sexta-feira, julho 16, 2004

(estes fragmentos do que então chamei de um texto que aparecera, nesta forma que os escolhi , de partilhar, saem por vezes fora da sua ordem natural e de alguma forma temática, aqui entendendo por temática, os núcleos drámaticos onde a acção se organiza.) talvez uma futura revisão depois de conclui-los, os possa ordenar de outras formas)
 
 
 
Imagens da sua diferenciação, seriam portanto imagens únicas, suas, procurava o homem dentro de si, como que à pesca no pescar.
 
Blur, blur, blurb, nurve, curbe, faz a bóia à superfície, num jogo de pura, empurra as águas do mar, numa agitação, tensão vertical.
 
 
No palco do auditório, o duo Ouro Negro, punha os pequeninos infantes na festa do natal a cantar. Hábitos curiosos de grandes empresas nacionais, que faziam e fazem festas para os filhos dos que neles trabalhavam, aquilo metia presentinhos, cada um levava um e depois era feita uma troca, não se sabia o que calhava, e tudo aquilo era sempre uma grande excitação.
 
Aquela música, metera na sua mecânica participativa, a divisão da sala, a partir de uma linha imaginária traçada do meio do palco baixo e que subia perpendicular até ao cimo do auditório, onde ele se encontrava à direita.
 
O braço descrevia o que dizia, os meninos que estão à minha esquerda, ou seja à vossa direita, cantam lalala, e os que estão à minha direita, ou seja os que estão à esquerda cantam lelele
 
Aquilo acontecera porque as vozes dos coros tinha dado confusão, e aí, ele percebera que seria necessária uma explicação de direcção. Bem lhe Agradeceu o Infante, pois nunca sabia qual era uma e outra e aquele Homem tinha-lhe dado uma chave.
 
Assim, sempre que queria saber qual era uma ou outra, colocava-se mentalmente naquele palco, ouvia a minha direita é a vossa esquerda e sabia então qual eram seus lados, naquela linguagem dos adultos.
 
Complicado, todos concordarão, mas sendo ou não sendo, aquilo funcionava, permitia ao Infante responder por uma coisa que a ele, pelos visto, como alguns outros que foi descobrindo, e que era, a ausência do sentido de lateralidade.
 
O homem reflectia que a ausência do sentido de lateralidade, indica uma espécie de lateralidade total, que no fundo se tornava um círculo, ou uma bola que o envolvia.
 
Uma lateralidade total, que o envolvia como uma bola, pois os lados estavam no redor e o redor era apreendido pela participação de todos os sentidos, e com pelo menos mais um, que não era nenhum deles, mas que deles também participava.
 
A apreensão do redor que se podia fazer pelo cheiro, cheirando o vento que o trás e o leva em seu bailar, e que mesmo o cheirar concorria para a medição de uma distância num prado, ou do estado do tempo que estava ou que vinha.
 
Ou o conhecimento provado das belas coisas que habitavam nesse redor, oh, a mais suave no ponto do mel exacto, para seu paladar imagem do nosso ser português, daquela maçã, aquela maçã específica do norte de sua infância, a bravo esmofo. Maçã verde, de formas irregulares, nada polidas, normalizadas, como são outras das suas irmãs que os homens entretanto produzem. 
 
(Oh Senhores, aqui fica a pérola, cultivem esta maçã, nem que seja em terrenos alheios mas de uso fruto regular, dêem-na a conhecer aos Homens, seu paladar e vejam como seus corações se arregalam. Façam o teste cego, mas bem cego, ou seja não lha mostrem inteira, mas em pedaços regulares lado a lado. Ocultem-lhe a exterior forma para melhor sobressair a Interior.)
 
 
Ou a visão com os seus 230º, 250º graus de amplitude na sua horizontal, sendo que entre os restantes variáveis 130º ou  110º , se vê de outra maneira, com o tal outro sentido, aquele que nos faz virar a cabeça para trás quando alguém nessa direcção, de um certo modo, com um certo sentir, nos observa.
 
Parecia haver qualquer coisa invisível a seus olhos, de si mesmo, que via, que lhe permitia ver, uma energia subtil, um corpo subtil, que envolvia seu corpo físico, como uma esfera.
 
Lateralidade, esquerda, direita, se lhe tivessem falado no nascente e poente, talvez que sim, ou mesmo em, oriente, ocidente, que sim, talvez assim tivesse conseguido estabelecer uma consonância lógica com seu sentir, e aí se calhasse não precisaria de tão complicada mnemónica.
 
E contudo um homem sem sentido de lateralidade, implicava em seu ver, uma remissão para ele mesmo, já que como corpo total ao mover-se no redor, teria que ser a partir dele e como centro de si mesmo, o estabelecer das direcções, das coordenadas.
 
Mais uma vez, mordera a maçã da linguagem, uma outra diferente, de uma outra que ele conhecia, a que tinha acesso, onde também vivia.
 
Uma percepção e vivência do espaço como coisa total, envolvente, sendo que seu corpo consciência se já teria noção, saber, das direcções das coisas exteriores, das nascentes e fozes dos rios, do sol que se levanta e se põem, não teria na mesma, consciência delas a um nível só seu, a posição, dependia sempre da sua relação com elas, com as coisas exteriores.
 
Assim o menino não lateralizado era uma espécie de menino de todos os lados, sendo que as direcções dependiam sempre do movimento e da relação de posição entre as coisas
 
Ao limite para quê esquerda e direita, se a minha esquerda é a tua direita, quando me encontro de frente para ti. Já lado a lado, sim elas concordam, embora encostem os ombros, uma em cada seu oposto, bela analogia de vida, e acrescentava o homem, ele sabia donde as coisas vinham, onde estavam, mas que fosse esquerda, ou direita, aquilo era mais complicado, pois teria que se perguntar esquerda ou direita em relação a quê.
 
Muito mais interessante lhe parecera o sistema do major Alvega, uns anos mais tarde. Os Aviadores imaginam um círculo, dividido como as horas de um mostrador de relógio e assim indicam uma posição com mais precisão que direita ou esquerda, inimigo pelas x horas, seria mais preciso a indicar de posição e direcção de aproximação, do que dizer, esquerda baixa ou direita alta.
 
E tal deve ter sido inventado quando o homem descolou, deixou de ter o chão debaixo dos pés para se perceber no universo de outra forma e com outros poderes, o de voar, imitar seus irmãos pássaros, como era longínquo este sonhar dos homens.
 
E de analogia com sua posição vertical, sabia desse eixo que lhe atravessava todo o corpo vindo de mais além e indo mais além, cruzado com um que podia definir uma horizontal, feito por seus braços, e que se o homem afastasse as pernas, criava assim mais dois eixos, cinco eram então os pontos cardinais, cinco as direcções, extrapoladas num mesmo plano e se rodasse os braços esticados 90º, criava mais dois pontos cardinais e obtinha assim mais um eixo, que lhe permitia tornar-se esfera, esférico, coisa que ele sempre suspeitara, ao contrário do que os adultos lhe criam fazer crer, verdadeiramente, ser.
 
Subira à memória do homem, uma história de homens que outrora se tornaram esféricos, que por seu muito engenho, assustaram os Deuses, que assim assustados com um poder que pensaram que os podiam ofender, os cortaram ao meio, para lhes retirar metade do engenho e da capacidade. E o que se lhe afigurava mesmo como curioso, era que aqui, em sua vida, não eram os Deuses que tal faziam, mas mais seus próprios irmãos, pois alguns assim se preferiam comportar.
 
E se tudo isto era verdade em seu sentir, também era verdade a existência de convenções, que elas estruturavam uma forma de olhar supostamente comum, e que só assim parecia poder existir entendimento na conduta dos homens com os homens e que portanto não lhe restava que aprender a viver com aquilo, mas sem perder, o seu próprio e único, como a cada qual, ponto de vista.
 
Recorda-se em infante menino de começar a perceber que os códigos dependiam sempre de uma arbitrariedade definida e acordada previamente por alguém, ou conjuntos de alguns e que muitas eram as vezes, que ao indagar sobre o seu porquê, porque é que tinham sido construídas assim, daquela maneira, ao explicarem-lhe, aquilo, embora perceptível, não fazia para ele todo o sentido, ou melhor, não fazia o sentido integral da coisa, pois assim a seu sentido, se lhe apresentava a coisa diferente.
 
E lá ia ele tentando explicar seu ponto de vista, e complicado, era, que mesmo que o percebessem, não deixavam de lhe dizer que a realidade consensual, era da forma definida como lhe fora apresentada e o infante tinha então problema acrescido, pois também nunca se percebera como consensual a um outro, semelhante, que sim, mesmo muito, já era tal, o saber dentro de si, mas consensual não. E contudo sabia o homem que existem circunstâncias, que tornam a identidade completa, de certa forma consensual, mas essas encontram-se em outros dominios para além e aquém das convenções. 
 
Aquilo deverá ter sido para ele como uma queda, o contacto com a linguagem dos homens e seu pensar pré estabelecido, pois de repente se dera conta que o que sabia das coisas e os que os outros convencionavam como saber sobre essas mesmas coisas, era distinto, e tal lhe parecera na altura que iria tornar a sua vida um pouco mais complexa e também, como ele dizia, uma repetição de certo modo.
 
Teria que passar a ter uma interpretação que correspondesse aos códigos aceites, pois se não a tivesse, não poderia comunicar, nem aprender na forma que lhe era proposto aprender e depois teria que continuar a ter a sua, pois se não, arriscaria a não saber mais quem era.
 
Já conhecia o homem, o ditado, água mole em pedra dura, tanto bate, até que fura, o que o alertava para o necessário cuidado em não vir a perder o seu próprio ponto de vista, pelo peso e repetição das circunstâncias.
 
 Viver implicava andar com um certo estado de vigília, acordado, para não tomar só as coisas pelo que os outros lhe faziam crer que eram, mas sobretudo vê-las, Vê-las por si mesmo, sendo que isso não rejeitara à priori o que de bom lhe trouxessem, e o bom para ele, era sempre algo que se apresentava como um convite, que o convidava a um certo sentir, a um pensamento, a um saber, a um agir, a um aprender.
 
 
Descubra as diferenças.
 
Quando se diz que ele que se coloca a esquerda, quer-se dizer o quê, ou posto de outra maneira, o que quer dizer esquerda, que conceitos imutáveis, que verdades, que querer, que diferente agir se esconde por detrás desta palavra, talvez o tudo e o nada e o entretém, no entre. Posso assim definir Alguém, posso assim conhecê-lo melhor.
 
Quando se diz que ele que se coloca à direita, quer-se dizer o quê, ou posto de outra maneira, o que quer dizer direita, que conceitos imutáveis, que verdades, que querer, que diferente agir se esconde por detrás desta palavra, talvez o tudo e o nada e o entretém, no entre. Posso assim definir Alguém, posso assim conhecê-lo  melhor.
 
Depois ficara o homem a pensar que a noção espacial da consciência, ou do espaço da consciência, como gostava mais de dizer, era como a diferença que recentemente se dera na vida humana, na  passagem do raciocínio analógico para o digital.
 
Podia ver um raciocínio como algo, assente numa linha de tempo. Por exemplo três palavras seguidas, uma primeira, uma segunda e uma terceira.
 
Podia ver simultaneamente passado, presente e futuro, mas a limitação do raciocínio analógico era visível quando se deu por si, a editar vídeo nos equipamentos analógicos, que como todos os equipamentos, espelham o pensamento e a consciência de quem os fez e o tentam sempre imitar.
 
E aquilo tinha fortes limitações, a construção narrativa estava condicionada numa só direcção com uma interdependência muito restrita
 
Palavra A       Palavra B       Palavra C
 
Ou
 
Plano A          Plano B         Plano C
 
E o pensamento para ele, permitia-lhe todas as direcções, todas as peças, as palavras ou planos podiam ser ligados entre si de múltiplas maneiras, tanto no espaço como no tempo, c, podia vir antes de a ou de a no meio de c e b. Dava-se muito até o caso de poderem ser paralelas no mesmo tempo.
 
É certo que esta imagem é só reveladora do dominante do pensar, e das condicionantes que as técnicas colocam ao pensar, pois mesmo esses sistemas de edição analógica permitiam uma certa alteração na ordem de montagem.
 
Foi isso que o digital trouxera, uma maior consonância com o modo de funcionar do cérebro humano e do pensar, uma maior liberdade criativa, uma maior facilidade em ligar as palavras da forma que se entender e também uma outra, a capacidade de refazer e refazer, experimentar, bem à imagem e semelhança do Homem.
 
Um enorme aumento da multiplicidade de construção possíveis, se visse estas coisas como por exemplo, peças de lego.