segunda-feira, março 22, 2004

A Violência é filha de uma Dor e tem como Irmã a Vingança.
Existe alguma diferença entre o bombista suicida e um assassinato planeado.

Ambos decidem matar e matam e aqui para mim reside a sua igualdade. Quebra-se a Lei de Que toda a Vida É Sagrada e Tem O Mesmo Valor. Bem sei que cada um terá os seus motivos e justificações para tentar defender os seus actos, mas qualquer motivo ou qualquer justificação, não altera este infeliz facto. Que a Vida é mais uma vez violada.

Chega-me esta consciência para saber então onde me coloco. Reafirmo-me que tem que chegar esta consciência para saber onde me coloco. Ambas matam e a fronteira estabelece-se, aí, nessa linha desenhada por cada um de nós na areia, entre Não Matar ou matar.

Quando me digo que me tem que chegar esta consciência, é porque todas as outras não me servem mais, não me servem para aquietar para saber onde desenho a linha, porque primeiro preciso saber ao certo de mim o seu desenho, para depois desenhá-la.

Não me posso deixar ir pelos ramos infinitos das razões, das queixas e das dores desfolhadas por cada um dos lados, sejam os lados quais forem, porque esta história é a história do Mundo, onde quer que se vá. Não posso ir emaranhando-me ramo em ramo do velho incontável desfiar das dores. Quero voltar rápido ao lugar das raízes, porque a outra estrada é a que sempre se viu, vai dar ao mesmo e tem um sinal claro, cada vez há mais conflitos. Por isso parece-me uma estrada perigosa que vai dar asneira e se assim o vejo, tenho que encontrar uma outra. E Depois, a Vida toda talhada para o Belo e todo este Terror a entrar todos os dias em meus olhos. A fazer pesados os corações.

Parece-me que é preciso chegar as raízes do problema, só assim o poderei ver, porque se a sua manifestação é múltipla como nunca foi, as suas causas parecem-me mais reduzidas em número, quase sempre um mesmo denominador comum.

Nada disto me faz esquecer contudo o desfiar das queixas e das dores de cada um dos lados. Nada disto me faz esquecer as abismais diferenças de forças

Também não me esqueço que desde pequenino nunca gostei de quem se aproveitasse da força física para enxovalhar os mais fracos ou mesmo das alcunhas que serviam para depreciar. Sempre me revoltei com esses tratamentos e creio poder-me dizer que na maior partes das vezes assim terei actuado, com o coração instintivo, rápido como só ele sabe ser na protecção dos mais desprotegidos. Também sei, que houve vezes que não o fiz. Não é isto que fazem os Pais ao proteger os que mais necessitam, os Filhos.

Ver a fragilidade do outro, a limitação, a imperfeição, ou mesmo o defeito e ir lá escarafunchar, fazer sentir o outro ainda mais pequeno e fraco e rir-se à conta da maldade que faz, diz que é um menino que não se ama a si mesmo, que alguem não esteve, para o Belo lhe mostrar. Quem se gosta de si, não desgosta dos outros, quem se gosta de si não precisa de razões para se sentir mais importante, ou mais forte que um outro.

E que era isto no menino de minha idade que o fazia. Só uma dor, uma dor de não saber gostar de si mesmo, de a vida não lhe ter, isso ensinado, não lhe ter mostrado a beleza imensa e infinita do que poderia vir a ser, se ele próprio o fosse, ou melhor fosse, por si mesmo, não por pôr a pata em cima de outro, mas mais como o gato das sete léguas, dar grandes pulos de contentamento e alegria nos dias de seu viver. Conhecer o prazer, o sentido, a paz interior, a ausência dos nossos demónios quando se ajuda outrem, em vez de lhe fazer mal. Conhecer o contentamento e a alegria de proteger a Vida, de faze-la frutificar, de tornar o mundo um local melhor para todos viverem, que eu por mim não quero nem posso deitar ninguém fora.

Que falta de inteligência, até na produção das próprias piadas, sim, porque as piadas também têm famílias como nós, há piadas que fazem o Belo Rir e outras, o cínico rir e entre elas infinitas outras também. Porque então escolher a mais fácil, aquela que se faz a custa da fraqueza do outro, aquele que está ao lado, mais próximo, há mão de semear

Que triste espectáculo, vi alguns de nós fazer, a que triste e feios filmes, tão novo assiti e de alguma forma participei.

E bem sei que as dores se curam pelo toque, pelo olhar, pelo conversar

Estou a almoçar, a comer rolo de carne e a sentir-me relutante em comê-la, pois agora a carne anda sempre demasiado próxima de mim mesmo. Na televisão, uma gaveta metálica, rodeada de mãos, umas querem abri-la e outras não e enquanto observo o impasse, percebo o género de gaveta de alumínio que é e preparo-me para o pior com o garfo a meio caminho da boca. Abre-se e fecha-se num brevíssimo instante, que dá para ver uma estranha cabeça achatada e a massa encefálica cá fora. Todo o meu corpo estremece ao momento, a cara volta-se mas já estava visto.

A Europa condena esta acção e geralmente condenação anda associada a sentença e à sua execução. A Europa condena, as Democracias Europeias condenam, mas nem mesmo me parece ser uma questão de sentença, parece-me ser mais necessário o ensinar do perdão, como quem lembra às partes o que há a lembrar, actuando a vontade de ajudar a parar, agir, interpondo-se, para dar espaço a esse perdoar interno de cada um, da vitima e do vitimado e grafando perdão como aquela dose necessária de anestesia da dor que abre a possibilidade de olhar de novo um outro. pois o sofrimento que vemos é muito grande de lado a lado.

Se bem que os valores da Democracia sejam em momentos como estes mais do que nunca a defender, não deixo contudo de me aperceber que elas não encontram ainda respostas eficazes para estes problemas.

As guerras, eclodem sempre quando se projecta a nossa própria sombra em alguém alheio, num grupo, numa etnia, num sei lá o que, não é só a minha sombra pessoal, ou a tua, é um estado psíquico resultante de muitos assim o fazerem ou a deixarem que outros assim façam por eles.

Quando um grupo grande de pessoas começa a ver outros como diabólicos, perigosos, inferiores ou qualquer outro argumento e quando muitos assim se juntam a sentir, o mal que o homem é capaz, vêm ao de cima, entorna sobre outrem e o sangue corre entre os homens independentemente do lado que estão, num mundo como o de hoje, onde não existem mais, lá ao fundo naquele lugar onde se andam a matar, distante de mim ou de ti. Por outro dizer não há mais lados, há cada vez, um mais, e maior só lado.

As imagens viajam no espaço numa operação quase instantânea e muita gente as vê, é tocada por elas, o acesso a uma enorme quantidade de informação está cada vez mais difundido. Nunca o Mundo se tornou tão pequeno e tão instantâneo no seu acontecer, como hoje.

É preciso efectivamente interpor a prática do diálogo, é preciso conversar, e como não se pode conversar entre tiros e bombas, primeiro têm que aparecer os homens necessários, que é o mesmo que dizer, os suficientes para se interporem. Este papel é geralmente mais fácil de ser interpretado por alguém fora das partes, que aqui convém recordar, são também sistemas Democráticos, sendo os votos de cada um que habitam esses lugares que elegem as pessoas que os governam.

Depois umas horas mais tarde na televisão, uma reportagem com aquele que foi morto dos céus com três morteiros ao sair do templo onde orara.

Imagens de um homem frágil, que precisa de ajuda para se mover, para lhe levarem a barba. E contudo, ao que se diz, inspirador de um sem fim de atentados, de mortes.

Depois ele diz, anseio há quarenta anos ser mártir, e nesse mesmo dia que o estou a ver, tinha-se realizado o seu desejo.

Quando o Jornalista lhe pergunta se o seu filho decidisse tornar-se mártir, como ele reagiria, a sua resposta, é de que ficaria feliz por essa decisão.

Eu por mim vou levá-lo a sério, mesmo muito a sério

Aquele homem e muitos outros, mulheres e também crianças, que tentam morar ali ao lado, não conseguem viver, serem felizes, vejo-as a andar de pedras, armas e bombas nas mãos. A vida e a felicidade, são coisas que se só se constroem em tempos de paz.

Aquele homem acha que sacrificando a sua vida e mesmo a de seus filhos se justifica para que a vida dos outros seus, venha a ser melhor.
Alguém que valoriza a sua vida dessa forma, mais facilmente disporá das vidas alheias, daqueles que tiver considerado como inimigos.

Uma questão reduzida a matar e morrer. Não sei de entre os múltiplos nomes de Deus, um que defenda a morte face a Vida, que opte pelo terror em detrimento do Belo.

E os mártires tem pelo menos um sempre mesmo efeito, aumentam o fogo, dão novas razões para que matança continue.

Também dou conta que aquilo que motiva alguém que o faz ou manda fazer é muito próximo da visão religiosa do Ocidente, muito mais próxima do que, uma por vezes, clamada divergência com o Oriente. Não interpretamos como o maior acto de amor, o sacrificio que Cristo fez, morrendo por todos nós, para nos permitir a salvação. E contudo Ele fê-lo pela Vida, não pela morte de outrém.

É preciso efectivamente interpor um espaço, que quer dizer entre as partes e curar as dores mais fortes e mais agudas para que se possa conversar, e como não se pode conversar entre tiros e bombas, primeiro têm que aparecer os homens necessários, que é o mesmo que dizer, os suficientes para se interporem. Este papel é geralmente mais fácil de ser interpretado por alguém fora das partes, que aqui convém recordar, são também sistemas Democráticos, sendo os votos de cada um que habitam esses lugares que elegem as pessoas que os governam.

Só me parece existir uma forma de estar para acabar com o terror, para poder-mos viver num mundo sem ele. Inventando as formas para que não se quebre a lei de que toda a vida é sagrada e tem o mesmo valor, porque também é terror, viver num mundo que nos mostra que parece que afinal ela não tem toda um mesmo valor e contudo tem.

E depois se isto acontece na mesma casa comum, a outros que basicamente são como eu, a que poderei se assim os quiser ver como irmãos, não chega saber só onde me coloco, mas tambem agir a partir e em conformidade com o meu ponto de vista. Velar com muitos outros, para que a Vida se possa Afirmar.

Tambem é certo que não chegará só conversar, é preciso imaginar, acordar e implementar soluções que terão de ser distintas das até hoje apresentadas, fácil de deduzir, face aos resultados que se tem obtido. Isto é fácil de deduzir, o dificil é fazê-lo.

Dentro de mim
Existe o Paraíso
E seu Irmão Inferno
Se um Muito me eleva
Seu Irmão Muito
Pequeno me torna

Dentro de mim
Existe a Luz
E Sua Irmã Treva

Se uma Muito Me Aquieta
Outra muito Me Perturba

Eu Sou
Juiz do Meio
Ouço Uma
Ouço a Outra
E Decido Qual
Me Acompanha
No Meu Passar

A Primeira Me Diz
Eu Ajudo-te
A segunda
Posso Ajudar-te?

E Não É a Ajuda
O Ajudar
E a Pergunta
O Não Saber

Ajuda de Ajudar
Ou a Dúvida
De Sim Ou não
Ajudar

E Não Deito
Porque Não Posso
Metade de Mim
Fora

E Tu
O Outro
És Igual a Mim
Ou Só a Metade de Mim


Terrorismo
Uma palavra sem género
Não
Tem um Género
Que é o Género Humano
Pois Entre Nós Acontece
Nas suas múltiplas configurações
O terrorista
A terrorista
Ou Um outro Qualquer
Um Outro Qualquer?
Sim
Porque Eu não o Sou
Se tu Também não o És
Terá que ser Um outro
Aquele Ali a passar ao fundo
Que Basta Meus Olhos
O Verem Como Estranho

Outro que Me Digo
Não Conhecer
Ou que Me Dou
Ao Luxo
De Não Querer
Conhecer

Porque não será um
Caro Luxo
Dizer-me Que não
Conheço As Minhas Trevas
E Chutá-las Para Um Outro
Que vai a Passar
Esquecendo
Que a Bola e a Baliza
São num Mesmo Campo
E Que Só Te Passo a Bola
Porque Ambos
Estamos a Jogar


Eu, Tu ou Um Outro
Não Seremos Todos
De Um Mesmo Género?
Humanos

Então como Um Outro
Poderá Ser a Besta
E Eu Um Anjo
Só Cheio de Luz?
Oh Pai, deixa-me dizer-te como gosto de ti
Oh Pai, como no outro dia Minha Mãe dizia
Lembra-te que És o fruto desta União
Vossa Longa União
E Eu Lembro-Me
E Agradeço
Por Vós
A Vida
A Luz

Salve, Minha Mãe
Salve, Meu Pai
Desculpa Pai
Por Salvar
Primeiro a Mãe

Mas em Pequenino
Pensava
Quando esse Pensar
Me Entreteu
Que se a Minha Mãe
Sempre a Conheceria
A Ti Talvez não

Contudo se não te tivesse
Conhecido
Não era Eu
Pois da União da Minha Mãe
Com outro Pai
Nasceria
Outro
Diferente de Mim
Distinto
Daquilo
Que hoje Sou

Depois
Pensei
Se Aquilo
Que sou
Sou Eu

Poderia
Ter sido gerado
No corpo
De Outra Mãe
Pelo Meu Pai

Seria como andar
Com o teu corpo
Sendo Contudo
Eu
Bizarra ideia
Num mundo
Bizarro,
Dizes?

Agradeço-Vos
Mãe e Pai
De Me Fazerem
Maravilha
E Maravilhado
Neste Fugaz
Momento do Existir
Aqui


Agradeço-Vos
Mãe e Pai
Por Me Fazeres
Participar
Em todas as coisas
Que existem
Por Poder Rolar
No Verde Prado
Por o Sol que me Aquece
Pela Lua
Que me Oculta
E Me Revela
Pelo Meu Filho
Sorriso
Sorrindo
Num Mesmo
Firmamento