sexta-feira, abril 09, 2004

O tempo da chegada do perdão deve ser curto, o mais curto possivel, pois aquilo que se sente como culpa, pesa, estraga os dias e o ser, e depois que cada um se perdoe a si e ao outro, pois Amor é perdão, não se pode Amar sem perdoar, a dor envevena tudo, espalha o Fel, não o Mel. Curto no seu chegar, infinito no seu estar.

Obrigado Tiago e já nesta mesma maré, esta pequena reflexão foi pensada por um comentário que o Pedro me deixou sobre o tempo da dor e do perdão. Bem Hajam os dois.
Ostande

Naquela tarde onde o céu se tornou de um dourado plúmbeo entre nesgas de azul, onde as nuvens adquiriram estranhas volumetrias tridimensionais, no mínimo do seu ver, tudo lá se passou, como tudo se passa num só momento do seu acontecer.

Aí o destino lhe apareceu e deu-se-lhe a revelar, estranho destino que por tanto tempo, ele teimava em não admitir.

Qualquer coisa quisera que aquele súbito encontro se tivesse passado pois ele foi súbito, de um reconhecimento súbito e imediato, que as coisas familiares em si transportam.

Ele a subir a duna vinda da estrada com sua flauta na mão é ela vindo em grupo lá ao fundo da praia. A flauta os fez encontrar, ele, ela e sua irmã. Seus pais, olharam uma vez para trás e continuaram caminho.

No alto da duna, o frio que se pusera era visível em seu rosto marcado de vermelho gelado. O vento agitava os cabelos solares que ele via e não havia camisola que protegesse aquela conversa que encenava uma história de amor entre um homem e uma mulher, que ia acompanhada por sua irmã.

Ali se encontraram e naquele momento se desejaram no impossível encontro, que ainda não estava aprazado, assim explicou o céu que em chumbo se foi tornando naquele entardecer e o Vento do Norte neles soprou a fria separação.

E Cada um, assim foi Arrancado, ao Outro, como a si mesmo

Partilharam nesse dia sobre o julgar dourado e frio de um céu agitado, um selo em duas metades e cada um ficou com a sua metade daquela moeda que estranhamente o cativara.

Era uma moeda partida em duas partes, por uma linha que serpenteava na sua metade e a dele foi roubada algum tempo depois por mãos invisíveis que com ele não se cruzaram.

Era o Selo, A Senha e o Passe, e agora encontrava-se para ele perdida.
Subtraída, Fora a Chave da Futura União.

Recorda ele de cantar a ela, com a mão fechada como quem tenta em vão reter um punhado de areia, que teimava sempre, em sair, grão a grão, a encenar a futilidade de reter da Vida e o Amor, que Ele Escorre sempre por entre os dedos de uma mão que o quer prender.

Ou dir-lhe-ia, Ele a Ela, que era escusado o Amor, que tudo estava condenado ao fracasso, aos braços do pó voltaremos, e que portanto era engano esse amor que pensávamos sentir

Não ele não lhe poderá te dito isso, porque ele sabia no momento antes de lhe oferecer metade.

A pergunta que Ela lhe trouxera, era se o Amor entre um Homem e uma Mulher teria o poder de derrotar a morte.

Poderiam dois Seres parar a queda dos grãos ao Aninhar o Amor em suas conchas mãos abertas sem reter, mas protegendo-o do vento frio do norte

Do futuro Nada Sei, o que Houver de Se Encontrar, Encontrar-se-á, pois nem selo, nem senha e passe, já ele o tem.
Chegou o pássaro, poisando em seu ombro e disse-lhe baixinho num tom próximo do encantar

Disse-me o vento a passar que rezas às Santas, nos lugares em que habitas os teus dias
Que imagens são essas, os Santos e as Santas de que falas?

Oh amigo pássaro repetitivo, que me obrigas a repetir-me

Santo, quer dizer, basicamente, reconhecido, que foi uma pessoa como eu ou tu, que aqui viveu ou vive e que é reconhecida por muitos por viver o Belo e o Belo Gerar, viver de acordo com seu próprio coração e quem assim vive, faz ou pode fazer os outros, o mesmo sentirem. Inspira os outros porque lhes aquece seus corações ao caminhar entre eles.

Se quiseres mais prosaicamente é aquele gesto de mão num breve encontro ao passar, que incendeia o sorriso daquele que o recebeu, uma ternura na face de uma criança amada, um sorriso comunicante, como que vasa o entre e cria o elo do Belo sentir, ou mesmo o alegre uníssono gargalhar.

Vai devagar, que se não abro já as asas e vou partir, alias, o que queria mesmo era pedir-te para partires essa caixa que defines como o Belo, que raio de noção é essa, como a colocas no real, cujos termos de valores, hoje dominantes, são tão diferenciados destes, não precisas que te faça um desenho, pois não?

Belo é ver a vida com os olhos da beleza, deixar que seja a visão do belo a pedra de toque no olhar, de onde ele parte, qual é a sua intenção e a direcção do mesmo, o seu ponto focal.

Mas deixa-me contar-te um segredo do meu ver, O Belo é o valor hoje, como sempre dominante, sabes porquê?

Por uma simples razão, se ele reside fora de mim e de ti, também habita ao mesmo tempo cada um, é portanto algo que cá está dentro, de cada um e quando algo está dentro de nós, meu amigo pássaro, ninguém de fora o pode tirar, mesmo que a aparência do fora seja contrário ao que dentro podemos sentir e asseguro-te sempre foi e será assim.

O Belo reside em Ti e fora de Ti e é Alma Que Tu Dá a Ver Como Sentir que Então se torna Saber.

Lá estás tu a brincar, quem é essa beleza, que me apresentas como coisa de fora, será por acaso aquela bela rapariga ali ao passar, hihihi, agora que me rio eu. E Alma, o que é?

Oh querido pássaro do meu amigo voar, deixa ver se te explico melhor. Ela está fora, porque é igual a que eu trago em mim mesmo, é uma capacidade de se ver igual, ou semelhante, se te perturbar por entenderes, igual, como perda de identidade. É por exemplo olhares aquela flor e vê-la tão bela como tu te vês a ti mesmo, ou se a flor te parecer coisa estática, que não te inspira, olha por exemplo a beleza de um pássaro a voar como tu, quando aqui chegas a mim, numa perfeita travagem com flaps accionados em semi torneau, airosa travagem no éter, que tu tão bem compreendes e que a mim me faz maravilhar nesse teu único baile do teu breve voar.

E para isso acontecer só tens que olhar o outro, seja homem ou mulher ou flor, como semelhante, seres capaz de te ver no outro, olha quem cruzas na rua, vê como vem vindo, qual é emoção básica que trás afivelada em seu corpo total, é tristeza, é zanga, medo e a sua filha desconfiança, ou doce, serena paz, alegria, euforia, abertura ao que acontece.

Se já as conheces, poderás então percebe-las no outro, sabes de imediato e de sempre, as causas que originam um ou outro sentir e podes então separar o homem que vês e com quem te cruzas do sentir que ele trás, podes ser solidário com as suas dores, porque já viveste de alguma forma as suas causas, e por isso sabes já do sofrimento que ele transporta e então porque sabes que não gostas de sofrer, quando tal te acontece, também podes dar ao outro a atenção, a mão, a palavra que cura.

Mas, sobretudo ao fazê-lo assim, separando o homem, por exemplo, da dor que naquele momento transporta, podes ver e sentir a sua beleza, pois é verdade que quando te dói, não deixas de ser tu mesmo Belo.

Belo é toda a vida na sua infinita expressão, mesmo quando dói, e mesmo assim sabemos que o Belo está por toda a parte, belo pode ser a nuvem que se vê da janela num dia triste interior, que anima numa figura de encantar ao seu passar

Belo é Toda a Vida e Tudo o que Vivifica A Própria Vida.
Belo é Amar e Ser Amado.
Belo é Amor Radiante
Belo é a Verdade em Meu Coração e no mando de meus passos.

Mas deixa-me por um instante voltar a breve flor, reconhecer-me semelhante nela, é ver no desenho das suas folhas um mesmo princípio de inteligência criadora, porque se reconhece uma mesma substância, uma mesma harmonia, uma mesma perfeição no seu ser, da mesma forma que tu és perfeito como pássaro entre os pássaros e eu entre os homens. Ou as suas cores, paleta de vida, imensas, que pintam tudo em cada diferente, ou ainda seus cheiros de belos inebriar, que encantam os olhos da tua amada, promessas de doçuras sem fim.

E a Alma, o que é, perguntou então pássaro

A Alma é o que È sem Ser, não tem um corpo, um suporte como eu ou tu, não é também o meu espírito que é aquilo que expressamos, o que pensamos a partir do que sentimos, a Alma possibilita o sentir como quem diz o entender, o inteligir.

Porque entre Ti e um Outro Ser, habita de permeio aquilo que te faz vê-lo, senti-lo, entende-lo, pois aquele que vês não é o mesmo que se deixa ver. A imagem que dele tens, não corresponde a ele mesmo, não é o mesmo que ele é. Não se vê nada em si mesmo, como coisa nua igual à sua própria nudeza, pois disso só pode saber quem lá propriamente habita, é um imaginar que imagina o ver e o que se vê, é um imaginar dos dois lados e ainda de todos os outros lados em volta, é um imaginar que te codifica perante mim e assim te descodifica também a meu olhar, é um imaginar, como um grande palco onde está tudo convocado em cena num mesmo instante, o que sei, o que não sei, em igual valor, não em proporção, pois sem dúvida, o que não sei é maior do que sei.

A Alma é como uma rede invisível, que tudo abarca, não tem tempo, pois em si reside o passado, o presente e o futuro, Alma é, Luz, energia, ideias, memórias, desejos, vontades de todo o tempo do mundo, expressas por todos os seres que aqui habitaram, e tem o tamanho infinito de toda a soma do seu tamanho, do que foi e do que há-de vir, como uma promessa de Amor, porque a Alma, faz-nos entender para além das aparências, dos véus, conseguimos de facto ver um por assim escrever, um terreno comum, familiar, que por sê-lo, nos permite vermo-nos, pois se assim não fosse, simplesmente não nos víamos, não nos podíamos encontrar, como quando rio contigo, pois eu de ti imagino sempre uma imagem, ou melhor escrevendo, há uma imagem de permeio, participada como quem diz elaborada, construída por tudo, eu, tu e o que está à volta, que nos vê e assim nos permite ver um ao outro.

Mas então a Alma é ela própria produto do teu imaginar, como a colocas de forma externa a ti, perguntou então o pássaro.

Sim que o é também, seja, mas o mundo é maior do que eu o imagino, habitaram muitas coisas, outras habitam e muitas outras irão habitar, estão em mim, porque eu estou no mundo ao participar nele e ao ser por ele participado, mas tem que estar fora também, porque se não lá estivesse, estaria para aqui a falar sozinho e não contigo, teria que ter concluído que tu não existes, que nada de externo me poderia existir, era quase como pensar que todo o mundo só existia dentro de mim, e é ela, a Alma, que me permite de ti ou daquela flor dar conta.

A Alma é a imagem que tenho de ti quando me espelhas, quando me dás a ver a mim em ti, e eu do outro lado, me espelho, me dou a ver-me e tu vês-te em mim e assim nos reconhecemos.

Talvez um dia aprendamos a fotografar a alma, a aprendamos a ver como alguns povos que desde sempre falam dos fios prateados que ligam todas as coisas até o dia em que se quebram, ou os deixamos quebrar, por os esticar demasiado.

Assim rezar a Alguém que fez o Belo, que por isso, foi por muitos reconhecido, é conversar com essa memória que está aqui neste preciso momento entre nós, é pensar porque o fez, e ao isto fazer, é fazer que essa ideia, esse Ser, se torne de novo activo como quem diz presente no aqui e agora. Mesmo as ideias são sistemas energéticos, diferentes de mim ou de ti nas suas configurações sem que isso obste a que sejam tão reais como a minha diferença para a tua.


Não há revoluções exteriores de mãos dadas como gostaríamos de recordar ou pensar, só há uma, a interior, a que faz modificar o exterior, que desperta o nosso Belo e o restante Outro Belo, e que nos faz aproximar, eu, de ti, tu de mim e do próprio Belo, que é então ele que se chega a nós, e então poderemos caminhar de mãos dadas para o poente do Sol, gozando cada uma das suas preciosas gotas, na dávida de Viver, de estar Vivo.

E contudo, todo este texto não passa senão de uma produção do meu imaginar, Será?