terça-feira, agosto 31, 2004

alterações no último texto
O dilema que os franceses vivem, não é só um dilema francês

Os franceses decidiram criar uma lei que proíbe um costume de um grupo de pessoas de origens distintas da França, mas que lá habitam.

Penso no que terá motivado a criação desta lei e parece-me que ela será entre outros factores, consequência do medo e da desconfiança que se vive face aos povos que praticam estes costumes que são diferentes, pois vivemos tempos de medo individual e colectivo de grande consistência e de expressão quotidiana através do terror que hoje se expressa no mundo.

Não será difícil de pensar que o facto de não se ver um rosto, que anda tapado, poderá na óptica da cultura ocidental, habituada à leitura e ao conhecimento do ser através da visão de seu rosto, que o facto de ele se encontrar tapado, agrave o medo e a consequente paranóia.

O nosso imaginário associa também rostos tapados, às imagens de máscaras, tipo passa montanhas e similares, a actos menos próprios, assaltos a bancos, tropas especiais, coisas secretas, actos de terror nos filmes de acção e violência.

Rosto tapado, gestos suspeitos, costumes e hábitos diferentes, tornam-se hoje muito facilmente coisas suspeitas, e a história da humanidade está pejada de inocentes que foram espezinhados e mortos por multidões que assim os decidiram ver ou assim foram levados a ver.

Recordo ainda, que quando do aparecimento publico do caso Casa Pia, de sentir no dia a dia em Lisboa, uma mudança nos gestos e expressões de carinho entre os adultos e crianças. Felizmente passou, para bem de ambos.

Quem não terá pensado em seu íntimo, no quente daquelas primeiras notícias, se seus gestos habituais, expressão de carinhos e ternura não poderiam a vir ser mal interpretados, pois a desconfiança veio tambem com o conhecimento do caso. Como o escrevi na altura, quem primeiro sofreu foram as crianças, a eles naturalmente habituadas, e como comprovei por observação, seus sentires, eram ao tempo intrigados, como quem se perguntava, o que se teria passado no mundo dos adultos, para que tal acontecesse.

Depois penso, onde se encontrarão os limites do direito que tem um indivíduo, um grupo, um país, mesmo quando não concorde ou não aceite esses ou outros costumes, de o impor sobre outros, quando esses outros habitam seus países, são seus vizinhos, muitos deles já franceses.

Recordo-me de outros tempos de terror que antecederam grandes guerras e de como me parece ser constante, nessas alturas, a tendência para obrigar determinados grupos a mudar seus comportamentos e as consequências de tal fazer.

Estrelas pintadas nas portas de suas casas, fachadas, janelas, antes e depois em crescendo, a argumentação da sua superioridade como raça, a sua maior pureza, género, as suas mais certas e correctas ideias, comportamentos ou costumes, a sua diabolização e os funestos desenlaces de tais práticas.

Depois penso que as leis que os homens acordam entre si, são para cumprir, que alguns decidem ou a isso são levados, a não as cumprir, como o que rouba de faca na mão, para alimentar um filho que doutra forma não tem de comer, ou aquele que assalta sentado em sua secretária, sem necessidade, para acumular riquezas pela riqueza, pensando que assim atravessará a vida mais protegido, que a gozará melhor que uns outros, ou que quando daqui se for, lhes serão úteis, ou ainda, porque a sua descendência assim ficará mais protegida para o futuro.

Hoje, perguntava a um homem, se as crianças e os adultos que estavam feridos se encontravam melhor, e se já se sabia o que tinha originado o acidente de ontem com o autocarro.

Disse-me ele, que o carro que ia à frente, tinha perdido a sua carga, ou por ignorância, porque ia mal acondicionada, era volume ou peso a mais, oferecia demasiada resistência aerodinâmica.

Parece que tinha sido o próprio suporte, a grade do tejadilho a se soltar ou partir, talvez por peso a mais, ou por a carga ir mal acondicionada, e que depois disso se aperceber, o condutor teria parado para tentar remediar a situação e passado pouco tempo deu-se o acidente onde ele também faleceu.

Terminou acrescentando em tom rápido que … era marroquino o condutor do carro, e eu a sentir naquele tom final, algo como quem dizia, é ignorância, na melhor das interpretações ou um qualquer laivo de superioridade e desprezo na pior.

O que faz partir um suporte de metal num determinado momento do tempo em que um autocarro se aproxima, mesmo quando uma carga é correctamente transportada?

Há coisas que os homens podem prever e outras não, há coisas que os homens podem fazer e outras não.

Podem os homens saber da durabilidade média dos materiais e do tempo de sua fadiga e assim encontrarem sábias formas de fazer a sua manutenção ou mudança de forma a diminuir o risco do acidente acontecer.

Mas se um homem pode perceber a chegada da tempestade, não pode prever onde cai o raio, e por isso inventou os para-raios para sua proteger. E não há dinheiro nenhum que possa impedir um raio de cair em cima da pessoa que o transporta.

Uma minoria cuja cultura leva as mulheres a usar véu na cara, habita num país onde uma grande maioria o decidiu proibir.

Depois penso que a democracia se baseia na opinião maioritária e que há muitas regras que muitas minorias não gostam, mas que as suportam e as cumprem, porque é a lei arranjada entre os homens, mesmo quando decidem actuar para as mudar.

Em França, a questão assume contornos de diferenciação entre duas culturas e raças distintas numa mesma casa.

Se pensar que um país é uma casa grande, que por sua vez é composta por pequeninas casas posso chegar à minha casa individual, aquela onde habito. Imagino que lá dentro habita noutro quarto um homem de outra raça com outros costumes.

Direi então para o homem a meu lado, que a casa é minha porque a herdei e que ele é um convidado, que não aceito mais seu hábito e que ele tem de mudar se quer continuar a viver dentro da minha casa, ou poderia dizer-lhe para sair da minha casa.

E contudo ele não é um convidado. Na Europa, está integrado, é célula criativa, produtiva, reprodutora, é contribuinte e na mais das vezes, vive em piores condições globais que os naturais dos países que os acolhem

Também em meu ver, só há diferenças de raça no plano das características físicas, da cor da pele, da forma dos olhos, mas não do olhar, do bater do mesmo coração, de um mesmo sangue, de uma mesma forma de respirar, uma mesma forma humana.

A vida humana, o homem, é por assim dizer, uma raça composta, a da vida, a da terra, a dos nossos irmãos animais e depois existem homens que se vêem iguais, que se querem tratar como iguais em respeito mútuo e em paz, em ajuda e no ajudar

Aparece-me a imagem da tolerância da vida, ou do amor da vida como um elástico à volta de dois dedos. Cada dedo está assim ligado por ele, se aproximar os dedos, o elástico deixa de fazer força sobre cada um e assim cada qual pode-se mover livremente dentro de seu próprio espaço e de acordo com sua vontade.

Se começar a abrir os dedos, eles começam a ficar imobilizados na tensão do elástico e se os continuar a afastar, pode-se até quebrar, quebrando aquilo que os unia.

No outro lado do mesmo mundo, homens armados, mantêm em cativeiro e na eminência de uma execução, dois homens de um outro país, de uma outra cultura e condicionam a sua execução à mudança da lei no pais dos cativos.

A vida é sagrada, deve ser nutrida e não destruída.

E este é um novo mundo, onde um grupo, um pequeno grupo, pode desta forma questionar um país e a todos nós no mundo, num mesmo momento do tempo. Foram já diversos os países que assim foram confrontados com distintas mas semelhantes questões, como o retirar de exércitos ou participações em guerras e ocupações.

Assim, este mundo novo, obriga-nos, a pensar seriamente nas causas do terror, e sobretudo acabar com elas.

As guerras fazem a morte e a miséria, a ignorância leva à guerra, a ambição desmedida, a ganância, fazem a guerra, a miséria leva à guerra, a falta de liberdade dos homens
leva à guerra, a discriminação leva à guerra, o rancor e ódio leva à guerra

São também tempos, que aconselham a não esticar muito o elástico na convivência entre os homens.

O medo é mau conselheiro, diz nosso povo, das acções também, mas são tempos de medo e é preciso aprender melhor, como com eles, lidar. Maior conhecimento do outro versus o anátema, maior proximidade, mais integração, maior tolerância entre os homens, uma vontade de amor e da paz que ele tambem é, e alcança, e assim faz frutificar a vida.

E talvez um dia quem sabe, os homens possam prever onde caem os raios e ter dessa forma tempo de lá saírem.

Que os que estão feridos recuperem e os que estão de boa saúde a mantenham, assim fico a desejar.