sábado, setembro 04, 2004

Fim de tarde, ontem, em Lisboa

O céu está triste, as nuvens apresentam-se carregadas de tristeza e perplexidades, um secreto murmúrio que se transforma num lamento ao dar conta, que o que mais preservamos, mesmos nos locais onde os deixamos em protecção para aprender, não são mais, sagrados.

Crianças nuas ensanguentadas ziguezagueando correndo sobre ruído de metralha. Lista de mortos e feridos manuscritas em paredes, ali ao lado, no mesmo mundo, os olhos de todas as mães e de todos os pais do mundo, suspensos ao tremendo passar das horas. A serena festa da mãe ao filho falecido na fila das macas, limite da dor anestesiada, do profundo pavor, do profundo terror, como quem lhe compõem a roupa lençol no dormir. Nudez da carne, ausência de espírito, do belo sorrir, do belo brincar, do mundo da inocência, da promessa de inocência, do mundo da promessa de um mundo melhor, que todos pais sonham para seus filhos.

Tinha sido prometida a não utilização da força por parte do governo, mas ao que parece o acaso ou a versão dos factos apresentada, faz crer que uma casualidade, uma bomba que escorregou, arrebentou e que tal acontecer, deu azo ao confronto, onde muitas crianças e jovens foram mortos. Depois aplica-se a regra mais uma vez enunciada porque infelizmente já comprovada, de que quando as coisas correm para o torto, 10% de mortos não é um mau resultado, lotaria improvável de algum escolher, de ser ou não ser uma vítima, um dos que ficaram mortos, pelo caminho da violência, mas salvaram-se 90%.

Uma situação que chega à iminência do confronto, basta às vezes um facto imprevisível, como uma granada que arrebenta sem ser por crer de quem a transportava. Situações quentes, rastilhos curtos e contudo estavam a correr negociações. Vejo nos telejornais os analistas, recordar que provavelmente do grupo de raptores, homens e mulheres, não restará nenhum, como no teatro onde os que sobreviveram foram executados sumariamente com uma bala na cabeça.

Contudo, houve uma excepção ao teatro, pelo menos um dos raptores foi linchado pelos pais que o apanharam.

No meu Pais, mesmo nas prisões, onde se encontram os fora da lei, os assassinos e os ladrões, ou aqueles, que assim decidimos julgar, existe um código de honra com uma regra só, estão perdidos os que aí chegam por abuso de crianças, ninguém lhes perdoa, fazem-lhe a vida negra.

As crianças são o sagrado do sagrado humano, quem colhe as flores, promessas de amanhã, imagem da própria vida no seu eterno renovar, a vida a viver, anelando por si mesma, amparada na alegria dos pais e dos, que as amam. Como não se pode amar a vida?

Crianças, inocência profundamente maculada daquela menina, anjo branco de cabelos doirados, seus olhos negros, como, que tinham ido para o fundo do rosto, como que, se tinham retraído da vida. Olhos negros assustados, e uma interrogação, que mundo é este, o que se passa aqui, na compreensão de sua pequena idade.

Os pais protegem a vida dos filhos e quando a dor que sentem a quem faz mal é imensa, vira ódio, vida que ceifou vida e que é ceifada às suas próprias mãos, ao arrepio das leis que julgam os homens e seus actos. De ambos os lados se dá por vezes o mesmo passo, o de quebrar a própria lei, e se quebra a lei, de que toda a vida é sagrada, para frutificar, não para destruir.

Foi atingido um ponto central do coração, o que mais se valoriza, numa escola, num local de aprender, no local onde deixamos as nossas crianças, numa cidade ali ao fundo, porque hoje foi ali ao fundo, mas mesmo em cima dos que lá vivem.

Hoje correram pelo mundo, imagens maioritariamente captadas de longe, como se assim se pudesse afastar, uma coisa que se deu ao perto. Ontem, já nem sei se foi ontem, pois são tantas, umas atrás das outras, só muda no número de mortos, mortos de todos os feitios, de todas as maneiras, inteiros, um pedaço de mão, ou a menina de compridos cabelos pretos, debruçada com os braços e cabeça pendentes de fora do autocarro, pedido ou gesto de inútil escapatória, estava morta, teria no máximo quatorze, quinze anos e expressava a impotência do efectivo ajudar, do parar desta mortandade quase ininterrupta, que se vê, a espalhar-se pelo mundo, em crescendo, nos últimos tempos.

Hoje há guerras localizadas e guerras globais e as guerras locais tornam-se e fazem-se globalmente. O homem fabricou um imenso arsenal ao longo dos séculos, o homem possui um conjunto de ideias e práticas sobre o dinheiro, sua circulação, valores e conceitos de sua utilização, que facilita, como nunca antes na terra facilitou, a sua traficância, aquisição e todo um manancial de outras trafulhices e um quase ilimitado potencial.

O homem tem mais saber, sabe hoje com mais facilidade, o que antes era reservado a poucos, como por exemplo fazer uma bomba, criar um vírus, um pequeno engenho nuclear, com quase cursos em vídeo de formação à distância, de homens e mulheres, que optaram pelo terror e pela morte, por o matar e o morrer.

Como relembrava um amigo, porque certamente é amigo quem o relembra, se depois de pensares, chegares à conclusão que existe uma guerra, então será melhor começar a pensar a sério de que lado se está, pois dizia ele, não se pode estar de dois lados, embora se possa ficar no meio a vê-la, ou ainda levar com ela em cima, a bomba, se for esse, o acontecer.


Eu sou um homem que quero a paz em vez do conflito, sou um homem que acredita de forma radical, que as guerras de todo o terror, tem a ver com a miséria e a ignorância, e por outro lado, defendo a vida, assim me coloco, e por essa razão de amor ao que me permite o amor, por aqui me trazer e assim fazer andando nos braços da vida, não opto pela violência mas sim pela paz, e pelo respeito que a vida é sagrada, para frutificar, não para destruir e no sentido da sua frutificação, actuo e actuarei.

Se defendo a vida, não posso também concordar, com uma ideia de olho por olho, dente por dente o seu sempre triste balanço em sangue, em novo e contínuo terror, cadeia de elos que pelo ódio se ligam, uma tremenda força, nem também posso deixar morrer os outros, não posso deixar que os matem, se a tal poder obstar, como não posso deixar de ajudar quem em meu cruzar de passos me a peça, ou mesmo quando sou eu, a vê-la necessária.

Já o escrevi, que em meu ver, os pedidos das organizações que praticam tais actos, devem ser levadas muito a sério, pois a realidade continua assim a prová-lo.

Depois penso que a estratégia para vencer esta guerra, passa pela eliminação das suas causas, pois esta é muitas vezes, uma forma de as guerras acabarem, e que caso concordes, que vivemos uma guerra, podemos recordar que em seus tempos, é pedido aos homens sacrifícios maiores, aumentos de produção, antes de armas e munições, agora antes de mais de alimentos para acabar com fome onde ela existe, mais dinheiro para dar os cuidados de saúde a quem não os tem, a educação, a autonomia do ser em liberdade.

Ajudar ao encontro, aquilo que está desencontrado entre os homens, mediar, negociar e acordar.

Fazem-se planos em tempo de guerra, com a noção do tempo apertado que as guerras sempre trazem, relógio acelerado pelas mortes, pelo peso do sangue que se derrama, rio de dor que acumula, acumula e por todos se espalha.

Nesta guerra, só uns podem vencê-la, os mais ricos, que hoje tem a dificuldade e a tarefa mais difícil por se viverem transições dos modelos produtivos e pelas ideias e práticas que associamos ao dinheiro e ao capital.

Também por isto é uma guerra difícil, mais uma dificuldade a acrescer, mas talvez se a víssemos como guerra, e mais, que concordássemos claramente, de acordo acordado, e consequente acção, porque por muitos assim sentido, sobre as causas, e visto as coisas se estarem a passar deste jeito, talvez fosse então de definir estratégias no espaço da próxima colheita, colheita e meia.

Pois se calhar será necessário inverter o modelo produtivo que temos e se calhar também mudar algumas coisas na forma de tratar o dinheiro, a economia e as formas e onde, o gastamos.

A Europa evoluiu recentemente face às novas circunstâncias da ideia de que casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, para uma primeira ideia, no sentido de antes dessa, mas com ela dependente, que é, se não houver o necessário, acima dos limites mínimos, nem casa há mais, não.

Que tal, não obste à procura do rigor na despesa pública, seu transparente controlo, a um melhor gastar, a um menor desperdiçar, a um mais inteligente, porque reprodutor gastar. Mas provavelmente a coisa terá que ser elevada a níveis maiores de pensamento e acção do que os deficits internos das partes. E na justiça das contribuições.


O céu plúmbeo, com pequenas nesgas azuis e doiradas, chora de vez em quando, chuva curta que não dissolve tanta dor, que não leva nem lava a imensa dor do mundo. Parece que o copo se encontra cheio e são pequenos transbordares, enche por uma gota e entorna. Copos cheios, que as vezes deixam de transbordar, mas que se entornam, tempos complicados a que os homens chamaram dilúvios, grandes tempestades. Tempo para andar vigilantes e com cuidado, são os votos que aqui vos faço e deixo.


Fim de tarde, regresso a casa ao encontro do jantar da família.

Recortado contra o céu plúmbeo um risco branco que pisca. Observo que é um avião, mas é como se ele estivesse parado, não se percebendo se subia se descia, como que perfeitamente alinhado com meu eixo de o ver. A trovoada de verão fez aparecer uma bateria de relâmpagos que brilhou em riscos vários que se entrecruzavam para a terra.

Depois o céu que avermelhado se punha a volta e colado ao horizonte, em seu tempo habitual, eis que se estendeu espalhando um rubro vermelho que enche todo céu.
Subo a avenida e a leste, aparece um risco vertical, olho a confirmar o arco-íris mas é só um traço vermelho que se destaca na paisagem toda vermelha do céu.

Se esta é uma guerra diferente das que o homem conheceu até agora, suas formas de combater, suas estratégias para a vencer, terão que ser também diferentes.

O cenário, não é mais de um exército que ocupa ou tenta ocupar um outro pais, se bem que uma guerra desta natureza, não deixa de ter impacto nos eventos, mas a guerra de hoje, é de guerrilha dentro das cidades, afecta e mata quem lá vive, não só mais só exércitos de seus países como antes, que é bom recordar, são constituídos por filhos desses mesmos países, alguns dos quais morrem.

Justiça pelas próprias mãos, como acção ou resposta, é a falência das regras que asseguram a paz entre os homens. Não será difícil então pensar como cenário, que um aumento de situações desta natureza, bem como as dificuldades económicas globais, e o terror, cuja tradução é medo, crie um sistema fortemente instável se não sobraçante.

Num mundo onde o fosso entre ricos e pobres se agrava no passar dos dias, onde não será muito difícil pensar que todo tenderá a se extremar e se calhar a partir.

Numa casa comum, a terra, ser vivo como nós, nossa mãe, que nos dá a possibilidade existir, e que nos como paga fazemos como a um ovo esvaziado ao chupar e chupar pela palhinha, até ficar vazio, que fica só casca, fraquinha, pronta a estalar se lhe aplicarmos pressão.

Depois chego a casa, disfarço o mais possível a tristeza, para que meu filho com quem vou jogar à bola, não sentir.

Quando do telejornal e tentando ver as noticias, de repente todos os adultos conferenciarem quase sem nada se dizerem, num clima de segredo, para que o menino não se apercebesse do que se passara. Tácito acordo, de esconder a sombra que alastra e insinua por todos os lados, pequena mão protectora dos adultos, na ânsia da protecção do que parece impossível de proteger, porque parece não acabar, vai até aumentando.

Violência e morte que entra no dia a dia pelas pessoas dentro, murros nos corações, medo, muro no coração, consciências pesadas, e as crianças também, num mundo onde se lhes dá horas massivas e diárias de violência pelas televisões, suas séries e modelos de comportamentos e valores veiculados, como se já não bastasse a que no real existe.

Olho o mundo no céu plúmbeo da minha cidade, e observo como a informação incorrecta, mentira, a ignorância, contribuem com grandes quotas no estado das coisas de agora, como os homens reagem a estes acontecimentos, o que dizem.

Solidariedade na dor, ou raiva castigadora?
Entendimento da dor, ou rega da dor?
Resolução da dor, ou vingança?
Forja-se o elo seguinte da cadeia da dor, ou quebra-se a corrente?
Compreensão, integração, harmonização, ou intolerância?

O que é que cada um expressa primeiro em seu dizer?
Quais vão em seus corações, em seus passos, em seu agir?

vamos lá dar as mãos e ajudar, ajudando.