quarta-feira, março 24, 2004

É preciso ao caminhar ir escutando o meu próprio coração, é-me preciso escutar a minha verdade. As coisas são o instante em que acontecem e Elas estão sempre a acontecer. Acontecem e já se foram e a minha acção com elas, conjunta a elas, participado por elas, participante nelas, dá-se naquele breve instante do seu acontecer. Tudo aí se joga, no instante que nos é jogado.

É preciso escutar o meu passado para estar atente ao meu presente, que é aquilo que condiciona a o meu futuro, mas é sobretudo, estar atente ao presente do acontecer, sabendo que todos os meus passados possiveis, os vividos e os não vividos, bem como todos os potenciais futuros estão presentes em cada momento presente.

E quando eu sei de mim, da verdade do que me vai no coração, quando vou atento escutando-me e escutando o alheio, as coisas correm melhor, saem melhor, tem um efeito melhor, se fosse a Galp, diria que adquirem a tal energia positiva.

Ontem à noite quando voltava eu e meu filho a casa na entrada do túnel do viaduto da Av. Estados Unidos da América, mesmo naquele ponto onde começa a descer e por um momento a visibilidade se reduz, dou de caras com um autocarro aí parado. Paro atrás dele e fico a espera de abertura para o ultrapassar, coisa difícil, aquela hora pelas duas principais características do movimento dessa hora, naquele local. Muito e com velocidade elevada, naquela precisa entrada do túnel, onde por um instante se reduz a visibilidade a quem vai a entrar.

Controlando pelo retrovisor, a ver se não viria alguém que não me visse parado, finalmente consigo ultrapassá-lo e vejo no instante, alucinado de o fazer, o que o fizera parar. Um balde branco de tinta de 20 litros em pé afastando qualquer ideia de ter caído em movimento, aí se encontrara no meio da vida, perdão via, de pé paradinho, pela mão humana que aí o colocara.

Ao descer a Avenida coloco-me ao lado do condutor de autocarro e pergunto-lhe

Parou pelo balde não foi?
Sim
È melhor avisar a polícia, pois está num sítio perigoso

Tem aí forma de o fazer, via rádio?
Não
Então avisa você ou eu?

E nesse momento olhámos os dois para Entre Os Campos, onde na curva para o Campo Grande, estavam umas luzinhas de carro da polícia a piscarem, paradas.

Talvez seja mais simples que seja o Senhor a avisá-los, disse-me do enorme tamanho do seu autocarro.
Anui e assim dei conta do ocorrido, parado na rotunda de Entre- os-campos, a virar para os campos Grandes e por debaixo da lembrança da Restauração com um sorriso nascente e crescente de mim mesmo.

quando voltei ao carro, meu filho disparou, o que foi isto? e eu lá lhe expliquei a minha versão do ocorrido, uma bela conversa.
o texto anterior mexeu-se um bom bocado, desenvolveu-se
e é sempre assim, os textos vão-se escrevendo, ou somos nós que os escrevemos?, para lembrar o Poeta