sexta-feira, junho 18, 2004

O homem na praia pensava naquele número que ouvira, como resposta externa ao seu próprio pensar e pesava o seu conhecimento, o conhecimento de que dele tinha.

70.000, era um número familiar, pois correspondia a uma média constante de pessoas que viam as séries que tinha feito. Uma média constante, era um número constante e o que era aparentemente intrigante, era ter reparado que esse número médio, se mantinha constante, independentemente da faixa etária a que a comunicação se destinava.

Ou as pessoas, umas mesmas cresciam muito depressa, ao ritmo dos programas que tinha feito, coisa impossível, ou então, aquilo apontaria para uma outra interpretação, um eco, que tinha um sempre mesmo tamanho, independentemente do grupo de idades que os via.

O homem também sabia das dúvidas que tinha relativas às médias, às estatísticas, que operavam reduzindo as pessoa a uma média, uma regularização da vida, se assim se pudesse dizer, que para ele se manifestava sempre, como estado excepcional, feita só de excepções, visto que cada ser lhe aparecia como distinto, excepcional, nessa identidade única e também, numa outra maneira, igual.

O homem por seus estudos sabia, por cálculo, que esse número, relativo ao seu País deveria ser um bocadinho maior, 200 a 300 mil, mas isso era só seu cálculo, pois o número que ouvira reduzira-lhe esse universo e remetia por semelhança para uma medição de impacto do que andara a fazer em mais de vinte anos de actividade.

Medição de impacto, sorria homem ao seu próprio saber destas matérias, sorria agradecendo à Vida as múltiplas indicações que em seu caminho lhe revelara sobre estes assuntos.

O homem recordava uma conversa com outro homem a quem ele tratara por Mestre, Lima de Freitas que lhe disse um dia

Na segunda guerra mundial, no pacífico os japoneses, fizeram um elevado número de prisioneiros aliados, cerca de 50 mil. Levaram-nos para uma ilha, meteram-nos num cercado como animais e ficaram a olhá-los durante três dias, ao fim dos quais separaram cinco mil.

Os restantes 45 mil, praticamente podiam andar à solta nessa ilha, não dando problemas de maior, e os japoneses dessa forma inteligente tinham sabido reduzir drasticamente o número de homens e meios que seriam necessários para os guardar.

Sentados na colina defronte, os japoneses limitaram-se a identificar aqueles, que formavam as rodas de homens, que organizavam coisas, que faziam mexer os outros.
Tinham tirado a cabeça e o corpo se tornara assim amorfo, incapaz de direcção e movimento próprio.

Um saber antigo, que nos fala de elites e dos comportamentos da massa humana, que Mestre Lima de Freitas apresentava como a regra dos 5%.


Mas também sabia o homem em seu ver, que no tempo de hoje, fruto do tempo que passou e da forma como a vida e a transmissão do saber, nesse entretêm evoluiu, que nem era necessário cinco por cento. Seus cálculos apontavam-lhe para um valor entre os dois e três por cada cento de homens.

Pensava o homem dentro de si, se as elites sempre existiram, onde estão elas, como é a sua participação no modelo de gestão da casa democrática. E aqui a porca tornava a começar a torcer um rabo, que era a sua consciência de que a maior parte dos seres que componham essa mesma elite, não se encontravam no por assim dizer, espaço político de intervenção organizada, pois tinham sérias dúvidas da operatividade do modelo, tal como se apresentava.

Sabia o homem, que ao limite essas mesmas elites não eram atreitas a formarem grandes grupos, pois a sua individualização, já a isso lhes apontara, não o fazer, como método privilegiado. E contudo eles existiam, aí estavam em seu País, nos locais onde moravam, onde estudavam e onde trabalhavam e todas as características que de alguma maneira os fazia su generis, actuavam no redor, nos locais onde estavam, inspirando os outros a seu lado. Vivos e actuantes.

A equação seria então, de que forma o poder politico, seus órgãos, poderão facilitar e potenciar seus desempenhos, suas vontades, num quadro organizacional, onde eles geralmente não se encontram e que também não os contempla.

Como reunir estas vontades, de que forma reunir esta imensa força, e torná-la alavanca do devir.

O homem sabia que estes seres estavam vivos, naquele preciso momento do seu País, sabia dentro de si mesmo, que havia uma força para navegar, mas que o sistema político não permitia essa mesma navegação, também dizia o homem, que era por ali que passava a solução.


O homem recordava dentro de si uma das questões que muito se discutia nos tempos a seguir a Abril. Quem é que fazia a história, se as massas, ou mais, seres individuais, certos seres individuais, que tinham, ou melhor assumiam, por assim dizer papéis determinantes na sua evolução.

O homem recorda que sempre tivera alguma dificuldade em explicar o seu ponto de vista sobre esta matéria, pois para ele eram mais os seres individuais, numa relação colectiva, com um Todo que os participava, nos qual todos nós participávamos.

Também se recorda de saber por alguém que vivera há muito tempo atrás, que terá dito em seu tempo, que naquele preciso momento do tempo calculava que seriam três ou quatro, os que assim existiam na terra.

Ficara o homem desde o momento que o soubera, a pensar, se as distâncias do mundo eram maiores, se o tempo que as coisas precisavam para atravessar as distâncias e chegar, era maior, como é que ele o poderia saber e tê-lo dito e subiu-lhe à memória, um outro dos ditos atribuídos, que Ele, costumava aparecer mais facilmente quando dois ou três se reuniam em busca de seu nome.

No seu caderno o homem escrevia um breve retrato, honrando um Homem a quem outrora chamara Mestre, Lima de Freitas, sua graça.

Oh, aquele franzino ser, quando com ele caminhava pelas ruas, pelos cafés, como tudo se Iluminava, como todo se fazia claro e preenchido por quentes emoções de Amor, seus olhos faiscavam as fagulhas da inteligência, sempre a sorrirem, bem-humorado, com boa disposição daquele que se torna contagiante

Muito amado e querido saudoso Mestre Lima de Freitas, Homem de faces mil, pensador, escritor, pintor, fazedor de símbolos, homem de ciência e visão, de Vida Esférica, que a praticou e viveu como o Todo que Ela Verdadeiramente É, Homem de uma Imensa e Infinita Bondade e Ternura, no Andar e no Trato com os Homens.

Homem da imaginação e do imaginar, activo e activante, de outros Mundos Visionários, ou Mundos Imaginários, onde entrava e saia como em sua casa, como bem reflectem as superfícies e profundidades de seus quadros. Homem da Geometria, da matemática, que transportava, estudou, aprofundou e publicou a herança da exploração numérica, da divina proporção, do 515, que Almada começara na sua aventura pitagórica, tudo sempre vindo mais bem de trás, do Painel de S. Vicente e do peculiar quadro Português, Ecce homo.

Homem que organizou o primeiro congresso mundial da transdisciplinariedade, que decorreu no convento da Arrábida, e que trouxe até ao nosso país um conjunto de sábios que eram como ele, amigos, que vieram de todos os lados.

Recorda um dos seus últimos encontro com ele, telefonara-lhe súbito, cheio de uma urgência interna, também relativa ao que então se passava em seu País, confessara-lhe meio perdido na sua agitação, as preocupações que lhe traziam o peito apertado, e voltando-se para ele perguntara-lhe, Mestre, o que se Faz?

E o Mestre vendo toda aquela agitação, interrompera a pintura dos seus azulejos, saíra com ele para fora do atelier, e mostrando a paisagem no outro lado do rio, começara a indicar-lhe as direcções das coisas ao longe, ali Palmela, ali o Atlântico, ali o…

Singela lição que nem lição o era, como era seu feitio, mostrava-lhe com infinita ternura e disponibilidade, que ele sabia orientar-se, saberia orientar, descobrir o que fazer.

Quando nessa tarde dele se despediu, disse-lhe uma coisa o Mestre que lhe ficou a ressoar, curioso, ainda ontem, apareceu um outro com as mesmas questões. Vendo que não era intenção do Mestre mais dizer sobre tal matéria, enterrei a minha curiosidade, de saber, quem seria.

Aquele Homem tanto dava, sem se preocupar com qualquer cálculo, um dar desinteressado, um dar de Amor, um Ser de Amor e Toda a Vida com ele Cantava em Seu Caminhar

A Vida Era Pródiga com ele, trazendo-lhe as mais belas coisas, embalando-o nos mais variados odores, sabores, saberes e calores, na mais das vezes, Mestres, conhecidos e outros não, tinha a Vida Com ele Feito Cruzarem-se, e Todos Eles, pois São Assim os Mestres, Tinham tocado seu coração, em seu espírito, cada um deles trouxera-lhe finas pérolas e rendas, que lhe deixaram em seu colo para toda a Eternidade. Amor, Actos de Amor, como as cartas de Amor.

E hoje no ponto da idade em que se encontra o homem na noite ao luar, na sua praia de mar preto e prateado à luz da Lua Cheia no Céu, correlaciona, encaixa o que sabe, vê o porquê das coisas terem acontecido assim de uma única maneira, Vê o que a Vida Lhe Disse e Lhe Diz e deseja ser o que sempre foi, exercer sua acção, dar seu contributo em Paz, andar nos braços do Amor, fazer da Alegria sua companheira.

O homem olha tudo o que sabe sobre as formas como os homens entre eles se organizam e vê nessas mesmas formas, nessas maneiras de se organizarem, nas estruturas que para tal fim concebem, as emanações do próprio olhar dos homens, que revelam um ponto de visto aceite como dominante, simétrico, ao que se convencionou chamar de real comum, e assim tornado, a todos como comum.

O homem vê as formas, os modelos dominantes que se encontram em representação, a actuar nos dias, um após o outro, sempre como eles são, e vê como no final desta era, essas estruturas de alguma forma, não são capazes de responder mais, e vê também as novas, que já existem e emergência de novas formas, aquelas que ele vê afirmar.

O homem sabe também que são nas formas que se configura o poder, seu uso, sua forma de usar, a sua eficácia e que formas resultam e são, olhares, formas de estar e trabalhar, de viver, de ser, espaço e tempo.

Em seu pensar, basicamente assiste-se a uma mudança no eixo dominante a vertical mediana que abre em cone para a base, para um eixo horizontal, com nítida alteração do espaço e tempo.

Depois lembrando-se do enunciado comunicante entre as partes, a que está em cima e a que está em baixo, via aqueles milhões de pontinhos que lado a lado formavam uma linha horizontal ao nível da terra, pois era lá que tinham seus pés, permeado por uma força que actuava de duas formas em duas direcções, pois se uma das suas direcções era horizontal, por cima de cada um desses pontinhos, são hoje visíveis, pequenos filamentos verticais.

Se pensasse a antiga dominante, via-a como uma espécie de cruz invertida, envolta por um cone, e o que se passava agora, era como se a trave horizontal de uma cruz direita, como um homem direito, tivesse descido até à terra da sua fundação, pela sua vertical mediana.

Fechando seus olhos e sonhando a sua imaginação, via que a trave que prendera os braços do crucificado descera, por assim dizer pela acção humana, que Cristo, aquele que por todos se sacrificara, saia finalmente de sua cruz humana, deixara de estar crucificado, pois parara, nesse preciso instante, as razões que a tal levaram.

Aeon, Era, final desta Era, um final por muito calculado, datado, previsto, anunciado e contudo uma Era é como a Vida de um Homem, tem um nascimento e um respectivo desaparecimento, Um nascimento trás em si desde seu inicio o anúncio do seu desaparecimento, e depois se o tempo da vida de uma Era for como o tempo da vida de um homem, poderemos por analogia deduzir as coisas, que afectam a vida das Eras, da mesma maneira que a forma como um Homem vive afecta sua própria vida a forma da sua morte.

Eras estruturam-se em termos de ideias dominantes, e estão segundo os antigos dizem relacionadas com o movimento das planetas, dos astros celestes, com o plano Divino do Universo.

E se ideias são visões, comportamentos, acções, não será difícil perceber, por onde esta Era começou a desaparecer, o que a condena ao desaparecimento. É ver os problemas que se manifestaram e as suas respectivas naturezas.

E contudo hoje o tempo era o da cegueira, o da falta de visão pois os homens sentiam-se perdidos, já não sabiam mais ver e quando tal acontece, quando os homens assim andam na mudança de um Aeon, as coisas tendem a ser um bocadinho mais agitadas, mais complicadas.

O homem concordava com outros homens que o problema da perca da visão vinha de muito atrás, de Nicéia 787 e depois Constantinopla 868, onde se começou a despotenciar as imagens, a não vê-las mais como presença real do divino, reduzindo-as as imagens a representações, e alegorias, depontenciando assim também o papel da Alma, que possibilita o ver, aí terá começado a perda da visão que conduzia a cegueira de hoje. Criando a divisão, o hiato entre o numênico e o fenomenal

Muitos outros erros se fizeram, muito ofendido foi o Amor, assim como muito foi Amado. com o Amor se Amou, com o Fogo, a tortura se matou, pelo fogo o anátema fora também proferido, e agora em tempo recente, um pedido de perdão tinha sido apresentado.

Se bem que no seu entender, gostava de frisar a morte era mais uma coisa do domínio da ilusão.

Dizia então, Imagina um círculo, desenha um círculo num papel, traça-lhe um equador, e nos pontos em que ele toca o círculo, reforça dois traços pequenos, como se duas portas em alçado se tratassem.

Por uma das portas nasceste, vindo do espaço entre as duas, circulas o círculo da tua vida e sais pela porta oposta para o sítio de onde vieste e depois tornas a vir e a ir, até, o tempo sem mais tempo, onde o infinito se tornará finito, Acontecer.