quarta-feira, abril 07, 2004

Que dizes, rapaz, ainda não conheces a minha amiga, tinha a impressão de ta ter apresentado há muito tempo atrás, quando eras mesmo novinho, nem cinco anos terias, lembras-te quando entrastes naquele palheiro onde tinhas descoberto uma recém nascida ninhada de gatos e tu lá ias de manhã, sendo a primeira coisa que fazias ao levantar e um dia abriste a porta e o gatinho que tu mais gostaste, dele, só estava a cabeça. E o teu Espanto, a Estupefacção, como aquilo poderia ter acontecido, só ficara uma cabeça.

Lembras-te, viste-me pela primeira vez na ausência do espírito, aquele rosto rígido de olhos abertos, sem mais nenhum sentir, feito silêncio para mais não se ouvir, fixo numa mesma imutável cara e o sangue e as entranhas visíveis na linha onde outrora fora seu pescoço, o que sustém e é sustentado, lugar onde o corpo se liga à casa do espírito.

E depois rapaz, foste pelo mundo investigar, quem teria feito isso e apareceu-te alguém nas vestes de um adulto que te disse que tinha sido a própria mãe por ciúmes das festas que tu lhe fizeras.

Lembras-te assim rapaz como te pus o sinete, como ferreiro de ti me tornei, tu pus a quente, bem gravado em tua carne para que dele te esquecesses que o amor pode ter consequências nefastas, foi assim que te retirei do Campo do Meu Irmão e tu decidiste não mais amar, com medo de magoar outrem, sim foi eu que trinquei o gato e deixei para ti a cabeça encenada. E tu por medo de poder vir a fazer mal, deixaste de escorrer o teu próprio mel de Amor, sim teu, porque eu e ele, o meu irmão, habitamos ambos dentro de ti. Já deves ter reparado ao longo da tua vida, na minha presença, como a Sombra que sempre acompanha o teu Sol.

Meu nome contudo tem muitas outras faces como já te deves ter dado conta, e já agora que perguntas, foi um rato que o comeu, sabes, eu uso o que está mais à mão.





Ali entre Santa Apolónia e Santa Engrácia, também conhecida pela Santa dos trabalhos inacabados, facto que segundo me contaram, prende-se com o imenso tempo que foi necessário à construção da abóbada do Panteão, muito eu Apelei à Segunda nos tempos em que vivi entre a Primeira e o Vale de Stº António, era quase oração, certa e segura, de cariz diário, tal eram sempre os afazeres que me prendiam ou melhor, que eu deixava que me prendessem em modo diário e quase contínuo e também não esquecendo, que eu e os meus afazeres, sou eu também.

Ufa, Lufa, Ufa

Seria contudo a reza a Santa Engrácia, uma forma de pedir protecção para a conclusão dos mesmos

Apolónia

Oh, hoje está um dia de imenso Sol e Calor, como bate quente meu Coração

Engrácia

Já Sabes, que me chamam inacabada, contudo na semana passada na última noite que aqui te encontrei a falar, fazia chuva e frio e alguns homens dormiam ao relento à Porta da Estação e debaixo das Arcadas do Exército.

Apolónia

Mas então, dormem às portas da CP e do Museu do Exército, ou seja uma empresa pública, de todos os homens e do Exército que serve o Estado. Já sei.

Sopra-lhes Santa, esta noite ao dormir, recorda-lhes que o Estado deve velar os seus, que são homens como os outros e que o coração dos homens que os vêem não dormem quietos perante tal acontecer.

Sopra-lhes Santa, esta noite ao dormir o engenho prático das cordas e das velas, as rotas do belo navegar, o carinho no outro tratar, ama-me com carinho e eu nunca partirei, que nesses dias abram as portas da Estação, local do estar se torne para a noite pernoitar, ah e recorda-lhes das coisa pragmáticas, que os infantes andam por vezes entretidos com coisas grandes, recorda-lhes que umas camas de campanha, uns cobertores e um sítio para os guardar, ajudaria muito e lembra-lhes também que se dorme melhor de bucho cheio.

Sopra-lhes Santa, esta noite ao dormir da natureza dos homens, que são homens que estão fora das coisas dos outros, que estão fechados ao mundo, muito deles acossados, outros perdidos, alguns encontrados, não se lhes force a sua natureza ao pretender que eles cumpram as coisas dos outros, sopra-lhes Santa do Pensamento Simples de Todas as Coisas, das soluções que solucionam, não se lhes mude o todo improvável.

Sopra-lhes Santa, esta noite ao luar, que todos dormirão melhor e mais felizes se souberem cuidar dos que ficam a dormir ao frio e à chuva, ali ao pé do Rio. E Sopra Santa aos Marinheiros, que os guardem e assim os sirvam.

Ufa, Lufa, Ufa

Fala Engrácia, que Santo António, aquele que amava os meninos e os animais, está a olhar