sábado, abril 03, 2004

Oh meu Deus, como me crescem as Minhas Orelhas de Burro, por ter inventado e codificado até hoje, assim, o timbre das sirenes.


Não há silêncio Absoluto. Mesmo aquilo que não ouço, pela limitação das frequências do meu sensor, não deixa de cantar, ou por outro escrever, não deixa de ser Som. Tudo depende do Observador que observa, como quem diz, neste caso, escuta, e do som que é escutado, porque um não existe sem o outro e poderei em verdade dizer-te que o som me escuta também. Não há fenómenos puros, há interacções, pois se não as houvesse, como saberia eu dos fenómenos e da sua existência.

E contudo os sons que eu creio não audíveis, ouço-os na mesma sem deles estar consciente, no meu pensar, sem deles me dar conta, mas os sons que me chegam, ou que já lá estão, mesmo que não os saiba ouvir com o meu ouvido, ouço-os de outra forma, uma forma emocional, onde frequência que é vibração, ressonância ou dissonância, são os termos da língua em que se exprime e todos eles alteraram a frequência emocional do meu próprio coração.

São os chamados, subliminares, subliminar à minha consciência consciente. Vai ao clube de vídeo e trás por exemplo o filme de Scorcesse, “A última tentação de Cristo” e ouve-o com auscultadores.

Vais reparar que lá, no fundo do som, depois de passar a camada onde habitam os diálogos, a música e a sonoplastia realista, entendendo aqui realista, por exemplo, o som síncrono do bater do chicote com a sua imagem, que conseguirás ouvir sirenes de carros de polícia, bombeiros e ambulâncias, daquelas que existem nos dias de hoje.

Estranhas? Não estranhes, é só uma forma de excitar a atenção, ao repetir um som que associamos automaticamente a aviso, atenção e perigo e quando tal acontece, a nossa atenção é focada, tornamo-nos atentes, neste caso ao filme, mas tudo isto é pressuposto não ser dito, não se saber.

Existem sons agrestes, sons agudos, sons cavos e graves. Existem também sons dentro de nós, como o bater do coração tranquilo ou do coração agitado, da mente focada ou desfocada, da atenção e da doce desatenção e entre eles, variantes infinitas.

Na minha cidade de agora, diferente da minha cidade de infância, os sons de ambulâncias, da policia e dos bombeiros, que são sons agudos, estridentes que ferem, como quem escreve, dissonantes e que rompem a atenção, por exemplo ao que neste momento escrevo, são um constante tapete.

E depois em tempos de Medo e tensões colectivas, propícios a despoletar episódios psicóticos, seria talvez de toda a conveniência alterar as suas frequências dominantes, para um espectro, que sem perder os seus objectivos, (aviso e atenção), retirasse aquelas que provocam, como quem diz, acendem, o próprio Medo, pois todos sabemos que ele é contagioso assim como se Irmão Amor, o É.

Depois recordo a evolução do som das sirenes, vejo até a ligação entre a sonoplastia de séries televisivas americanas que passaram no meu país e a sua influência naqueles que compram estes equipamentos. Lembro-me de como “Hills Street”, para nomear uma, levou ao aparecimento de uma maior estridência na minha e na tua vida.

Até imagino, que uma empresa portuguesa, criasse um chip baratinho, capaz de vir a ser vendido para todo o mundo que alterasse as frequências que existem, e que de repente o nível global do Medo por excitação sonora diminuísse em todo o Mundo.

Estás mais uma vez a sonhar rapaz, como é que as pessoas levariam à séria, como reconheceriam de um momento para o outro uma outra frequência, um outro som, como o associariam, a aviso e a atenção.

Olha, se calhar bastava colocá-los naquela tal camada sonora, por exemplo na televisão, só com uma diferença, disso, se daria conta, do porquê e do objectivo a todos antes de fazê-lo.

Assim, eu e a minha agência de inovação, amanhã, vai reunir as gentes e os meios necessários, para o fazer no mais curto espaço de tempo.

E pensas, porventura rapaz, que isso alterará globalmente alguma coisa?
Mais do que tu pensas, mas mesmo que assim não fosse, porque não fazer algo que creio poder melhorar a Vida?

Pelo Som do Amor e do Coração Calmo e em Paz, que arredondasse de novo as minhas Orelhas ao Humano.
Com peso e medida


Outra das razões que leva à violência é a “hubris”, que muitas vezes aparece erradamente “traduzida” como Orgulho. Eu sou como muitos outros que traduzem o étimo desta palavra grega como excesso.

Excesso de confiança, excesso do uso da força, excesso na forma como te vejo, excesso na forma como te trato quando me considero mais inteligente que tu, maior de tamanho ou força ou seja lá de que ilusão com que me veja em meu próprio espelho, nessas alturas embaciado. Mais parece aqueles da feira popular, que nos deformam a nossa própria imagem, quando os olhamos.

A Criança simboliza o Espírito Santo, o bafo reconhecido como Agostinho da Silva o bem traduzia, pelas suas qualidades de imaginar. Espírito é assim, também, imaginação reconhecida, qualidade de imaginar, ou seja, capaz de ser comum como uma ponte que se estabelece entre mim e ti, porque faz sentido, torna-se Real a ambos.

Porque na Criança reside como em mim e em ti o Belo e o Terror, aliás onde poderiam residir eles, se são humanos como nós. Quantas vezes se vê na Criança, toda aquela força, vivacidade da vida e do viver, que quando mal dirigida, pode entornar nos mais feios actos.

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Aquele menino pequenino tinha uma pontaria dos diabos, sabia intuitivamente do cálculo dos ventos e do movimento e do peso das coisas que voam. O menino experimentava tudo isto, que incluía ele próprio. Sempre a tentar descobrir e ultrapassar aquilo que conhecia como os seus limites provisórios, ontem, fazia daquela lata a 5 metros o alvo certeiro da sua fisga, hoje daquela árvore na floresta a 20 metros de distância e no dia seguinte, um outro menino ao fundo, lá bem ao fundo, que a recebeu em cheio no meio da sua testa. Esse outro teve um traumatismo craniano e acabou por morrer por falta dos cuidados médicos que seus pais e seu país não lhe puderam dispensar.

Excesso de nos pensarmos melhor, mais altos, mais fortes, mais merecedores, mais louros, ou mais não sei o quê, do que Tu a meu Lado.

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A pequena traça volteava dentro da sala da sua habitação. Bela traça que traça as nossas roupas, com suas asas em delta, perfeito triângulo observável nos seus curtos poisares.
Olha a bela traça, dizia-lhe seu pai, tentando chamar a atenção a seu filho e ele logo que a detectou, fez surgiu na sua cara, aquela expressão típica que antecede os actos de violência e toda a sua energia de repente, ao vê-la, se focou na sua destruição, tal cavalinho relinchante aos pinotes na ânsia de lhe botar a mão, como uma garra de gavião. Todo o drama da escala e da força, aí se encenava naquele olhar e gestos de pequeno papão, mas se a traça lhe aparecesse a seu olhos como um dragão, seria outra a sua atitude. Seu pai, interponha-se às investidas enquanto o chamava à razão, pois até uma traça tem que comer e come, porque se não, não teriam, elas, a filhos e certamente nem ela existiria, pois a história dá conta delas desde há muito tempo atrás.

...

vrummm, vrummm, fazia a terceira redução, o carro que guiava com seus amigos lá dentro era uma perfeita extensão de si mesmo, sua visão era a visão do gavião que tudo crê ver na escuridão. Vrum vrummm, colado ao banco, seu centro de gravidade, sentia que as curvas da estrada melhor se ajeitavam ao passar das suas rodas, pois ele era a estrada, a roda e a curva também. Vrummm vrummm, fazia toda a excitação até ao momento que o pneu decidiu, ser ele próprio, por um instante, só pneu, ele pneu, rompendo toda aquela participação mística que ia pela estrada da vida, pensava o gavião no momento em que lhe faltou as asas e se estatelou com roda e tudo contra o muro quieto de terra onde ficou.

A violência é filha do excesso e tem como irmã a tristeza e a dor