, não posso chegar ao pé de ti é pedir-ta, tipo dá-me a verdade. O que tu podes fazer se te comportardes como irmão amado, será dar-me a dávida do teu olhar, sabendo que sabes que é ai que tens de parar, o resto é sempre comigo próprio.

A Mulher de Pilatos cujo nome eu não sei, o que também não deixa de lembrar como a história é contada numa óptica por assim dizer Apolínea, sabia a verdade.

Sabia a verdade, porque ao contrário do que muitos comentadores profissionais afirmam, não é necessário traduzir a realidade para os outros, que nesse momento em que o dizem eles próprios, se tornam outros distantes de outros, os nozes, e aqui acontece a fractura introduzida pelo seu próprio pensar, eu versus o tu, não mais o eu e tu, mas adiante.

A Mulher de Pilatos sabia a verdade porque cada um tem por assim dizer o seu próprio quinhão dela, qualquer um sabe ver a verdade por debaixo das aparências, mesmo quando não compreende as palavras daquele que observa. Nunca vi em ninguém do povo, analfabeto e rural, desde que pequeno me lembro de mim, Alguém, que não soubesse julgar, escrevendo aqui julgar como averiguar e decidir para si mesmo do agir. Da infância recordo os seus sábios e grandes corações, abertos, averiguadores e portanto conhecedores.

A Mulher de Pilatos sabia a verdade porque andava nas ruas do dia a dia, misturava-se com o povo, ouvia as gentes que vinham de longe e contavam as novidades, e mesmo sem ver o filho de Deus, via-o nas caras e nas palavras das gentes, na concordância do canto e do cantado em seu coração.

Deixava-se estar a Mulher, aquietando-se olhava dentro de si, num fim de tarde e via em seu próprio lago se as palavras, a ele atribuídas, lhe faziam sentido, se se encaixavam na sua forma de sentir, se lhe eram concordantes, e que sim, era como se fossem palavras que lhe punham falares que sempre existiram na sua forma de ser e de estar. De repente percebera que a verdade já não era só sua, como que uma solidão, se dissolveu em seu peito, a verdade era a sua e a de muitos outros.

Contudo a mim parece-me que Seu Marido Pilatos, já teria visto a verdade em Sua Mulher quando ela lhe disse, avisando-o, não condenes aquele que te trazem, pois é um homem Santo. Quando Pilatos lhe pergunta qual é a verdade, o que ele está verdadeiramente a perguntar-se, é como é que ele gere a verdade em relação à sua complicada vida e de compromisso em compromisso desatento leva também ele entre muitos outros, o filho de Deus, à Morte Humana.

O que é a verdade se não integração, integração interna daquilo que dentro choca, ou choca de dentro com o fora ou de fora para dentro, ou mesmo num dentro e fora que é um mesmo, mas que ao chocar, choca e ao chocar, é como quem está dizendo, esta meia, não é deste pé, este pé não é deste sapato, este coração está fora do coração.
E não é a harmonia a quebra da contenda, o arritmado que se torna o ritmo, a colcheia que se encaixa na nota, o coração que floresce e faz florescer.