terça-feira, julho 20, 2004

o texto de 16 mexeu-se.  sobre a possibilidade consensual, que existe para além a aquém dos códigos.  
  
 
Pai
O
Que
Me
Disseste
Que
Eu
Não
Teria
 
Que
Não
Seria
Aqui
Na
Terra
Amado
 
Pai
Não
Me
Poderias
Ter
Tal
Dito
Pois
Tu
És
O
Amor
 
Se
Não
Foi
Isto
Que
Me
Disseste
 
Que
Me
Disseste
Então
 
Naquele
Dia
De
Infância
No
Norte
Do
Meu
País
 
Quando
Galgando
O
Muro
Voando
Ao
Lado
E
Por
Cima
Das
Canas
 
À
Percepção
Da
Cegueira
 
Algo
Estremeceu
Algo
Em
Mim
Acordou
 
Que
Eu
Iria
Passar
Fortes
Privações
Muito
Sofrer
 
Sentença
Que
O
Amor
Terreno
Me
Estava
Negado
 
Foi
Esse
O
Destino
Que
Então
Me
Mostraste
 
Bem
Sei
Do
Que
Me
Falas
Te
 
Bem
Sei
Do
Amor
Universal
Que
Me
Mostraste
 
 
Muito
Eu
Me
Revoltei
Contigo
Na
Altura
Me
Zanguei
 
 
Mas
Tu
Sabes
Pai
 
Muito
Eu
Meu
Pai
O
Amor
Cantei
 
 
Canto
O
Amor
Pois
Das
Canas
Meu
Instrumento
Fiz
Para
Melhor
Cantar
O
Amor
 
Privações
Sofrer
Foi

Forma
De
Aprender
E
Por
Isso
Saber
Não
Me
Queixo
 
 
Assim
Faz
O
Moleiro
O Vento
As Velas
A
Moer
O
Grão
 
Esfarela
Qualquer
Réstia
De
Mim
Da
Minha
Pequena
Vontade
Faz
De
Mim
Papa
De
Farinha
Do
Amor
 
Eu
Te
Peço
Pai
Faz
Te
O
Ligante
Que
És
Aqui
No
Meio
De
Nós
 
Assim
Me
Fizeste
Apto
Assim
Estou
Apto
Neste
Meu
Anseio
 
 
 
O homem recorda-a. Oh que Amor tão grande lhe tem ela   que tanto Amou e foi Amada. Mas perguntava-se o homem se teria sido por ela Amada.
 
Recorda seu vislumbre inicial, seu inicial deslumbramento, coisa encantada de contos de príncipes e princesas, oh como ela era bela a seu olhos, como ela lhe iluminava o Universo, quando por perto. Com ela desejara no breve espaço de seu encontro ir com ela ao infinito e mais além.
 
Gostava muito dela, da sua maneira de ser, da sua vontade de caminhar por seus próprios passos, do sentir que dava expressão na sua criação, na busca de se conhecer, na busca de construir o seu próprio caminho, que por ser de criador, já à partida se tornava distinto do da maioria.
 
Recorda quase no fim desse primeiro cruzamento das suas vidas, uma fotografia na festa de anos. Estiveram toda a noite a discutir e aquela conversa correra às vezes de formas pesadas, afloraram as suas tristezas, que anunciavam o fim. E o fim fora simples, pois ela tinha decido dentro de si o partir, mesmo que disso ainda não estive convencida ou preparada para com ele falar. Eram nítidas as mágoas acumuladas, já grandes demais para serem revertidas, assim o sentia em seu íntimo, pois sabia da porta fechada que ela era para ele.
 
Clik, faz a máquina e o flash, tirando a fotografia do grupo de seus amigos, ela sentada em seu colo, no meio deles, ele surpreso consigo mesmo, fazendo o que geralmente não faz, impor sua vontade, lá lhe pedira a ela para se sentar e em seu pensamento, imagina o sentimento que irá em sua cara que não vê.
 
Também não a verá, pois esse rolo desapareceu, como outrora desaparecera um outro numa outra história terrena de seus amores. Estavam sempre a desaparecer, as coisas importantes para ele nos domínios dos amores, pois houvera momentos especiais em sua vida que calhara documentar, e depois puf, sumiam, no ar, metendo histórias estranhas, carros assaltados e coisas que tal. Parecia ao homem que os deuses com ele se entretinham, pegavam-lhe peças.
 
O homem sempre procurara numa relação, antes de mais a amizade verdadeira, sobretudo se fosse com a mulher Amada. Não lhe fazia jeito em seu jeito de Amar, de ver o Amor, como se ele pudesse existir sem ser em verdade.
 
O homem sabia dentro de si que esta questão nem era específica entre homens e mulheres, era uma equação universal do amor que se punha entre dois seres sempre que se amavam.
 
Mas sempre o que vira dominantemente à sua volta em jovem adulto e depois em adulto, era diferente desta sua ver forma de ver o Amor. Parecia-lhe que as pessoas não tinham a capacidade de se entregarem ao outro, de se abrirem, de se revelarem, tinham medo da opinião do outro, do seu apreciar, e das consequências, e assim preferiam meterem-se para dentro, em concha, criarem pequenas reservas de si mesmos, pequenos espaços, pequenos domínios, onde o outro nunca poderia entrar.
 
As pessoas pareciam construir muros, à volta de pequenos espaços, a que chamavam reduto da sua intimidade, da sua essência do seu ser, espaços secretos, para o outro feito intransponível.
 
 Que era assim que a vida era, que precisavam de ser assim para serem.
 
E contudo o homem via aquilo, um bocadinho ao contrário. Não lhe fazia muito sentido esse espaço de reserva para garantir seu ser, aliás seu ser estava sempre se desenvolvendo, portanto o que é que ele iria querer cercar.
 
Qualquer coisa que cercasse, resultaria sempre em cercar passado, passado, um atrás do outro e o que ele via no Amor era a partilha, a partilha da aventura de ser, estar com alguém com quem se tem o privilégio dessa mesma partilha, porque partilhar é aprender aprendendo e crescendo.
 
Por outro lado quanto mais fosse rica essa partilha, assim o via, mais a vida se tornava ampla, diversa, carregada dos mais múltiplos e subtis tons, oh alegria do poder partilhar, do dar e receber, das peças que colam, que o outro nos trás e que ao dar, nos permite a nós mesmos, o acto de colar.
 
Que sim, que numa relação entre dois seres, haveria sempre espaços privados, que decorrem do simples facto de terem quatro pernas, pois como se sabe, só podem andar duas a duas, mas que houvessem à priori, por assim dizer, áreas de concessão reservada, porquê, o que se escondia naquela necessidade.
 
 
E constatava o homem com tristeza que na mais das vezes, aquilo eram zonas semi-escuras onde germinavam as inverdades, as meias e as quarto verdades. A cercadura estava posta à volta daquele espaço que se afirmava como reduto necessário, fundamental ao ser, de tudo aquilo, que em seu ver e seu saber, seria mais seu contrário, mais do nome do não ser, ou do ser que não é ou mesmo do ser assim, assim, ou mesmo do assim assado.
 
Para o homem ser, implica a busca constante da sua verdade interior, face ao que a vida lhe trazia, daquilo que sabia, ou quando não sabia, ia descobrir, aprender. E isso não lhe parecia muito compatível com mentir a outro, pois sabia que para mentir a um outro, tem primeiro que se mentir a si mesmo, inventa-se de nós mesmos um diferente, um que não somos, uma máscara de afivelar, que por vezes, com tanto insistir se cola de tal maneira à nossa própria pele que não mais parece sair, tornamo-nos assim a máscara, deixamos de ser nós mesmos e só com grande esforço a conseguimos descolar. Mas sim, que ninguém se preocupe, é sempre possível, haja vontade, a tua, a minha, e a de cada um que o intente, pois a recompensa é grande e valiosa.
 
 
 Existe ou Não Existe Uma Diferença entre Ocultação e Mentira
 
 
Diziam-lhe na mais das vezes suas mulheres amadas, que sim, que existia uma diferença. A conversa como todas as boas conversas, lá afunilava às páginas tantas, para o seu travamento, ou cerne se se preferir.
 
Eu oculto-te isto ou aquilo para te defender, para te não fazer mal, para não te provocar dor.
 
Que sim, percebo a tua boa intenção, mas quem és tu para julgares que eu necessito da tua defesa, o que me é fazer mal, ou mesmo se não prefiro a dor que por vezes vem casada com a verdade das coisas.
 
E depois, pensa lá mais um bocadinho, achas mesmo que a tua vontade se pode estender sobre a vontade de um outro, isso resulta em arrogância, pois não tratas o outro como igual, não mais mano a mano, resulta num desequilíbrio entre as partes.
 
Fazes-te maior do que o outro, pois decides que a tua vontade, que te diz, não digo isto, não lhe faço aqueloutro, é superior à do outro, não tens que o consultar, não lhe dás tudo o que sabes e não sabes, para ele poder reagir, não mais o mano a mano, mão na mão, que frutifica, pois o frutificado, é aquilo que se torna e faz comum.
 
E contudo também lhe dizia, que a vontade de cada um é a vontade cada um, dizia o que dizia sobre o estender da vontade, mas aceitava a vontade que ao lado se manifestava.
 
É como ficar sozinho acompanhado, numa relação, sendo nós que assim o fizemos, assim com o que fazemos, ficamos sozinhos.
 
Ou pensa ainda se não será arrogância perante a própria Vida, pensar-mos que somos nós, superiores a dois, a um dois, que é Um, que o Amor sempre é. Tudo o que se passa contigo me toca, me afecta, me transforma, e o mesmo se passa em seu inverso.
 
E depois como gerir essa ocultação num desejo de encontro que ambos queremos como transparente, luz clara, diáfano, local do desejos, altar de reza e inspiração, local sagrado da vida, perfumes íntimos, transparência, pois era assim o Amor lhe fazia sentido.
 
Não poderia viver ao lado de alguém, como que sombreando partes de si, ou de o outro, pois o Amor é Livre, Quer-se Livre, o Amor permite ao Outro Toda a Liberdade Para Ele Ser, o que vai, sendo, como quando um de nós o faz, enquanto aqui na terra caminha.
 
Porque o Amor é Verdade, o Amor É um Acordo de Verdade, É um Acordo com a Verdade.
 
Gosto de ti pelo que és, inteira, não precisas de tirar nenhuma pequena parte, não tenhas medo, o meu amor é seguro de continuar sempre a gostar de ti, pois o Amor é Eterno, sempre Aqui Está, e eu trago-te em mim para todo o sempre.
 
E não te esqueças que a Amizade e o Amor são leais, só frutificam em verdade com nós mesmos e que nada de jeito se pode construir em não lealdade.
 
E depois dizes-me das boas intenções
E eu digo-te relembrando o que nosso Povo Sabe, de boas intenções está o inferno cheio, pois uma boa intenção que não é concretizada, nada abona em seu próprio favor, não santifica quem não a fez, não lhe dá nenhum maior valor e se a boa intenção, que será a coisa mais certa que há a fazer, não se faz, é porque provavelmente se fez, ou aconteceu, uma menos certa, menos boa.
 
Perguntas-me da transparência, transparência é ser, e como quatro pés não caminham o mesmo corpo, há sempre espaços por natureza privados a acontecer a cada um, se é que podia chamar de privados a esses momentos, pois sempre que caminhava sozinho, nunca estava na realidade sozinho, mas que cada qual tivesse a noção de seu corpo, de seu tamanho e do que o acompanha.
 
Dizia, ser transparente não implica andar com um câmara de vídeo em ligação permanente com um outro, mas implica a verdade na hora do encontro, o não cálculo, a coragem de assim ser, é como dizer, quando aparece o ponto onde a conversa se torna perigosa, em vez de ni nò ni, fecha o castelo a toda força. Aí, aí, ai, dizer e fazer, logo se vê, pois se estou nos braços do Amor, em verdade comigo mesmo, certamente a bom porto aportarei.
 
Não se reduzir, não mentir porque tenho medo que tu não me aceites como eu em verdade sou.
 
Um Amor que começa por ser a nós mesmos, o Amor àquilo que somos, que em cada momento sentimos, que a cada momento trazemos e queremos, o Amor à verdade do que somos, pois só Amamos, em Verdade de nós mesmos e do Amor
 
Age em Verdade, dizia-se o Homem a si mesmo.
 
E contudo foram diversos os amigos que ao longa da vida lhe alertaram que ele abria demasiado o flanco, que assim sendo, revelava muita coisa da sua vida, municiava àqueles que mal intencionados, contra ele poderiam querer agir.
 
E o homem sabia que sim, que o preço era elevado, mas não podia deixar que tais ocorrências lhe impossibilitassem o Amor, o tirassem dos braços do Amor, pois isso seria como não Viver.
 
O homem sabia também que estas coisas, infelizmente, não se passavam só nos espaços íntimos do Amor entre dois Seres na vivência do seu Amor, pois as vira em diferentes níveis da vida, tal como ela se apresentara, nos assuntos, afazeres e negócios dos homens também tal, muito acontecia.
 
Aquilo estava profundamente entranhado na pele dos homens, pulsava nos dias.
 
E o problema era que aquilo, as zonas de sombra, as mentiras e as mentirinhas, se repercutiam por todo o universo, como aliás acontece com todas as coisas e tendiam sempre a um mesmo cansado, repetido, pobre fim, minavam o acordo entre os homens, sobre as sombras e as meias sombras se fundavam as fracas fundações que sustentavam o acordo entre os homens, e então se tornava mais difícil fazer o que havia a ser feito, pois o que está mal fundado, vai, não vai, estatela-se.
 
E que se o Amor era coisa transcendente, a sua vivência na terra era também de carácter muito prático, ter ou não ter disponibilidade para Ele. Implicava tempo, tempo de entrega, tempo e espaço para se entregar.
 
Recordava as vidas de muitos dos seus irmãos, uma imensa maioria, sempre num ufa ufa, correndo de um lado para o outro, sem tempo nem para si mesmos, quanto mais para o outro, metidos em pequenas vidas nas maneiras que escolhemos para viver, sem grandes horizontes, pesadas rotinas e uma imensa solidão que fazia os homens sentirem-se perdidos, sem ânimo.
 
E depois dizia o homem, em seu ver, o que é para estar ocultado ao olhar dos homens, ocultado está, não lhe cabia a ele desempenhar essa ocultação que vinha com a própria coisa, fazia parte da natureza da coisa. E sua intenção era mais seu contrário, servir a Luz.
 
O homem relia o poema acima e sabia que aquilo que ele reflectia se passava em diversos níveis da realidade, por assim dizer, num interno e noutro aparentemente externo.
 
O homem roía a volta daquele núcleo de coisas que lhe aconteceram em terna infância, roía os véus, a madeira das portas, queria de novo entrar nesse local do saber, onde pressupõem que de alguma forma lhe fora dada uma chave de quem era, o que o trazia aqui a este mundo.
 
Oh via dolorosa, porque é que o caminho do Amor é doloroso, composto de vivências de dor, velha questão que sempre o perseguira desde que se recorda menino. Porque a vida, o viver, o aprender não podia ser feito sem sofrimento, pois por um forte lado parecia-lhe a vida toda talhada para a felicidade, mesmo sabendo quão fugaz e volátil, ela se pode tornar nas vezes. Mas podiam as coisas, ser melhores.
 
Emerge então uma imagem intuitiva sobre o aprender, que uma pessoa só aprende quando vive a situação, pois não há nenhuns bons ou mau conselhos e comentários, que substituam a própria experiência, o que não quer dizer que eles não existam, pois o conhecimento das linhas gerais da coisa, podia ser uma boa preparação no mais dos casos, quanto mais não fosse como exercício de manutenção física-intelectual.
 
E então quando tentava definir a sua postura dizia, as pessoas às vezes tem que bater com a cabeça na parede, o que podemos tentar fazer, quando nos encontramos ao perto e se assim decidirmos agir é no último instante, antes do galo, pôr a mão a amortecer, não obstar à queda, que pode ser a mais valia do aprendido, mas de certa forma ampará-la.
 
Ao luar, na praia nu ao mar o homem revive toda a sua vida e percebe que a via do Amor é uma via dolorosa, feita de muitas dores.
 
Porque o Amor é compaixão, capacidade de sentir o outro ao lado, e os passos no caminhar, cruzam-se com muita dor, e então o Amor reclama, se assim se pudesse escrever, pois o Amor nunca o faz, o Amor reclama do Homem a compreensão dessa dor, de uma mesma dor que o homem trás em seu peito, pois sabe o homem da Grande Irmandade que a Vida É.
 
O Amor mais exige, se tal coisa se pudesse escrever sobre a natureza do Amor, pois o Amor não Exige, Ele Se Dá, o Amor exige dos homens que lhe são fiéis, que criem no mundo as condições que frutificam o Amor.
 
Assim o Amor não é distraído com o sofrer, do homem que transporta o coração ou o do outro ao lado, que também transporta um mesmo coração. O Amor não se pode fazer de distraído, pois isso seria o seu contrário, o Amor, quer parar as dores, o Amor pára as dores, o Amor estanca o sofrer e faz a paz, o Amor Ajuda, o Amor dá a mão, o saber o pensar, o Amor Ama e Deixa-se Amar.
 
 
Os homens não são bons nem maus, mas podem actuar de infinitas maneiras entre estes dois extremos. Há sempre uma intenção e vontade que se faz prevalecente em seu agir, essa é a sua natureza, a sua força.
 
O homem que dá a mão ao outro, tem que conhecer-se igual àquele que está a ajudar, o homem que dá a mão, sabe que ajudando outro está também a ajudar-se a si mesmo.
O homem que dá a mão e ajuda a curar, é um homem que espelha em si a vivência do outro, ao outro de forma que ele a possa então entender.
O homem que dá a mão ao outro e que quer curar, tem que padecer muitos sofrimentos e muito sofrer, pois o Amor neste Mundo muito os Homens o fazem sofrer.
O homem que dá a mão ao outro, só pode dar a mão, porque impô-la e já estar fora do domínio do Amor e do Ser Amoroso, que não impõem.
 
Todo o homem que decide aproveitar a vida para fazer a sua grande viajem interior, é elevado, pelo Amor, a Mestre de Si mesmo e do Amor, apreende então os segredos do seu Amor Amado, a sua força e o seu sofrer.
 
 
O homem pode espiritualizar-se, tornar-se melhor homem de acordo com a sua natureza Unitiva, profunda e etérea.
 
Os dois amigos encontraram-se e puseram a escrita muito atrasada em dia. Confessavam mutuamente um sentir sobre cada uma das suas vidas que reconheciam simétrico, diziam-se, de como, para cada um deles a vida parecia muitas vezes funcionar num claro e imediato mecanismo de acção reacção, passível de ser lido, muitas das vezes com lembretes, parecia que existia uma mecânica entre as coisas, uma acção reacção.
 
Toca o telefone, do outro lado da linha, é das rectas curvas?
Não, não é
Que belo nome
Adeus
A Deus
 
Desataram os dois a rir.
 
 
 
 
Oh Meu Amor
Que Partiste
Ao Tempo
Antigo
Partiste
 
 
Oh Meu Amor
Que Partiste
Tu
Nunca
Partiste
Esqueceste

O
Corpo
Que
Morre
Doente
Cansado
 
 
Oh
Meu
Amor
Que
Nunca
Partiste
 
O
Amor
Nunca
Parte
 
 
Estamos
Para
Todo
O
Sempre
Um
No
Outro
 
 
O
Amor
Está
Nos
Corpos
E
Muito
Além
Deles
 
Minha querida, foi porque não te bem amei, que te foste
 
Não, meu querido, sempre me amaste ao teu jeito, da forma que és, amável e amante e menino ainda. Amaste-me o melhor que sabias e não sabias, assim é a vida, não há juízos de valor, julgamentos de amor a fazer, as coisas apresentam-se como são, com o que com elas e delas fazemos. Tudo passa, todas as formas são transitórias, só o Amor é imutável, não há por isso razão de lhe fazer julgados com associação à culpa, pois ele é via sempre aberta, podes fazer balanços, pontos de situação, se achares que isso te é útil, aos teus próprios passos, mas culpa, culpabilizares-te do Amor, não é da sua natureza, pois Amor é sempre larga compreensão do homem, e também do seu errar.
O Amor é muito antigo, conhece desde sempre os corações e as consciências dos homens, o Amor é também humano, assim participou em todos esses mesmos erros vezes sem conta, assim compreende o homem que cai, que erra, dá-lhe mesmo a mão quando o homem assim a deseja.
 
O Amor é integração, compreensão, aceitação, harmonização, paz. Se o Amor é também humano como poderia então, cortar uma parte de si mesmo, como poderia cortar uma perna ao homem onde habita, como se a perna fosse o seu erro, aquilo que o fez errar.
Não, não é esta a via do Amor, o Amor entende e por isso não castiga, e se não castiga se calhar nem mesmo tem de perdoar, pois o castigo reside no homem.
 
Mas que sim, se nas vezes que o homem se castiga si ou a um outro, então o Amor é perdão, transforma-se em perdão para o socorrer. Perdão é mais a consequência do processo que o processo em si. O processo é compreender, compreender o que se passou e o que estava por detrás do agir e isto faz-se por espelho de si mesmo, ou jogo de reflexo com um outro. Só posso compreender uma coisa que me participe, na qual eu participe, toda a experiência humana, tem de alguma forma de me ser perceptível, visto eu próprio ser humano. Quando me compreendo, quando compreendo um outro, estou a conhecer-me melhor a minha própria natureza humana. Perdão é então o resultado onde se pode chegar se assim se quiser, perdão é o que então se faz, tipo uma agua que dissolve um monte de terra dura e ressequida, que permite a paz interior, por integração e harmonização do que antes chocava. Porque enquanto as coisas nos doem no dentro e por dentro, tendemos a andar na vida zangados, assim falhamos mais vezes os constantes encontros de Amor.
 
Perdão, não é acto, processo, pieguinhas e de quem não tem coragem, alguém que não tem pulso firme, ou carácter decidido, pois quem na via do amor e do perdão se aventura, tem que ter mesmo uma vontade decidida. Tem que começar por não pôr no alheio, no outro, as causas da sua insatisfação, o que implica muita e constante vontade e mais, tem que ter a força e o engenho para navegar nas profundezas e nas alturas de si mesmo, pois só assim conhece a sua natureza, só assim conhecendo as peças as pode almejar integrar.
 
Tem que ter muita vontade, algum saber e ajuda para concretizar essa almejada integração.
 
Como se vê são requeridas qualidades de bravoso cavaleiro, nada acto piegas ou coisa de fracos.
 
 
Perdoas -me ter falhado o reencontro
Sim, meu querido, quando os reencontros
Falham, são pelo menos dois que assim os fazem não acontecer
E depois para quê preocupações, se aqui estamos a conversar,
Bem sei que doutra maneira, diferente do que fizemos no passado,
Mas com a possibilidade de exprimirmos
Um ao outro, o que sentimos.
Não há desencontros como coisas externas a nós
Somos nos que os fazemos bem como os encontros
Quando assim, como agora, temos vontade em nos encontrar
E nos encontramos.
E como vês não há perdão, pois não há nada que perdoar
E como vês não há castigo, há consequências
Há vontades é há encontros
Ou desencontros quando os homens trazem seus corações pesados
E as cabeças pensam menos bem, envoltas num qualquer nevoeiro.
 
 
Ainda no outro dia lhe chegara um homem que lhe dissera que gostava de o ler, que algumas coisas lhe davam pistas, menos naqueles escritos em que metia a palavra Amor, duas ou mais vezes numa frase, que aquilo então para ele era lamecha, lamechices.
 
O homem nem lhe respondera em profundidade pois deu-se conta que o outro não o perceberia e estaria a gastar seu latim em vão, pois tudo o que ele lhe escrevia, mesmo aquilo que não metia a palavra Amor, assentava Nele, esperava o homem em seu coração, pois para ele toda a vida era acto de Amor.
Chamar lamechas e lamechices à vida era uma forma de a ver, que ele respeitava como outra qualquer, mas decididamente não era a sua.
 
E contudo aquele homem cruzara-se consigo já algumas vezes, precisara de duas conversas para perceber qual era a questão de que falavam no emaranhado, que a coisa ao princípio parecera ser. A questão era, se era ou não preciso, necessária, uma certa agressividade para se obter o que se quer na vida. Era um homem que estava seduzido por uma ideia de paz, mas trazia ainda dentro de si a dúvida, se não seria mesmo necessário manter um certo grau de guerra, por assim escrever.
 
E nos seus encontros a conversar, a vida como de costume fora pródiga a encená-lo, pois foram distintos os episódios e as interacções que disso lhe deram conta aos seus olhares, numa curiosa simbiose entre o que se busca, o que se troca conversando e o que se manifesta.  
  
E o mesmo, essa simbiose, o Amor,  que revela o que está sempre Unido, que aumenta infinitamente o Homem, passava-se em todos os planos em que considera-se a Vida,  o Viver, o Vivo.