sábado, abril 10, 2004

Paixão do Cristo

Paixão do Cristo e não Paixão de Cristo, parece dizer-me uma coisa que sempre soube, pois substitui Ele, um homem que foi real como eu, por nós, ou seja, eu, tu e aquele outro ali que vai a pensar no seu sentir, e isto me conta de uma forma clara ao meu sentir, que a paixão, que é o Caminho, é uma mesma, que as questões daquele Homem, são no fundo as mesmas minhas questões e se calhar, ou melhor escrevendo, calhando como quem diz, quando se atravessam a nós, pressinto que são vividas, experimentadas, também por outros homens noutros tempos ou neste tempo ou noutros lugares.

Assim Cristo Está dentro de Mim, e Eu Dentro Dele

O Filho de Deus, realiza, que vai ser crucificado, Que a consequência lógica dos seus próprios actos o levaria a condenação pelos homens. E ela é brutal, não pela carne retalhada ou o sangue que jorra, ou as esferas de picos que se enterram para a depois rasgar, mas pelo Sadismo de quem a executa, um total desprezo perante aquele que ousou levantar-se acima do mortal comum que agora o tinha em suas mãos. Rei de quem, Rei de Onde, pimba. Milagres, poderes mágicos, mas se então estás aqui, pimba, toma lá mais esta.

Assim descarrego a minha frustração, tu que me prometeste o céu na terra, uma vida de Paz entre os homens e os animais, um sonho de respeito e de igualdade e afinal és apenas, agora, um cordeirinho atado às minhas mãos. Fizeste-me sofrer, ora toma lá, scrachkkkk, rasga meu chicote a tua mesma carne, afinal eras só igual a mim, nem isso, pois eu nunca tal o sonhei, não me quis fazer maior do que sou, pois sempre me ensinaram o meu tamanho.

Toma, que me fizeste sofrer, não sabes que não se deve incendiar os corações dos homens para depois abandoná-los, não sabes que seus corações são pequenos, que não suportam sozinhos os grandes voos, que precisam de pais, quanto mais alto os fizeste voar e de mais alto é agora, sua queda, levantaram-se da terra por um instante, abriram seus olhos um instante de luz e agora cegos de novo, não te posso perdoar, é o pior dos crimes, mostrar a luz e depois ocultá-la, traição das esperanças, a traição da traição, pumba, pega lá mais esta.


Perdoa-lhes, que eles não sabem o que fazem
Perdoa-lhes que eles não sabem que a alegria e prazer que têm em provocar a dor alheia, é a sua própria dor, só revela a suas próprias dores. São eles que sofrem, e quando me batem, estão só a responder a uma dor que nem eles próprios sabem que tem em seus corações. Se não podem ser deuses todos os dias, são-no no momento da brutalidade que lhes permitem executar. Ai sim, São como deuses zangados e terríveis na sua própria vingança, vingança de se esquecerem que poderiam ser deuses Bons, belos e do Amor.

O Filho de Deus Sofre uma Dor Brutal em seu corpo e está em silêncio como quem diz resignado. Mais do que isso ele levanta-se a cada vez derrubado, aumentando desta forma seu próprio sofrimento, bebendo o cálice até mesmo ao fim das suas forças.

O Filho de Deus é Homem como são Homens, seus carrascos e quem o julgou, eram homens no seu conjunto iguais ao conjunto do que hoje somos e se lá tivéssemos estado, éramos mesmo, os que lá estiveram. Enfim, poderia ter calhado a mim ou a ti, se tivesse nascido nessa altura do tempo, em vez de agora. Serão os tempos assim tão diferentes?

Brutal violência é também o que se passa no mundo de hoje, invadem-nos os corpos decepados, seres, iguais a nós, humanos como nós transportados em sangue, os rostos em dor ardente e a profunda estupefacção.

Em noite agitada entre oliveiras ao vento, um céu escurecedor e revolto, aquele homem sou eu ou tu. Adonai, Adonai, diz o filho de Deus em diálogo com o invisível Pai naquela imensa fragilidade de filho que ao ver seu destino, tudo ele treme perante o que vê, tudo ele assustado perante a coragem que vê necessária para cumprir o destino, como ele lhe Aparece. Assustado, tal qual eu ou tu o podemos estar.

Todo e todo ele é mesma tremura que eu ou tu às vezes temos, tão tremendamente humano, naquele instante entre a fragilidade e a força, entre balanços, como eu ou tu, às vezes, nos sentimos, sobretudo quando a Vida nos apresenta os Dilemas.

Oh Caminhante, Tu És o que caminha e o caminho
Os Dilemas do Caminho São os teus Dilemas
É Caminhar que Faz
O Caminho
É o Caminho que faz
O Caminhante
O Mundo
E O Céu
.
Naquela noite de vendavais, o Filho de Deus, tão assustado como eu ou tu, chega ao pé de seus amigos a quem na sua inquietação, pedira para vigiar e dando com eles a dormir, descarrega-lhes em cima a sua própria tensão, perante os estremunhados que assim acordam, porque é assim que o susto é, sempre pronto a saltar sobre outro, com ou sem razão, salta como quem existe. Por outro dito, salta como eu salto, é tão real como eu existir, e caso alguém esteja por perto, é para o colo do outro que geralmente salta.
Oh não me digas que há um tempo em que se perde a inocência, que eu estou cansado dessa mesma sempre estória, até houve um programa de rádio, que dizia o mesmo ao contrário, seu nome era, a idade da inocência e consequentemente seu outro nome irmão seria, a idade da não inocência, pois não posso definir uma coisa sem lhe entender seu contrário.

Oh não me recontes todas as teorias dos homens sobre a transição e o porquê da passagem de uma idade considerada de inocência para uma outra não mais inocente, de uma noite para um dia seguinte, como por artes mágicas, deitou-se inocente e acordou culpado ou outra coisa qualquer, um declive que se apresenta no passar dos dias, nos quais inexoravelmente teremos de escorregar para um sempre baixo, uma flor ao qual o tempo faz fenecer lentamente, pétala a pétala, eu te amo, eu não te amo ou talvez indiferente e morno?

Há sempre inocência e coisas más, ou expressões do mal, para melhor escrever, mas isso, nem nada outro, obsta à presença eterna da inocência, pois ser inocente é ter o belo dentro de si e assim o ver como quem o espelha, no alheio.

Deixar de ser inocente, que é coisa que nunca pode acontecer definitivamente, é só como andar com óculos de sol com a graduação e filtro errados. Está sempre dentro de mim e de ti com que me cruzar, sou eu que me faço e me torno a inocência, que nada tem a ver também com falta de percepção de como as coisas se apresentam na sua natureza íntima e verdadeira.

Nada mais, pois eu quero o Belo nas suas infinitas expressões, aquela nuvem, o calor do sol de hoje e de amanhã, um sorriso num olhar, eu sei lá, expressão em tudo e em todos, pois ela não é só minha, é tua também, lembra-te pois disso e escolhe de novo ser inocente, pois andar assim tem ainda outra coisa, influencia o redor.

Depois, fico-me a pensar, que mesmo que existam alguns entre mim ou mesmo no meu quintal que por não serem capazes de o ser neste momento, preferem então na sua perda, tentar-me à não ser mais inocente, que eu prefiro sempre o Belo e que não posso desculpar-me a mim mesmo, pelos outros, que residem comigo no mesmo único jardim, não serás tu que me retiras a imensa beleza da vida, a ti só posso dar-te a mão do coração se tu o quiseres também, pois não se dá, aquilo que não queres receber, e quando isso acontece, não é dar que falamos, é de desperdício, um imenso desperdício, que acaba por drenar as coisas belas se eu assim burramente insistir.


Não vou dar chance ao irmão anverso do Belo, cujo mil nomes são Terror.

Oh múltipla e infinita Beleza da Vida e do Viver
Eu te Agradeço por Nela Participar
Por Ser Por ela Participado
Oh inocência do Meu Ver
De todo o Ver
Oh Inocência do Meu Coração
Na Batida do Mesmo Coração
do Mesmo Único Mundo